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Série Oito —

No documento O Conclave - Malachi Martin (páginas 90-107)

POR INICIA TIVA DE PA ULO VIE DO SECRETÁRIO

DE ESTADO VILLOT, 0 VATICANO COMEÇA A PREPARAR OS ESPÍRITOS PARA A PARTICIPAÇÃO COMUNISTA NOS GO VERNOS EUROPEUS

0 primeiro indício dessa iniciativa aparece em junho desse ano, e começa na França. Para o Vaticano, da mesma forma que para Moscou, a França é a cavilha da evolução política da Europa, tal como a Alemanha o é em relação à sua evolução econômica e militar. Da maneira como vai a França, politica­ mente, assim irá o resto da Europa Ocidental — esse é um axioma da geopolí- tica vaticana. Observando as eleições nacionais francesas de março de 1978, os funcionários do Vaticano inferem que se os comunistas, aliados ou não aos socialistas, emergirem como participantes do govemo, esse fato será um exem­ plo e um estímulo para a Itália, a Espanha e Portugal.

Os bispos franceses publicam dois documentos, em junho desse ano: so­ bre marxismo e cristianismo, e sobre a condição dos cristãos no mundo operá­ rio. São ambos inspirados por Villot — e, em última análise, por Paulo.

Os bispos falam muito francamente. “É claro” , dizem eles, “que marxis­ mo e cristianismo, como filosofias, são incompatíveis.” Mas essa incompatibi­ lidade, continuam argumentando, não nos dá o direito de recusar a admissão dos marxistas no governo, nem em qualquer outro setor da vida pública. É evidente que precisamos estar vigilantes, e fazer aos marxistas as perguntas certas. Num diálogo encorajador. E evitando qualquer rompimento com eles. Mas cabe, então, que os deixemos agir livremente. Por quê? Porque: “Não po­ demos exigir da fé religiosa que desempenhe um papel que não pertence à fé religiosa. Ora, não se supõe que essa fé seja a inspiradora de nossas ações.”

Depois, na edição de 9 de setembro do jornal vaticano Osservatore Roma­ no, Federico Alessandrini, o porta-voz e veiculador das opiniões de Paulo VI, aparece dizendo a história toda:

“É evidente que mesmo uma simples participação dos partidos comunis­ tas no poder, em alguns países ocidentais como a Itália, a França e possi­ velmente a Espanha, significaria sucesso substancial para a União Soviéti­ ca... Mas, da maneira como estão as coisas, a hipótese não parece distante da realidade. Nem é possível ver como os Estados Unidos poderiam fazer oposição a uma ação desenvolvida de acordo com a autodeterminação dos povos.”

Isso é uma clara advertência aos Estados Unidos de que o Vaticano já to­ mou sua própria decisão; de que os Estados Unidos deveriam respeitar o ideal democrático de uma eleição livre, na Itália, que conduzisse os comunistas ao poder, e que não deveriam interferir nos assuntos internos da Itália.

Em 19 de setembro, Paulo recebe uma delegação do regime comunista da Checoslováquia, chefiada por Karel Hruza, Diretor do Secretariado para Assuntos Religiosos, do Conselho de Ministros da Checoslováquia. Juntos, Paulo e Hruza examinam novos acordos entre o Vaticano e aquele país, e Pau­ lo está a caminho de conseguir maior liberdade para os onze milhões de cató­ licos romanos do país e a suspensão da interdição em vigor sobre os quinhen­ tos e quarenta sacerdotes sujeitos a uma lei de silêncio e inatividade, que lhes fora imposta pelo regime comunista.

Quando o enviado pessoal do Presidente Jimmy Carter a Paulo VI, o ad­ vogado de Miami David M. Walters, se avista com o Papa para uma palestra de uma hora de duração, em 6 de outubro, as respostas e as observações de Paulo a Walters são diplomaticamente orientadas, mas claras: Nós não somos contra a participação marxista no governo, aqui ou em outro qualquer lugar.

Quando o programa de direitos humanos do Presidente Carter surge co­ mo tópico das conversações romanas, as autoridades mostram-se cautelosas. Afinal de contas, assinalam, Carter acaba de receber Julius Nyerere, da Tan­ zânia, e o saudou como “um político soberbo, que detém a chave da futura paz, da igualdade de tratamento e da liberdade na África”. O governo dos Es­ tados Unidos sabe, naturalmente, que Nyerere: redistribuiu a metade da po­ pulação camponesa; queimou-lhes as casas, espancou e matou aqueles que opuseram resistência; não admite o direito de greve, nem a imprensa livre; mantém mais de 7.000 presos políticos em cadeias imundas; e usa a tortura e o assassinato para se conservar no poder sem uma oposição eficiente.

Se ainda há qualquer dúvida sobre a posição do Vaticano, Monsenhor Virgilio Levi, Vice-diretor do Osservatore Romano, escreve na primeira pági­ na da edição de 27 de outubro:

“O marxismo parece estar mudando e os católicos precisam que a Igreja 91

os ensine a julgar quando devem colaborar com os marxistas para o bem comum...”

Os católicos devem ser instruídos de maneira tal que se tomem “sensíveis à evolução sócio-política, onde tal evolução esteja ocorrendo, que sejam capa­ zes de compreender aquilo que é válido, no que estiver sendo proposto,mas capazes também de ser firmes na avaliação do que se desvia de Cristo e da ati­ tude cristã diante da vida e da conduta...” . Assim, visando à colaboração com os marxistas, a Igreja deve formar cristãos que estejam “prontos a colaborar, com franqueza e objetividade, onde a colaboração seja requerida pelo bem comum”.

O fato brutal é que, nas eleições parlamentares do ano anterior, os comu­ nistas italianos conquistaram 34,4% dos votos. Os democratas-cristãos conse­ guiram 38,7%. Os comunistas oferecem estabilidade, num país em que o po­ vo, já de há muito, abandonou a idéia cristã de que o governo fosse o defensor e o promotor do bem comum. O poder político na Itália — como em toda parte - é visto como um meio de garantir o bem econômico pessoal dos polí­ ticos. “Sendo assim, vamos aceitar o governo com marxistas”, conclui o po­ vo. O Vaticano de Paulo está de acordo com isso tudo. Não há outro caminho.

O CARDEAL BENELLI APARECE ESCALADO PARA

IMPORTANTE PAPEL, ENQUANTO O PAPA PA ULO SE PREPARA PARA A PRÓXIMA DOMINAÇÃO MARXISTA DOS GOVERNOS DA EUROPA OCIDENTAL

As ações do Papa parecem revelar uma séria insegurança, em sua mente, quanto ao sucesso final da revolução que deseja que ocorra no governo da Igreja. É certo que fez tudo que pôde, através de suas nomeações de novos cardeais, para aumentar a chance de um Papa do Terceiro Mundo. Ao mesmo tempo, na revisão a que procedeu quanto às regras do Conclave, deu ênfase ao status do Papa como Bispo de Roma, aparentemente para tornar possível ao futuro Pontífice situar-se entre os chefes das outras Igrejas Cristãs como um igual entre seus iguais distinguido por honras especiais — o primeiro entre seus pares, um Bispo entre bispos.

Ainda está convencido de que uma revolução integral está a caminho, mas já agora o Cardeal Vagnozzi, entre outros, convenceu Paulo de que um candidato pan-europeu é a melhor coisa que pode esperar, como medida inter­ mediária, para prevenir o pior. O pior, nesse caso, poderia ser a disparada da maior parte dos Eleitores na direção de um tradicionalista completo. E, se houver um candidato pan-europeu que venha a ser eleito Papa, pelo menos isso poderá servir para aglutinar aqueles Cardeais que se estão inclinando a so­ luções ultraprogressistas — coisa que Paulo não favorece dentro da própria Igreja, muito embora esteja disposto a acomodar os marxistas de outras ma­ neiras.

No início de 1977, Paulo fez uma revisão na maneira bastante liberal sob que vinha encarando a possibilidade de um governo eurocomunista na Itália e em outros lugares. É claro que houve pressões de fora do Vaticano, sobre Paulo, para modificar sua posição original nesse ponto. Um exemplo: numa reunião realizada em abril do ano anterior no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (Center for Strategic and International Studies), na Universi* dade de Georgetown, os participantes — pessoas como Horace Rivero, William Colby, John Connolly, Clare Boothe Luce, Ray Cline, entre outras — expuse­ ram claramente o efeito desastroso que um governo comunista na Itália teria sobre interesses vitais dos Estados Unidos.

A continuada revisão a que Paulo submeteu a posição que antes adotara deve-se, em grande parte, ao trabalho de autoridades americanas, perturbadas pela política “aberta” que ele vinha seguindo. Além disso, Vagnozzi, o espe­ cialista em finanças do Vaticano, assim como outras pessoas, salientara que, apesar dos prejuízos causados por Sindona, as finanças pontifícias dependiam então, de forma vital, dos Estados Unidos e de sua atitude favorável em rela­ ção ao Vaticano.

Em conseqüência, Paulo reverte, de alguma forma, a uma idéia que tive­ ra na década de 60: uma Europa unida, capaz de se tornar, mais uma vez, uma força política e econômica no mundo, mesmo tendo que passar por um perío­ do de “finlandização” pela Rússia. “No fim de contas” , Paulo iria observar em agosto daquele ano, “nada de novo está vindo da Rússia ou da China — a cultura está morta, a tecnologia delas é tomada emprestada dos Estados Uni­ dos. E os Estados Unidos estão acabados. A Europa ainda tem, espiritual, in­ telectual e culturalmente, os recursos que permitirão anunciar um novo ca­ minho” .

É com isso em mente que, em 27 de junho, ele providencia para que seu auxiliar de confiança, o Arcebispo Giovanni Benelli, de 56 anos, seja feito Cardeal. Tem, naturalmente, outras razões para fazer isso. Benelli, fiel a Pau­ lo, é odiado por outras poderosas personalidades do Vaticano. Se Paulo mor­ resse e deixasse Benelli como um simples arcebispo, este poderia muito bem acabar como bispo-residente de qualquer paróquia de sétima categoria, nal­ guma cidade murada na distante e montanhosa Calábria, ou terminar seus dias copiando documentos em alguma secretaria obscura do Vaticano. E pre­ ciso que ele seja protegido e também é preciso que tenha voz nos Conclaves vindouros — que seja, possivelmente, eleito Papa em alguma data futura.

Mas, acima de tudo, o cardinalato de Benelli irá lhe dar a posição em que poderá assumir um novo papel: o de organizador de uma “nova alma” para a Europa. Procurará galvanizar interesses culturais, econômicos, religiosos e políticos em torno de uma nova unidade européia, e buscará apoio para essa unidade. Como Cardeal, Benelli e um grupo de bispos católicos deverão se en­ contrar, nesse outono, com diversos políticos europeus.

Lançando o olhar sobre a futura programação de atividades dos Cardeais-

Eleitores no Conclave seguinte, Paulo chega à decisão de que a tendência no sentido de uma “abertura” está exigindo um certo freio. Além de Benelli, faz três outros cardeais que, está certo, constituirão esse freio necessário: o Padre Luigi Ciappi, sacerdote dominicano e teólogo de três Papas, inclusive do pró­ prio Paulo; o Arcebispo Bernardin Gantin, de Benin, de 55 anos de idade, já membro da Cúria Romana, e Josef Ratzinger, Arcebispo de Munique. Desses três, Gantin e/ou Benelli um dia poderiam ser Papas.

PA VLO REA VIVA OS R UMORES DE UMA PRÓXIMA RENÚNCIA - PROMOVE, ABERTAMENTE, MANOBRAS ELEITORAIS.

A S GRANDES POTÊNCIAS REAGEM

Alimentados pelas afirmações do próprio Paulo, feitas pelo menos em três ocasiões, de que “o fim está próximo” , os boatos sobre sua renúncia fer­ vilham, durante os primeiros nove meses de 1977. Algumas chancelarias co­ meçam a se preparar para uma renúncia no outono; muitas delas passam a

agir como se o grupo que cerca Paulo não tivesse mais o poder ou o prestígio

da corte papal.

Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Rússia indagam oficialmente de seus contatos no Vaticano da possibilidade da renúncia de Paulo. Isso porque, a despeito do que várias facções nesses países possam pensar, aquilo que acon­ tece no Vaticano tem um profundo significado para as diversas potências.

Enquanto isso, exatamente antes de Paulo se afastar para a Vila Papal de Castel Gandolfo, a Rádio Vaticano e o jornal Osservatore Romano, também do Vaticano, dão a público sarcásticas negativas da iminente renúncia do Pon­ tífice.

É claro que há amplos fundamentos para a suposição de que Paulo permi­ tiu — e mesmo alimentou — semelhantes rumores. Seu motivo: fazer com que se definam abertamente as manobras eleitorais — atar tantas mãos da oposi­ ção quantas seja possível, o mais cedo que puder, antes do fato.

Ao mesmo tempo, exibe uma vitalità, como os italianos definem, delicia­ dos, extremamente inadequada num Pontífice que está, supostamente, nas últimas, prestes a morrer, ou a se arrastar de cena, incapacitado. Vai para Pes­ cara de trem, no calor de setembro; prega sob a chuva, para aqueles que com­ parecem ao Congresso Eucarístico; depois, coroando tudo isso, ao se despedir de um grupo de peregrinos espanhóis, põe as mãos em concha e grita, cheio de ânimo e de bom humor: “ Tomate/ Tomate! Vi trovarete ancora alVappunta- mento!" (Voltem outra vez! Voltem outra vez! Estejam de novo aqui para sua próxima audiência!)

Este Papa velho e enfermo, um “Atlas solitário” , nas palavras do Cardeal Suenens, está fazendo um jogo final muito mais inteligente do que muitos de seus colegas mais jovens.

CARDEAIS AMERICANOS TENTAM RECUPERAR O PLANO DA INICIATIVA AMERICANA. FISCALIZAÇÃO, VEXAME, PERSEGUIÇÃO, ISOLAMENTO SÃO A ORDEM DO DIA PARA A IGREJA NA EUROPA ORIENTAL

0 primeiro grande movimento no sentido da reparação dos estragos e da recuperação das esperanças da Iniciativa Americana é feito em l?d e agosto de 1977, com a viagem do Cardeal Cooke à Polônia. Ele mantém conversa- ções em Varsóvia com dignitários da Igreja, na chancelaria do Cardeal Primaz da Polônia, Stefan Wyszynski — notadamente com o Bispo Zbiegniew Kras- zemski, que certamente será cardeal. Faz um extenso circuito pelas dioceses do noroeste da Polônia, gastando nisso cinco dias. Toma parte na peregrina­ ção nacional polonesa ao venerado santuário da Virgem, em Czçstochowa, on­ de reza junto com 80.000 poloneses.

Também em Czçstochowa, discute o assunto dos candidatos a Papa com o Cardeal Wyszynski, assim como com o Cardeal Nasalli Rocca, sediado em Roma, e igualmente participante da peregrinação a Czçstochowa e que é um tradicionalista.

Depois disso, Cooke dirige*se a Cracóvia, para conversações semelhantes sobre os mesmos tópicos com Wojtyla.

O segundo movimento importante para restauração da Iniciativa Ameri­ cana começa quando o Cardeal Krol, o Arcebispo Joseph Bernardin, de Cin- cinnatti (a essa época Presidente da Conferência dos Bispos Americanos) e o Bispo James S. Rausch, de Phoenix, no Arizona, seguem juntos do Aeroporto Internacional de Filadélfia, no dia 20 de setembro, para uma semana de visita ao Cardeal Lekai, da Hungria. Estão seguindo nas pegadas de Billy Graham, que acaba de visitar o país e voltará aos Estados Unidos dizendo que encon­ trou liberdade religiosa na Hungria. Um sonho agradável, esse, mas que não é capaz de cegar os olhos de muitos homens — e, certamente, não os do Cardeal Lekai.

Aparentemente, trata-se de uma visita eclesiástica, feita por um cardeal e dois bispos a um sacerdote irmáó. Afinal de contas, o próprio Paulo VI rece­ beu o chefe comunista da Hungria, Janos Kadar, no Vaticano, no começo da­ quele ano. Então, é muito natural que esses importantes prelados celebrem uma Missa Solene, como fazem Krol e Bernardin, na Catedral de Santo Este­ vão, em Budapeste, diante de uma congregação de 3.000 pessoas, que inclui toda a hierarquia de bispos húngaros e mais o ilustre Imre Miklos, chefe da Secretaria de Governo para Assuntos Religiosos. Oportuno, também, que ba­ tizem 60 crianças recém-nascidas e que compareçam a um espetáculo musical comemorativo na Igreja Matthias da Coroação, em honra do aniversário de Paulo VI. Essa visita é cheia de apropriados eventos eclesiásticos desse tipo.

Em particular, os americanos verificam o progresso das discussões diplo­ máticas entre o Vaticano e a Hungria. As coisas estão progredindo lentamen­

te, e não se consegue nada que seja prometedor. Os húngaros só estão interes­ sados em atitudes de grande valor propagandístico: a pública normalização de relações, de modo que os funcionários comunistas possam ser fotografados com os religiosos; a volta da coroa de Santo Estevão para a Hungria (o gover­ no dos Estados Unidos está de posse dela há muitos anos), coisa que os prela­ dos americanos podem conseguir facilmente com Jimmy Carter — e assim por diante. Os prelados americanos estão interessados em assuntos substanciais, tais como a liberdade de culto e a liberdade de publicações.

Os americanos deixam claramente perceber o que pensam sobre outros pontos, perante Lekai. E têm uma mensagem complexa a transmitir ao Car­ deal da Hungria: o papabile mais viável, agora, é um pan-europeu. A posição que está sendo assumida por uma crescente maioria de Cardeais-Eleitores fa­ vorece uma política talhada muito semelhantemente à que vem sendo tecida pelos Estados Unidos, quanto a permitir que os governos eurocomunistas atin­ jam o poder em países europeus, mas sem que fique manifesto mesmo o apoio tácito a uma mudança desse tipo em matéria de ideologia.

Nenhum dos americanos vai embora com uma certeza total de que a se­ gurança das famílias e dos amigos dos religiosos húngaros não venha a ser usa­ da como meio de garantir que esses religiosos se esforcem por uma abordagem pró-marxista, em suas atividades e em suas declarações públicas. Nem podem os americanos descobrir exatamente até que ponto as simpatias dos clérigos húngaros se inclinam no sentido de uma aliança marxista-cristã. Na viagem de volta da Hungria, Krol pára dois dias em Praga, na Checoslováquia - 29 e 30 de setembro — para conversar com o Cardeal Frantisek Tomaáek. Nesse país, o panorama é mau para a Igreja - o mais desolador, excluídos o Vietnã do Norte e a Albânia. E ela sujeita a uma perseguição, a um tormento e a um iso­ lamento implacáveis. “‘Qual é o maior problema?” pergunta Krol a certa altu­ ra. “Ser ou não ser” , é a amarga resposta de Tomasek, que não aprecia muito a indecisão hamletiana do Papa em relaçSo ao marxismo. “Sua Santidade não percebe que estamos sendo sufocados aqui?” exclama Tomaíek.

A atitude de TomaSek é clara, ainda que no fim um pouco decepcionan­ te. Estará do lado dos poloneses, na questão de um papabile. Acha que Lekai está sob uma vigilância exagerada e sob excessivo controle, e que está total­ mente isolado. Embora vá se colocar ao lado dos poloneses, pessoalmente pre­ feriria esperar e observar, no que diz respeito a um papabile pan-europeu. Não está certo de que, afinal de contas, a Igreja não esteja precisando de um Papa tradicionalista — pelo menos por algum tempo. “Bem, e que tal um tradicio­ nalista pan-europeu?” é a pergunta crucial.

PA ULO TEM RENO VADAS ESPERANÇAS DE EFETUAR UMA MUDANÇA REVOLUCIONÁRIA

Na realidade, Paulo não tem a intenção de renunciar em setembro de 1977. Ainda uma vez, as circunstâncias proíbem isso, No momento, há por trás dos bastidores delicadas negociações com governos comunistas em Praga e em Budapeste. As discussões com intermediários da Rússia continuam sob forma intermitente. E o próprio assunto de tais discussões dá a Paulo alguma esperança de que sua idéia de reforma do sistema do Conclave (e, com isso, do método de governo da Igreja) possa ser concretizada. Isso porque um dos principais assuntos sob discussão é a sorte do Patriarcado de Moscou e suas relações com o Papado.

O fluxo de informações e de acontecimentos, nesse ano, aumenta o inte­ resse de Paulo. O Superior-Gcral dos Jesuítas, Padre Pedro Arrupe, faz uma viagem a Moscou e a outros lugares, na função de contato e para recolher in­ formações de natureza delicada. A declaração que Arrupe faz na volta - de que viu sinais de abrandamento na perseguição religiosa na Rússia — é aberta­ mente contraditada pelo Padre Casimir Pugevicus, Diretor da Ajuda Religio­ sa Católica da Lituânia. Em sua carta, escamoteada da Rússia, Pugevicus des- trói a afirmação de Arrupe, dizendo que é uma “manobra oportunista dos soviéticos” , usada para criar uma falsa impressão.

Na Itália, as negociações para um novo acordo entre o Estado Italiano e o Vaticano estão quase terminadas. O novo acordo irá substituir a Concor­ data de Latrão, de 1929, e colocará a Igreja no lugar em que Paulo acha que

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