COM SEUS MAIS RECENTES CARDEAIS, O PAPA PA ULO GARANTE NOVA TRANSFERÊNCIA DE PODER DA EUROPA E DAS NA ÇÕES INDUSTRIAIS DO OCIDENTE
Em 24 de maio, o Papa Paulo anuncia a criação de vinte e um novos Cardeais, mais da metade dos quais é oriunda do Terceiro Mundo. Só há trés italianos. Há mais três do Leste Europeu: Filipiak, da Polônia, um tradiciona lista; Lekai, da Hungria, um progressista; Toma5ek, da Checoslováquia, um tradicionalista. Há aquilo que se chama de nomeações obrigatórias (ou porque a diocese ocupada por um Bispo ou Arcebispo é tradicionalmente chefiada por um Cardeal, ou porque determinado Bispo ou Arcebispo conseguiu, por uma razão ou por outra, a promessa de um “chapéu vermelho”): Baum, de Washington, D.C., um conservador; Hume, da Grã-Bretanha, um progressista. Todos esses estarão em condições de votar no Conclave, no ano vindouro ou no que vier depois do vindouro.
INTENSA ATIVIDADE POLÍTICA PESSOAL DE CARDEAIS NO CENÁRIO INTERNACIONAL - PIGNEDOLIMUITO EM EVIDÊNCIA
Há novas excursões cardinal/cias e ainda mais acontecimentos fortuitos facilitando discussões de viva voz entre futuros Eleitores do Conclave.
0 Cardeal Conway, da Irlanda, morre no mês de abril. Ao seu funeral, na Irlanda, comparecem seis Cardeais, dois dos Estados Unidos. 0 Cardeal Pigne- doli sai em uma prolongada viagem pelos Estados Unidos e isso é parte de
uma ronda por todo o mundo, durante a qual ouve monges tibetanos na Suí ça, hindus na Inglaterra, muçulmanos nas Filipinas e na Líbia, árabes-sauditas e egípcios no Oriente Médio - tudo isso, ostensivamente, em função de seu cargo de Prefeito do Secretariado do Vaticano para as Relações com os não- cristãos. Mas a viagem é a excursão de um papabile feita em interesse próprio.
Nos Estados Unidos, o ponto culminante da viagem de Pignedoli é uma convenção na sede do Maryknoll, em Ossining, Nova Iorque. Muitos - não todos — dos padres e freiras de Maryknoll são conhecidos por toda a América Latina por estarem profunda e ativamente envolvidos, ou comprometidos, com ativistas políticos e guerrilheiros.
Em 15 de julho, Pignedoli prega uma homilia especial. Na presidência, ali, está Peter Gerety, Arcebispo de Newark, que dá a tônica da convenção com a afirmativa de que o Evangelho precisa intçgrar-se “nas estruturas glo bais, políticas e sócio-econômicas, que, cada dia, se tornam mais importan tes”. E Pignedoli, juntamente com dois Arcebispos — um dos quais é Marcos McGrath, do Panamá - meia dúzia de bispos, setenta e cinco padres e freiras e um contingente de leigos, desafia a Igreja Católica Romana “a tornar a justi ça social e os direitos humanos partes integrantes do Evangelho”. Essa é a forma usada por Pignedoli para exprimir o plano de Paulo, para “a abertura decisiva da Igreja ao amor por toda a Humanidade”.
O Congresso Eucarístico de Filadélfia, em agosto, dá outra oportunidade para uma grande reunião de Cardeais, nacionais e estrangeiros. A palavra mais importante que vem de Roma é que uma renúncia de Paulo a seu Pontificado é muito possível, no ano seguinte, 1977, na data do aniversário dele, em 26 de setembro. É um pensamento galvanizador!
A Iniciativa Americana progride, de algum modo, nas discussões particu lares.
Lekai, da Hungria, acompanhado de um padre secular, está presente, mas fica bastante isolado de todos os outros, já que ninguém se sente muito segu ro quanto à posição em que ele se coloca, ou àquilo em que está implicado,
Quando o Congresso termina, e depois de uma viagem pelos Estados Uni dos, o Cardeal Wojtyla, da Polônia, é hóspede pessoal do Cardeal Cooke, de Nova Iorque. Existe agora um forte sentimento de concordância, favorecendo a Iniciativa Americana, entre os poloneses e os trés americanos, Krol, Cooke e Manning, de Los Angeles. Mas Cody, dc Chicago, Carberry, de St. Louis. She- han, de Baltimore (já afastado mas em condições de votar no Conclave até o fim de 1978), e 0 ’Boyle, de Washington (também já afastado), todos tradicio nalistas, opõem-se à Iniciativa Americana.
Os poloneses concordam em entrar em contato com outros europeus.
ESPERA-SE QUE O CONCLA VE SEJA COMPLEXO.
HÕFFNER, DE COLÔNIA, SURGE COMO POSSÍVEL CANDIDA TO 0 futuro Conclave 82 promete ser muito mais complicado do que qual quer outro deste século, de que se tenha lembrança. Na medida em que as opi niões dos futuros Eleitores e atuais fazedores de Papas vão chegando, com re comendações sobre a política pontifícia que deveria ser seguida pelo futuro ocupante do trono de Pedro, são elas analisadas e coordenadas numa epítome geral. Parece não haver como se harmonizarem as diferentes facções — tão di vergentes são seus pontos de vista e tão inseguras as condições econômicas e políticas esperadas para os dez anos seguintes.
Aos poucos, as reações aos Documentos sobre a Situação e aos Relatórios Especiais são reduzidas a um Documento de Política Geral. Para espanto de todo mundo, e para satisfação de Villot, o consenso geral parece orientar-se no sentido da escolha de um Papa italiano que não seja um homem da Cúria. Todos tendem a considerar que o próximo papa deve ser previsto para um pontificado de dez anos. Essa conclusão mais ou menos determina que a es colha deverá recair num candidato com uma expectativa de vida e saúde cor respondente a esse prazo.
A despeito dessa aparente concordância de opinião, permanece, no cen tro das coisas, no Vaticano, a sensação de que os roncos e os movimentos subterrâneos, dos quais lá se tem consciência, só se definirão no Conclave. A possibilidade de uma arrancada por parte da mentalidade da “abertura para os marxistas1’ e do Terceiro Mundo, exigiu dos conservadores um plano de emergência na direção de um candidato pan-europeu. E, de fato, todos esses que estão impulsionando a idéia de um candidato pan-europeu são, principal mente, conservadores com uma tintura tradicionalista.
Mais de um Eleitor conservador, em principio pouco disposto a ser indi cado como um papabile, revelou que concordaria em ser candidato em duas circunstâncias. Primeiro, se assim pudesse desalojar a candidatura de alguém apresentado pelos progressistas; ou, segundo, se pudesse frustrar uma tentati va da Cúria para conseguir a eleição de um verdadeiro tradicionalista italiano. Há uma terceira circunstância: embora ainda não seja cardeal, o Arcebispo Be- nelli, atual Subsecretário de Estado e íntimo colaborador do Papa Paulo, será cardeal antes da morte de Paulo. Para bloquear a candidatura de Benelli, mais de um conservador estaria disposto a se ver indicado.
DETERIORADA A INICIATIVA AMERICANA:PERDE CREDIBILIDADE ENTRE OS ALIADOS EUROPEUS
Um fator inesperado pôs a Iniciativa Americana em extremo perigo: a reunião do Concílio Pastoral Nacional Americano (American National Pasto ral Council}, em Detroit, de 21 a 23 de outubro, aparentemente fazendo par
te da comemoração do bicentenário dos Estados Unidos. Denominado um Call to Action (CTA) — Chamado à Ação - e custando algumas centenas de milhares de dólares da Igreja, o encontro foi organizado pelo Cardeal Dear- don, de Detroit, com a muito ativa ajuda do Arcebispo Peter Gerety, de Ne- wark, e de Monsenhor John Eagan. O finado agitador profissional e teorista do caos, Saul Alinsky, teria ficado satisfeito, vendo a maneira como estava sendo conduzido o CTA.
Reunidos no encontro estão 1.340 delegados, de 152 dioceses america nas, e 1.100 observadores vindos de todo o país. Os delegados de cada diocese deveriam ser escolhidos pelos Bispos — isso é dever de Suas Senhorias. Mas, ao que se diz, os bispos deixam a escolha a critério de vários comitês diocesanos de nível inferior. Não é incomum que bispos assinem papéis aprovando coisas sem maior preocupação e sem prestarem muita atenção, quando tais papéis são postos debaixo de suas canetas por secretários diligentes. Ora, tais comi tês, em grande parte, são cheios de católicos radicais que na política são de esquerda, que são liberados em suas opiniões sobre sexualidade e, cultural mente, separados da passada história da Igreja Católica Romana. É claro que a esquerda da Igreja Católica deveria estar representada entre os delegados. Mas a maneira de agir de Suas Senhorias foi a garantia de que um número esmaga* dor de delegados pertencesse à esquerda.
Quarenta por cento dos que comparecem ao CTA são clérigos. Outros quarenta por cento são mulheres, principalmente freiras. Grupos especiais, presentes e muito ativos, compõem-se de ex-padres, ex-freiras, homossexuais, gente pró-aborto, marxistas-cristãos, socialistas-cristãos, cristãos pacifistas. E, ainda para ser explicado, resta o seguinte: como é possível que os bispos e car deais da Igreja Católica Romana nos Estados Unidos não vejam o que está pa ra vir?
O Delegado Apostólico, Arcebispo Jadot, também está presente, e age como poderia ser esperado de alguém que é um fraco teólogo. Reforça a im pressão que deu desde sua chegada aos Estados Unidos, enquanto viajou lar gamente por todo o país. Sua maior determinação, antes e durante o CTA, pa rece ser cultivar o mesmo tipo de popularidade de que gozou um de seus ante cessores, Amleto Cicognani, popular entre a totalidade dos bispos americanos, e que finalmente se afastou e foi para Roma, para tornar-se um dos Cardeais da Igreja. A atitude de Jadot em relação a tudo que se refere ao encontro denominado “Chamado à Ação” é, em suma, a da polida permissividade mais freqüentemente encontrada nos professores num feriado.
A reunião do CTA transforma-se numa lição objetiva das táticas parla mentares no estilo Alinsky. Toda objeção a idéias liberais é eliminada, silen ciada, esmagada; todas as moções inconvenientes apresentadas na assembléia são postas em pauta; qualquer ação de grupos opositores é recebida por uma claque vociferante. E tudo dá resultado. O CTA emite mais de mil resoluções e cento e oitenta e duas recomendações especiais. Alguns exemplos: que o
aborto, o homossexualismo, o sacerdócio feminino, os padres casados sejam todos legalizados na Igreja; que o marxismo seja isento de condenação; que a Igreja proponha e lute por uma sociedade sem classes - e assim por diante.
O Cardeal Krol, de Filadélfia, supostamente o primeiro sacerdote católico da América, tenta explicar isso tudo, no Detroit Free Press do dia 23 de outu bro. Fala em “rebeldes dominando a Conferência” e trata de minimizar a coi sa toda mencionando “uns poucos manipuladores, que tinham conseguido o apoio de um grupo de damazinhas simplórias” . E isso é muito pouco, vem muito tarde, é demasiado grosseiro, vindo de um homem tão importante, nu ma crise tão importante. 0 mal tinha sido feito.
Em 9 de novembro, o Cardeal Deardon tenta ridicularizar e encobrir tudo isso no relatório sobre o CTA, que apresenta na reunião dos bispos, em Was hington, D.C. Nenhum de seus colegas episcopais põe a culpa onde deveria ser posta.
Ao mesmo tempo, Krol defende o encontro do CTA como “a mais diver sificada assembléia em nossa história” — uma declaração tão inadequada, a propósito de uma reunião religiosa, que qualquer estranho desprevenido que entrasse naquele momento na conferência dos bispos poderia facilmente pen sar que Krol estava falando sobre a economia americana, a segunda guerra mundial no Pacífico, ou a carteira de investimentos do Vaticano, Diz a seus colegas que “a inteligência e o grau de engajamento daqueles que foram es colhidos para participar do encontro dão testemunho do discernimento dos bispos que os designaram” . Isso é mais sutil do que uma coonestação. Krol sa be tão bem quanto qualquer outra pessoa que os bispos não designaram os de legados. E sabe que deviam ter designado. Mas essa parece ser a maneira que. tem de dizer a seus colegas bispos: Bem, sem refletir, vocês assinaram os docu mentos que os tornaram oficialmente os delegados; sendo assim, estão meti dos nisso tão profundamente quanto eu.
Essa atitude extraordinária dos Cardeais americanos comprometeu seria mente, do princípio ao fim, a Iniciativa Americana, no que se refere ao julga mento dos Cardeais alemães e poloneses. Estes já encaravam os franceses co mo perigosamente esquerdistas — coisa que realmente são. E agora os ameri canos! Os alemães e poloneses desconfiam que Gerety e Deardon representem a posição majoritária dos bispos americanos. E a seus olhos Krol está compro metido, por causa de seu papel no CTA e da subseqüente defesa que fez do encontro. Vai ser necessário emendar muita cerca, para que a Iniciativa Ame ricana levante vôo outra vez.