Mapa 06 – Terras Quilombolas e comunidades quilombolas no município de
5.1 FORMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO ESPACIAL DA MICRORREGIÃO ALTO
5.2.1 Elementos Fixadores do Modo de Vida dos Quilombolas Coletores Tradicionais
Tipo de propriedade no Território Quilombola Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo
No que se refere ao tipo de propriedade exercida pelos quilombolas que coletam castanha-do-brasil na Reserva Biológica do Rio Trombetas, os resultados indicaram que os territórios são de uso coletivo pelos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que nele residem, conforme informado pelos Entrevistados 06, 09 e 10:
“Lá não têm esse negócio de dizer esse é meu. Não. Lá aonde você entrar, é mesmo que ser aqui [no Território Mãe Domingas]. Aqui é, é..., como é... coletivo. Aqui tem gente que já junta aqui atrás [apontando com as mãos para a ponta de castanha atrás da sua casa]” (E 06, 2018).
(...)
“Eu sempre trabalho, assim, num lugar livre, assim, fora de onde o pessoal tá trabalhando que tem as pontas pela beira na margem do lago e tem também as pontas mais pro meio da terra. É pode tudo coletar, é coletivo mesmo isso aí” (E 09, 2018).
(...)
[...] “é tudo coletivo, cada um vai lá e tira [castanha-do-brasil] seu pouco e o que der deu” (E 10, 2018).
Analisando-se as falas dos Entrevistados 06, 09 e 10, pode-se afirmar que o território de uso coletivo é a base territorial da organização socioeconômica para a reprodução do modo de vida dos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que coletam na Reserva Biológica do Rio Trombetas, tanto dos que residem nas comunidades do TQ Alto Trombetas 1 quanto dos que residem na comunidade Último Quilombo. Nas comunidades do TQ Alto Trombetas 1, assim como na comunidade Último Quilombo, é livre a circulação, pelos que nelas residem, nas áreas de pesca, caça e coleta de produtos florestais não madeireiros (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Contudo, as famílias exercem, de forma particular, a posse sobre uma parte desse território, geralmente, a casa, o quintal e as áreas de roça atual e antigas (capoeiras) e outras, conforme o caso. O “direito privado” da unidade familiar sobre essas áreas e recursos se dá
pelo respeito às regras locais e não por nenhuma divisão legal ou cartorial dos mesmos. Desse modo, o acesso a essas áreas restritas por outros membros do território ou por pessoas externas ao território deve se dar com a exclusiva anuência da família, a qual deve ser solicitada com respeito a certas regras locais (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019; CUMBUCA NORTE, 2017; CASTRO; ACEVEDO, 1998).
No caso de povos tradicionais que residem em unidades de conservação de uso sustentável de domínio público11, como a Floresta Nacional Saracá-Taquera, estes podem obter a Cessão de Direito Real de Uso (CDRU) por meio do Contrato de Concessão de Direito Real de Uso (CCDRU) realizado entre o ICMBio e as famílias residentes nessas áreas. O CCDRU regulariza o uso da terra e o direito de moradia de acordo com o plano de uso, podendo estabelecer um limite de tempo para esta posse e não permite a venda, apenas a transmissão hereditária. Além disso, permite a inserção de políticas públicas que contribuirão para o fortalecimento socioeconômico das comunidades tradicionais (E 17, 2018).
Contudo, as unidades de conservação de proteção integral federais, como a Reserva Biológica do Rio Trombetas – também de domínio público – não possuem dispositivos legais para regularizar o uso da terra e o direito de moradia nessas áreas.
Tipos de casas construídas pelos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do- brasil que residem no TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo
No que se refere aos tipos de casa construídas pelos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que residem no TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo os resultados indicaram que, atualmente, a maior parte das casas construídas no TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo é do tipo palafita (FIGURA 09).
11
Propriedade exercida pelo Estado, que tem o domínio da terra, ou seja, as faculdades de gozar, usar, dispor e reaver a propriedade.
Figura 09 – Casas na microrregião Alto Trombetas. À esquerda, casa construída em paredes e
assoalho de madeira na Comunidade Último Quilombo. À direita, casa construída com palha retirada da floresta na Comunidade Última Quilombo, localizada na Reserva Biológica do Rio Trombetas. Fonte: PICANÇO (2019).
As casas são construídas próximo às margens de rios, lagos e igarapés, possuindo uma relação com os sistemas ecológicos aos quais estão integrados que extrapola o espaço que circunda a casa e invade o espaço da floresta e dos corpos hídricos (FIGURA 10) (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018).
Figura 10 – Casa construída próxima a floresta no TQ Alto Trombetas 1. A casa está
praticamente inserida na floresta que a circunda, com destaque para as castanheiras, as árvores de maior porte. Fonte: PICANÇO (2018).
Em torno da casa, no chamado quintal, cultivam-se as plantas de usos medicinais (FIGURA 11) e criam-se galinhas, patos e porcos. Num outro círculo mais amplo desenvolvem o cultivo de tubérculos, plantas frutíferas e verduras, constroem casas de farinha, galinheiros e paióis para depositar a castanha ou outros produtos. As casas apresentam áreas de quintais e roçados relativamente próximos (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2019; STCP, 2014).
Figura 11 – Quintais de casas na comunidade Último Quilombo, lago Erepecu, na Reserva
Biológica do Rio Trombetas, no TQ Alto Trombetas 2, Oriximiná, Pará. À esquerda roça próxima ao quintal da casa e à direita quintal com plantas ornamentais e medicinais. Fonte: PICANÇO (2018)
Antes da criação da Reserva Biológica do Rio Trombetas, segundo Castro e Acevedo (1998), as casas dos quilombolas do TQ Alto Trombetas 1 e da comunidade Último Quilombo eram construídas com material extraído da floresta, como madeira e palha, dando um caráter de provisoriedade, podendo permanecer uma de suas paredes laterais abertas ao vento (CASTRO; ACEVEDO, 1998). Atualmente, os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que coletam na Reserva Biológica do Rio Trombetas encontram dificuldades para extrair madeira e palha de seus territórios, tanto os localizados no interior da Reserva Biológica do Rio Trombetas, quanto os localizados no entorno imediato dessa unidade de conservação, conforme informado pelo Entrevistado 14.
Porque naquelas alturas a gente podia lavrar uma madeira, partir um pau pra uma estaca pra vender, tirava um cipó, tirava uma coisa pra tá vendendo [...] Aqui o pessoal vive muito pra fazer madeira. Fazer essas coisas, vender peça, trabalha com peça, mas não pode levar. E aí pra mim, eu enxergo que falta melhorar. [...] Olha, as
peças, você pode levar pronto. No caso levar um remo, levar um casco pra vender pra Oriximiná, você pode levar, tudo já pronto. Agora, se você pegar uma ripa dessa aqui... Agora, eu pergunto: porque? Não é a mesma madeira? (E 14, 2018)
Atividades produtivas e renda dos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do- brasil do TQ Alto Trombetas 1 e da comunidade Último Quilombo
Os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que residem nas comunidades do TQ Alto Trombetas 1 e da comunidade Último Quilombo vivem de agricultura e extrativismo (pesca, caça e produtos florestais não madeireiros – principalmente da castanha-do-brasil. Tais atividades são influenciadas pelos períodos de cheias e secas dos rios. No período chuvoso, denominado localmente de “inverno”, que vai de dezembro a maio, os coletores tradicionais de castanha-do-brasil dedicam-se a coleta da castanha-do-brasil, sendo que muitas famílias passam, então, a residir temporariamente nos castanhais. No período de junho a novembro, após a coleta da castanha, os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil dedicam-se ao trabalho intensivo na roça, uma das principais atividades produtivas, e a mais permanente do TQ Alto Trombetas 1 e da comunidade Último Quilombo. No entanto, essa atividade não é exclusiva desse período, pois, concomitantemente ao trabalho na roça, extraem-se produtos florestais e pratica-se a caça e a pesca, sendo que estas últimas são praticadas durante o ano todo (OBSERVAÇAO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Neste contexto, os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil trabalham na produção de produtos, sejam eles provenientes do extrativismo ou da pequena agricultura familiar e, posteriormente, vendem esses produtos, e com o dinheiro da venda, adquirem o que não produzem, como roupas, instrumentos de trabalhos e produtos alimentícios (OBSERVAÇAO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Desse modo, dentre as atividades produtivas realizadas pelos quilombolas é necessário diferenciar quais são praticadas para o sustento e quais são praticadas para a obtenção da renda. Os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil da microrregião Alto Trombetas praticam a agricultura tanto para o próprio sustento quanto para a comercialização e obtenção de renda, enquanto o extrativismo é mais praticado para o sustento, a exemplo da caça, pesca e extração de produtos florestais não madeireiros, com exceção da coleta da castanha-do-brasil, açaí – permitidos pelo ICMBio em áreas da Reserva Biológica do Rio Trombetas – que são destinados para a comercialização (OBSERVAÇAO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Dentre as atividades praticadas para o próprio sustento, a maior parte das famílias quilombolas Edas, 95%, pratica a pesca, 87% praticam a agricultura e 81% praticam o extrativismo (GRÁFICO 01). Esses dados evidenciam a dependência dos quilombolas aos recursos do território aos quais estão vinculados, para os quais este é uma porção da natureza e espaço que lhes fornece os meios de reprodução do modo de vida. Por isso, reivindicam a garantia a todos, ou a uma parte de seus membros, direitos estáveis de acesso, controle ou uso sobre a totalidade ou parte dos recursos naturais existentes nesses espaços (DIEGUES, 2001).
Gráfico 01 – Atividades produtivas praticadas para o sustento
87% 13%
Família pratica a agricultura?
Sim Não 95%
5%
Família pratica a pesca?
Sim Não
81% 19%
Família pratica o extrativismo?
Sim Não
Fonte: ARQMO (2018)
Atualmente, no TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo somente são permitidas, pelo ICMBio, a caça e a pesca de “subsistência” para fins de sustento, pois são práticas consideradas tradicionais por esse órgão gestor, se constituindo em fontes de proteínas que compõem a dieta alimentar dos quilombolas desde que estes se estabeleceram no vale do rio Trombetas em meados do início do século XIX.
A pesca no Território Quilombola Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo
A pesca nem sempre esteve restrita apenas ao sustento dos quilombolas do Território Quilombola Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo. Segundo Castro e Acevedo (1998), no período compreendido de meados do século XIX até a implantação da Reserva Biológica do Rio Trombetas, a pesca comercial foi muito importante no vale do rio
Trombetas, principalmente a pesca do pirarucu, que submetido ao processo de salga e secagem ao sol, era muito consumido pelos negros nas longas viagens empreendidas nas florestas, na travessia de cachoeiras e lagos, durante o trabalho nos castanhais, constituindo ainda forma de renda monetária. Até a implantação da Reserva Biológica do Rio Trombetas as “mantas de pirarucu seco”, denominadas de “postas” pelos quilombolas, figuravam como um dos produtos mais importantes na economia regional, sendo sua venda realizada em Oriximiná e Óbidos, ou comercializada diretamente com os regatões (CASTRO; ACEVEDO, 1998).
Apesar da pesca, principalmente a pesca do pirarucu, ter sido importante comercialmente no TQ Alto Trombetas 1, atualmente, esta atividade não é realizada com fins comerciais no TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo, pois tal modalidade de pesca é proibida pelo ICMBio, tanto na Reserva Biológica do Rio Trombetas quanto na Floresta Nacional Saracá-Taquera, sendo permitida somente a pesca para o sustento das famílias que residem nos territórios da microrregião Alto Trombetas. A pesca como meio de sustento é praticada por 95% dos quilombolas (Gráfico 01), sendo realizada durante o ano todo, embora seja mais intensiva no período do “verão” amazônico quando os rios, igarapés, paranás, furos e lagos estão com os seus níveis volumétricos muito baixos, o que contribui para uma maior concentração de peixes em seus leitos, facilitando, assim, a atividade de pesca.
As técnicas mais utilizadas na pesca foram desenvolvidas acumulando-se conhecimentos tradicionais por várias gerações, destacando-se a pesca de caniço, de linha comprida, de arpão, de zagaia, de malhadeira (menos usada), cujos utensílios são referidos nos relatórios de viajantes desde fins do século XIX (ACEVEDO; CASTRO, 1998). Os equipamentos utilizados na pesca são confeccionados pelos quilombolas, conforme as condições naturais e a espécie a ser pescada. Dentre os principais petrechos de pesca confeccionados pelos quilombolas podemos destacar: a malhadeira, o caniço e a zagaia.
A caça no Território Quilombola Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo
A caça de animais silvestres, apesar de ser proibida por lei, é fonte de alimento para os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil do TQ Alto Trombetas 1, assim como da comunidade Último Quilombo. Em 2006, por exemplo, na comunidade Último Quilombo, a média mensal de indivíduos abatidos por família era de 5,8. “No que se refere à quantidade registrou-se um número de 104 indivíduos caçados por mês na área de utilização
da comunidade” (MMA, 2006, p. 210). Nesse contexto, a caça é permitida pelo ICMBio, pois essa prática é considerada tradicional e compõe a dieta alimentar dos quilombolas desde que estes se estabeleceram no vale do rio Trombetas em meados do início do século XIX. Dentre os animais silvestres mais utilizados na alimentação quilombola se destacam: pacas, cutias, veados, porcos do mato, macacos, jabutis, a tartaruga-da-amazônia e outros quelônios. Segundo Acevedo e Castro (1998), nos discursos dos quilombolas da microrregião Alto Trombetas:
“são constantes as referências sobre a tartaruga-da-amazônia e o papel que esta ocupou como alimento preferencial do grupo. Povoa sua memória e remete ao modo de vida construído pelos antigos, para os quais seu consumo representava elementos simbólicos nos ritos e celebrações da vida social. Compondo o campo mítico e político nas expressões sobre os animais do rio, o escavador das lembranças remete às interações mantidas com a natureza, quando participavam das virações das tartarugas-da-amazônia no tempo de desova. Consideram essa interferência dos antigos na reprodução da espécie como uma forma equilibrada de manejo somente possível pela observação permanente sobre o seu ciclo de vida. Essa prática corrente na Amazônia, provavelmente, foi assimilada da cultura indígena. "De 1885 a 1894 entravam oficialmente em Belém 123 toneladas de manteiga oriunda de ovos de tartaruga-da-amazônia" (Ciências Hoje, Vol. 9, nº. 46, 1989). Esse quelônio abasteceu de proteínas várias gerações no vale do rio Trombetas, tendo sido acumulado conhecimentos sobre seu hábitat e formas de manejo tradicional (ACEVEDO; CASTRO, 1998).
Contudo, segundo o Cumbuca Norte (2017), a importância da caça como fonte de alimento parece ter decaído diante das restrições de uso das áreas sob a gestão da Reserva Biológica do Rio Trombetas e da Floresta Nacional Saracá-Taquera, devido, principalmente a presença vigilante do ICMBio e das penalidades aplicadas a quem transgride as leis ambientais.
É importante ressaltar que a denominada “caça de subsistência” não encontra amparo na legislação vigente, sendo que a Lei nº 9.985 de 18 de julho 2000 (SNUC), por exemplo, apenas prevê a realização de estudos técnico-científicos sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos nas Reservas de Fauna. No entanto, até o momento atual nenhuma unidade de conservação desta categoria de manejo foi criada no Brasil (FONSECA et al., 2017).
Além disso, o SNUC também estabelece que as unidades de conservação de uso sustentável – tais como Resex, RDS e subsidiariamente as Flonas – têm como um dos objetivos assegurar os modos de vida tradicionais e o acesso ao uso de recursos naturais pelas famílias que nelas vivem. E não há como dissociar o uso dos recursos naturais e a manutenção dos modos de vida tradicionais da atividade de caça, tendo em vista que a chegada do homem,
como no caso da Amazônia, se confunde às atividades mais basais de sustento e obtenção de proteína animal, o que obviamente incluem a caça e a pesca (FONSECA et al., 2017).
Por não tratar especificamente destes temas em seu conteúdo, a Lei nº 9.985 de julho de 2000 (SNUC) demanda naturalmente novos subsídios legais que a complementem, tratando especificamente das atividades que impliquem no uso da fauna e promovam o seu manejo adequado e em bases sustentáveis. Nas unidades de conservação de proteção integral, nas quais a permanência dos povos tradicionais não é permitida, porém há povos tradicionais residindo, como é o caso da Reserva Biológica do Rio Trombetas, é necessário oferecer as mínimas condições para que esses povos mantenham os seus modos de vida tradicionais, o que inclui a caça e a pesca, atividades mais basais de sustento e obtenção de proteína animal para os quilombolas do TQ Alto Trombetas 1 e da comunidade Último Quilombo (FONSECA et al., 2017).
Práticas agrícolas no Território Quilombola Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo
No TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo, a agricultura familiar é praticada nas roças (FIGURA 12), uma das principais atividades produtivas e a mais permanente no calendário anual agroextrativo do TQ Alto Trombetas 1. Segundo Garcia Jr. (1983, p. 111) a roça:
é o produto do trabalho coletivo da família, (...). É no roçado que a família se materializa enquanto unidade de produção. É através dele que a família obtém os meios necessários para se reproduzir. O produto do roçado serve para abastecer a casa direta ou indiretamente (GARCIA JR., 1983, p. 111).
Assim, além de atender as necessidades familiares dos quilombolas, a roça também produz para a comercialização intracomunitária e também na Feira Comunitária, em Porto Trombetas e na cidade de Oriximiná, conforme informado pelos Entrevistados E 12, 2018:
“ [Roças] só faz pro consumo, não faz, assim, pra dizer, vai comerciar, é só pro consumo. Pra comerciá, fica difícil já. Não tem mercado. A terra aqui, praticamente desde a beira da casa é boa. Tudo que você planta tem, mas o mercado que é difícil. Aqui não adianta uma dizer: a minha é diferente, que é difícil. Quase todas, as comunidades mais complicadas é aquelas que moram lá dentro da REBio, da Reserva mesmo, aí elas já tem mais complicação. Só pro sustento. Aqui não tem outra coisa pra dizer, não, eu vou fazer isso aqui que... Só a castanha... Aqui mais próximo tem uma comunidade que eles já façam, assim, roçado pra comercializar, mas assim, comercializar não. Eles vendem uma farinha, eles vendem até aqui pra nós. E, às vezes, eles levam pra cidade alguns sacozinhos. É, ali no Mãe-Cué, onde
vocês vão, eles já façam uma farinha pra..., assim, não é comercializar, é pra desenrascar algumas pessoas. Tem o limite de tipo de roçado, dá pra fazer, não tem... [...]. Pode plantar o que quiser, menos campo que não tá sendo liberado pra plantar campo, pra gente passar com gado pra cá” (E 12, 2018).
Figura 12 – Roças na microrregião Alto Trombetas. À esquerda roça na comunidade Último
Quilombo, no interior da Reserva Biológica do Rio Trombetas. À direita roça na comunidade do Abuí, TQ Alto Trombetas 1, com destaque para as castanheiras no meio do roça, única árvore que não é derrubada durante a fase do roçado. Nas duas figuras é possível observar o cultivo de mandioca, que ocupa a maior parte da roça, assim como também alguns pés de abacaxi. O trabalho na roça é realizado durante o ano todo, com exceção do período da coleta da castanha, no qual os quilombolas se dedicam exclusivamente a coleta desse produto. Fonte: PICANÇO (2018)
No TQ Alto Trombetas 1, os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil decidem, juntamente com a comunidade, os tamanhos das roças, de acordo com as necessidades das famílias. Por outro lado, na comunidade Último Quilombo, que está sobreposta a Reserva Biológica do Rio Trombetas, os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil possuem autorização do ICMBio para cultivar até 01 hectare de roça, o que equivale a uma quadra, medida agrária utilizada pelos quilombolas da microrregião Alto Trombetas. A maior parte da quadra é destinada ao cultivo da mandioca, principal cultura cultivada na roça, sendo utilizada, principalmente, na produção de farinha de mandioca ou farinha d’água, farinha de tapioca e beijus. Além da mandioca, os principais produtos cultivados pelos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil são: macaxeira, banana, abacaxi, cará, batata-doce, jerimum e outros. Tais produtos são cultivados tanto para o próprio consumo como para a comercialização, conforme informado pelos Entrevistados 03, 04, 05, 06, 08, 09, 10, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 25, 26 e 27:
É uma fonte de renda, né? Antigamente, a gente tinha roça, o meu marido tinha roça. Nós tinha muita roça, até bananal nós tinha, cana, Hoje, em dia, como tô lhe dizendo, por causa de fatalidade da minha vista. A gente tem, a gente faz os roçados, mas não é os roçados tão grandes, até mesmo por causa do ICMBio, né. De uma
quadra que eles liberam, mas no momento nos fizemos com o meu esposo um roçado, a gente fez um bananal, plantou uma roça, só que essa terra do Erepecu, aqui, ela não é uma terra muito boa, assim, pra mandioca, ela apodrece muito a terra.