3. Métodos de Cálculo Aplicados ao Caso Brasileiro
3.2. Um Modelo de Crescimento Equilibrado
3.2.4. Produto Potencial e Exercícios Alternativos
Essa última subseção se dedica a apresentar o cálculo do produto potencial, que não é feito no artigo original, mas que sai quase como uma extensão natural da metodologia aplicada. Apresentam-se também exercícios alternativos de contabilidade do crescimento e produto potencial para que se possa avaliar até que ponto, os resultados originais são dependentes dos valores dos parâmetros adotados.
A Figura 15, mostra o produto efetivo e o potencial da economia brasileira para o período 1950-2000. Como nessa metodologia não foi feito nenhum ajuste para o grau de utilização do fator capital, o estoque de capital é o mesmo nas séries do produto efetivo e potencial, o mesmo ocorrendo com os dados de escolaridade e da fronteira tecnológica. Logo, as duas séries apresentadas na figura abaixo, diferem somente nos dados da PEA e da PTFD. Para essas duas séries, por falta de melhor opção, aplicou-se o filtro HP. Para a série da PEA, na verdade aplicou-se o filtro à série da razão PEA sobre população total. Por último, as séries do PIB foram multiplicadas pelo número de trabalhadores para se passar do PIB por trabalhador para o PIB total.
50 150 250 350 450 550 650 750 850 950 1.050 1.150 1.250 1950195219541956 1958196019621964 19661968197019721974 197619781980 19821984 1986198819901992 19941996 19982000 B il h õ e s d e U S $ P P C
PIB potencial (total-HP) PIB efetivo (total)
O produto potencial, obtido por esse método, possui uma trajetória muito próxima do produto efetivo, principalmente de 1950 até a década de 1980, a partir da qual eles começaram a apresentar uma maior diferença. O hiato médio, em termos relativos, para o período total é de 3%, sendo que o maior e o menor hiato registrado foram respectivamente de 9,2% e 0,2%. Tal resultado é muito mais um subproduto da metodologia empregada, que não ajustou o fator capital pelo seu nível de utilização, do que a reprodução de uma real característica da economia brasileira.
Outro fato interessante, que pode ser visto nesse gráfico é que a partir da década de 1980, a economia brasileira apresentou ciclos claramente delineados, isto é, após um momento, onde o produto efetivo se mantém acima do potencial, segue um momento no qual o inverso ocorre. Note que esse resultado é particular a esse exercício, não sendo obtido noutro exercício. Além disso, o fato da economia brasileira se manter acima do potencial por períodos prolongados de tempo, não obstante o hiato positivo acumulado, se coloca em oposição à teoria, que nega a sustentabilidade de tais períodos. Mais intrigante ainda é verificar que isso ocorreu uma vez num período de baixa inflação: 1994 a 1998. É claro, que tal fato pode ser um subproduto (indesejado) desse exercício, o que não nos permite, por enquanto, extrapolar maiores conclusões a partir daí.
Feito o cálculo do produto potencial, que surge quase como uma extensão natural do artigo original, o foco agora se volta para a influência das variações dos parâmetros e da base de dados sobre os resultados obtidos no artigo de Pessoa et ali (2003). A Tabela 11 apresenta o mesmo exercício de decomposição do crescimento feito anteriormente, porém, agora sob novas hipóteses para os valores dos parâmetros. Aqui, a taxa de depreciação adotada é de 5%, a parcela do trabalho na renda é de 50%
e a taxa de crescimento do progresso técnico é assumida constante e igual a 0,8% ao ano.
Tabela 11 – Decomposição logarítmica teórica do crescimento sob hipóteses alternativas
PTFD Fronteira K deepening H 1950-59 76% 21% -7% 9% 1960-69 81% 24% -28% 23% 1970-79 43% 24% 43% -10% 1980-89 393% -56% -139% -99% 1990-00 18% 48% -45% 79% 1950-00 16% 38% 13% 33%
Nesse exercício, as conclusões derivadas são distintas. A começar, pela contribuição da fronteira, que é bem menor, evidenciando que esse é um componente determinístico da decomposição e que por construção sua contribuição é sempre positiva e será tanto maior quanto for o valor do parâmetro g.
Sob essas novas hipóteses, verifica-se que todos os fatores passaram a contribuir positivamente para o crescimento do PIB no período 1950-00, e que a contribuição foi mais equânime. Portanto, com base na tabela acima não podemos concluir, como os autores fizeram baseados na Tabela 10, de que o Brasil cresceu praticamente por osmose do progresso técnico gerado na fronteira.
Quanto à relação capital/ produto, a maior taxa de depreciação do estoque de capital, sem dúvida, influiu para que a contribuição ao crescimento de K/Y diminuísse, reduzindo conseqüentemente o poder explicativo de um movimento de transição, nos termos de Solow, na evolução do PIB brasileiro. Porém, cresceu a importância desse fator para explicar o crescimento das décadas de 1970 e 1980, quando o Brasil empreendeu um esforço de implantação e fortalecimento de indústrias mais capital-intensivas.
Por último, vê-se que a PTFD cresceu durante todo o período com exceção apenas da década de 1980. Além disso, nas décadas de 1950, 1960 e 1970 ela foi o principal motor do crescimento brasileiro.
Todos esses itens levantados e em especial os dois últimos são muito mais intuitivos e condizentes com os fatos estilizados e as interpretações prevalecentes sobre o desenvolvimento econômico brasileiro. Por exemplo, é de se esperar que de 1950 a 1979, quando a população brasileira estava migrando do campo para a cidade, novas indústrias estavam sendo instaladas no Brasil e novos bens de consumo sendo difundidos, que a PTFD da economia aumentasse. Da mesma maneira, é coerente com o escopo do II PND que a relação capital/ produto se ampliasse. Portanto, ao invés de assumir hipóteses, que são questionáveis e tomar seus resultados como verdades absolutas, um enfoque, onde as hipóteses são escolhidas com base na verossimilhança entre os resultados e a experiência efetiva do Brasil, pode ser uma boa alternativa para se calibrar os parâmetros, dada a incerteza em torno dos mesmos.
A maior diferença entre o cálculo feito em Pessôa et ali (2003) e exercícios similares, além da decomposição teórica, está na base de dados usada pelo primeiro, que se justifica uma vez que um objetivo do estudo era fazer uma comparação entre países. Além disso, nesse estudo não se ajusta nenhum fator pelo seu grau de utilização. O motivo não é mencionado no texto, mas certamente, deve estar relacionado com a dificuldade ou impossibilidade de se obter estimativas do grau de utilização para todos esses países de maneira confiável e compatível.
Tendo isso em vista, optou-se por aplicar a mesma metodologia de decomposição e os mesmos valores dos parâmetros aos dados de fontes nacionais e ajustados para o grau de utilização. Assim, o PIB e a população total foram extraídos do SCN do IBGE. O estoque de capital foi obtido, multiplicando-se o PIB pela razão capital/ produto apresentada na Figura 13. A série de escolaridade e da razão PEA/ população total foram mantidas. O ajuste para o estoque de capital foi feito com base no NUCI da FGV, já o estoque de trabalho foi ajustado pela taxa de desemprego
obtida na PNAD, pois, o Brasil não dispõe de uma série tão longa de desemprego, que cubra o período 1950-00. Por conta disso, o período de análise teve que ser encurtado.41
A Figura 16 traz uma comparação da PTFD obtida originalmente (PTFD1) com a PTFD obtida sob o novo conjunto de dados (PTFD2).
70 80 90 100 110 120 130 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 PTFD1 PTFD2
Figura 16 – A PTFD obtida a partir dos dados com ajuste é quase um deslocamento paralelo
O ajuste pela utilização do fator capital diminui a contribuição do mesmo ao crescimento, o que automaticamente aumenta a PTFD, uma vez que essa sai por resíduo. A maior diferença entre uma e outra está no nível das séries, uma vez que a taxa de crescimento médio das duas é muito similar (-1,1% contra -1%) e também pelo fato de a PTFD2 apresentar movimentos mais suaves. Tirando essas diferenças, o movimento ao longo do tempo e, portanto, a sua análise, são praticamente iguais.
E como que a mudança da base de dados e a correção pela utilização dos fatores altera a decomposição teórica do crescimento? A Tabela 12 traz os novos resultados para que eles possam ser comparados com os números da Tabela 10.
41 Os cálculos foram feitos somente de 1970 a 2000, mas mesmo assim teve se que assumir que a taxa
Tabela 12 – Decomposição logarítmica teórica do crescimento – base de dados alternativa PTFD Fronteira K deepening H 1970-80 41% 46% 23% -10% 1980-90 357% -107% -51% -99% 1990-00 -73% 79% 26% 68% 1970-00 -135% 121% 52% 63%
A nova base de dados não alterou os resultados de maneira considerável. Como previsto, a contribuição do aumento da relação capital/ produto, o chamado capital deepening, diminuiu. Como contrapartida, a contribuição da PTFD aumentou, apesar de ainda continuar contribuindo negativamente para o crescimento do PIB no período. No quadro geral, a mensagem continua a mesma: a fronteira foi o maior determinante do crescimento brasileiro no período e o desenvolvimento da produtividade local somente atrapalhou. Com base na tabela acima e na visão dos autores do artigo original, tivesse a PTFD ficado estável nesses 30 anos, o crescimento do Brasil teria sido 135% maior.
A Figura 17 mostra os resultados do produto potencial por trabalhador, utilizando a nova base de dados e o ajuste para a utilização dos fatores. O período de análise foi estendido até 2004, uma vez que para parte dos dados como PIB e população se dispunha de dados mais atuais. Para outros, teve-se que assumir algumas hipóteses. Para a escolaridade, extrapolou-se a taxa de crescimento da década de 1990. Para o estoque de capital, aplicou-se a mesma taxa de crescimento da relação capital/ produto de Morandi & Reis (2004) e para PEA assumiu-se uma tendência linear.
1997 1980 1976 15 17 19 21 23 25 27 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 M il h a re s d e R $ d e 2 0 0 3 Efetivo Potencial
Figura 17 – PIB potencial por trabalhador
A maior diferença fica por conta do tamanho dos hiatos comparado com aqueles obtidos na Figura 15. Para o mesmo período, 1970-2000, o PIB potencial com ajuste e base de dados alternativa apresenta um hiato médio em termos absolutos de 8,1%, enquanto que com os dados originais e sem ajuste o mesmo valor foi de 3,4%.
Outra dessemelhança importante é quanto ao comportamento das duas séries. Na Figura 15, chamou-se atenção para a dinâmica de ciclos do PIB efetivo, que ultrapassava o potencial por longos períodos de tempo. Na figura acima, ao contrário, e similarmente ao primeiro exercício, não se verificou nenhum hiato negativo depois de 1980. Além disso, os anos de menor hiato (1986/7 e 1997) coincidem com os do primeiro exercício. Ademais, os comportamentos dos hiatos nesse período e também na década de 1970 são muito mais compatíveis com a história econômica brasileira.