Mapa 06 – Terras Quilombolas e comunidades quilombolas no município de
5.1 FORMAÇÃO E ORGANIZAÇÃO ESPACIAL DA MICRORREGIÃO ALTO
5.2.4 Elementos transformadores do modo de vida dos quilombolas coletores
O nível de vida
Quanto ao abastecimento de água, a maior parte da água consumida é captada diretamente do próprio rio Trombetas e tributários (GRÁFICO 05). O tratamento de água mais recorrente é a base de hipoclorito, eficaz em combater micróbios, mas sem ação eficaz em relação aos sedimentos de bauxita, por exemplo. Dentre os Entrevistados, 19% afirmou que não utiliza qualquer forma de tratamento da água, 1% disse que filtra e 1% ferve a água. Apesar da maioria das pessoas afirmarem que trata a água com cloro, percebemos uma inconsistência entre a percepção de agentes de saúde (45%) e o alto índice de tratamento de água por cloro (79%), sendo que, geralmente, o cloro é distribuído aos comunitários por esses agentes (GRÁFICO 06). A água captada para o consumo, geralmente, é armazenada em baldes, caixas d’água e “tambores”, recipientes nos quais ocorre o tratamento com cloro
(ARQMO, 2018; OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Gráfico 05 – Local de captação da água Gráfico 06 – Formas de tratamento da água
0% 1% 8% 96% 0% 20% 40% 60% 80% 100% 120% Igarapé Rede pública Poço artesiano Rio
% de famílias que captam água
L ocal d e cap tação d a ág u a 1% 1% 19% 79% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Água fervida Água filtrada Nenhum Utilizam cloro
% de famílias que tratam a água
F or m as d e t rat am e n to d a ág u a
Fonte: ARQMO (2018). Elaborado pelo Autor.
Algumas residências possuem bombas d’água elétricas para a captação da água dos rios ou dos poços artesianos, sendo esta transferida para recipientes até as residências por meio de mangueiras hidráulicas. Apenas 1% dos Entrevistados pelo Projeto Jovens Quilombolas utiliza água da rede pública. Entretanto, não há abastecimento público de água nas comunidades visitadas. Semelhante ao que ocorre com a energia elétrica, o denominado abastecimento público de água é disponibilizado pela prefeitura para as pessoas que residem próximo aos centros comunitários, entretanto, essa água também é captada dos rios em baldes ou poços semiartesianos por meio das bombas d’água elétricas (ARQMO, 2018; OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Quanto a destinação do lixo, a maioria dos Entrevistados pelo Projeto Jovens Quilombolas, 98%, afirmou que o lixo doméstico produzido é queimado (GRÁFICO 07). Parcelas menores desse montante são enterradas (12%) ou descartadas nas bordas das florestas, próximo ao quintal das casas, o que amplia as possibilidades de causas de doenças nas comunidades e a poluição de recursos naturais (ARQMO, 2018; OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Gráfico 07 – Descarte do lixo 1% 2% 12% 98% 0% 20% 40% 60% 80%100%120% Armazenado em sacos para
descartar na cidade mais próxima
Jogado direto no meio ambiente Enterrado Queimado % de pessoas D e s ca rte d o l ix o Fonte: ARQMO (2018)
O ICMBio desenvolve atividades com as famílias do Lago Erepecu (comunidades Último Quilombo e Nova Esperança), por meio do Projeto Quelônios, visando a coleta e à destinação do lixo por elas produzido. Os agentes ambientais do ICMBio distribuem sacos para a coleta e depois retiram-nos, levando-os para o aterro sanitário em Porto Trombetas. Além disso, alguns moradores entregam o lixo por conta própria na base de apoio do ICMBio, situada na boca do lago do Erepecu, conhecida localmente como “flutuante”. Contudo, apenas 1% dos Entrevistados (GRÁFICO 07) pelo Projeto Jovens Quilombolas informou que acondiciona o lixo produzido em sacos plásticos para descartar na cidade mais próxima. A coleta realizada por esse órgão ambiental é seletiva, sendo que são os próprios agentes ambientais que realizam a separação dos resíduos, conforme informado pelos Entrevistados 09 e 15:
“Também é a questão do cuidado lá, eles dão o negócio de saca pra a gente colocar o lixo, pra não vir jogar... traz, quando às vezes antes de vir embora, às vezes enche, leva lá na base. Aí eles dão outras sacolas pra gente trazer” (E9, 2018).
(...)
“O lixo também, isso aí não pesou nada isso aí, acho que não. Isso aí é um dever da pessoa né. Ela pegar a lixeira e colocando os lixos tudo dentro e levar lá pra base e a base leva pra lá pra Trombetas” (E15, 2018).
Quanto a destinação dos excrementos humanos, o número de famílias que possui sanitário dentro de casa é quase irrisório, 1% dos Entrevistados. Dos 99% que não possui sanitário dentro de casa, 97% utiliza a denominada “casinha”, 1% utiliza o ambiente a céu aberto e 2% utiliza as matas para descartar seus excrementos (GRÁFICO 08), o que pode
contribuir para a contaminação do solo e da água (ARQMO, 2018; OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Gráfico 08 – Destinação dos excrementos Figura 16 – Sanitário tipo “casinha”
1% 1% 97% 0% 20% 40% 60% 80% 100% 120% Matas Céu aberto Tipo casinha % de pessoas D e s ti n a ç ã o d o s e x c r e m e n to s h u m a n o s
Fonte: ARQMO (2018) Fonte: PICANÇO (2018)
Na comunidade Último Quilombo também há os sanitários do tipo casinha para o descarte dos dejetos humanos (FIGURA 16). A casinha é uma fossa seca, cercada por paredes em madeira ou palha e assoalho em madeira ou concreto com um orifício por onde os excrementos são lançados diretamente em um buraco escavado no solo (ARQMO, 2018; OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Fontes de energia utilizadas pelos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil da Reserva Biológica do Rio Trombetas
No TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo, 79% dos Entrevistados ainda utilizam a lamparina como fonte de iluminação em casa, durante a noite. As comunidades não possuem rede pública de distribuição de energia elétrica, sendo que a principal fonte de energia elétrica utilizada pelos quilombolas Entrevistados é a produzida por gerador de energia elétrica, 59%, movidos a óleo diesel, comumente chamado de “motor de luz” pelos moradores locais (GRÁFICO 09). Algumas residências possuem o próprio gerador, e há um localizado no centro comunitário, doado pela Prefeitura Municipal de Oriximiná ou pela MRN, que pertence à comunidade e se destina ao uso durante as atividades comunitárias. Também é utilizado pelos os moradores mais próximos do centro comunitário – quando há combustível doado pela PMO – o que explica 4% das famílias Edas afirmarem ter acesso a energia elétrica por "rede pública", contudo essa energia é apenas disponibilizada a noite,
principalmente para assistir programas de entretenimento como as novelas (ARQMO, 2018; OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).
Gráfico 09 – Fontes de energia utilizadas na microrregião Alto Trombetas
Fonte: ARQMO (2018)
Os geradores de energia elétrica, assim como uma quota mensal de óleo diesel necessário para o seu funcionamento, são disponibilizados pela Prefeitura Municipal de Oriximiná aos centros comunitários. As unidades familiares mais distantes, como por exemplo, as que estão localizadas do outro lado da margem do rio, geralmente, adquirem seu próprio “motor de luz” e, muitas vezes, compartilham a energia elétrica com o grupo familiar ao qual estão inseridas. Apenas 1% dos Entrevistados utiliza energia solar, sendo que esta ainda apresenta um custo muito elevado para a realidade quilombola, tanto de aquisição dos equipamentos como para a sua manutenção (GRÁFICO 09) (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018; ARQMO, 2018).
A energia elétrica é fornecida por geradores movidos a óleo diesel ou gasolina, combustíveis transportados da cidade de Oriximiná até as comunidades quilombolas. Há muitos “revendedores” de combustíveis nas comunidades visitadas, sendo que durante a pesquisa de campo o litro da gasolina era vendido a R$ 7,00, enquanto nos postos localizados na cidade de Oriximiná, o litro era vendido a R$ 4,95, o que indica um acréscimo de 36,71% em relação ao litro da gasolina vendida nos postos em Oriximiná. O óleo diesel era vendido a R$ 4,35. Os combustíveis são armazenados em recipientes dentro das casas, geralmente nas varandas (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018).
A educação nas comunidades do Território Quilombola Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo
O TQ Alto Trombetas 1 possui Escolas Municipais de Educação Infantil e de Ensino Fundamental (EMEIF’s) denominadas escolas-polos, geridas pela Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná (SEMED), nas quais há oferta dos Ensinos Infantil e Fundamental públicos. As escolas encontram-se sediadas, estrategicamente, nas comunidades que possuem maior contingente populacional: Tapagem e Abuí, atendendo as outras comunidades menores que se encontram nas proximidades. A comunidade da Tapagem é a sede da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Raimundo Vieira, que oferece turmas de ensino infantil e nível fundamental, do 1º ao 9º ano, para crianças e adolescentes das comunidades Sagrado Coração de Jesus, Mãe Cué e da própria Tapagem. A comunidade Abuí, por sua vez, a sede da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tancredo Neves, que oferece turmas de ensinos infantil e fundamental, do 1º ao 9º ano, para crianças e adolescentes das comunidades Paraná do Abuí, Santo Antônio do Abuízinho e do próprio Abuí (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018; ARQMO, 2018).
As escolas-polos sediadas nas comunidades da Tapagem e Abuí, por sua vez, pertencem a Unidade Regional de Gestão Escolar (URGE) Quilombola 11 – Alto Rio Trombetas (ORIXIMINÁ, 2014), que têm as atividades desenvolvidas na sede da Escola Municipal de Educação Infantil e de Ensino Fundamental Raimundo Vieira dos Santos, na comunidade Tapagem. Essa organização é resultado de um projeto de nucleação e consolidação das escolas rurais desenvolvido, a partir do ano de 2004, pela Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná (SEMED). Antes desse projeto, cada comunidade da zona rural do município de Oriximiná possuía sua própria escola, que eram escolas multisseriadas, geralmente com a oferta somente das séries iniciais do Ensino Fundamental (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018; ARQMO, 2018).
As escolas-polos são construídas em alvenaria e possuem microssistema de abastecimento de água encanada por meio de poço semiartesiano. Também possuem sanitários na parte interna do prédio, mas não possuem tratamento de esgoto, nem local apropriado para o descarte do lixo, que é queimado ou despejado em locais próximos às bordas das florestas ou ribanceiras dos rios (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018).
O transporte escolar é feito por barqueiros contratados pela Semed, que transportam os alunos das diversas comunidades até às escolas-polos. A Prefeitura Municipal de Oriximiná também fornece a merenda escolar para as escolas-polos. Contudo, conforme observado nas discussões durante o XII Encontro da Consciência Negra, realizado em 2018 na Comunidade
do Moura, no TQ Alto Trombetas 2, onde estavam presentes o prefeito municipal, vereadores e a secretária de educação municipal, houveram muitas reclamações acerca do que vinha acontecendo naquele município, que não estava efetuando o pagamento dos barqueiros, assim como não estava disponibilizando as quotas mensais de diesel para esse transporte, o que inviabilizava que o transporte dos alunos fosse realizado. Também estava com dificuldades na distribuição da merenda escolar na região (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018; ARQMO, 2018).
Até 2014, havia muita reclamação e insatisfação por parte das comunidades do TQ Alto Trombetas 1 acerca do fato de não haver ensino de nível médio na região, fazendo com que os jovens que desejassem continuar os estudos migrassem para Oriximiná. A evasão escolar, após o término do Ensino Fundamental, era considerada alta pelos moradores das comunidades do TQ Alto Trombetas 1, que contavam apenas com escolas que ofertavam o Ensino Infantil e o Ensino Fundamental até o 9º ano. Ao concluírem o Ensino Fundamental, muitos jovens das comunidades visitadas, quando não tinham condições financeiras para ir estudar na cidade de Oriximiná, acabavam por reproduzir as atividades dos pais, a roça e o extrativismo. Atualmente, com a implantação do Ensino Médio, mesmo que não seja regular, os jovens das comunidades do TQ Alto Trombetas 1 podem dar prosseguimento aos seus estudos, sem necessitar migrar para a cidade de Oriximiná, pois, muitas vezes, necessitam morar na casa de parentes ou amigos e, geralmente, não se adaptam aos costumes estranhos ao seu modo de vida, o que faz com que muitos que retornem as suas comunidades de origem (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018; ARQMO, 2018).
A partir de 2014 começaram a ser ofertadas turmas de Ensino Médio, sendo a primeira destas na EMEIF Raimundo Vieira, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA), mas não chegou a atender aos comunitários da comunidade Sagrado Coração de Jesus, por exemplo (STCP, 2014). Atualmente, o estado do Pará é o responsável pela oferta do Ensino Médio, mediado pelo uso de tecnologias e na modalidade EJA. O Sistema Educacional Interativo (SEI) foi implantado nas escolas-polos do município de Oriximiná, a partir de 2015, pelo governo do estado do Pará, em parceria com o município de Oriximiná. Nesse sistema, o aluno participa de uma modalidade de estudo EAD, onde as aulas são oferecidas à distância por meio de vídeos e mediadas por um professor-tutor presencial. As turmas implantadas por essa modalidade estão alocadas em escolas-polos municipais de ensino fundamental. O Governo Estadual fornece os tutores e a merenda escolar, enquanto o município de Oriximiná oferece o serviço de barqueiro e merendeira, contando ainda com o
apoio da MRN que auxiliará no que tange ao transporte dos alunos nas áreas quilombolas (OBSERVAÇÃO ESTRUTURADA, 2018; ARQMO, 2018).
Atualmente, conforme observado nas discussões durante o XII Encontro da Consciência Negra, realizado em 2018 na Comunidade do Moura, no TQ Alto Trombetas II, há muitas discussões acerca da Educação Escolar Quilombola, principalmente, no que concerne às especificidades da educação escolar quilombola, que muitas vezes, não é considerada pelos municípios, como no caso de Oriximiná.
As Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica consideram que:
A Educação Escolar Quilombola é desenvolvida em unidades educacionais inscritas em suas terras e cultura, requerendo pedagogia própria em respeito à especificidade étnico-cultural de cada comunidade e formação específica de seu quadro docente, observados os princípios constitucionais, a base nacional comum e os princípios que orientam a Educação Básica brasileira. Na estruturação e no funcionamento das escolas quilombolas, deve ser reconhecida e valorizada sua diversidade cultural (DCN, 2012, p. 42).
Além disso, de acordo com o documento final da Conferência Nacional de Educação (CONAE, 2010), a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão:
a) Garantir a elaboração de uma legislação específica para a educação quilombola, com a participação do movimento negro quilombola, assegurando o direito à preservação de suas manifestações culturais e à sustentabilidade de seu território tradicional.
b) Assegurar que a alimentação e a infraestrutura escolar quilombola respeitem a cultura alimentar do grupo, observando o cuidado com o meio ambiente e a geografia local.
c) Promover a formação específica e diferenciada (inicial e continuada) aos/às profissionais das escolas quilombolas, propiciando a elaboração de materiais didático-pedagógicos contextualizados com a identidade étnico-racial do grupo. d) Garantir a participação de representantes quilombolas na composição dos conselhos referentes à educação, nos três entes federados.
e) Instituir um programa específico de licenciatura para quilombolas, para garantir a valorização e a preservação cultural dessas comunidades étnicas.
f) Garantir aos professores/as quilombolas a sua formação em serviço e, quando for o caso, concomitantemente com a sua própria escolarização.
g) Instituir o Plano Nacional de Educação Quilombola, visando à valorização plena das culturas das comunidades quilombolas, à afirmação e manutenção de sua diversidade étnica.
h) Assegurar que a atividade docente nas escolas quilombolas seja exercida preferencialmente por professores/as oriundos/as das comunidades quilombolas (CONAE, 2010, p. 131-132).
comunidades do TQ Alto Trombetas 1 são quilombolas (GRÁFICO 10), o que está de acordo com as deliberações da Conferência Nacional de Educação (CONAE, 2010).
Gráfico 10 – O professor da comunidade é
quilombola?
Gráfico 11 – Você conhece a história da
formação dos quilombos?
92% 8% Sim Não 56% 44% Não Sim Fonte: ARQMO (2018)
Analisando os Gráficos 10 e 11 é possível verificar que quando cruzamos os dados de quantitativos de professores quilombolas com informações sobre o conhecimento da realidade quilombola do território, como por exemplo, sobre o conhecimento dos quilombolas sobre titulação territorial, esse dado traz à luz a necessidade por uma discussão da importância e o papel dos professores, quando quilombola, para a educação cultural local.
A saúde dentre os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil da Reserva Biológica do Rio Trombetas
No que concerne à saúde, 95% das famílias das comunidades quilombolas do TQ Alto Trombetas 1 não atendidas em postos de saúde (GRÁFICO 12), mas possuem, em geral, um Agente Comunitário de Saúde (ACS) para atender duas comunidades, os quais atuam em orientações educativas e preventivas a doenças (ARQMO, 2018; OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019). Na comunidade Último Quilombo não há agente comunitário de saúde e nem posto de saúde. Se considerarmos, por exemplo, que o tratamento de água depende de fornecimento de cloro por agentes de saúde, pelo menos metade das famílias do território não tem contato com esta lógica de política pública, pois 43% das famílias entrevistadas declarou não ser atendida por ACS (GRÁFICO 13).
Gráfico 12 – Famílias atendidas por
agentes de saúde
Gráfico 13 – Famílias atendidas em postos
de saúde 5%
95%
A comunidade possui posto de saúde?
Sim Não 55%
43%
A família é atendida por agente de saúde?
Sim Não
Fonte: ARQMO (2018)
Quanto ao tratamento da saúde constatou-se que os casos emergenciais são atendidos na vila de Porto Trombetas, desde que o enfermo possua um cadastro junto a MRN. Tal cadastro é um benefício que a MRN disponibiliza, em regra, para funcionários e seus dependentes, e que se estende a quilombolas das comunidades do Boa Vista e Moura, mas não àqueles que moam em outras comunidades. Somente pessoas que foram abrangidas pelo cadastro realizado há algum tempo é que possuem direitos a consultas no hospital da MRN, conforme informado pelos Entrevistados 21 e 25:
“Aqui na comunidade a gente não tem agente de saúde, a gente não tem. Eu e meu esposo e meus filhos, agente é cadastrado lá em Trombetas, aí a gente se consulta lá em Trombetas, mas nem todos os moradores daqui eles são cadastrados lá. Tem gente que não é cadastrado. Já faz muitos anos que a Mineração fez esse cadastro. Novos, assim, eles estão pelejando pra ver se conseguem o atendimento pra essas pessoas. Eu e meus filhos a gente é cadastrado porque o meu esposo ele não era daqui, ele morava lá no Batata. Tem a Vila Paraíso, o Brega que chamam. Por traz tem um lago que é o Batata. Ele morava lá e por lá na época, quando ele era... morava com o pai dele, por lá passou o cadastro da Mineração. Aí lá ele se cadastrou, aí depois de eu casar com ele, aí eu entrei pelo dele, porque o marido tem direito de cadastrar a esposa, os filhos. Aí por isso que a gente é cadastrado. Mas nem todos aqui da comunidade são cadastrados. [Quando tem um problema grave de saúde com as pessoas, eles atendem lá?] Eles atendem. É, só não é pra consulta, assim, às vezes mandam pra Oriximiná. Se for uma coisa grave, eles atendem, às vezes eles até... internado, que a pessoa fica internada. Mas ficar se consultando, fazer consulta, isso aí a pessoa não tem direito. Tem que ir pra Oriximiná” (E 25, 2019).
(...)
“Primeiros socorros, quando a gente leva em Trombetas, às vezes eles fazem, por aqui na Mineração ela tem um povo, que logo que ela chegou, que tava lá perto, no Boa Vista, Batata e Moura, ela cadastrou. Uma sou eu que eu sai de lá, mas eu tenho cadastro. Eu chego na mineração, eu me consulto, mas ele e outros, hoje não tem cadastro. Mas, mesmo assim, a Mineração não deixa de receber, cadastrados ou não cadastrados, agora os que não são cadastrados ela manda para Oriximiná e até mesmo os cadastrados ela manda, mas a Mineração devido o Território, ela criou também um projeto de médico que vem de Santarém, um grupo quilombola que vem de Santarém que atende no moura, no Jamari, na Tapagem e aí as comunidades vai pra lá, que querem ir pro Moura se consultar. Mas, diretamente em Oriximiná. Mas a
gente tem esse médico que vem, esse projeto quilombola que traz esses médicos e a gente se consulta aí no Moura” (E 21, 2019).
Analisando as falas dos Entrevistados 21 e 25, nota-se que o atendimento no hospital de Porto Trombetas, mesmo que seja apenas para os atendimentos emergenciais e parto, é considerado muito importante para os moradores locais. Para os demais atendimentos e para a prevenção a doenças, os moradores que necessitam de atendimento médico deslocam-se a cidade de Oriximiná, uma vez que as pessoas que não são cadastradas não possuem acesso ao hospital e ao ambulatório da MRN. Quanto aos casos graves, a MRN encaminha os pacientes para a cidade de Santarém, sendo responsável por todas as despesas com deslocamento, estadia e tratamento.
Outra referência de serviço de saúde relada nas entrevistas é o projeto Quilombo, executado pela Fundação Esperança, em parceria com a MRN que atende aos quilombolas do TQ Alto Trombetas I e da Cachoeira Porteira uma por vez por mês, na Tapagem. Esse projeto propicia atendimentos mensais aos moradores locais, incluindo consultas médicas, exames laboratoriais, mediante a obtenção de senhas previamente disponibilizadas, além de propiciar a formação de agentes de saúde e ações de conscientização em saúde. A comunidade Último Quilombo, também, eventualmente, é atendida, regularmente, por meio do projeto Quilombo, o qual realiza suas ações em dois polos do TQ Alto Trombetas 2, na comunidade Curuçá- Mirim e no Moura, sendo nesta comunidade que os moradores do Último Quilombo são atendidos (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2019).
Contudo, durante as pesquisas de campo constatou-se que esse serviço não estava mais sendo oferecido por falta de repasse de recursos financeiros por parte da MRN. Os moradores também argumentam que o projeto Quilombo não é suficiente para suprir as demandas locais