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Mapa 06 – Terras Quilombolas e comunidades quilombolas no município de

2.2 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE ÁREAS PROTEGIDAS

2.2.2 Breves considerações sobre áreas protegidas no contexto do SNUC: as unidades

No Brasil, o processo evolutivo das categorias das unidades de conservação acompanhou, de certa forma, o internacional, isto é, até a década de 1990, as unidades de conservação eram criadas tendo como base o modelo preservacionista norte-americano. Além disso, com a ditadura militar houve o aparelhamento do Estado brasileiro, por meio da burocratização totalizante, que buscava controlar diversos cenários do país. Na política ambiental, um reflexo dessa visão foi a revisão de diversos instrumentos jurídicos, que passaram a ter roupagens mais adequadas ao discurso dominante da época. Também houve a ampliação das categorias existentes de unidades de conservação: surgiram decretos para a criação de reservas biológicas, estações e reservas ecológicas e áreas de proteção ambiental, ampliando a possibilidade de criação e manejo de áreas protegidas, o que veio atender a

demandas específicas de conservação, pois anteriormente a isso o Código Florestal de 1934 estabelecia apenas os parques e florestas nacionais (MEDEIROS, 2003).

Segundo Medeiros (2003), nesse período foi criado o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), em 1967, como autarquia do Ministério da Agricultura responsável por parte da execução da política ambiental, incluindo a gestão de todas as unidades de conservação federais existentes. Em 1973, foi criada a Secretaria Especial de Meio Ambiente (SEMA), órgão responsável pela elaboração e execução de parte da política ambiental e que seria base para a criação do Ministério do Meio Ambiente, duas décadas mais tarde (MEDEIROS, 2003).

Nesse período, também foi lançada a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), por meio da Lei Federal nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, instrumento significativo para a gestão ambiental brasileira, pois sistematiza a discussão ambiental e as diretrizes políticas da gestão do meio ambiente no país. Outro instrumento relevante da política ambiental brasileira criado nesse período é o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), que veio se tornar a partir do período democrático, o órgão máximo do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama) e condutor da PNMA, exercendo papel fundamental na discussão das políticas públicas afins. Atualmente, o Conama é o órgão colegiado brasileiro responsável pela adoção de medidas de natureza consultiva e deliberativa acerca do Sisnama. A PNMA previa a implantação do Sisnama, que pretende transformar o processo de gestão ambiental em um grande sistema formado pelas três esferas de governo e a sociedade civil, possibilitando a gestão integrada das ações ambientais e maior eficiência na conservação (MEDEIROS, 2003). As unidades de conservação criadas nesse período se basearam no modelo preservacionista norte-americano de paisagens intocadas, apresentando, entretanto, particularidades em relação a esse modelo, que podem ser aferidas pelo desenrolar de nossa história (DRUMMOND; FRANCO; NINIS, 2006). A primeira diferença se refere ao local de estabelecimento, pois nos Estados Unidos, os parques nacionais foram instituídos, preferencialmente, em locais não ocupados pelos colonizadores, sendo, portanto paisagens relativamente naturais (apesar da presença de indígenas em muitas das áreas) (CASTRO JÚNIOR; COUTINHO E FREITAS, 2009).

Desse modo, enquanto os parques americanos buscavam proteger as paisagens de um impacto futuro, os parques brasileiros buscaram proteger áreas de interesse ambiental de impactos imediatos, de conflitos já existentes. Os parques brasileiros e outras unidades de conservação já nasceram, em sua maioria, em meio a importantes conflitos territoriais e de

acesso a recursos, sendo sua gestão bastante dificultada e particularizada (CASTRO JÚNIOR; COUTINHO; FREITAS, 2009).

Somente a partir da década de 1970, em virtude das injustiças geradas pelo sistema de aviamento e das mudanças que ocorriam na Amazônia – acarretando, em função da crise da borracha, a venda de seringais a empresários sulistas e sua transformação em áreas de pastagem – surgem mobilizações sociais e políticas que se iniciam no Acre, sob a liderança de Chico Mendes, que mais tarde culminariam na concepção de reservas extrativistas. Estas, por sua vez, serviram de base para a consolidação e instituição da sexta categoria de áreas protegidas da IUCN, “Utilização Sustentável dos Ecossistemas Naturais” (Área Protegida com recursos Manejados), aprovada no Congresso da UICN de 1994, em Buenos Aires (PUREZA, PELLIN, PADUA, 2015).

Um marco importantíssimo para a organização das unidades de conservação é a Lei nº. 9.985, de 18 de julho de 2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. O SNUC é uma política ambiental brasileira com o objetivo de unificar, organizar, planejar e manejar, de forma adequada, algumas categorias de áreas protegidas brasileira. Tal política estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação no âmbito nacional, estadual e municipal a fim de contribuir para o alcance dos objetivos nacionais de conservação (PELLIN et al., 2007). Dessa forma, como produzem espaços de dinâmicas específicas e com uma administração diferenciada, a criação de unidades de conservação é considerada importante estratégia de ordenamento territorial pelo Estado (MEDEIROS, 2006; MEDEIROS; YOUNG, 2011). Essa administração e gestão das unidades de conservação dependem de qual grupo e, por conseguinte, de qual categoria de espaço de proteção está se tratando.

No Brasil, as categorias de unidades de conservação que integram o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, instituído pela Lei nº 9.985 de 18 de julho 2000, dividem-se em dois grupos distintos, de acordo com seus objetivos e características de manejo: Unidades de Proteção Integral e Unidades de Uso Sustentável (art. 7º). O primeiro grupo tem como objetivo básico preservar a natureza, admitindo-se o uso indireto dos recursos naturais em algumas categorias, estando protegidas de grandes interferências humanas, com exceção dos casos previstos em lei (§ 1º). Constituem o grupo das Unidades de Conservação de Proteção Integral (art. 8º): as estações ecológicas, as reservas biológicas, os parques nacionais, os monumentos naturais e os refúgios da vida silvestre. O segundo grupo, por sua vez, possui como objetivo primordial compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parte dos seus recursos naturais da área (§ 2º), permitindo-se sua exploração de forma

equilibrada, a fim de garantir sua manutenção a longo prazo e minimizando-se os impactos negativos da atuação antrópica. Constituem o grupo das Unidades de conservação de Uso Sustentável (art. 14): as áreas de proteção ambiental; as áreas de relevante interesse ecológico; as florestas nacionais; as reservas extrativistas; as reservas de fauna; as reservas de desenvolvimento sustentável e as reservas particulares do patrimônio natural (BRASIL, 2000). No Quadro 05 são apresentadas as diversas categorias de Unidades de Conservação e suas respectivas finalidades:

Quadro 05 – Categorias de Unidades de Conservação no Brasil com base na Lei Federal nº

9.985 de 18 de julho 2000 (Capítulo III, art. 7º.)

Unidades de Conservação de Proteção Integral Estação Ecológica

(ESEC)

Área criada com o objetivo de promover a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas. É proibida a visitação pública, exceto com objetivo educacional e a pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão responsável.

Reserva Biológica (REBIO)

Área criada com o objetivo de promover a preservação integral da biota e demais atributos naturais existentes em seus limites, sem interferência humana direta ou modificações ambientais, excetuando-se as medidas de recuperação de seus ecossistemas alterados e as ações de manejo necessárias para recuperar e preservar o equilíbrio natural, a diversidade biológica e os processos ecológicos.

Parque Nacional

(PARNA)

Área criada com o objetivo básico de promover a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico.

Monumentos Naturais

Área criada com o objetivo de preservar sítios naturais raros, singulares ou de grande beleza cênica. Pode ser constituído por áreas particulares, desde que seja possível compatibilizar os objetivos da unidade com a utilização da terra e dos recursos naturais do local pelos proprietários. Havendo incompatibilidade entre os objetivos da área e as atividades privadas ou não havendo aquiescência do proprietário às condições propostas pelo órgão responsável pela administração da unidade para a coexistência do Monumento Natural com o uso da propriedade, a área deve ser desapropriada, de acordo com o que dispõe a lei.

Refúgios de Vida Silvestre

Área criada com os objetivos de proteger ambientes naturais onde se asseguram condições para a existência ou reprodução de espécies ou comunidades da flora local e da fauna residente ou migratória. Pode ser constituído por áreas particulares, desde que seja possível compatibilizar os objetivos da unidade com a utilização da terra e dos recursos naturais do local pelos proprietários. Havendo incompatibilidade entre os objetivos da área e as atividades privadas ou não havendo aquiescência do proprietário às condições propostas pelo órgão responsável pela administração da unidade para a coexistência do Refúgio de Vida Silvestre com o uso da propriedade, a área deve ser desapropriada, de acordo com o que dispõe a lei.

Unidades de Conservação de Uso Sustentável

Área de Proteção Ambiental (APA)

Área em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. É constituída por terras públicas ou privadas. As condições para a realização de pesquisa científica e visitação pública nas áreas sob domínio público serão estabelecidas pelo órgão gestor da unidade e nas áreas sob propriedade privada, pelo seu proprietário. A Área de Proteção Ambiental deve ter um Conselho presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por representantes dos órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e da população residente. Área de Relevante Áreas em geral de pequena extensão, com pouca ou nenhuma ocupação humana, com

Interesse

Ecológico (ARIE)

características naturais extraordinárias ou que abriga exemplares raros da biota regional, e tem como objetivo manter os ecossistemas naturais de importância regional ou local e regular o uso admissível dessas áreas, de modo a compatibilizá-lo com os objetivos de conservação da natureza. A Área de Relevante Interesse Ecológico é constituída por terras públicas ou privadas, sendo que se respeitados os limites constitucionais, podem ser estabelecidas normas e restrições para a utilização de uma propriedade privada localizada em uma Área de Relevante Interesse Ecológico.

Floresta

Nacional (FLONA)

Áreas com cobertura florestal de espécies predominantemente nativas, tendo como objetivo básico o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas. São de posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei. Nas FLONAs é admitida a permanência de populações tradicionais que ali residiam quando da criação, em conformidade com o disposto em regulamento e no Plano de Manejo da unidade. A visitação pública é permitida, condicionada às normas estabelecidas para o manejo da unidade pelo órgão responsável por sua administração e a pesquisa é permitida e incentivada, sujeitando-se à prévia autorização do órgão responsável pela administração da unidade, às condições e restrições por este estabelecidas e àquelas previstas em regulamento. A unidade desta categoria, quando criada pelo Estado ou Município, será denominada, respectivamente, Floresta Estadual e Floresta Municipal.

Reserva

Extrativista (RESEX)

Áreas utilizadas por populações extrativistas tradicionais, cuja subsistência baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte, tendo como objetivos básicos proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade. São de domínio público, com uso concedido às populações extrativistas tradicionais, sendo que, segundo a lei, as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas. A visitação pública é permitida, desde que compatível com os interesses locais e de acordo com o disposto no Plano de Manejo da área e a pesquisa científica é permitida e incentivada, sujeitando-se à prévia autorização do órgão responsável pela administração da unidade. Nessas Reservas são proibidas a exploração de recursos minerais e a caça amadora ou profissional, e a exploração comercial de recursos madeireiros só será admitida em bases sustentáveis e em situações especiais e complementares às demais atividades desenvolvidas na RESEX.

Reservas de

Fauna (RFAU)

Áreas naturais com populações animais de espécies nativas, terrestres ou aquáticas, residentes ou migratórias, adequadas para estudos técnico-científicos sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos. São de posse e domínio públicos e as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, conforme disposto na lei. A visitação pública pode ser permitida e a caça amadora ou profissional é proibida.

Reserva de

Desenvolvimento Sustentável (RDS)

Áreas naturais que abrigam populações tradicionais, cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica. Têm como objetivo básico preservar a natureza e, ao mesmo tempo, assegurar as condições e os meios necessários para a reprodução e a melhoria dos modos e da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das populações tradicionais, bem como valorizar, conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente, desenvolvido por estas populações. São de domínio público, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser, quando necessário, desapropriadas, segundo dispõe a lei. A visitação pública e a pesquisa científica são permitidas e incentivadas, embora sujeitas aos interesses e normas locais. A exploração de componentes dos ecossistemas naturais em regime de manejo sustentável e a substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis são permitidas quando de acordo com o Plano de Manejo.

Reserva Particular do Patrimônio

Natural (RPPN)

Área privada, criada por iniciativa do proprietário, gravada com perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica. Só poderão ser permitidas, na RPPN, conforme se dispuser em regulamento, a pesquisa científica e a visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais são permitidas. São de domínios privados.

É importante observar que a administração e a gestão de unidades de conservação dependem de qual grupo e, por conseguinte, de qual categoria de espaço de proteção está se tratando, pois embora determinadas unidades de conservação pertençam ao mesmo grupo, elas apresentam diferenças entre si (QUADRO 05). As unidades de conservação do grupo de proteção integral são mais restritivas ao uso e situam-se, principalmente, como áreas de domínio público e controle estatal. Esse controle, incluindo as práticas de gestão, pode ocorrer nas esferas dos governos federal, estadual ou municipal. O que vai definir essa participação é a própria extensão da área, sua importância quanto aos recursos ambientais para o país e, portanto, o exercício do controle político territorial.

2.3 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE COMUNIDADES REMANESCENTES DE