2. Metodologias de Cálculo do Produto Potencial
2.4. Breve Resenha da Literatura Internacional
Essa última seção do segundo capítulo é dedicada a uma breve revisão da literatura internacional produzida sobre o tema. Os trabalhos brasileiros não serão resenhados aqui, pois, serão assuntos do próximo capítulo.
Esforços para se medir o produto potencial ocorrem já a um bom tempo, desde meados da década de 1960. O que há de novo é uma tentativa de organizar e
sistematizar o debate, para que esse avance. O primeiro artigo com esse intuito - Giorno et alii (1995) - foi preparado pelo departamento econômico da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), para sistematizar os vários métodos usados internamente. Nesse trabalho, os autores fazem uma resenha teórica e empírica sobre três métodos: FP, filtro HP e o método da tendência temporal segmentada19. Esse último, único ainda não apresentado até aqui, consiste em impor uma tendência temporal distinta à série do PIB de cada país, para cada ciclo. Os ciclos são definidos então, como o período entre dois picos na série do PIB. Assim a taxa de crescimento do produto potencial varia entre os ciclos, mas a mesma é constante dentro de cada ciclo. Esse método apesar de simples e intuitivo, apresenta um grave problema para a etapa de previsão, que é como definir o tamanho do ciclo atual, razão pela qual ele acabou sendo descartado ao longo do tempo.
O FMI também participou desse esforço. Dois artigos com a chancela do Fundo são amplamente citados. O primeiro: De Masi (1997) é também um levantamento dos estudos empíricos já feitos pela equipe de economistas do FMI. Grosso modo, o método da FP era, à época, o mais utilizado para os países desenvolvidos, devido à abundância e confiabilidade dos dados. Para os países em desenvolvimento, por motivo oposto ao referido acima, os filtros estatísticos eram os mais utilizados. Por último, para os países do antigo regime socialista, a escolha recaía usualmente sobre modelos de crescimento endógeno, suplementados por relações, de outros países, entre as variáveis-chaves e a taxa de crescimento, por absoluta falta de dados ou de melhor hipótese.
O segundo paper do FMI: Cerra & Saxena (2000), apesar de ser um trabalho cujos testes empíricos são feitos somente para a Suécia, dá uma contribuição para toda
a linha de pesquisa, pois, analisa a teoria e aplica ao caso sueco, modelos até hoje pouco utilizados, como modelos bivariados de variáveis não observadas, modelos de componentes comuns (ciclo e tendência) com taxas de crescimento assimétricas e estimativas econométricas de produto potencial e NAIRU através de um sistema de equações.
Outro aspecto relevante desse trabalho é a dispersão das estimativas de produto potencial e hiato do produto, calculadas para o ano de 1998, chamando atenção para o fato de quão importante são as hipóteses que baseiam a escolha do modelo e do valor dos parâmetros imputados. A taxa de crescimento do produto potencial varia de 0,9%, pelo filtro de Kalman (modelo de componentes permanentes e transitórios comuns) na segunda estimativa20 até 4,2%; pelo mesmo filtro, porém com dois estados21. O mesmo fenômeno ocorre com as estimativas do hiato do produto que variam de -5,5% até 0,2%22. O primeiro número é obtido pela segunda estimativa do modelo de componentes permanentes e transitórios comuns de um estado e a segunda estimativa é obtida pelo método das variáveis não-observadas univariado e também pelo método similar bivariado, onde o hiato do produto é estimado conjuntamente com a NAIRU.
Ainda no âmbito dos organismos multilaterais, o estudo de McMorrow & Roeger (2001), da CE (Comissão Européia), prossegue na mesma linha dos anteriores, fazendo um survey teórico e a conseqüente aplicação empírica dos métodos aos países da UE (União Européia). A diferenciação em relação aos anteriores está na implementação do que eles chamam de modelo vintage, onde para se obter a PTF
20 A segunda estimativa difere da primeira apenas pelo valor dos parâmetros iniciais imputados para a
iteração.
21 O filtro de Kalman é um filtro de representação estado – espaço. No modelo de dois estados, usado
no artigo, cada componente da série: permanente e cíclico está representado num estado diferente.
22 Hiatos negativos significam que o produto efetivo está abaixo do produto potencial, enquanto que
potencial, regride-se o resíduo de Solow sobre uma constante, uma tendência temporal e a idade média do estoque de capital. A intenção dos autores, com essa última variável, é captar no modelo o efeito da heterogeneidade, em termos de produtividade, do estoque de capital.
Outro grande impulso para a pesquisa sobre produto potencial e hiato do produto veio dos bancos centrais do mundo todo, especialmente daqueles que passaram a adotar metas de inflação explícitas, uma vez que como já mencionado anteriormente, o hiato do produto é um indicador de pressões de demanda na inflação. Nesse aspecto, um dos bancos centrais mais avançados no tema é, sem dúvida, o Reserve Bank of New Zealand.
No estudo apresentado sob a forma de um relatório de pesquisa do ano de 2000 - Claus et Ali (2000) - que compila os esforços empreendidos até então dentro do banco central daquele país, os autores procuraram abordar três questões: (i) desenvolvimento das várias técnicas de estimação, (ii) avaliação do resultado gerado pelas mesmas e (iii) implicações de política decorrente da incerteza associada as estimativas do hiato do produto.
O banco trabalha com três metodologias distintas de estimação: filtro multivariado que é usado nas projeções econômicas, um VAR (vetores auto- regressivos) e um modelo multivariado de variáveis não-observadas. Da avaliação conjunta das três, os autores concluíram que as mesmas movem-se conjuntamente, particularmente nas décadas de 1970 e 1990, mas que existe uma incerteza quanto à magnitude do hiato uma vez que os três métodos geram estimativas diferentes.
Em relação ao último objetivo do paper, os autores afirmam que não obstante as incertezas acerca das estimativas do hiato do produto, esse é um previsor de razoável eficiência da inflação e que seu uso como insumo da política monetária gera
mais estabilidade do que instabilidade ao ciclo econômico. Porém, os autores não concluem sem antes fazer a seguinte advertência.
“O hiato do produto fornece uma ligação entre a economia real e a inflação e permanece como um importante indicador de pressões inflacionárias futuras no Banco Central Neozelandês. Contudo, dado que uma gama de outros fatores também influencia a inflação, o hiato do produto tem o seu espaço dentro de um amplo enfoque de metas de inflação. Logo, o hiato do produto é sempre visto dentro do contexto, juntamente com outros indicadores. Se usado dessa maneira e não de acordo com uma exatidão espúria, ele tem um papel valioso a desempenhar”. [Claus, 2000, p. 8].
O BCE também possui seus estudos sobre metodologia de cálculo do produto potencial. Mendez & Palenzuela (2001) fazem uma avaliação de diversos métodos quanto ao seu poder de previsão da inflação e quanto à magnitude das revisões ex-post do hiato calculado e chegam a conclusão de que os modelos multivariados de componentes não-observados, onde o componente permanente é modelado como um passeio aleatório ou como uma tendência linear local são os melhores previsores, ainda que seu poder de previsão da inflação seja ligeiramente inferior a um modelo auto-regressivo com o número ótimo de defasagens.
Willman (2002) também é um trabalho para discussão do BCE. O objetivo desse estudo vai um pouco além do produto potencial, porém, um subproduto dessa pesquisa são estimativas de produto potencial e hiato do produto, obtidas a partir de um modelo multi-setorial, onde cada setor, que se diferenciam pelos mark-ups, são agregados segundo uma FP Cobb-Douglas ou então uma FP CES (Constant Elasticity of Substitution).
Por último, mas não menos interessante, é o trabalho de Dupasquier et Ali (1999). Assim como muitos outros, ele traz uma análise dos resultados fornecidos por diferentes metodologias. A sua singularidade reside, porém, na análise da metodologia proposta por Cochrane, que é pouco estudada e aplicada. Essa metodologia usa um VAR com duas variáveis: produto e consumo e defasagens da razão produto/ consumo. Se o consumo é um passeio aleatório e as variáveis são cointegradas, então flutuações no produto sem contrapartida no consumo são vistas como transitórias.