• Nenhum resultado encontrado

Série Sete —

No documento O Conclave - Malachi Martin (páginas 85-90)

COM SEUS MAIS RECENTES CARDEAIS, O PAPA PA ULO GARANTE NOVA TRANSFERÊNCIA DE PODER DA EUROPA E DAS NA ÇÕES INDUSTRIAIS DO OCIDENTE

Em 24 de maio, o Papa Paulo anuncia a criação de vinte e um novos Cardeais, mais da metade dos quais é oriunda do Terceiro Mundo. Só há trés italianos. Há mais três do Leste Europeu: Filipiak, da Polônia, um tradiciona­ lista; Lekai, da Hungria, um progressista; Toma5ek, da Checoslováquia, um tradicionalista. Há aquilo que se chama de nomeações obrigatórias (ou porque a diocese ocupada por um Bispo ou Arcebispo é tradicionalmente chefiada por um Cardeal, ou porque determinado Bispo ou Arcebispo conseguiu, por uma razão ou por outra, a promessa de um “chapéu vermelho”): Baum, de Washington, D.C., um conservador; Hume, da Grã-Bretanha, um progressista. Todos esses estarão em condições de votar no Conclave, no ano vindouro ou no que vier depois do vindouro.

INTENSA ATIVIDADE POLÍTICA PESSOAL DE CARDEAIS NO CENÁRIO INTERNACIONAL - PIGNEDOLIMUITO EM EVIDÊNCIA

Há novas excursões cardinal/cias e ainda mais acontecimentos fortuitos facilitando discussões de viva voz entre futuros Eleitores do Conclave.

0 Cardeal Conway, da Irlanda, morre no mês de abril. Ao seu funeral, na Irlanda, comparecem seis Cardeais, dois dos Estados Unidos. 0 Cardeal Pigne- doli sai em uma prolongada viagem pelos Estados Unidos e isso é parte de

uma ronda por todo o mundo, durante a qual ouve monges tibetanos na Suí­ ça, hindus na Inglaterra, muçulmanos nas Filipinas e na Líbia, árabes-sauditas e egípcios no Oriente Médio - tudo isso, ostensivamente, em função de seu cargo de Prefeito do Secretariado do Vaticano para as Relações com os não- cristãos. Mas a viagem é a excursão de um papabile feita em interesse próprio.

Nos Estados Unidos, o ponto culminante da viagem de Pignedoli é uma convenção na sede do Maryknoll, em Ossining, Nova Iorque. Muitos - não todos — dos padres e freiras de Maryknoll são conhecidos por toda a América Latina por estarem profunda e ativamente envolvidos, ou comprometidos, com ativistas políticos e guerrilheiros.

Em 15 de julho, Pignedoli prega uma homilia especial. Na presidência, ali, está Peter Gerety, Arcebispo de Newark, que dá a tônica da convenção com a afirmativa de que o Evangelho precisa intçgrar-se “nas estruturas glo­ bais, políticas e sócio-econômicas, que, cada dia, se tornam mais importan­ tes”. E Pignedoli, juntamente com dois Arcebispos — um dos quais é Marcos McGrath, do Panamá - meia dúzia de bispos, setenta e cinco padres e freiras e um contingente de leigos, desafia a Igreja Católica Romana “a tornar a justi­ ça social e os direitos humanos partes integrantes do Evangelho”. Essa é a forma usada por Pignedoli para exprimir o plano de Paulo, para “a abertura decisiva da Igreja ao amor por toda a Humanidade”.

O Congresso Eucarístico de Filadélfia, em agosto, dá outra oportunidade para uma grande reunião de Cardeais, nacionais e estrangeiros. A palavra mais importante que vem de Roma é que uma renúncia de Paulo a seu Pontificado é muito possível, no ano seguinte, 1977, na data do aniversário dele, em 26 de setembro. É um pensamento galvanizador!

A Iniciativa Americana progride, de algum modo, nas discussões particu­ lares.

Lekai, da Hungria, acompanhado de um padre secular, está presente, mas fica bastante isolado de todos os outros, já que ninguém se sente muito segu­ ro quanto à posição em que ele se coloca, ou àquilo em que está implicado,

Quando o Congresso termina, e depois de uma viagem pelos Estados Uni­ dos, o Cardeal Wojtyla, da Polônia, é hóspede pessoal do Cardeal Cooke, de Nova Iorque. Existe agora um forte sentimento de concordância, favorecendo a Iniciativa Americana, entre os poloneses e os trés americanos, Krol, Cooke e Manning, de Los Angeles. Mas Cody, dc Chicago, Carberry, de St. Louis. She- han, de Baltimore (já afastado mas em condições de votar no Conclave até o fim de 1978), e 0 ’Boyle, de Washington (também já afastado), todos tradicio­ nalistas, opõem-se à Iniciativa Americana.

Os poloneses concordam em entrar em contato com outros europeus.

ESPERA-SE QUE O CONCLA VE SEJA COMPLEXO.

HÕFFNER, DE COLÔNIA, SURGE COMO POSSÍVEL CANDIDA TO 0 futuro Conclave 82 promete ser muito mais complicado do que qual­ quer outro deste século, de que se tenha lembrança. Na medida em que as opi­ niões dos futuros Eleitores e atuais fazedores de Papas vão chegando, com re­ comendações sobre a política pontifícia que deveria ser seguida pelo futuro ocupante do trono de Pedro, são elas analisadas e coordenadas numa epítome geral. Parece não haver como se harmonizarem as diferentes facções — tão di­ vergentes são seus pontos de vista e tão inseguras as condições econômicas e políticas esperadas para os dez anos seguintes.

Aos poucos, as reações aos Documentos sobre a Situação e aos Relatórios Especiais são reduzidas a um Documento de Política Geral. Para espanto de todo mundo, e para satisfação de Villot, o consenso geral parece orientar-se no sentido da escolha de um Papa italiano que não seja um homem da Cúria. Todos tendem a considerar que o próximo papa deve ser previsto para um pontificado de dez anos. Essa conclusão mais ou menos determina que a es­ colha deverá recair num candidato com uma expectativa de vida e saúde cor­ respondente a esse prazo.

A despeito dessa aparente concordância de opinião, permanece, no cen­ tro das coisas, no Vaticano, a sensação de que os roncos e os movimentos subterrâneos, dos quais lá se tem consciência, só se definirão no Conclave. A possibilidade de uma arrancada por parte da mentalidade da “abertura para os marxistas1’ e do Terceiro Mundo, exigiu dos conservadores um plano de emergência na direção de um candidato pan-europeu. E, de fato, todos esses que estão impulsionando a idéia de um candidato pan-europeu são, principal­ mente, conservadores com uma tintura tradicionalista.

Mais de um Eleitor conservador, em principio pouco disposto a ser indi­ cado como um papabile, revelou que concordaria em ser candidato em duas circunstâncias. Primeiro, se assim pudesse desalojar a candidatura de alguém apresentado pelos progressistas; ou, segundo, se pudesse frustrar uma tentati­ va da Cúria para conseguir a eleição de um verdadeiro tradicionalista italiano. Há uma terceira circunstância: embora ainda não seja cardeal, o Arcebispo Be- nelli, atual Subsecretário de Estado e íntimo colaborador do Papa Paulo, será cardeal antes da morte de Paulo. Para bloquear a candidatura de Benelli, mais de um conservador estaria disposto a se ver indicado.

DETERIORADA A INICIATIVA AMERICANA:PERDE CREDIBILIDADE ENTRE OS ALIADOS EUROPEUS

Um fator inesperado pôs a Iniciativa Americana em extremo perigo: a reunião do Concílio Pastoral Nacional Americano (American National Pasto­ ral Council}, em Detroit, de 21 a 23 de outubro, aparentemente fazendo par­

te da comemoração do bicentenário dos Estados Unidos. Denominado um Call to Action (CTA) — Chamado à Ação - e custando algumas centenas de milhares de dólares da Igreja, o encontro foi organizado pelo Cardeal Dear- don, de Detroit, com a muito ativa ajuda do Arcebispo Peter Gerety, de Ne- wark, e de Monsenhor John Eagan. O finado agitador profissional e teorista do caos, Saul Alinsky, teria ficado satisfeito, vendo a maneira como estava sendo conduzido o CTA.

Reunidos no encontro estão 1.340 delegados, de 152 dioceses america­ nas, e 1.100 observadores vindos de todo o país. Os delegados de cada diocese deveriam ser escolhidos pelos Bispos — isso é dever de Suas Senhorias. Mas, ao que se diz, os bispos deixam a escolha a critério de vários comitês diocesanos de nível inferior. Não é incomum que bispos assinem papéis aprovando coisas sem maior preocupação e sem prestarem muita atenção, quando tais papéis são postos debaixo de suas canetas por secretários diligentes. Ora, tais comi­ tês, em grande parte, são cheios de católicos radicais que na política são de esquerda, que são liberados em suas opiniões sobre sexualidade e, cultural­ mente, separados da passada história da Igreja Católica Romana. É claro que a esquerda da Igreja Católica deveria estar representada entre os delegados. Mas a maneira de agir de Suas Senhorias foi a garantia de que um número esmaga* dor de delegados pertencesse à esquerda.

Quarenta por cento dos que comparecem ao CTA são clérigos. Outros quarenta por cento são mulheres, principalmente freiras. Grupos especiais, presentes e muito ativos, compõem-se de ex-padres, ex-freiras, homossexuais, gente pró-aborto, marxistas-cristãos, socialistas-cristãos, cristãos pacifistas. E, ainda para ser explicado, resta o seguinte: como é possível que os bispos e car­ deais da Igreja Católica Romana nos Estados Unidos não vejam o que está pa­ ra vir?

O Delegado Apostólico, Arcebispo Jadot, também está presente, e age como poderia ser esperado de alguém que é um fraco teólogo. Reforça a im­ pressão que deu desde sua chegada aos Estados Unidos, enquanto viajou lar­ gamente por todo o país. Sua maior determinação, antes e durante o CTA, pa­ rece ser cultivar o mesmo tipo de popularidade de que gozou um de seus ante­ cessores, Amleto Cicognani, popular entre a totalidade dos bispos americanos, e que finalmente se afastou e foi para Roma, para tornar-se um dos Cardeais da Igreja. A atitude de Jadot em relação a tudo que se refere ao encontro denominado “Chamado à Ação” é, em suma, a da polida permissividade mais freqüentemente encontrada nos professores num feriado.

A reunião do CTA transforma-se numa lição objetiva das táticas parla­ mentares no estilo Alinsky. Toda objeção a idéias liberais é eliminada, silen­ ciada, esmagada; todas as moções inconvenientes apresentadas na assembléia são postas em pauta; qualquer ação de grupos opositores é recebida por uma claque vociferante. E tudo dá resultado. O CTA emite mais de mil resoluções e cento e oitenta e duas recomendações especiais. Alguns exemplos: que o

aborto, o homossexualismo, o sacerdócio feminino, os padres casados sejam todos legalizados na Igreja; que o marxismo seja isento de condenação; que a Igreja proponha e lute por uma sociedade sem classes - e assim por diante.

O Cardeal Krol, de Filadélfia, supostamente o primeiro sacerdote católico da América, tenta explicar isso tudo, no Detroit Free Press do dia 23 de outu­ bro. Fala em “rebeldes dominando a Conferência” e trata de minimizar a coi­ sa toda mencionando “uns poucos manipuladores, que tinham conseguido o apoio de um grupo de damazinhas simplórias” . E isso é muito pouco, vem muito tarde, é demasiado grosseiro, vindo de um homem tão importante, nu­ ma crise tão importante. 0 mal tinha sido feito.

Em 9 de novembro, o Cardeal Deardon tenta ridicularizar e encobrir tudo isso no relatório sobre o CTA, que apresenta na reunião dos bispos, em Was­ hington, D.C. Nenhum de seus colegas episcopais põe a culpa onde deveria ser posta.

Ao mesmo tempo, Krol defende o encontro do CTA como “a mais diver­ sificada assembléia em nossa história” — uma declaração tão inadequada, a propósito de uma reunião religiosa, que qualquer estranho desprevenido que entrasse naquele momento na conferência dos bispos poderia facilmente pen­ sar que Krol estava falando sobre a economia americana, a segunda guerra mundial no Pacífico, ou a carteira de investimentos do Vaticano, Diz a seus colegas que “a inteligência e o grau de engajamento daqueles que foram es­ colhidos para participar do encontro dão testemunho do discernimento dos bispos que os designaram” . Isso é mais sutil do que uma coonestação. Krol sa­ be tão bem quanto qualquer outra pessoa que os bispos não designaram os de­ legados. E sabe que deviam ter designado. Mas essa parece ser a maneira que. tem de dizer a seus colegas bispos: Bem, sem refletir, vocês assinaram os docu­ mentos que os tornaram oficialmente os delegados; sendo assim, estão meti­ dos nisso tão profundamente quanto eu.

Essa atitude extraordinária dos Cardeais americanos comprometeu seria­ mente, do princípio ao fim, a Iniciativa Americana, no que se refere ao julga­ mento dos Cardeais alemães e poloneses. Estes já encaravam os franceses co­ mo perigosamente esquerdistas — coisa que realmente são. E agora os ameri­ canos! Os alemães e poloneses desconfiam que Gerety e Deardon representem a posição majoritária dos bispos americanos. E a seus olhos Krol está compro­ metido, por causa de seu papel no CTA e da subseqüente defesa que fez do encontro. Vai ser necessário emendar muita cerca, para que a Iniciativa Ame­ ricana levante vôo outra vez.

No documento O Conclave - Malachi Martin (páginas 85-90)

Documentos relacionados