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Boletim Especial

No documento O Conclave - Malachi Martin (páginas 107-112)

COMO SE DISPÕEM OS VOTOS, NAS VÉSPERAS DO CONCLA VE 82 A partir do final do outono de 1977, parece haver uma nítida maioria de Cardeais-Eleitores favorável ao que veio a ser conhecido como a Política Ge­ ral. Isso, em essência, parece ser mais ou menos idêntico à posição dos conser­ vadores — requer um Papa italiano, mas não pertencente à Cúria, que venha a admitir mudanças graduais na Igreja.

Dos 118 Cardeais-Eleitores, há 28 italianos, 31 europeus, 18 latino-ameri- canos, 14 norte-americanos, 10 africanos, 12 asiáticos e 5 da Oceânia. Em ida­ de, vão dos 49 (Ribeiro, de Portugal; Sin, de Manilha) aos 79 anos (Shehan, de Baltimore; Violardo, de Roma). Há 22 na casa dos cinqüenta; mais de dois terços estão entre 63 e 75. Se o Conclave 82 não for realizado antes de de­ zembro de 1978, dois - Shehan e Violardo - serão inelegíveis.

O Conclave 82 promete ser tumultuado por muitas razões. Os Cardeais dos Estados Unidos, pela primeira vez na história, irão fazer uso de seu peso. Há - e pela primeira vez na história — uma minoria de Cardeais italianos. Qualquer outra coisa a parte, algumas personalidades muito poderosas e de opiniões opostas participarão do Conclave, cada uma delas exercitando pode­ rosos dotes e comandando fortes seguidores.

Luigi Ciappi, o florentino de 69 anos, passou a maior parte da vida dedica­ do a estudos teológicos e á direção espiritual das almas. Na verdade, todo mundo sabe que ele é, antes de qualquer coisa, um teólogo, um confessor, um dos últimos e verdadeiros “mentores espirituais” dos velhos tempos. Todos confiam nele. Membro da Ordem Dominicana, antigo deão da faculdade de teologia da Pontifícia Universidade Angélica de Roma, feito cardeal somente em 1977, o 85? sacerdote dominicano, desde 1213, a ser nomeado Mestre do

Santo Palácio — o teólogo do Papa — Ciappi é também o conselheiro espiri­ tual do Papa Paulo VI, assessor da Secretaria de Estado de Viliot e da toda-po- derosa Congregação da Fé. Ciappi é sempre ascético, calmo no comportamen­ to, prudente nas palavras.

O candidato favorito dos tradicionalistas é Pericle Felici. De 65 anos de idade, homem que fez carreira no Vaticano, Felici fez seu nome como Secre- tário-Geral durante o II Concílio Vaticano. A maioria das pessoas tem medo de Felici e somente alguns de fato gostam dele. Não que não seja pessoa de quem se possa gostar. Mas Felici é o mais velho e o mais experiente elemen­ to do Vaticano em matéria relacionada com os encontros internacionais de bispos e cardeais. Como Secretário do II Concílio Vaticano, nas garras de uma coligação de bispos altamente organizada, inteligentemente desdobrada e sem­ pre inescrupulosamente liberal, Felici quase conseguiu ser mais esperto do que o grupo todo. Não completamente! Mas quase. Sabe manobrar “a refinada mão romana” , como diz o ditado. Tem muitos “amigos” . É todo cetim, não há sinal de aço, todo sibilantes e nenhuma gutural, todo paz e esperança, na­ da de guerra, nada de desespero. Mesmo quando perde, Felici raramente deixa de ter equilíbrio em seu julgamento. Se a idéia de um Papa tradicionalista pa­ ra sucessor de Paulo VI for seriamente considerada, o primeiro papabile será Felici.

Os conservadores reivindicam para si próprios uma posição vanguardeira: uma mudança cuidadosa e gradual, para que haja adaptação às modificações da sociedade moderna, um tipo qualquer de freio para a balbúrdia de mudan­ ças que o Papa Paulo VI permitiu e impôs. O principal papabile conservador é o Cardeal Sergio Pignedoli, com dois correndo em segundo lugar, os Cardeais Paolo Bertoli e Sebastiano Baggio.

Sergio Pignedoli, de 68 anos, que fez carreira no Vaticano, é Cardeal des­ de 1973. Antigo Capelão da Marinha na segunda guerra mundial, Delegado Apostólico na África e no Canadá, atualmente Prefeito do Secretariado Vati­ cano para as Relações com os Não-cristãos, Pignedoli é poliglota, muito viaja­ do, profundo conhecedor de líderes muçulmanos, budistas e hindus. Ê consi­ derado inaceitável pela coligação tradicionalista — acham-no muito interessa­ do em granjear popularidade, demasiadamente disposto a entrar em acordo com não-católicos. Os progressistas não gostam dele porque não fará mudan­ ças tão rápida ou furiosamente quanto consideram bastante. Mas Pignedoli já deixou que todo mundo ficasse sabendo que podem ser feitos “ajustamen­ tos”, para suficiente acomodação de tradicionalistas e progressistas, de modo que se possa conseguir um entendimento que funcione, no contexto do arca­ bouço conservador. Enquanto isso, ele próprio está mais do que disposto a ser eleito Papa. E tem sido o papabile favorito de Paulo VI.

O Cardeal Paolo Bertoli, de 70 anos, é um enigma para a maior parte dos romanos e inteiramente desconhecido da maioria dos Cardeais estrangeiros. Homem que fez carreira no Vaticano, antigo Núncio Apostólico em Paris,

cardeal aos 61 anos de idade, Bertoli só é realmente conhecido por sua abso­ luta capacidade de decisão. Certa vez, quando um empregado preferido de seu gabinete no Vaticano foi substituído por outro que não era de sua esco­ lha, Bertoli simplesmente bateu a porta e abandonou imediatamente o cargo de chefe de um poderoso ministério do Vaticano. No momento, ele detém vá­ rios postos importantes na Cúria e é imprevisível como candidato a Papa. Pou­ ca gente sabe que Paolo Bertoli é um estudioso apaixonado de religião e de misticismo; que goza da confiança de estadistas em ambos os lados do Atlânti­ co — e não liga a mínima importância ao que as pessoas possam pensar.

Um concorrente conservador de muito menores chances é Baggio, de 64 anos. Antigo Núncio Apostólico no Chile e no Brasil, antigo Delegado Apos­ tólico no Canadá e antigo Arcebispo da Sardenha, Baggio é agora o chefe do poderoso órgão do Vaticano que é a Congregação dos Bispos. Atarracado, de rosto quadrado, encantador, sagaz, o veneziano Baggio tem um conhecimento incomparável dos bispos da Igreja, porque cada bispo tem que fazer uma visi­ ta a Roma de cinco em cinco anos, e cada um deles tem que passar pelo gabi­ nete de Baggio. Tem, também, amplo conhecimento da América Latina e de seus problemas. Baggio não goza da confiança dos tradicionalistas, como teó­ logo tem fraca reputação e, provavelmente, daria prosseguimento às políti­ cas de Paulo VI.

A maioria presentemente atuante por trás de Pignedoli como o conser­ vador de maiores possibilidades é de fato formidável e, pela altura do outono de 1977, chega a exceder a maioria de dois terços mais um necessária para dar validade à eleição de um Papa em Conclave. Mas, tal maioria não é atingida de uma forma simples e direta, porque, entre si, os Cardeais-Eleitores estão divi­ didos em quatro grupos principais, nenhum deles comandando a maioria ne­ cessária. Os conservadores poderiam conseguir a garantia de uma real maioria no outono de 1977, com base em acordos previstos e sujeitos a muita discus­ são.

Independentemente de qualquer entendimento e de alianças objetivas, os tradicionalistas são em número de cinqüenta, muito aquém da maioria dos dois terços mais um.

Os conservadores, entre si, não estão em situação melhor; com apenas trinta e cinco votos de fato garantidos, também não dispõem de maioria deci­ siva.

Os demais Eleitores estão divididos entre vinte e seis progressistas e sete radicais. Portanto, esquematizando, as coligações são:

Tradicionalistas 50 Conservadores 35 Progressistas 26 Radicais 7 118 109

O catalisador para essa situação que não conduz à vitória é a sempre cres­ cente pressão dos bispos católicos romanos progressistas, na Europa, na Amé­ rica Latina e, em menor proporção, nos Estados Unidos. Há a possibilidade de uma aliança entre conservadores e progressistas, dando uma maioria simples de 61. Nas idas e vindas das manobras eleitorais do Conclave, seria relativa­ mente fácil a uma maioria simples de 61 arrebanhar os dezoito votos restan­ tes, exigidos para a maioria de dois terços mais um.

Para eliminar essa possibilidade, os tradicionalistas (50) estariam dispos­ tos a fazer um acordo com os conservadores (35), desse modo produzindo mais do que a maioria absoluta necessária para a eleição. O ponto principal sobre que os tradicionalistas se dispõem a entrar em acordo é o do caráter eclesiástico do Papa seguinte — deveria ser um italiano, mas não um homem da Cúria (isto é, não ser membro de qualquer Ministério Vaticano), nem um romano (isto é, não deveria ser pró-Cúria em suas simpatias).

Se necessário, os conservadores consentirão em apoiar um europeu não- italiano — o chamado papabile pan-europeu. Um candidato assim dividiria os progressistas, reduzindo-lhes o número a, pelo menos, metade de seu efetivo atual. Só em caso de extrema dificuldade e do perigo real de ver o Conclave descambar violentamente para a esquerda, é que os tradicionalistas apoiarão um candidato pan-europeu.

O mais provável candidato pan-europeu é um holandês, o Cardeal Jan Willebrands. Tem 69 anos, o rosto redondo, usa óculos, esse holandês meio calvo, que goza da confiança de tradicionalistas, de progressistas, de conser­ vadores e de radicais — principalmente porque não ofende nenhum deles. Pode ser uma garantia para a ortodoxia progressista, ao mesmo tempo que um pai tolerante face à experimentação de arrojadas idéias progressistas. Durante quinze anos, chefiou o centro de ecumenismo do Vaticano, o Secretariado pa­ ra a Unidade Cristã. Cardeal já há nove anos, nomeado Primaz da Holanda em 1976, tem sido apelidado de “Holandês Voador” . Ainda atua no centro de ecumenismo de Roma, enquanto viaja para exercer as funções de Primaz da Holanda. Willebrands tem-se equilibrado com delicadeza entre as funções que lhe cabem como Primaz da Igreja da Holanda, que se mantém praticamente em cisma com Roma, e as de elemento do Vaticano, gozando da confiança do Papa Paulo e de muitos progressistas italianos.

Surgindo mais e mais freqüentemente nas conversações como um possí­ vel azar na corrida, há Giovanni Benelli. Apelidado por seus inimigos como “Gauleiter” , “Cossaco” , “IlD uce'\ “Carrasco”, Benelli foi extremamente po­ deroso como Subsecretário de Estado, sob Villot, e destruiu mais de um ni­ nho de proteção política, de empreguismo, de favoritismo, na burocracia do Vaticano. Foi Benelli o responsável pela remoção de Monsenhor Bugnini, em certo tempo a mão forte do Vaticano nos assuntos referentes a liturgia e a culto. Mesmo então, os amigos de Bugnini eram tão poderosos e os inimigos de Benelli tão fortes que o Papa Paulo não pôde fazer nada pior contra Bugni- 110

ni do que o mandar como Delegado Apostólico para a Teerã do Xá, um posto de escol na lista diplomática. Mas, pelo menos, foi ele alijado dc qualquer po­ sição importante no Vaticano.

Esse episódio veio a ser o começo da queda de Benelli. Vulnerável como sabidamente simpatizante do Arcebispo Lefebvre, em oposição a Villot, e vulnerável como sendo aquele que derrubara Bugnini, como um simples Arce­ bispo e auxiliar do Vaticano Benelli finalmente tornou-se a presa de seus per­ sistentes e poderosos inimigos. Não havia maneira pela qual mesmo o Papa fosse capaz de proteger a posição dele em Roma. Na verdade, somente a ação inesperada e unilateral do Papa impediu Benelli de ser exilado e neutralizado definitivamente. Paulo fez dele Cardeal e Arcebispo de Florença. O Papa con­ cluiu que Benelli ainda teria uma oportunidade de voltar. Estava perto de Ro­ ma, e teria um voto no Conclave. “É claro que Benelli verá seu dia chegar”, disse Paulo a Villot.

Por instigação de Paulo, Benelli pôs-se em campo para reavivar a idéia de uma Europa unificada. O sucesso nesse esforço poderá ser o último marco que Benelli vencerá em seu caminho até o Pontificado.

A formação das coligações progressista e radical é de data tão recente que nenhum dos Cardeais-Eleitores se destacou ainda como líder dos progres­ sistas, ou dos radicais. As informações que correm em Roma parecem indicar que um “azarão” é o principal organizador, tanto de progressistas como de ra­ dicais. Embora ninguém tenha certeza, o nome de um Eleitor africano é men­ cionado como sendo o líder progressista, ao mesmo tempo em que o de um Cardeal anglo-saxão é referido como o do verdadeiro organizador dos radicais.

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