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O Conclave - Malachi Martin

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Academic year: 2021

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O m anto d e se g re d o q u e tem a c o b e r­ tad o a Igreja Romana mistifica e p ertu rb a milhões d e católicos, assim co m o p ro te s ­ tantes e judeus. Este corajoso livro d e Malachi Martin revela com o influentes personalidades da Isreja Católica e stão disp o stas a fazer a aco m o d ação com o com unism o, O p re ç o da sobrevivência da Isreja, se g u n d o uma dessas c o rren ­ tes, d e v e ser o radical afastam ento das instituições ocidentais e da forma d e vi­ da vigente em nossa sociedade. A essa linha d e p e n sam en to o p õ em -se outras im portantes autoridades, q u e advogam a restauração d a Igreja em sua a d e q u a ­ do posição. A d ecisão finat, to m ad a p o r todos esses hom ens, q u e falam em no­ me da quarta p arte d a p o p u la ção m un­ dial, surge no d eco rrer d o Conclave 82, no qual é eleito o novo Papa.

Desde o c o m e ç o d o s anos 70 q u e mui­ tos Cardeais vêm p ro m o v en d o m ano­ bras eleitorais e, em O Conclave, Malachi Martin nos p õ e nos bastidores, o n d e se trava a luta — q u e nada tem d e santa — para a conquista da coroa d e Pedro e d o p o d e r terren o d e seu reinado. Ficamos s a b e n d o p o rq u e é q u e as violentas mu­ danças ocorridas so b Paulo VI, d eterm i­ nadas — disso estava ele co n v en cid o — para garantir a própria sobrevivência da Igreja, impeliram os Cardeais a uma d as d ecisõ es mais graves d e nossa história.

Nesta batalha surda, travada nas so m ­ bras e na a p are n te calma d o Vaticano, p o d em o s observ ar os negociadores, os hom ens santos, os politiqueiros, as cíni­ cas alianças, e n q u an to as várias facções procuram ganhar o controle d a situação.

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Malachi Martin

Toda a verdade, lendas e intrigas sobre o que se passa nos bastidores de uma eleição papal.

Tradução Mary Cardoso

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Título original norte-americano: THE FINAL CONCLAVE

Copyright © 1978 by Malachi Martin

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida ou transmitida de alguma forma ou por qualquer meio sem o consentimento prévio e por escrito do proprietário, representado por seu Agente Carmen Balcells Agência literária, Diagonal, 580, Barcelona 11, Espanha

Este livro foi publicado pela primeira vez nos Estados Unidos por Stein and Day/Publishers

Tradução Mary Cardoso Capa

desenho de Carlos Reluz Revisão de provas Jorge Maurflio Pinto

Direitos desta tradução reservados pela Novo Tempo Edições Ltda.

Rua Conde de Bonfim, 839-A Tijuca - Rio de Janeiro, RJ CEP 20530 - Fone: 208-0849

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Pois sâfo tímidas as deliberações dos mortais, e inseguros nossos planos.

... quem conheceu jamais o teu conselho, salvo que

tivesses dado Sabedoria e mandado, do alto, teu espírito santo? E assim se fizeram retos o£ caminhos daqueles sobre a terra

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Nota do Autor

0 cerne deste livro é a descrição do Conclave 82. Os participantes s&o fictícios. Mas, em todos os demais aspectos, constitui um cenário baseado no material formado pela massa de fatos que o precede e em todos os conhecimentos precisos disponíveis, envolvendo os tópicos e as facções em operação na escolha do sucessor do Papa.

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CONTEÚDO

O COMEÇO ... 11

O PRIMEIRO DOS PAPAS PEREGRINOS... 27

A FASE ANTERIOR AO CONCLAVE: Os Boletins Pré-Conclave, 1970-1977 ... 57 Série U m - 1970 ... 59 Série Dois - 1971 ... 62 Série Três — 1972 ... .. 67 Série Quatro — 1973 ... 71 Série Cinco — 1974 ... 73 Série Seis - 1975 ... 76 Série Sete - 1976 ... 85 Série Oito - 1977 ... 90

Boletim Especial — Como se Dispõem os Votos, nas Vésperas do Conclave 82 ... 107

Boletins Especiais — Da Morte de Paulo até a Abertura do Conclave 82 ... 112

O CONCLAVE F IN A L ... 123

A Tarde da Instalação...125

O Primeiro Dia ... 221

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Lá no alto da rocha plana pousada entre os três píncaros do Monte Hermon, Jesus e o “Príncipe deste Mundo” — como Jesus algumas vezes o chamou - tinham-se encontrado frente a frente, alguns anos antes. O cume do Monte Hermon, a 281.391 metros de altura, ergue-se para sempre acima de todas as coisas, é visível a olho nu de qualquer parte em torno desta terra: da Síria, se olhado do Sul; do Mediterrâneo, se do Este; da ponta do Mar Negro, se do Norte. E, assim, dizem os beduínos, do meio do Grande Deserto, se olhado do Oeste.

— Tudo que podes ver deste rochedo, — dissera o Príncipe em tom de adulação, abarcando num gesto grandioso o vasto horizonte de reinos e de ro­ tas marítimas que tinham a seus pés - tudo isto te darei, se te ajoelhares e me adorares — se fores meu servo!

Poder em troca de poder. Essa era a transação. Entre Satã e Jesus tem si­ do sempre uma disputa pelo poder. O Príncipe perdera aquela rodada.

Agora, de novo perto do Hermon, uns três anos mais tarde, Jesus esfrega sal na ferida daquela derrota. Não é difícil imaginar. A cena passa-se em algum lugar fora da cidade síria que é hoje chamada Baniyas, no sopé da montanha do Hermon, de três píncaros, cobertos de neve. Ali perto, o Rio Jordão brota e desce, fluindo por toda a extensão da Palestina, enchendo os poços das al­ deias, dando vida aos olivais, às hortas, aos campos de melões, aos pomares re­ pletos de laranjas, de figos, de maçãs, de romãs, e aos campos esmaltados de flores selvagens. O céu azul sobre a face imóvel do Hermon hospeda o brilhan­ te sol do meio-dia e mesmo os cinzentos-ardósia e os castanhos e os amarelos da areia e da pedra forçam os olhos a entrefechar-se, contra o resplendor neles

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refletido. O vento desarruma os cabelos e as roupas. As águas do Jordão mur­ muram por trás das vozes do pequeno bando de homens que caminha subindo o Hermon.

Jesus, como sempre conduzindo o grupo, atira por cima do ombro uma pergunta aparentemente inocente, tal como faz, às vezes, a propósito dos fala­ tórios do lugar:

— Quem é que vós dizeis que eu sou?

O impetuoso Simão deixa escapar o primeiro sentimento que o domina: — Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo.

Jesus pára bruscamente. A gente imagina seus olhos firmemente presos ao olhar de Simão.

— Tu és abençoado, Simão! Não foi um simples ser humano quem te dis­ se isso. Foi meu pai que está no Céu quem te revelou isso. Agora te digo, so­ lenemente, atta kefa: Tu és pedra! E sobre ti, como sobre uma rocha, cons­ truirei de tal modo a minha Igreja que toda a força de Satã não poderá des­ truí-la. A ti darei as Chaves do Reino do Céu. Seja o que for que proíbas na Terra, será aquilo que o Céu proíbe. Seja o que for que permitas na Terra, se­ rá aquilo que o Céu permite.

Estas são as palavras que revelam o curso infinito do poder de Deus entre os seres humanos, e a batalha sem fim contra ele travada por “toda a força de Satã” . Jesus tranqüiliza Pedro e todos que a ele pertencem — hão de usufruir, finalmente, um Triunfo e uma Bênção especiais. O Triunfo será o triunfo de Jesus e o de sua Igreja, sobre Satã. A Bênção será a universalidade: todos os homens e mulheres aceitarão a salvação de Jesus e acreditarão nele. Mas nem o Triunfo, nem a Bênção, será conquistado por Jesus sozinho. Ele se vincula a Pedro, à sua Igreja, a todos os sucessores de Pedro e a todos os homens e mulheres.

João, Jaime, Judas e os demais imediatamente reagem ao simbolismo de Jesus, voltando os olhos para a rocha do Hermon, depois olhando para o rosto de Jesus. Eles o conhecem muito bem! Está dizendo e fazendo alguma coisa significativa. Mas não o compreendem. “Aquilo estava escondido de nós” , escreveria Marcos, anos depois do fato acontecido, “e tivemos medo de lhe fazer perguntas sobre aquilo tudo” .

Dentre todas as escolhas que Jesus poderia ter feito para o primeiro che­ fe de sua Igreja, Simão teria que ser a menos indicada. Em sua traição de Je* sus em perjúrio público, Simão só ficaria abaixo de Judas Iscariotes, que, na realidade, iria vender Jesus a seus inimigos por dinheiro. Ao primeiro sinal de dificuldade, aquela “rocha” correria para proteger-se, como um coelho assustado. Contudo, anos mais tarde, ele seria martirizado e não fraquejaria em seu amor oii em sua devoção.

Mesmo naquele dia, perto do Hermon, Jesus sabe aquilo de que Simão é capaz, tão claramente quanto percebe o zombeteiro desprezo do Príncipe por aquela “rocha” humana. Pois é no contexto de sua memória sem paralelo que

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Jesus fala com Simão como chefe da Igreja, sobre a Igreja, sobre a ameaça de Satã, interminável, incansável. E é no contexto dessa memória de Jesus, que tudo abrange, que aquilo que ele diz a Simão diz também ao Papa Paulo VI, assim como a todo Papa que vier depois dele.

Aqui, a verdadeira chave da compreensão é a memória de Jesus e esta não é memória no sentido insignificante em que a compreendemos:

“ ... O Conselho de Educação aboliu lições de memorização, por serem um desperdício do potencial do aluno...”

“Faça um esforço de memória, querida. Onde é que vocé pôs as minhas abotoaduras?...”

“Esquece que eu te dei este dinheiro, amigo...”

“Por uma simples taxa de 500 dólares, garantimos uma memória fotográ­ fica, ao término de nosso curso de cinco semanas...”

“O IBM 3033 comporta oito megaseqüências de dígitos binários em sua enorme memória...”

Nas proporções reduzidas de nosso raciocínio, padrão século XX, enten­ demos memória como sendo apenas um computador eletrônico miniaturiza- do, que recita fatos e números ao longo de nervos e de ligações sinápticas. No entanto, de alguma forma, muitos de nós podem perceber que, quando damos as rédeas a nossos ódios, nossos temores, nossas lealdades, nossas esperanças — áreas de sentimento em que nos deixamos envolver por inteiro — empregamos memória num sentido maior. Fatos e números, talvez. O passado, também. Igualmente o futuro. Tudo isso feito presente no contexto do nosso eu cons­ ciente. Somente o sono, o cansaço, a proximidade da presença do mal — ou nossa própria escolha — parecem tomar opaca, adormecida, essa memória ple­ na.

Em Jesus, tal memória é uma consciência de espírito eternamente desper­ ta e que nunca adormece, porque nunca se cansa, porque nunca é apenas mor­ tal. Nada passado. Nada simplesmente no futuro. Tudo presente.

Assim, naquele momento, perto do Hermon, transcendem-se as dimen­ sões comuns da existência. É como se o tempo que passou nunca houvesse ex­ pirado. O que está para vir, já foi realizado. Tudo por aquele instante. Simão, agora kefa, Petros, Pedro, a rocha, é então o chefe da Igreja — em todas as eras. Os outros onze são multiplicados nos milhões e bilhOes de todos os ou­ tros homens e mulheres e crianças. E aquele pedaço estreito de mato, no de­ serto, no qual estão de pé aqueles treze homens, é um calidoscópio, não apenas da Terra, mas do universo — o planeta Terra e também as estrelas e as galáxias infinitas. E Judas está lá. E o Príncipe,

Tudo que se refere a tal ocasião é tanto símbolo quanto realidade. A montanha chamada Hermon. O Jordão. Rocha. Água. Permanência e vida. A rocha sobre a qual o Príncipe ousou tentar Jesus foi por Jesus tomada

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mo o símbolo de seu próprio poder, de sua própria e eterna constância no mundo. Acima de tudo, a escolha de Simão: sempre a vitória sobre Satã atra­ vés dos mais fracos dos elementos. ‘‘Deus escolheu os fracos e os tolos para confundir os sábios deste mundo” , escreveria Paulo uns quarenta anos mais tarde. E assim, com sua mente obtusa e sua fraca determinação, é Simão a resposta de Deus ao Príncipe, cuja fulgurante inteligência e inquebrantável vontade são desse modo diametralmente enfrentadas. Como humanos, quase podemos ouvir Deus respondendo ao desafio de Satâí:

“Dizes que tua sabedoria e tua força te dão direito a uma posição exalta­ da? Pois muito bem. Tua humilhação será completa. Vou te vencer e des­ truir finalmente e para sempre, precisamente através do que é o mais fra­ co, do que é quase imbecil, do que é desprezível a teus olhos.”

Assim como se o coelho matasse a cobra. Como se os prisioneiros de Gu- lag, morrendo de fome, sobrepujassem o Exército Vermelho. Como se um car­ regamento de judeus a caminho de Auschwitz, debaixo de chicote, reduzisse a nada Hitler e todo o seu poder.

Mas há mais ainda. A afronta feita ao Príncipe em Hennon é magnificada. Diante desse Inimigo, Jesus é incansável. Simão, o débil, não é apenas a rocha que sustentará a Igreja de Jesus. Simão, o débil, terá, pessoalmente, o poder de representar Jesus. Pessoalmente! Esse pigmeu terá um poder maior do que aquele que o Arcanjo degradado jamais teve. Poder concreto. As Chaves do Reino. O segredo da eterna bem-aventurança. O que quer que esse Simão per­ mita é o que Jesus permite. O que quer que esse Simão proíba, Jesus proíbe. Jesus pode fazer e fará com que, em tudo aquilo que diga respeito à entrada no Céu, Simão seja incapaz de errar. O débil Simão. “Estarei contigo todos os dias, até o fim do universo.” Simão será o representante pessoal de Jesus e a fonte de orientação para todos os crentes que vierem depois.

Naquele dia, na memória de Jesus no alto do Monte Hermon, todos aque­ les crentes ouviram suas palavras: “Tu és Pedro.” E ele ouve aqueles crentes séculos mais tarde, quando constroem a frase de resposta: “Onde estiver Pe­ dro, aí estará a Igreja de Jesus.”

Naquele dia, Simão não compreende. Mas mesmo esse fato não destruirá o curso que Jesus estabeleceu. Olhando dentro dos olhos de Simão, os quais o fitam meio apertados sob o brilho da luz do sol, Jesus vê tudo. Todos os erros e as desastradas adaptações que Simão tentará modelar da mensagem de Jesus, de salvação universal. E tal como acontecerá com os dons de Simão, assim também será com os seus erros: serão partilhados através dos séculos.

Primeiro: o erro da dominação política. Simão iria entender o poder pe­ culiar de Jesus em termos de conquista e de império. “Não é agora mesmo, Senhor?” perguntará Simão estupidamente, mesmo depois que Jesus volta da morte, “não é agora mesmo que irás restaurar o Reino de Israel?" A maior

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parte dos sucessores de Si mão em Roma, durante quase dois mil anos, iria cometer o mesmo erro. É uma idéia cuja atração custa a desaparecer. O Triun­ fo de Jesus traduzido num triunfo imperial.

Depois: dominação étnica. Simão não seria capaz de compreender a natu­ reza universal da intenção de Jesus. Mesmo logo depois de receber o Espírito Santo, Simão insistirá em que Cristandade é um privilégio étnico. Teimosa­ mente recusará o Batismo aos não-judeus. Mesmo quando se faz necessário que Jesus mande a Simão uma mensagem especial, para fazé-lo ceder nesse ponto, mesmo então Simão dirá aos outros — a Paulo e a outras pessoas como ele — que batizem os não-judeus. Mas ele não o fará.

E um terceiro: dominação geográfica. Próximo ao fim de sua vida, como prisioneiro em Roma, Simão iria vincular a salvação de Jesus a um lugar. Con­ tinuaria sendo um palestino. Em seu próprio e persistente ódio de Roma, sua obstinada opinião excluiria o amor e a realidade de Jesus. Logo Jesus estaria de volta em Armageddon, perto da Planície de Sharon, na Palestina — Pedro acreditava e ensinava. Tomaria Jerusalém e destruiria Roma e seu império.

Em tal destruição estaria o Triunfo de Jesus e de todos que nele acredita­ vam. Na sobrevivência dos crentes, de acordo com esse entendimento, estaria a Bênção de Jesus. Mas, se assim fosse, essa Bênção estaria traduzida numa bênção temporal de um povo de elite; e o Triunfo seria apenas o estabeleci­ mento de uma base territorial específica. Quantos iriam parecer excluídos por tais erros, repetidos através dos séculos!

Ainda assim, Jesus terá eficácia, mesmo com essas limitações de Simão. Da mesma forma que continuará a tê-la com as limitações de cada um dos sucessores de Simão. Da mesma forma que o fará através de todas as queixas, guerras, discórdias e cismas centradas na falta de compreensão desses ho­ mens débeis e por eles provocadas, ao longo de dolorosos séculos.

Talvez Pedro não tenha compreendido as coisas nem um pouco melhor do que as multidões que abandonaram Jesus cheias de amarga desilusão, quan­ do ele, ao contrário do que elas esperavam, deixou de restaurar o poder polí­ tico de Israel, após sua entrada triunfal em Jerusalém, três dias antes de mor­ rer. Mas, em toda a sua confusão, Simão nunca abandonaria Jesus definitiva­ mente, nunca renunciaria a seu amor por Jesus. E, afinal, o que importa a Je­ sus é que o homem não renuncie ao amor. Pedro nenhum faria isso. E Jesus nunca abandonaria Pedro.

Uma noite, já tarde, alguns meses depois daquele dia fulgurante no Mon­ te Hermon, Jesus caminha na escuridão com um grupo muito menor, na dire­ ção do Jardim de Gethsemane. Simão caminha, de novo, atrás de Jesus. De novo ele escuta Jesus, que lhe fala: "Simão, Satã diz que tem poder sobre ti e pretende fazer de ti seu brinquedo e instrumento.” Assim, Simão está sendo prevenido mais uma vez. Será presa fácil para Satã.

Mas então, com aquela segurança fundamentada no poder, com aquela imperiosa supremacia que lhe era peculiar, Jesus continua: “Mas tenho rezado

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por ti, para que tua fé não te falte, nem fraqueje. Portanto, quando falhares...” o insistente realismo destas palavras deve ter coftado o coração do sensível Si­ mão, portanto, quando falhares, terás a capacidade de te arrepender de teu erro. E terás a capacidade de dar, a todos aqueles que forem ligados a ti, novas razões para continuarem a ter fé” .

E isso é tudo que é dito a Simão. Jesus mantém o mistério de suas inten­ ções definitivas e de seus propósitos profundos. Revela apenas seus métodos. Quanto ao resto, Simão terá que se arranjar com as limitações de seu próprio caráter. Da mesma forma que terá que o fazer cada um dos seus sucessores. Até um último momento para cada um deles...

Em outra noite, uns trinta anos mais tarde, em Roma, Simão Pedro, finalmen­ te, vê tudo como tudo foi visto por Jesus desde o começo! Mesmo então, Si­ mão vê as coisas de um ângulo confuso. Ele e mais um outros dois mil cristãos tinham sido amarrados a cruzes de cabeça para baixo, numa barranca coberta de grama que circundava os Jardins Imperiais no Monte Vaticano. Tinham si­ do untados com pez. Esta noite, irão ser tochas vivas, ululantes, agonizantes. O Imperador Nero, sua encantadora concubina Popéia e os convidados de ambos terão luzes sob as quais comerão e verão coisas sobre as quais farão pi­ lhérias. Cada cristão morrerá fazendo o sinal clássico de Satã — a cruz inverti­ da.

Embaixo do Monte Vaticano, do outro lado do Rio Tibre, um escravo chamado Lino está de pé, calado, observando. Um dia Simão Pedro batizou-o. E então, naquela manhã, quando vieram buscar Simão Pedro para morrer nos Jardins, este chamou Lino e nomeou-o seu sucessor.

— Tu és a rocha agora, Lino. — Simão Pedro disse isso a Lino na presença de todos os chefes cristãos. ~ Tu és Pedro... Conduze-os, como eu os conduzi. Em nome de Jesus. Minha morte não tem importância. Breve o Senhor virá.

De onde está agora, Uno pode ver escravos correndo entre as cruzes, ateando fogo aos corpos com rápidos golpes com as tochas ardentes em cada uma das cabeças.

Sem que Lino possa ouvir, Simão Pedro continua murmurando as últimas palavras que tinha dito a Jesus: “Senhor, eu te amo. Sabes que eu te amo. Eu te amo.” Em meio ao cheiro, à fumaça e à gargalhada romana. “Sabes que te amo, Senhor.” Simão Pedro espera sua vez.

E aí, naquele enevoado, Simão Pedro pôde perceber o vulto grande de um centurião de pé diante dele, as pernas bem separadas, o manto vermelho pendente para o lado esquerdo. À luz das chamas, Simão Pedro tem a visão do brilho da espada curta, segura na mão direita, imóvel, mas pronta para o golpe.

- Pela graça de Afranio Burro, judeu, ~ murmura o Centurião discreta­ mente, respeitosamente, enquanto contrai o corpo para golpear. Simão Pedro

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nâo vai arder. Burro, um cristão convertido e com influência nos altos círcu­ los, conseguiu como último favor a Simão Pedro que ele morra pela espada.

Em meio a todo o horror, fogo e fumaça, gritos dos que morriam, a músi­ ca, as risadas dos convivas, há para Simão um instante de luz. Tudo está claro. O sorriso frio daquela lâmina. A contração dos dedos do Centurião em volta do cabo. Os músculos que se enrijeciam no pulso e no braço. 0 apoio daque­ las duas pernas. O lado direito do corpo recuando na medida certa. A consci­ ência de Simão Pedro inunda-se de lembranças. Perdoa-os... Abençoa-os... Re­ za por eles... Ama-os... Faze-lhes o bem... O que quer que permitas nesta Ter­ ra, será o que o Céu permite... O que quer que proíbas na Terra, será o que o Céu proibe... Tu és Pedro... Ele vê, mais uma vez, a face de seu adorado Jesus, como acontece com todos os Papas, na hora da morte, e agora, pela primeira vez, penetra na memória de Jesus, onde tudo é conseguido — o pleno Triunfo de Jesus, a Bênção plena de Jesus — tudo num lampejo, enquanto a lâmina fu­ ra entre suas costelas e vara pulmão e coração a dentro. Todos os homens e mulheres. Nem judeus. Nem gentios. Tudo uma coisa só. Não só a Palestina. Não Roma apenas. Mas todas as terras. A terra. Os céus. O começo. O fim. O pecado. O Príncipe do mundo rindo com sarcasmo. Jesus no Calvário. Jesus na glória...

Quando a espada sai, traz sangue após si como se fosse uma fita vermelha ondulando, Um corte impecável, feito por um especialista. O Centurião vê uma devastadora máscara de agonia e terror cair por um momento, como uma garra opressiva, sobre o rosto de Simão Pedro, unindo num todo só cada um de seus traços, num nó de sofrimento. Um momento em que o corpo se toma rígido, duro, reto, tão teso quanto a estaca que o sustenta, vibrando por den­ tro, dos pés à cabeça, num último esforço interior. Depois desmorona, contor­ cendo-se, os olhos revirando, o rosto relaxando, naquela resignação inexpressi­ va, naquele abandono que só a morte confere, sangue e muco escorrendo da boca, no gemido abafado de um último suspiro, urina e excremento caindo no chão.

Na semana seguinte, o corpo de Simão Pedro é recobrado por Lino e pelos ou­ tros cristãos. Na escuridão da noite, cavam apressadamente sua sepultura, num ponto para a extremidade norte do Monte Vaticano. Entre os cristãos, o ponto sobre a sepultura de Pedro ficará sendo conhecido como a “memória” de Pedro.

A notícia espalha-se através das linhas clandestinas de comunicação entre os cristãos, até as pequenas comunidades cristãs em Milão, em Marselha, nas cidades gregas, na Síria, Palestina e África: “Pedro está morto. Lino é sua es­ colha.”

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Hoje, nessa mesma parte norte do Monte Vaticano, a “memória” de Pedro es­ tá agora na cripta central de uma enorme Basílica, a de São Pedro, construída em torno do lugar em que Pedro morreu, durante o banquete de Nero. Ao la­ do da Basílica, há um complicado edifício de mil aposentos, o Palácio Apos­ tólico.

No quarto pavimento de uma ala desse Palácio, a uns trezentos e cinqüen­ ta metros da “memória” de Pedro, ocorre a morte do Papa Paulo. As horas e os dias do declínio de Paulo são zelosamente vigiados pela poderosa burocra­ cia do Vaticano, e acompanhados pelo rádio e pela televisão por centenas de milhões de pessoas, em todas as partes da Terra.

Paulo encontra algum conforto. Como todos os Papas, ele fez suas adap­ tações na mensagem de Jesus e agora, com a morte se avizinhando, a visão de Jesus é também o seu lote. A entrada de Paulo na memória de Jesus, seu mo­ mento de absoluta, infinita claridade.

Até onde alcança a memória de Jesus, é o mesmo, tanto a morte de Si- mão e a designação de Lino, quanto a morte de Paulo VI e a designação do sucessor de Paulo. Apenas para nós, tal como foi um dia para Simão Pedro, os detalhes são perturbadores.

A uns quinhentos metros da “memória” de Simão Pedro, o sucessor do moribundo Paulo VI e de Simão Pedro será designado pelos votos dados nu­ ma reunião especial chamada Conclave. Cerca de cento e vinte Cardeais da Igreja Católica Romana, cada um com mais de cinqüenta e menos de oitenta anos de idade, irão encontrar-se no Monte Vaticano, no Salão de Reuniões denominado “Nervi” . Não na Sistina, cujas paredes englobam séculos de his­ tória romana, cujos afrescos, em silenciosos matizes, falam do gênio de anta­ nho e de etema fé. Não na Sistina. No Nervi, cujo cimento fluiu para os mol­ des há menos de quinze anos, cujas quatro paredes são nuas, o teto ondulado e o chão inclinado abrindo-se como um estômago pronto a receber milhares como se não passassem de uns poucos. Nada de afrescos. Nada de telas pinta­ das a óleo falando de Deus, do Céu, de Cristo, da eternidade. Apenas, embu­ tidas numa parede, as cabinas sem olhos para as equipes de TV e de rádio. O Nervi. Logo do lado de fora da colunata que cerca a Praça de São Pedro. Flan­ queia — mas não toca — a majestosa muralha de mil e quatrocentos anos que circunda a Cidade do Vaticano. Não toca na Basílica de São Pedro. Ou no Pa­ lácio Apostólico.

O Nervi. Assim decretou Paulo VI, antes de sua morte. A brusca ruptura com a tradição da Sistina não é uma artimanha do acaso, um ardil do tempo, fora de sintonia. A entrada desses Cardeais-Eleitores nesse salão, sem raízes nem paralelo no passado, toma visível o rompimento com a história, que esses Cardeais e todo o povo do mundo estão vivendo e do qual não podem fugir.

* * *

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Quando, mais tarde, algum historiador vier a escrever um registro desse Conclave, o mesmo por certo se intitulará O Livro da Aposta. Mas, a menos que seja cristão, talvez não compreenda que o que esses homens fizeram foi feito apesar do poder temporal que eles detinham e de suas ambições pessoais, por causa de sua confiança na promessa de Jesus, de que “toda a força de Satã não destruirá a minha Igreja” , e porque ouviram Jesus dizer “Tu és Pedro” . Bm termos de sabedoria temporal e de uma política pragmática, apostaram no impossível. Em termos de sua fé, nada além disso poderiam fazer.

Quando o próximo Papa for eleito aqui no Nervi, saberá que vai reger uma Igreja que um dia foi una e monolítica, mas que agora está partida de al­ to a baixo e para os lados, num ziguezague, em relação a tópicos fundamen­ tais, em matéria de crença, de prática religiosa e de moral individual. A Igreja que vai chefiar já se encontra, ela própria, num mundo totalmente diferente daquele que seus predecessores conheceram.

Quando o próximo Papa for eleito aqui, já deverá saber que não pode mais esperar viver permanentemente em Roma. Ele, e cada um dos seus su­ cessores, sempre afirmarão serem o Bispo de Roma, o sucessor de Pedro, o Vigário de Jesus, seu representante pessoal entre os humanos. Mas seu papel assumirá o aspecto de uma viagem, de uma peregrinação. Em parte livremente escolhida; em parte lhe será imposta.

A ruptura com o longo passado já é completa. E ele saberá disso.

Habitará em lugares jamais vistos por outro Papa. Tomará providências que nenhum antecessor jamais levou em consideração. Terá que decidir assun­ tos e problemas críticos que nenhum Papa antes dele nem mesmo jamais so­ nhou. Porque, de nenhuma outra forma, será ele capaz de ser Papa. E acabará por compreender sua missão papal de um modo tão diferente da compreensão dos Papas do passado, e tão desconcertante, aos olhos dos crentes, que muitos deixarão de crer. Em sua peregrinação, os mais fracos nunca partirão com ele. Os mais fracos jamais o conseguirão. Só os fortes o acompanharão até o fim.

Posto o problema em termos simples, reconhece-se agora que a Igreja Ro­ mana, seu Vaticano e sua hierarquia espalhada pelo mundo inteiro, acumula­ ram uma bagagem política, diplomática e financeira de que precisam se des­ fazer: seus investimentos financeiros, que chegam a alguns bilhões de dólares; sua riqueza em imóveis e valores concretos, representando garantias que atin­ gem valores muito além de centenas de bilhões; sua posição pertinaz e eficien­ te no mundo da diplomacia, da política estabelecida e do poder industrial; e finalmente — o mais doloroso de tudo — seu conceito funcional de “Igreja”, governo e autoridade e poder da Igreja na salvação de todos os seres humanos.

Só muito poucas vezes, na história de duzentos e sessenta e três Papas, surgiu um momento igual; talvez nunca uma escolha tão audaciosa tenha esta­ do iminente. Esses poucos Papas romanos que poderiam ter dado salto seme­ lhante recusaram essa opção tão cegamente quanto Simão Pedro recusou fa­ zer o batismo dos não-judeus. Cada um deles se aferrou à idéia do poder tem-21

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poral tão teimosamente quanto Simão Pedro esperou que Jesus estabelecesse um reino político na Palestina. Mas, ao contrário de Pedro, que recebeu de Jesus uma mensagem especial dizendo-lhe que admitisse os não-judeus no ba­ tismo e na salvação, não houve, para esses Papas, mensagem especial.

Somente agora houve outra espécie de mensagem de Jesus à sua Igreja — veio ela na força irresistível de uma revolução já hiaie inequivocamente visível aos realistas do Vaticano. Com base nessa revolução,*stão eles fazendo novos planos.

Essa revolução, que vêem já bem em marcha, não é de natureza política, mas afetará a política de todas as nações. Diretamente, nada tem a ver com marxismo ou com a democracia ocidental, salvo que, ao que parece, prenun­ cia o fim de ambos, tal como os temos conhecido. A revolução, no entender do Vaticano, tem suas origens naquele nível de vida e de valor em que Jesus e Satã lutam e têm lutado através de todas as idades do homem e pela alma da humanidade.

Esse tipo de Conclave e essa linha de pensamento constituem a herança direta de Paulo VI. Apesar de suas deficiências e de seus insucessos iniciais, fi­ nalmente ele compreendeu a revolução e, em seus últimos dias, fez o melhor que pôde para preparar a Igreja para ela.

Nem todos concordarão em que ele tenha tomado o lado certo. Na verda­ de, no final de sua vida, Paulo VI tomou-se inaceitável a todas as quatro fac­ ções existentes entre os Cardeais-Eleitores de sua Igreja, os cento e dezoito homens - é mais ou menos esse o número — que irão estabelecer as normas e eleger o Papa, depois da morte de Paulo.

Todos os problemas dos últimos dias de Paulo VI emanaram dessas fac­ ções, que constituem uma bem espetacular formação de pensamento e opi­ nião, da extrema esquerda à extrema direita. Nenhum dos limites máximos desses extremos, em tais grupos, representa uma maioria no pensamento ecle­ siástico. Mas, mesmo assim, um extremo seriamente ameaça cisão, enquanto o outro ameaça revolução — até revolução violenta. E tais facções, que en­ frentaram Paulo, serão as facções do Conclave.

A facção Progressista compõe-se de três grupos: os marxistas-cristãos, os “novos teólogos” e um bom número de carismáticos.

Os marxistas-cristãos advogam uma estreita aliança, política e de outra natureza, entre cristãos e comunistas. Entre eles e o Papa Paulo VI ardeu sem­ pre uma inimizade imorredoura.

Os “novos teólogos” e intelectuais sustentam que praticamente tudo na Igreja Romana — autoridade papal, sacerdócio masculino, condenação do ho­ mossexualismo e do aborto, a idéia de Deus, a crença na ressurreição e na di­ vindade de Jesus, até o conceito de igreja paroquial e o bastimo da criança re­ cém-nascida — tudo está superado e precisa ser equacionado em novos ter­ mos. Esses “novos teólogos” acreditam que somente com um Papa progressis­ ta e de mentalidade aberta pode a Igreja ser salva da desintegração total. 22

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Os carismáticos, adotando uma nova interpretação da Bíblia e apoiando- no exercício de novos dons — chamados os dons do Espírito Santo - insis­ tem em que somente através do exercício de tais dons pode a fé ser salva. Em conseqüência, introduziriam a prática carismática em cada fase da vida ecle­ siástica. Mas isso, em si mesmo, seria uma força desintegradora, porque uma dtu convicções centrais dos carismáticos é a de que o Espírito Santo se comu­ nica, direta e pessoalmente, com cada indivíduo. A autoridade geral e o poder magisterial do Bispo e do Papa ficam ultrapassados. É claro que os carismáti­ cos alegam representarem eles o espírito da Igreja Cristã, primitiva e original. A facção Tradicionalista coloca-se no extremo oposto aos Progressistas. Afirmam os Tradicionalistas que a Igreja Romana foi corrompida, nos últi­ mos doze anos, principalmente pelos marxistas-cristãos e pelos “novos teólo­ gos”. Denunciam Paulo VI como herético. Insistem na reversão de todas as mudanças verificadas na Igreja, desde os anos sessenta, sob a direção de Paulo. Consideram Paulo, em seu pior aspecto, como um traidor e, na melhor das hipóteses, como desorientado e enganado pelos ardis de Satã. Há homens po­ derosos nesse campo e é daí que o sério perigo de cisma tem ameaçado, há mais de dez anos, Paulo e a Igreja.

A facção Conservadora, em Roma e em toda a Igreja, opõe-se abertamen­ te aos Progressistas - sejam eles marxistas-cristãos ou “novos teólogos” - e opõe-se igualmente aos Tradicionalistas. Desejam os conservadores estabelecer um curso firme, com algumas adaptações feitas gradativãmente, mas sem uma mudança profunda na estrutura básica do governo e da fé Católica Romana. Os conservadores não acham que Paulo tenha errado ao permitir a mudança, mas acreditam que ele foi longe demais e andou muito depressa.

Finalmente, a facção Radical acredita que a Igreja Romana precisa dar um passo numa direção específica: despojar-se de todos os interesses sócio- políticos e financeiros e, ativamente, empunhar e usar apenas as armas do po­ der espiritual. Os radicais acusam Paulo de não ter tomado a iniciativa de pas­ sos audaciosos e imaginativos para libertar a Igreja de todos os envolvimentos com interesses políticos e financeiros, seja qual for sua cor ou seu tipo. 0 fato de serem chamados “radicais” faz lembrar a opinião de um Papa do século XVI, Alexandre VI, que devia saber o que estava dizendo: “A laiz(radix) de todos os males que afligem hoje em dia o Trono de Pedro é nosso poder tem­ poral, aliado a nossa riqueza e a nosso prestígio internacional.”

Constitui um bem acatado julgamento dos 263 Papas anteriores dizer que, embora a maior parte deles tenha filtrado o poder e o ensinamento de Je­ sus através da mentalidade que prevaleceu no tempo de cada um, nenhum de­ les, afinal, identificou a salvação de Jesus com soberania territorial e com in­ fluência política. O erro deles consistiu em aliar essas duas coisas. Mas mesmo no perfumado jardim do sucesso mundano, a tradição de Pedro, que constitui a herança de todo Papa, os tomou capazes de perceber o mais leve estalido de barbaridade a afiar seus punhais. E, quando tudo em volta deles se transfor­

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mou num ululante coro de dor, geralmente os homens encontraram o mais importante cidadão de Roma já de pé, diante de alguma porta ainda não aber­ ta, a mão colocada sobre a aldrava. “Portanto, quando falhares” , Jesus disse a Pedro, “terás a capacidade de te arrepender de teu erro, e darás a todos aqueles que forem ligados a ti novas razões para continuarem a ter fé.”

E assim tem sido com Paulo VI. E ele transmitiu sua opinião e seus senti­ mentos em relação ao fututo aos principais Cardeais-Eleitores, que se reúnem por trás das portas trancadas do Conclave 82 — um Conclave que não seria igual a nenhum outro antes dele,

Dos próprios Eleitores, bem como de nós, que os visualizamos em Con­ clave, é exigido um esforço especial. Compreender na fé. Crer com compreen­ são. Jesus não revelará seus propósitos definitivos, nem mesmo os pormenores de nossa história imediata, a esses Eleitores. Não revelou o futuro imediato a Simão Pedro e a seus companheiros, perto do Hermon. Nós, no entanto, co­ mo filhos de uma geração muito posterior a Pedro, sabemos alguma coisa além daquilo que ele sabia no Hermon. Sabemos, por exemplo, que Jesus viu muito além da Palestina, além do judaísmo, além da Roma Imperial e além daquilo que vemos mesmo agora, quando disse: “Tu és Pedro.”

Agora percebemos isso. Mesmo assim, hoje é preciso que haja humildade e fé, para que os Eleitores e todos nós possamos ver, como Jesus o faz, mui­ to além até mesmo dos extremos do vasto mixtum-gatherum do Catolicismo e da Cristandade: para além dos monges gregos do Monte Atos; dos monges beneditinos na Inglaterra; dos mexicanos de joelhos diante da Senhora de Guadalupe; do pão bento dos poloneses; dos aborígines australianos cantan­ do a missa; dos trevos da Irlanda; das cúpulas douradas dos árabes; para além dos esquimós insculpindo a Ave Maria em ossos de baleia e dos gongos chine­ ses fazendo soar o Angelus; para além das grinaldas do advento alemão; dos tambores africanos tocando um requiem; dos ícones russos na bagagem da Sra. Gromyko; das moças escandinavas usando a coroa de Santa Lúcia; das capelas católicas japonesas parecendo templos zen; das cruzes do cruzado maltes; das escoteiras holandesas catequizando as prostitutas de Amsterdã; das freiras da Califórnia limpando os leprosos em Seul; dos Cardeais assinan­ do cheques em Roma para os gnomos em Zurique; das freiras morrendo co­ mo guerrilheiras na Guatemala; e para além dos luteranos, dos presbiteria­ nos, dos batistas, dos adventistas, dos metodistas e das mil e uma outra sei­ tas cristãs. É preciso humildade e fé, para que se veja além de todo esse de­ lírio e de todo esse caos — e para passar além de tudo isso, mesmo quando Jesus abrange isso tudo em sua memória e isso tudo transcende.

Para esses Eleitores, é a tarde do Conclave, como de fato o é uma cer­ ta tarde para a Igreja estabelecida, para Roma e seu Vaticano. O sol de glória e poder humanos que lhe iluminou os dias passados desapareceu. Os grandes afrescos já não contemplam esse Conclave, das paredes e do teto da Sistina. Muitos dos antigos cânticos, tal como o latim antes a todos imposto, emude­

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ceram e já não são mais ouvidos. Neste nosso mundo moderno, há um senti­ mento de inquietação, de que a vida se vai limitando, de que a graça está sen­ do corroída das horas de cada dia, de que o encanto está desaparecendo, de que as sensações se estão desbotando à luz forte do modernismo, com o impu- dor desse modernismo. Hoje em dia todos os cristãos experimentam essa sen­ sação. Mas por toda a Igreja de Jesus, audível, está a voz da salvação de Jesus, falando de seu amor por todas as coisas humanas e de sua irrevogável decisão e promessa de que nada poderá anular tal salvação, ou saciar esse amor.

Com a autoridade de Jesus, esses Cardeais irão escolher um, entre eles próprios, para ser o 264? sucessor de Simão Pedro. E, tal como na designação de Simão Pedro, próximo ao Hermon, os mesmo principais personagens esta­ rão presentes: Jesus, repetindo “Tu és Pedro” ; o Príncipe, sempre vigilante, decidido a fazer dos Cardeais e da particular escolha de seu Papa “um simples brinquedo e um instrumento” .

A batalha continua.

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O PRIMEIRO DOS

PAPAS PEREGRINOS

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Ql homens e as mulheres do século XXI serão fascinados pela figura de Gio- vanni Battista Montini, que se tomou o Papa Paulo VI em junho de 1963. Nossos rostos estão achatados de encontro ao vidro e não vemos as coisas se- nlo de forma imprecisa. Eles estarão a uma distância suficiente para julgar «quilo que ele fez.

Olharão para trás, para poderem ver que tipo de homens eram os que pri­ vavam de sua intimidade, seus auxiliares de confiança; quais eram os motivos que o impeliam; se sua teologia era tão sábia quanto sua piedade era genuína; ie fazia o jogo do poder político secular usando a autoridade de Jesus; se en­ trava em fatais combinações com aqueles que encarava como menores inimi­ gos de sua fé, para sobrepujar os que considerava inimigos maiores; se permi­ tia que a amizade pessoal por uns poucos interferisse com seu julgamento de questões de vida e morte, envolvendo milhões de crentes.

Verão, como não podemos fazer, se a visão que o Papa Paulo tinha do sé­ culo XXI era correta — tão brilhantemente correta que eles, nossos descen­ dentes, se maravilharão com sua presciência — ou tão desanimadoramente in­ correta que seu nome e seu pontificado e suas idéias serão detestados e rejeita­ dos como infâmia. Será uma coisa ou a outra. Porque foi Montini, com mais dois ou três homens de nosso tempo, quem, com obstinada vontade, fez sua Igreja Romana de 715-milhões de membros voltar-se oficialmente para olhar numa direção que a grande maioria não aceitava e não compreendia.

Por nossos descendentes, ele poderá bem ser considerado um inovador tão gigantesco quanto Pedro, o Grande, da Rússia, ou Mao Tse-tung, da Chi­ na. Poderão dizer dele: viu acima da cabeça de todo mundo, viu além de seus limitados horizontes, e era um grande entre pigmeus. E poderá ser o quarto Papa na história a ser cognominado “grande” . Paulo, o Grande, como Leão, o Grande, Gregório, o Grande e Nicolau, o Grande.

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Essa gente do século XXI — e n2o nós - compreenderá o duplo papel que vimos o Papa Paulo representando. Irá vê-lo como o último dos velhos Papas, firmemente apoiado numa tradição papal de mil e oitocentos anos, tão lamu- riantemente imperioso e tão insistentemente monárquico quanto qualquer Pa­ pa vindo antes dele. E irá vê-lo como o primeiro dos Papas Peregrinos, homens que agiram como se a Igreja a que pertenciam tivesse sido exilada da socieda­ de humana e como se quisessem fazer a velha penitência da peregrinação — em nome de todos os cristãos — para que uma vez mais Jesus, seu Vigário e sua salvação, fossem aceitos no contexto do regime humano.

Paulo nunca foi realmente bem recebido pelos romanos, por aqueles burocra­ tas do Vaticano, que um irritado Papa Pio XH uma vez descreveu como “os Bourbons, que aprenderam pouco e não esqueceram nada”. Paulo era um na­ tivo do Norte da Itália, que fizera nome como eclesiástico em Milão, durante nove anos. Pelo que dizia respeito aos romanos, o homem nascido e batizado lá no Norte, em Concessio, como Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini bem que poderia ter continuado por lá, com os outros bárbaros, no exílio para onde o tinha mandado o Papa Pio XII, ao tirá-lo do Vaticano.

Mas Montini voltou como o Papa Paulo VI, em 21 de junho de 1963, e trouxe consigo uma batelada de nortistas: arquitetos, financistas, clérigos de diversas tendências, editores, projetistas, artistas e os aderentes que todo Car­ deal de sucesso conquista. A “Máfia de Milão”, conforme os clérigos romanos, adulterou o caráter exclusivamente romano do Vaticano, que Pacelli (Pio XII) estimulou durante os quase vinte anos de seu reinado.

Nos anos de Milão, e depois em Roma, os elementos de fora repararam na reverência, no quase terror, com que os membros da “Máfia de Milão” enca­ ravam Montini. Sempre houvera uma camaradagem especial entre eles, e a hostilidade encontrada em Roma apenas os unira mais.

Um fato a notar a respeito da corte papal de Paulo e da administração do Vaticano em sua época é o de que partilharam do caráter “horizontal” da maioria dos governos modernos. O pessoal era medíocre. Nenhum gigante projetou-se acima do nível da massa em geral.

E, no entanto, Montini tinha em redor de si homens tão cheios de colori­ do e de inteligência quanto qualquer outro Papa na história. O Secretário Don Pasquale Macchi, nem sempre sábio em sua escolha de amigos, mas em todas as instâncias leal a Paulo; o stakhanovista Benelli, ríspido em sua fé, ávido em seu zelo por um imaterialismo sobrenatural; o inveterado fumante que é o Cardeal Villot, que desenvolveu sua competência burocrática através de uma vida inteira de pequeninas negociações; o impassível, retraído Willebrands, ho­ mem de paz, perpetuamente surpreendido com seu próprio sucesso, receoso de mover-se em qualquer direção e que, como caçoavam os romanos, só fica­ va aflito com a reação luterana dos alemães diante de qualquer coisa romana

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— ainda que fosse um enguiço no sistema de canalização do Vaticano; o Car­

deal Vagnozzi, de inteligência rápida e seguro de si, que Paulo sempre achava que tinha “dito Bom-dia! ao Diabo e saíra levando a melhor” ; o veterano Cardeal Ottaviani, parecendo um gnomo que guardasse energia, que escondes-

te velhas verdades, sempre prevenindo Paulo de perigos; o Cardeal Wright, de

um egocentrismo torrencial, onipresente, um gourmand cheio de eloqüência, que na esperança de herdar a terra se declarou humilde, mas que afinal se ele­ vou a pináculos de fé que seus contemporâneos jamais pensaram haver dentro

dele; o Arcebispo Casaroli, o caixeiro-viajante de Paulo em matéria de Ostpoli- tík do Vaticano, o homem do futuro, que conhecia os segredos de todo mun­ do.

A chave para o caráter do pontificado de Paulo VI está na reação de Pau­ te A visão que o Papa João XXIII tinha da Igreja e na decisão que, a esse res­ peito, tomou. Nas mentes e de acordo com a política dos Cardeais-Eleitores que fizeram Giovanni Battista Montini papa, no Conclave 81, em junho de 1963, Montini deveria implementar aquela visão.

O aspecto inovador e peculiar da visão de João está em sua superioridade lobre qualquer coisa que, antes dele, possamos encontrar nos Papas. De fato, num sentido, nenhum Papa teve, jamais, a visão de João.

O antecessor imediato de João, Pio XII, chegou perto disso. Depois de

n u s erros e fantasias iniciais sobre Romanità — o poder de Roma como cen­

tro da Igreja — e sobre a persistência do poder do velho “bastião” Católico Romano na Europa meridional, Pio XII chegou, realmente, a uma visão do ta­ buleiro de xadrez da história. Finalmente transcendeu detalhes insignificantes de geografia e de problemas locais, de modo que seu olhar se fixou na luta bá- Uca entre Jesus e Satã. Mas também ele, prontamente, identificou o inimigo como marxismo. Até aí foi a visão de Pio. E, nesse ponto, ele morreu.

Angelo Roncalli, como João XXIII, não padecia dessa estreiteza de en­ foque. Tão ferozmente contrário ao marxismo quanto sempre o fora Pio XII, 6 enfoque de Roncalli era mais amplo. Embora acreditando na origem satáni-01 do marxismo, João não aceitava o ponto de vista de Pio, que partia do pressuposto de que uma força exterior e oposta — o marxismo — estava ten­ tando mudar a sociedade e a Igreja de Jesus. A principal contribuição de João foi a simples intuição de que uma mudança já se tinha verificado, e que ape­ nas restava a aparência das coisas anteriores, como o arcabouço de edifícios prestes a ruir. João viu que o mundo de Pio XII, de Pio IX, de Clemente VII,

de todos os Papas anteriores, estava morto e enterrado. A luta contra o mar­ xismo era considerada por João como uma escaramuça de menor importância, que logo estaria terminada, num conflito cósmico muito mais profundo.

A essência da mudança vista por João foi a seguinte: todas as fronteiras sociais, políticas, ideológicas, étnicas e intelectuais que, durante séculos, ha­ viam dividido os seres humanos tinham perdido sua validade. Não havia quem pudesse explicar isso, mas era certo que do cenário da vida humana desapare­

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cera alguma persuasão fundamental, alguma convicção profunda. Por causa dessa convicção, os homens haviam preservado tais fronteiras até o exato mo­ mento de João XXIII na história. Mas agora, uma nova, desconhecida e assus­ tadora unidade humana estava emergindo. £ todas as velhas fronteiras, todas as coisas que homens e mulheres tinham compreendido e pelas quais tinham vivido, estavam desaparecendo.

Para Joio, como para Pio XII e Paulo VI, a essência do conflito cósmico estava nos planos e contraplanos de dois personagens: Jesus e Satã. Era um jo­ go mortal, disputado no tabuleiro de xadrez do universo humano. O tabulei­ ro era cósmico. Os problemas eram cósmicos. Os jogadores eram cósmicos.

A intuição de João dizia-lhe que, na esteira da enorme mudança que se tinha verificado, a religião em geral e a Cristandade em particular corriam pe­ rigo de ser superadas; que Satã fizera sua jogada para anular tudo aquilo que Deus havia conseguido. E, na verdade, era fácil ver que a Cristandade estava sendo superada, que estava cada vez mais isolada e eliminada da vida política, civil, intelectual e cultural de homens e mulheres.

Da mesma forma que sua intuição era simples, simples foi a solução prá­ tica adotada por João: abrir janelas e portas; derrubar as barreiras; deixar que o espírito, já presente, voasse por sobre a face da Humanidade. Daí o seu Con­ cílio - o Concílio Vaticano II. Daí sua atitude, paternal e amorosa. E daí o sentimento espontâneo e universal que João, esse Papa Romano de setenta e sete anos, originou, no curto período de apenas três anos e seis meses: o senti­ mento de que nenhum bem era mais impossível e de que não havia mal que não pudesse ser dominado; um sentimento de que, de alguma forma e inespe­ radamente, a graça fora derramada, de que todo o ódio poderia ser dissolvido por essa graça e de que poderia haver a esperança do melhor das coisas. ‘T u ­ do mudou”, João disse à sua geração. “Vinde ao nosso Concílio e celebrai e fazei planos junto conosco.” E aí João morreu.

Quando Paulo VI calçou as sandálias do Papa, traduziu a visão cósmica de mudança que João tivera, e desenvolveu suas próprias e novas políticas, de acordo com sua capacidade pessoal e com sua própria visão.

Desde os distantes anos trinta que Giovanni Montini, como um jovem clérigo, havia sido profundamente influenciado por uma única atitude que, trinta anos mais tarde, muito contribuiria para fazer dele um Papa diferente de qualquer outro Papa anterior. Foi uma atitude primeiro popularizada e depois repudiada por um filósofo francês de grande apelo popular, Jacques Maritain. Na realidade, Montini espontaneamente escreveu um intróito para a edição italiana do Humanismo Integral\ de Maritain.

“Dê o seu testemunho através de serviço” , propõe a noção, “mas não pense que nenhuma outra iniciativa é possível, prática ou indicada.” Em ter­ mos práticos, o que o humanismo integral tem a dizer é que todos os homens e mulheres são naturalmente bons; reagirão ao bem e rejeitarão o mal, se lhes mostrarem a diferença. A função da Igreja de Jesus, neste estágio da história

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Humana, é apenas dar o testemunho dessa diferença, não fazer esforços sobre­ humanos para “catolicizar” a Política, a Economia, a literatura, a Ciência, a Educação, a vida social ou qualquer dos outros aspectos da sociedade huma­ na. Simplesmente dar o testemunho através do serviço prestado a homens e mulheres — sem qualquer distinção de credo ou raça — esta é a tarefa da Igre­ ja no mundo de hoje, onde emergiu uma nova unidade entre os seres huma­ no»; um mundo que deliberadamente exclui a Cristandade e a autoridade cen­ tral do Papa como Vigário de Jesus e centro da unidade mundial.

Assim, do ponto de vista de Paulo, o Papado e a Igreja teriam que se em- ptnhar, uma vez mais, em atrair para a fé homens e mulheres, mas por um ca­ minho diferente. Teriam que sair de seu isolamento, um isolamento que era, •m grande parte, devido a suas próprias deficiências. Deveria haver um novo •iforço para irem de novo ao encontro de homens e mulheres, para permane­ cerem com eles e se tomarem aceitáveis por eles.

Quando Paulo falava de si mesmo como um peregrino e de seu Pontifica­ do como uma peregrinação, estava se referindo a esse esforço. Via isso como tando em parte uma penitência, pelos malogros dos Homens da Igreja do pas- lido, em parte uma busca daqueles seres humanos que ainda não conheciam Jaius, a Igreja e Jesus, a salvação de Jesus.

Esse humanismo integral de Paulo VI permeou toda a política de seu Pontificado. Até que ponto foi ele capaz de encaminhar sua Igreja avante nes­ ta via de peregrinação — ficará para julgamento de uma geração subseqüente. Enquanto isso, podemos tomar nossas próprias medidas de seu sucesso verifi­ cando como agiu Paulo em três ocasiões de capital importância, relacionadas aitreitamente com a diplomacia da Igreja, as finanças da Igreja e a fé da Igreja.

4 de outubro de 1965

O Vôo n9 2.800 da Alitalia, que Paulo fazia, tocou o Aeroporto Interna­ cional Kennedy conduzindo o Papa Paulo VI, sete Cardeais, dez ajudantes do Vaticano, sessenta jornalistas, comentaristas, técnicos de som e luz e duzentos mil envelopes contendo novos selos comemorativos do Vaticano.

Paulo seguiu de automóvel, a uma velocidade de uns vinte quilômetros por hora, num Lincoln, modelo 1964, preto, de teto transparente à prova de balas, de bandeiras tremulantes, luz fluorescente, forração de couro, lotação

de sete passageiros. Foi visto por uma centena de câmaras de TV e por mais de dois milhões de nova-iorquinos, que se dispunham ao longo do percurso de-

quarenta quilômetros, até a Catedral de São Patrício, em Manhattan.

O trajeto estava defendido, preparado e facilitado por quinze mil policiais

da Cidade de Nova Iorque, pelo Corpo de Bombeiros, pelo Serviço Secreto e de Repressão de Roubo, por detetives à paisana, cinco mil barreiras, quarenta

alto-falantes de grande potência, vinte e sete carros-reboques, treze

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cias, um caminhão antibomba, duas lanchas a motor no Rio Este e dois heli­ cópteros sobrevoando.

Ele falou a onze Cardeais, a Arcebispos e a Bispos, e a quatro mil pessoas, na Catedral. Encontrou-se com o Presidente Johnson e conversou com ele e, no Hotel Waldorf Astoria, a Sra. Johnson e Luci, a filha adolescente, lhes fo­ ram apresentadas, almoçou com o Cardeal Spellman e seus auxiliares, e avis­ tou-se com uma porção de visitantes, autoridades e gente amiga.

Por fim, o Papa Paulo dirigiu-se às Nações Unidas. Essa era a razão de sua peregrinação: “Dá ensejo à oportunidade de promover a causa da paz, tão pró­ xima a Nosso coração e, ao mesmo tempo, de propiciar maior compreensão entre as nações do mundo”, Paulo escrevera a U Thant, em 19 de março de 1965. “Daria” , respondeu U Thant a Paulo, em 16 de abril do mesmo ano, “um novo e vigoroso impulso aos esforços dos homens de boa vontade, onde quer que estejam, no sentido de preservar e fortalecer a paz mundial... trazen­ do a Humanidade para mais perto da realização de suas legítimas aspirações.” U Thant deu as boas-vindas a Paulo às 15 horas e 13 minutos da tarde, naquele dia de outubro de 1965. Primeiro conduziu Paulo até a sala de Medi­ tação: um aposento trapezóide, sem janelas, sem mobiliário, medindo nove metros por cinco e meio, as paredes simétricas inteiramente nuas, salvo por um afresco do artista sueco Bo Beskow, todo em padrões geométricos em azul, amarelo, cinzento, castanho e branco. No centro da sala, um sólido blo­ co de pedra e minério de ferro atingindo a altura da cintura. A única ilumina­ ção, um feixe de luz amarela, esmaecida, que incide sobre a superfície treme- luzente da rocha.

Depois U Thant levou Paulo à Assembléia Geral, que faria sua milésima tricentésima septuagésima quarta reunião.

Foi tirada uma fotografia colorida da Assembléia Geral, durante a fala de Paulo, às 15 horas e quarenta e cinco minutos: o Salão da Assembléia é um vórtice inclinado de onze círculos regulares, contido num estático mo­ mento fotográfico em um inevitável movimento descendente, para o lugar em que Paulo, o Monge de branco, permanece de pé. Todo o peso do Salão con­ verge para sua pequenina figura, como para um fulcro. Três mil ouvintes, de pescoço esticado, o observam. Não há movimento visível, salvo da cabeça e dos ombros de Paulo. É um momento eletrizante de atenção, uma vigília de nações.

“Temos uma mensagem a transmitir a cada um de vós.”

Paulo tem para si os ouvidos do mundo. Sua mensagem conta com tradu­ tores cheios de boa vontade para passá-la para mais de trinta e cinco idiomas; é ouvida - e mesmo vista — literalmente, em toda parte do mundo. A gente quase espera ouvir Paulo dirigir-se à raça humana: “Filhos dos homens! Na­ ções da Terra! Povos de todos os países! Este é agora o caminho de vossa sal­ vação...” Neste momento universal de atenção, Paulo poderia ter afirmado brandamente, sem surpreender ninguém de maneira indevida: “No dia 29 de

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junho, das Festividades dos Apóstolos Pedro e Paulo, o Senhor Jesus Cristo pessoalmente Nos disse que isto é o que os homens terão que fazer para resol­ ver seus problemas...” ;ou “Pretendemos resolver os persistentes problemas da oposição de Este e Oeste, de ter e não ter, de brancos e pretos, da seguinte maneira...” ; ou “Nós, homens, podemos deter agora a letal corrida armamen- tista, reconciliar árabes e judeus, trazer a China à razão, no convívio da famí­ lia das nações, dissipar as nuvens do holocausto nuclear, alimentar, educar e consolar os bilhões de seres do mundo através de...” .

Mas não aconteceu nada disso tudo. Paulo como Papa, como Apóstolo, não tinha alternativas a oferecer. Não pregou nem anunciou a mensagem do Evangelho, como Pedro e Paulo haviam feito mil e novecentos anos antes pe­ rante o romano, o grego e o semita. Cristo, fosse crucificado ou ressurreto, não foi a carga de suas palavras.

Paulo disse: “Desejamos que Nossa mensagem seja uma ratificação sole­ ne e moral desta alta instituição... com a Nossa experiência em Humanidade, trazemos a esta organização as vozes de Nossos finados antecessores, as de to­ do o episcopado católico, e Nossa Própria voz, convencidos como estamos de que esta Organização representa o caminho obrigatório da civilização moder­ na e da paz mundial.”

0 silêncio inerte de alguns segundos antes chega ao fim. Passou o momen­ to de magia. Agora, sentem todos, o resto das palavras de Paulo será um be- nigmo testemunho do endosso de suas existências, do reconhecimento de suas dificuldades.

Todos os principais participantes e protagonistas dos ódios recíprocos e das guerras previsíveis estão sentados em fileiras semicirculares, diante de Pau­ lo. Teias de intriga, de oposição e de interesses pessoais os vestem tão segura­ mente quanto o fazem seus ternos escuros e suas vestimentas típicas.

A eles Paulo diz: “Vós confirmais o grande principio de que as relações entre os povos devem ser regidas pela razão, pela justiça, pela negociação - não pela força, pelo medo ou pela fraude. ”

Somente no vindouro ano de 1966, por motivos previstos e excluídos pe­ la Carta das Nações Unidas, haverá supressão de liberdades humanas no Haiti (2* fila) e na África do Sul (6? fila); guerrilhas, guerra civil e conflitos em am­ bos os Congos ( 10? fila), índia (2? fila), República Dominicana ( 11? fila),

Guatemala (l?fila) e Indonésia (2? fila). Os negros se sublevarão em quarenta

e três cidades americanas, protestando contra a discriminação. Serão muitos os refugiados da guerra e da opressão: 12 mil cubanos na Espanha e 200 mil

nos Estados Unidos; 15 mil refugiados da Guiné portuguesa no Senegal; 700

mil na Europa Ocidental, vindos dos países da Cortina de Ferro; 50 mil tibe-

tanos no Nepal e na Ihdia; 1 milhão e 100 mil chineses em Hong Kong e 80

mil em Macau, oriundos do continente comunista; 800 mil refugiados árabes

no Líbano, na Síria, no Iraque e na Jordânia; 12 mil sul-vietnamitas no Cam­ boja; 575 mil africanos deslocados por guerras civis e por rebeliões. Por volta

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de setembro de 1966, 300 mil pessoas terão sido mortas na guerra civil indo­ nésia. Até dezembro, somente norte-americanos terão morrido 6.644 na guerra do Vietnã.

No entanto, Paulo diz "não há necessidade de longos discursos para pro­ clamar os propósitos desta instituição

Diante de Paulo estão sentados os representantes de nações que elevarão a novos níveis, com vistas à futura violência e à morte, a acumulação de ar­ mamentos. No ano fiscal de 1966, o Reino Unido (7? fila) terá um orçamen­ to militar de 6.081 bilhões de dólares; a França (l^fila), de 4.465 bilhões de dólares; o Japão (33 fila), de 946 milhões de dólares; a URSS (7? fila), de 14.208 bilhões de dólares; os Estados Unidos da América (8?fila), de 57.718 bilhões de dólares. As duas últimas nações fornecerão aos países árabes e a ,íárael o material que iria tomar possível a guerra de junho de 1967. O Paquis­ tão (5? fila) aceitará da China Comunista as armas com que lutará contra a índia.

Paulo continua “É suficiente recordar que o sangue de milhões de ho­ mem, que'incontável e inauditos sofrimentos, que inúteis massacres e ruínas terríveis selaram o pacto que vos une, com um voto que deve mudar a história futura do mundo:Nunca mais Guerra! Guerra, nunca mais!”

* * *

Depois de seu discurso, Paulo ficou de pé, no início de uma fila de tre­ zentos homens, que o recepcionavam na extremidade norte do salão de re­ creio dos delegados, de frente para um grande mapa-múndi cor de chocolate. Todos caminharam até ele de boa vontade, cumprimentaram-no de maneira agradável, alguns reverentemente: as Grandes Potências, a China Nacionalista; os aliados e satélites dos soviéticos; o Terceiro Mundo, não comprometido. Para todos eles Paulo tinha uma palavra. Os observadores tomaram nota dos momentos extras que gastou com Gromyko; da reverência da Sra. Gromyko; do carinhoso aperto com as duas mãos para Arthur Goldberg; dos africanos e asiáticos que beijaram o anel de Paulo; de sua gentileza com Jacqueline Ken- nedy.

No fim, Paulo dirigiu um último olhar aos convivas reunidos. Mais não- europeus do que europeus. Mais não-cristãos do que cristãos. Essa a lição que lhe ficou na memória.

Quando o avião que conduzia Paulo e sua comitiva, seus presentes e cin­ qüenta e dois repórteres fez um arco no céu por sobre Manhattan e as Nações Unidas, Paulo mal contava dois anos de reinado. Contudo, no âmago da lição que aprendera estava a sinistra intuição da irreversibilidade da nova condição de sua Igreja, a que os Papas haviam resistido durante mil anos. Paulo falaria a muitos sobre tal intuição, nos anos que estavam por vir.

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ape-nas despontando na multidão heterogênea das Nações Unidas. E quanto mais depressa se preparasse a Igreja para despojar-se de tudo aquilo que adquirira através de regionalismo, de nacionalismo e de cultura, mais pronta e adapta­ da estaria ela para sobreviver, para florescer e, finalmente, prevalecer entre os humanos como o único portal de revelação divina.

Mas para o observador superficial, a mensagem fundamental da visita de Paulo não era lá grande coisa: “Nós, a Igreja, ficamos na segunda linha*’, sua visita parecera dizer. “Como organização, sabemos que não temos voz nos seus negócios. Contudo, queremos lembrar-lhes que estamos aqui.”

Essa foi a primeira expressão, concreta e obstinada, do humanismo inte­ gral de Paulo.

Primavera de 1969

É tarde da noite, no gabinete papal do terceiro andar do Palácio Apostó­ lico. Momento e lugar nenhuns, mais isolados, seguros e secretos, foram en­ contrados por muitos dos Papas anteriores para reuniões ultra-sigilosas.

A reunião dizia respeito às finanças do Vaticano. Tais encontros têm sido parte dos negócios papalinos há mais de mil anos.

Não há registro oficial sobre a reunião no livro de compromissos de Paulo - e nunca houve. Em todas as semanas de todos os anos, na história dos Pa­ pas, da mesma forma que na história dos primeiros-ministros, dos presidentes, dos reis e dos chefes das grandes empresas, sabemos da existência dessas “não- reuniões” .

Paulo chega a um acordo, apondo sua assinatura como Papa num docu­ mento bilateral, num contrato. Os arquivos do Vaticano estão cheios de do­ cumentos desse tipo.

Em conseqüência dessa assinatura, Paulo vincula e compromete uma par­ te considerável dos recursos financeiros do Vaticano e do dinheiro papal. Os Papas sempre se consideraram — e acertadamente — os únicos administradores responsáveis por aquilo que sempre se chamou em Roma de “patrimônio de Pedro” .

A cena é excepcional apenas num único ponto. Com sua assinatura, o Pa­ pa Paulo autorizava o financista a vender o controle acionário do Vaticano (350 milhões de dólares) no enorme conglomerado Società Generale Immobi- liare. Com aquela assinatura, Paulo permitia igualmente o acesso de Sindona a outros recursos do Vaticano, para ulteriores investimentos.

Os centros financeiros da Europa e dos Estados Unidos passarão anos cheios de histórias inacabadas, de relatos deturpados, de informações desvai­ radas e de versões incompletas daquilo que veio a ser um prejuízo financeiro de proporções aparentemente enormes para o Vaticano. 77 crack Sindona — a catástrofe Sindona - não é um caso simples. Que a assinatura ocorreu naque­ las circunstâncias entre o Papa Paulo e Michele Sindona é, agora, um fato ad-37

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