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Série Dois —

No documento O Conclave - Malachi Martin (páginas 62-67)

DECLÍNIO DA RELIGIÃO NOS ESTADOS UNIDOS

As pesquisas dos peritos em sondagem de opinião pública George Gallup Jr., John O. Davies Jr. e do Instituto Americano de Opinião Pública (Ameri­ can Institute of Public Opinion) fizeram correr ondas de choque pela camari­ lha de Paulo. Os resultados mostravam que 89% dos ministros protestantes, 61% dos padres católicos romanos, e 63% dos rabinos acham que a religião, em seu conjunto, está perdendo sua influência nos Estados Unidos. E devem saber o que dizem. Quando se menciona como uma contra-indicação o recém- surgido movimento Jesus, o mesmo é descartado por Paulo e seus assessores como coisa transitória, uma “moda” .

A TA QUE A O CELIBA TO DOS PADRES

Outro fator contrário às idéias de Paulo em relação a uma renúncia an­ tecipada é a opinião emergente contra o celibato. Quarenta por cento dos pa­ dres da Itália já são favoráveis à abolição do celibato. Na Espanha, 33% dos sacerdotes votaram pelo celibato opcional. A Conferência dos Bispos da América Latina (CELAM) pediu o celibato opcional.

ATAQUES AO DIREITO CANÔNICO UNIVERSAL PROPOSTO POR PA ULOEÀ PRÓPRIA INFALIBILIDADE DO PAPA

Para culminar tudo isso, é publicado o primeiro ataque violento de um católico romano, nos tempos modernos, à infalibilidade pontifícia de Paulo.

É um livro escrito por Hans Küng, o teólogo alemão, de quem muito o mun­ do ouvirá falar.

Quando Paulo manda preparar um projeto de lei para toda a Igreja, por um grupo secreto de seus próprios especialistas em Direito Canônico, mais de duzentos e vinte teólogos de regiões de língua alemã condenam o projeto abertamente. O Cardeal Leo Josef Suenens, da Bélgica, numa entrevista pú­ blica, ataca-o, cobre-o de ridículo e o condena. A Sociedade de Direito Ca­ nônico dos Estados Unidos (The Canon Law Society of the United States) faz a mesma coisa. Dessa maneira, Paulo já dispõe de alguns sinais prelimina­ res daquilo que os “novos teólogos” de tendência progressista desejam fazer com a doutrina da Igreja. Se ele conseguir orientar todas essas erupções e to­ das essas rebeliões, talvez possa trazer sua Igreja para uma posição mais aberta e, assim, atrair os não-católicos. Sua política será conter, e não condenar, tais ataques.

PA ULO ADOTA UMA POLlTlCA DE CONCILIAÇÃO DOS MOVIMENTOS MARXISTA E ESQUERDISTA

A receptividade de Paulo em relação à esquerda toma-se evidente numa série de medidas por todo o mundo. Recebe o Presidente Tito, da Iugoslávia, numa visita oficial. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria também visita Paulo. Paulo envia o Cardeal Kõnig, de Viena, a Budapeste e consegue que ele convença o Cardeal Mindzenty a abandonar seu asilo na Embaixada Americana. O Papa promete a Mindzenty: “Nunca, enquanto o senhor viver, nomearemos outro Cardeal Primaz para a Hungria.” A remoção de Mindzenty de Budapeste e seu exílio em Viena, onde deverá ficar vivendo no antigo Seminário Austro-Húngaro, são uma bênção para o governo comunista de Janos Kadar. Mindzenty tinha sido um espinho na carne viva do Estado marxista. Paulo envia também o Arcebispo Agostino Casaroli, funcionário da Secretaria de Estado do Vaticano, bem como o Padre Pedro Arrupe, Geral dos Jesuítas, para entendimentos com Moscou. Promove conversações com o governo comunista da Checoslováquia.

Paulo é criticado pela unilateralidade de sua política. Enquanto os gover­ nos marxistas obtêm concessões do Papa, tais governos não afrouxam a fero­ cidade de sua própria atitude anticatólica e anti-religiosa. E isso é tão verda­ deiro em relação à Iugoslávia de Tito, quanto à Rússia e aos demais lugares. Paulo é ainda atacado por remover o Cardeal Agnelo Rossi de seu posto de Arcebispo de São Paulo, no Brasil, pelo fato de Rossi apoiar o governo direi­ tista em suas rigorosas medidas contra os terroristas de esquerda, os guerrilhei­ ros marxistas e os pregadores do comunismo. E é combatido também pelo apoio que dá aos bispos e padres que se revoltam e lutam contra o governo di­ reitista do Presidente Stroessner, no Paraguai.

Paulo não desaprova a amizade e a associação do Cardeal Silva Henríquez com Salvador Allende, o ditadoi marxista do Chile. Silva reúne-se a Allende no palanque oficial, num gigantesco encontro de representações marxistas e socialistas, nas comemorações do Dia do Trabalho. E quando a Congregação Missionária dos Padres Brancos (White Fathers Missionary Congregation) de­ cide retirar todo o seu pessoal de Moçambique, em protesto contra o domínio colonial dos portugueses, Paulo aprova a atitude de seus membros.

O pensamento de Paulo é revelado de forma extremamente significativa em sua Carta Apostólica publicada em maio. Nela, advoga um novo regime num futuro próximo. A Carta repete o tema da teologia da liberação: nenhum progresso pode ser alcançado através da religião, a menos que um novo siste­ ma econômico se instale, um sistema que, nitidamente, significará a transfor­ mação — na realidade o fim — do capitaÜsmo clássico.

NO VO E GRANDE SALÃO DE A UDIÊNCIAS ÊINA UGURADO PELO PAPA PAULO

Pier Luigi Nervi é um dos mais famosos engenheiros-arquitetos do século XX que se especializam naquilo que os críticos da arquitetura de vanguarda denominam “estilo atlântico” , ou “estilo dos atlantes”. Nervi foi o arquiteto- chefe da Catedral Católica Romana, de São Francisco.

As construções do estilo dos atlantes não são símbolos de coisa alguma, nem representam esboços de nenhuma presença sacramental da Divindade, no contexto do universo humano. Não evocam o sobrenatural, ou o transumano, nem contém, em suas linhas rígidas, eco algum de qualquer graça ou beleza tradicionais.

As construções atlantinas são massas arquitetônicas onduladas que ex­ pressam o dinamismo técnico de sua própria criação, não qualquer meta, ou objetivo ideal fora ou acima de si mesmas. Dão sempre a impressão de estarem prestes a irromper, ou a alçar vôo, como coisas imensas desprovidas de asas, movidas por sua própria força interior. Mas seu impulso é horizontal, não ver­ tical.

A pedido do Papa Paulo, Nervi elaborou os planos de um salão desse tipo. Em 1964, apresentou os planos ao Papa e Paulo aprovou-os. Em 2 de maio de 1966, os trabalhadores começaram a demolir os edifícios que se erguiam na área a Este da Praça de São Pedro, entre a Sede do Santo Ofício e o Muro Leonino do Vaticano. Ali seria o lugar do enorme Salão de Audiência de Nervi.

Em 30 de junho de 1971, o “Nervi”, como veio a ser familiarmente cha­ mado, é inaugurado e abençoado pelo Papa Paulo, numa cerimônia pública. É nele que Paulo realizará suas audiências pontifícias. É nele que se realizarão os futuros Sínodos dos Bispos da Igreja.

0 Nervi é um edifício longo, mais ou menos trapezoidal. Suas portas principais dão para o Este, como as portas da Basílica de São Pedro. O teto é ondulado. Em cada uma das duas compridas paredes do trapezóide, há uma janela oval, um vitral, colocado como um olho naquela massa multiforme. Tais janelas são obra de Giovanni Haynal. Marc Chagall foi o primeiro a ser so­ licitado a apresentar projetos para os vitrais, mas sua arte, com um toque de confusão e incivilidade, foi finalmente considerada inadequada a um lugar que deveria exprimir a sagrada serenidade de Deus e a harmonia entre Deus e o ho­ mem.

No interior do Nervi, o Salão Principal é prodigioso. Seu piso inclina-se numa rampa, como o chão de qualquer teatro, desde a entrada até o palco, si­ tuado na parede Oeste, mais ou menos a 830 metros de distância. O teto on­ dulado parece o céu de uma boca gigantesca, engolindo o visitante. Esse teto abobadado compõe-se de quarenta e dois arcos geminados, brancos, pré-fabri- cados. O Salão Principal comporta 6.000 pessoas sentadas, ou 14.000 de pé.

No palco, o trono do Papa fica sobre um estrado elevado. Por trás do tro­ no será colocada a maior escultura em bronze existente no mundo, encomen­ dada pelo Papa Paulo, em 1965, a Pericle Fazzini, de 64 anos, um dos artistas favoritos de Jacqueline Kennedy. Comentou-se que Pier Luigi Nervi ficou aborrecido com o fato da encomenda ter sido feita a Fazzini, bem como com os planos de Fazzini para a escultura. Correu que Nervi, citando outro atlante, Le Corbusier, havia dito: “Duas primadonnas cantando na mesma ópera, não cantam bem de jeito nenhum.”

Mas Paulo aprova os planos de Fazzini, comentando: “Quero uma obra que perdure.” Sua Santidade vai tê-la.

É no Salão Principal que Paulo realiza suas Audiências Gerais. Aí celebra­ rá ele o seu 809 aniversário, em 1977 - no dia em que muito esperam que re­ nuncie.

Além do Salão Principal, o aposento mais importante é o Salão do Síno­ do, ou “Salão Superior” , como também é chamado, por causa de sua localiza­ ção acima do Salão Principal, enfiado jeitosamente debaixo do teto do Nervi. Essa denominação, “Salão Superior” , faz lembrar ecos do quarto de cima, na casa de Jerusalém, onde os Apóstolos esperaram, depois da Ressurreição e da Ascensão de Jesus, pela vinda do Espírito Santo, no dia de Pentecostes. O pi­ so desse moderno Salão Superior é formado pela curvatura exterior inclinada do enorme teto do Salão Principal, que fica abaixo. Chega-se ao Salão Supe­ rior por amplas escadarias e por elevadores. Comporta mais de 280 pessoas sentadas e está equipado com toda espécie de moderno instrumental necessá­ rio para tradução simultânea e para imediata transmissão pelo rádio e por te­ levisão. Na descrição semi-oficial desse aposento, fala-se de sua “perfeita efi­ ciência na acomodação de grande número de pessoas, oferecendo serviços téc­ nicos... que tornarão este Salão do Sínodo ainda mais útil — e mais usado — para importantes reuniões de caráter religioso...” De fato, o Terceiro Sínodo

Internacional de Bispos, previsto para o próximo dia 30 de setembro, será realizado nesse Salão do Sínodo, nesse Salão Superior. E já corre o boato, es­ carnecido por muitos funcionários do Vaticano, de que o Conclave 82 pode ser realizado nele e não, como vem ocorrendo, há séculos, na Capela Sistina.

Paulo, em seu discurso de inauguração, salienta um dos aspectos do Ner- vi: foi construído para ser o lugar especial em que “o Santo Padre receberá as pessoas, expressando uma espiritualidade apropriada à soberania do Papa e à fé dos crentes... (O Nervi) será um símbolo visível da unidade do Papa e das gentes” .

Com boatos ou sem eles, o Nervi — com seu Salão Principal e seu Salão Superior — está destinado a reuniões históricas e decisivas.

No documento O Conclave - Malachi Martin (páginas 62-67)

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