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Fonte: IBGE, IDEFLOR-BIO, INCRA. Elaboração do autor.

A microrregião Alto Trombetas, onde estão inseridos o TQ Alto Trombetas 1 e a comunidade Último Quilombo, situa-se, sobretudo nas margens de rios, lagos e igarapés da bacia hidrográfica formada pelo rio Trombetas e seus tributários. O rio Trombetas é um rio de águas claras que possui muitos trechos de corredeiras e cachoeiras, apresentando água mais cristalina, pois não banham tantos terrenos ricos em nutrientes como os de água barrenta (IBAMA, 2004). No início do século XIX, os mocambeiros construíram os quilombos às margens dos rios Trombetas e Erepecuru, nos trechos encachoeirados, à jusante das linhas de quedas das cachoeiras, obstáculos naturais que proporcionavam proteção aos quilombolas ante as expedições punitivas.

O rio Trombetas e seus tributários influenciam diversos ambientes alagáveis, tais como as florestas inundáveis de igapó dos lagos, as florestas inundáveis de várzeas; e, em menor extensão, manchas de campinas sobre solo arenoso. Além dessa variedade de ecossistemas terrestres presentes na microrregião Alto Trombetas, também há: ambientes lóticos de pequenas, médias e altas vazões, inter-relacionados com baixa, média e alta energia (desde remansos até cachoeiras vigorosas; ambientes lênticos, representados tanto pelos exuberantes lagos presentes na região, com o fluxo de água controlado pelos pulsos de

vazante e cheia do rio Trombetas, como eles ocupados por uma rica e variada fauna. (RADAMBRASIL, 1976 apud SALOMÃO, 2012).

O clima da região na qual está inserida a microrregião Alto Trombetas, onde situam- se o TQ Alto Trombetas 1 e a comunidade Último Quilombo, é classificado como do tipo “AF1” de acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger (KÖPPEN; GEIGER, 1928), sendo classificado como tropical chuvoso de floresta que apresenta precipitação pluviométrica média anual variando entre 2.200 mm e 2.500 mm (RADAMBRASIL, 1976 apud SALOMÃO, 2012), sendo que a temperatura média, a precipitação pluviométrica, a umidade relativa e a insolação anual para região são de respectivamente: 26ºC, 2.197 mm, 81% e 2.026 horas (INEMET 2010 apud SALOMÃO, 2012). Como regra geral, na Amazônia há dois períodos climáticos distintos: o “inverno” e o “verão”.

O “inverno” amazônico ocorre de dezembro a maio, quando incidem as maiores precipitações pluviométricas, e consequentemente, o aumento dos níveis dos rios, lagos e igarapés, ocasionando as chamadas “cheias”. No “inverno” amazônico, os coletores tradicionais de castanha-do-brasil se dedicam a coleta da castanha-do-brasil – mais precisamente de janeiro a maio –, pois é nesse período que os ouriços, frutos da castanheira, se desprendem dos galhos dessa árvore e caem no chão. As “cheias”, por sua vez, facilitam o transporte do produto, pois na “seca” muitos igarapés e furos ficam intrafegáveis devido se tornarem muito rasos. O “verão” amazônico ocorre de junho a novembro, quando a estiagem é bem acentuada, ocasionando as chamadas “secas” (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018).

Geomorfologicamente, a área de estudo encontra-se na unidade morfoestrutural do Planalto Dissecado Rio Trombetas – Rio Negro, onde nas proximidades da margem direita do rio Trombetas há relevos tabulares onde ocorre a exploração de bauxita. Na Geologia da bacia amazônica os depósitos de bauxita presentes na microrregião Alto Trombetas são associados à série Barreiras do Terciário, constituídos de arenitos, siltitos e, ocasionalmente, conglomerados. As lateritas, assim como a bauxita comercial, são encontradas no topo dos platôs, fortemente dissecados pela erosão, remanescentes do peneplano Terciário, e que se estendem ao longo do lado nordeste do rio Amazonas, desde as vizinhanças de Oriximiná até Jardilândias, no rio Jari. Estes platôs são bem definidos, têm os topos planos, achatados, cuja elevação varia de 70-120 m, com altitude de 150-200 m em relação ao nível do mar (RADAMBRASIL, 1976 apud SALOMÃO, 2012).

Fitogeograficamente, a microrregião Alto Trombetas, onde estão inseridos o TQ Alto Trombetas 1 e a comunidade Último Quilombo, situa-se no Domínio das Terras Baixas

Florestadas da Amazônia (Ab'Saber, 1971) e, segundo a classificação fitogeográfica do IBGE (1992), a sua cobertura vegetal está inserida na Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas ou Floresta Pluvial Tropical de Terras Baixas mista, sempre-verde, raramente estacional, intercalada por manchas de floresta densa. Esta tipologia florestal é dependente de alto índice pluviométrico e conta com uma densa biomassa vegetal. Das subtipologias existentes nesta região fitogeográfica, apenas as florestas de terra firme, as florestas inundáveis de igapó, as florestas de várzea e a campina de areia branca se fazem presentes na Reserva Biológica do Rio Trombetas. Dentre as principais espécies encontradas destacam-se: Dinizia excelsa (angelim-pedra), Bertholletia excelsa (castanheira) e Cedrelinga catanaeformis (cedrorana). O estrato uniforme é caracterizado por Manilkara spp (maçarandubas), Protium spp. (breus) e Pouteria spp (abius). Trata-se de florestas com alto volume de madeira de grande valor comercial, com sub-bosque limpo, boa regeneração natural e fácil locomoção (IBAMA, 2004).

4.1.1 O Território Quilombola Alto Trombetas 1 (Território Mãe Domingas)

O Território Quilombola Alto Trombetas 1, também conhecido como Mãe Domingas, nome da associação que o representa, está localizado a jusante do TQ de Cachoeira Porteira, no entorno da Reserva Biológica do Rio Trombetas (MAPA 02). Parcialmente titulado pelo Iterpa em 2003, o TQ Alto Trombetas 1 teve o título definitivo de seu território retificado em 2012. Atualmente, a parte titulada do TQ Alto Trombetas 1 possui uma área de 61.211,96 hectares, correspondentes às comunidades Abuí, Paraná do Abuí e Santo Antônio do Abuizinho. A parte não titulada do TQ Alto Trombetas 1 compreende uma porção territorial de 151.923 hectares, correspondente às comunidades: Tapagem, Sagrado Coração de Jesus e Mãe Cué, conforme informado pelo E 11:

“A Associação Mãe Domingas da qual faço parte, ela é composta com seis comunidades: começa no Abuí, o Paraná do Abuí, o Santo Antônio que era uma comunidade junta com o Paraná que era só o Paraná e foi dividido e agora tem o Santo Antônio. Aí tapagem, Sagrado Coração de Jesus e o Mãe-Cué. Então essas comunidades a qual faz parte da Associação Mãe Domingas, que graças a Deus nós não tem nenhuma comunidade que more, que seja implantada dentro da Reserva Biológica. Tudo é na Floresta Nacional, mas a maior parte da extraição que a gente faz é dentro da Reserva Biológica. Quando não coleta a castanha direcionada, mas coleta a copaíba, coleta outra coisa. Tem três comunidades dentro do território titulado que é o Abuí, o Paraná do Abuí e o Santo Antônio. E já a Tapagem, o Sagrado Coração de Jesus e Mãe-Cué, a gente tá lutando pra conseguir a titulação dessas três. A gente já, em fevereiro de 2017, foi publicado o RTID. Quando foi esse ano a gente tinha uma data judicial que era pra ser titulada até maio de 2018, mas não foi titulada, mas graças a Deus, foi publicada a portaria de reconhecimento pelo

Diário Oficial da União no dia 19 de julho, o qual vai ser entregue no dia 20, lá na comunidade da Tapagem. É um avanço enorme pra titulação porque daí não tem mais como o governo dizer eu não titulo porque ela não é reconhecida, né. E passando do Diário, da Portaria de reconhecimento, só é a titulação. Possa que venha umas outras coisas, que hoje a gente tá brigando com... ainda não é caminho diretamente pra titulação por causa de que pra fazer titulação dentro dessa área que a gente tá tem que fazer um projeto de lei pra fazer a desafetação da Flona pra diretamente pra titulação e isso depende de passar pelo Congresso. E a gente sabe que o Congresso hoje, a briga do Congresso é por dinheiro, não é por ajudar ninguém” (E 11, 2018).

De acordo com o Entrevistado 11, dentre as peculiaridades do grupo de comunidades do TQ Alto Trombetas 1, está a ocupação da Reserva Biológica do Rio Trombetas com usos – não há moradias. As sedes e as áreas de moradias das comunidades quilombolas da parte não titulada do TQ Alto Trombetas 1 estão localizadas em áreas sobrepostas ao território da Floresta Nacional Saracá-Taquera. Além das áreas sobrepostas à Floresta Nacional Saracá- Taquera, as comunidades do TQ Alto Trombetas 1 também reivindicam áreas de uso sobrepostas a Reserva Biológica do Rio Trombetas.

A Portaria que o Entrevistado 11 se refere é a Portaria de Reconhecimento nº 1.171, publicada no Diário Oficial da União, no dia 17 de julho de 2018 foi publicada. Essa Portaria é resultado de acordo entre o INCRA, o ICMBio e a Associação Mãe Domingas, entidade representativa do Território Quilombola Alto Trombetas 1. Por meio dessa Portaria, o Incra reconheceu e declarou como terras do Território Quilombola Alto Trombetas 1 a área de 161.719,42 hectares, situada no município de Oriximiná, no estado do Pará. A regularização fundiária desse território será realizada via Contrato de Concessão de Direito Real de Uso (CCDRU), a ser emitido pelo ICMBio, sendo o Incra e a Fundação Cultural Palmares intervenientes da área de 57.938,14 hectares, que corresponde à porção do Território Quilombola sobreposto à Floresta Nacional de Saracá-Taquera (INCRA, 2018a).

No mesmo dia também foi publicada a Portaria de Reconhecimento nº 1.172, resultado de acordo entre o INCRA, o ICMBio e a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Alto Trombetas (ACRQAT), entidade representativa do Território Quilombola Alto Trombetas 2. Por meio Portaria de Reconhecimento nº 1.172, o Incra reconheceu e declarou como terras do Território Quilombola Alto Trombetas 2 a área de 189.657,81 hectares, situado no Município Oriximiná, no estado do Pará. A regularização fundiária será realizada via contrato de concessão de direito real de uso a ser emitido pelo ICMBio, sendo INCRA e Fundação Cultural Palmares intervenientes, da área de 93.794,19 hectares, que corresponde à porção do Território Quilombola sobreposto à Floresta Nacional de Saracá- Taquera (INCRA, 2018b).

Apesar da publicação das Portarias de Reconhecimento, estas não encerram as tratativas referentes à definição final das áreas dos Territórios Quilombolas Alto Trombetas 1 e Alto Trombetas 2 que se encontram sobrepostas à Reserva Biológica do Rio Trombetas, considerando-se a sobreposição de interesses da União. A publicação da Portaria também não implica renúncia, pelos quilombolas dos Territórios Quilombolas Alto Trombetas 1 e Alto Trombetas 2, ao direito de futura emissão de título de domínio sobre as sobrepostas à Reserva Biológica do Rio Trombetas (INCRA, 2018a; INCRA, 2018b).

Segundo Fonseca (2015), a titulação da área reivindicada pelo TQ Alto Trombetas 1, sobreposta a unidades de conservação federais, atualmente geridas pelo ICMBio, impõe o enfretamento de uma questão delicada: a necessidade de revisão dos limites das unidades de conservação federais criadas sobre territórios secularmente ocupados por comunidades remanescentes de quilombos. Por tal razão, a regularização fundiária do TQ Alto Trombetas 1 tem sido postergada, devido à dificuldade de consenso entre o Incra e o ICMBio quanto às sobreposições do TQ com as unidades de conservação.

4.1.2 A comunidade Último Quilombo

A comunidade Último Quilombo recebe essa denominação por ter sido a última comunidade quilombola a aderir, no ano de 1993, ao movimento organizado pela Arqmo. A comunidade Último Quilombo localiza-se no Território Quilombola Alto Trombetas 2, mais precisamente nas margens do lago do Erepecu, abrangendo o rio Trombetas e o igarapé do Candeeiro, até o Igarapé da Água Branca. O território da comunidade Último Quilombo está totalmente sobreposto ao território da Reserva Biológica do Rio Trombetas, ocupando a porção sul da Reserva Biológica do Rio Trombetas, estando a noroeste da Base de Apoio do Erepecu – posto de fiscalização do ICMBio, que está instalado na boca do lago – e fazendo fronteira, a oeste, com a comunidade Nova Esperança (CUMBUCA NORTE, 2017).

A comunidade Último Quilombo está vinculada a Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Alto Trombetas 2 (ACRQAT), a qual é responsável pela solicitação de titulação do TQ Alto Trombetas 2. O processo administrativo foi formalizado junto ao Incra desde 2004, sendo que o RTID desse TQ somente foi publicado em 14 de fevereiro de 2017, em obediência à sentença que, em 2015, condenou a União, o Incra e o ICMBio a concluírem em até dois anos o procedimento administrativo de identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas pelas comunidades de remanescentes de quilombo Alto Trombetas 1 e 2. A solução do procedimento, contudo,

tem sido postergada (assim como foi postergada a publicação do RTID, concluído em 2014) devido à dificuldade de se chegar a consenso, entre os órgãos federais, quanto às sobreposições do TQ Alto Trombetas 2 com a Floresta Nacional Saracá-Taquera e a Reserva Biológica do Trombetas.

A população da comunidade Último Quilombo é de 40 famílias, de acordo com os moradores. Segundo o Departamento de Relações Comunitárias da MRN, naquele mesmo ano, 30 famílias estariam residindo na comunidade (MRN, 2016). Já o Relatório Antropológico do TQ Alto Trombetas 2 indicou que, em 2013, havia 27 famílias no local, das quais 20 teriam sido cadastradas pelo Incra e outras sete não cadastradas, totalizando uma população de 122 moradores (Ecodimensão, 2014). Por sua vez, o levantamento socioeconômico realizado pela STCP em 2014 considerou em conjunto a população das comunidades Nova Esperança e Último Quilombo, referindo-se a ambas como se fossem uma só localidade, então chamada Lago Erepecu, de modo que não se procedeu à discriminação do número de famílias referentes a cada comunidade. Enfim, diante das imprecisões e possíveis mudanças próprias dos fluxos populacionais, adotou-se nesta pesquisa as informações das últimas pesquisas dos relatórios antropológicos.

4.1.3 Organização social e territorial dos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil da Reserva Biológica do Rio Trombetas

No que se refere a organização social e territorial, os resultados indicaram que os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que coletam na Reserva Biológica do Rio Trombetas, tanto os que residem no TQ Alto Trombetas 1, quanto os que residem na comunidade Último Quilombo, estão organizados em núcleos familiares, conviventes ou não em uma mesma unidade doméstica. As unidades domésticas, por sua vez, formam os grupos familiares, que formam as comunidades. As comunidades se organizam em torno de associações que representam o Território Quilombola e estas estão organizadas em torno da Arqmo, Associação-Mãe (FIGURA 01) (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018).

Associação Mãe (ARQMO) Microrregião Associação de Área/Território Quilombola Comunidade Grupo Familiar Unidade Familiar

Figura 01 – Organograma dos níveis de organização social e territorial da microrregião Alto

Trombetas.

Os núcleos familiares no TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo

Os quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que residem no TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo se organizam em núcleos familiares, conviventes ou não em uma mesma unidade doméstica (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018). No TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo as unidades domésticas são compostas, em média, por 03 a 06 pessoas, mas esse número pode variar a até 10 pessoas morando na mesma casa, sendo que cerca de 88% das casas abriga apenas uma única família6 (ARQMO, 2018).

A quantidade de famílias residindo na mesma casa tem relação direta com o desmatamento nas áreas do TQ Alto Trombetas 1 e da comunidade Último Quilombo, uma vez que quanto mais famílias constroem casas, mais áreas do interior e entrono da Reserva Biológica do Rio Trombetas são desmatadas (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).

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Considerou-se como família o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, que residissem na mesma unidade domiciliar e, também, a pessoa que morasse só em

Os grupos familiares no TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo

As unidades familiares, geralmente, se organizam em grupos familiares. Os grupos familiares do TQ Alto Trombetas 1 e da comunidade Último Quilombo são formados por aglomerações de casas construídas próximas umas das outras, em sítios elevados localizados ao longo dos rios, lagos, igarapés e paranás (FIGURA 02). As pessoas que compõem o grupo familiar auxiliam-se na produção e comercialização dos produtos oriundos da pequena agricultura familiar e do extrativismo, mas há um distanciamento espacial entre esses grupos. Contudo, apesar desse distanciamento, há uma teia de relações, trocas e ajuda mútua entre esses grupos que integram uma unidade maior, a comunidade, que lhes dá sentido social e cultural (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018).

Figura 02 – Casas de um grupo familiar na comunidade do Abuí, no lago do Abuí, Território

Quilombola Alto Trombetas 1, microrregião Alto Trombetas, Oriximiná – PA. O grupo familiar geralmente é constituído por filhos e filhas que contraíram matrimônio, mas também podem ser constituído por outros familiares. Fonte: PICANÇO (2018).

A organização em comunidades

Os grupos familiares de quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que coletam na Reserva Biológica do Rio Trombetas se organizam socioespacialmente em comunidades, unidades políticas e administrativas no contexto local (OBSERVAÇÃO SEMIESTRUTURADA, 2018/2019).

Segundo Acevedo e Castro (1998), as comunidades do TQ Alto Trombetas 1, da forma como estão organizadas atualmente, foram instituídas e reconhecidas pelos quilombolas, no âmbito da organização da Arqmo, a partir da década de 1990. A organização se deu em meio a lutas pela garantia de direitos territoriais das populações negras locais, invisibilizadas nos processos de criação das unidades de conservação e afetadas por impactos socioambientais decorrentes da implantação da mineração na região, conforme informado pelos Entrevistados 01, 12 e 24:

“Esse negócio de comunidade foi de uns certos tempos pra cá que foi afundada e na época que jogaram o pessoal de lá do Jacar... Daí da Reserva não tinha ainda o negócio das comunidades. Dispois disso muitas coisas melhorou, mas foi já devido a comunidade, depois de fundar a comunidade que melhorou mais algumas coisas” (E01, 2018).

(...)

“A comunidade aqui é o seguinte, as comunidades aqui vizinhas, as seis comunidades, se fazer uma E com uma, tá fazendo com todas. Tem aquela coisa que, às vezes, a pessoa não tá mais inteirada que a outra. A gente sempre tá, graças a Deus, uma parceria boa aí com eles da Mãe-Domingas, né, sai a gente vai junto” (E12, 2018).

(...)

“Foi depois da morte, em 94 [1994], que um policial do Ibama matou um irmão meu, aí já existia a Arqmo nessa época, tava próxima ainda que a Arqmo foi fundada, aí devido a força que a Arqmo foi fundada, as comunidades de fora, aí meio que o Ibama relaxou, aí foi que montaram essa comunidade. Foi a Igreja Católica que organizou, foi o padre Patrício. Todas as comunidades são organizadas pela Igreja Católica. Quando o Ibama chegou pra cá, eles vinham com o propósito de... Até hoje eles ainda usam essa mesma situação. Eles vieram aqui porque o governador decretou como reserva, né. Só que antes de ser Reserva existia muitos moradores, existia na verdade. Existia moradores já, o avô dele, bisavô dele, por exemplo, o papai, o pai do papai morou por aqui. Só que não era comunidade, mas existia essas pessoas. Aqui sempre foi lago Erepecu. Inclusive essa data de criação dessa comunidade aqui, houve um equívoco que tem muitas pessoas que falam que não foi devido a morte do meu irmão que fundada essa comunidade, mas na verdade foi. Aí tem umas pessoas da comunidade que acabam dizendo que foi antes, antes da morte, mas na verdade foi depois da morte dele que nós... Foi de conflito nosso com o Ibama” (E24, 2019).

Analisando as falas dos Entrevistados 01, 12 e 24, pode-se afirmar que outro uso importante do termo/categoria “comunidade” é como marcador temporal. Segundo Scaramuzzi (2016), a fundação das comunidades remete ao tempo da chegada da Igreja, ao

início da luta pelos direitos territoriais, à fundação da Arqmo e a organização política das pessoas diante dos embates políticos com aqueles que tinham interesses por suas terras. O tempo em que não existia comunidade está interligado ao tempo dos patrões, ao regime das colocações e a expropriação e perda do direito de uso de parte do território pela implantação das unidades de conservação (SCARAMUZZI, 2016).

O termo/categoria “comunidade” é usado principalmente para circunscrever aquilo que concerne ao âmbito das relações com o Estado e alguns segmentos da sociedade civil. Inclui-se nesse espectro de relações: aquelas com as pessoas de fora que moravam ou frequentavam o território quilombola; aquelas relativas à gestão dos bens materiais e objetos coletivos como o barco comunitário e o motor de luz movido a óleo diesel ou gasolina; a estrutura física dos centros comunitários como o posto de saúde, escola e igreja e os empregos ligados a educação, transporte e saúde (SCARAMUZZI, 2016).

Segundo Scaramuzzi (2016), a organização política e o aparato burocrático e material que acompanham a existência das comunidades na microrregião Alto Trombetas interferiram no modo de vida e no modo de ocupação territorial dos quilombolas coletores tradicionais de castanha-do-brasil que coletam na Reserva Biológica do Rio Trombetas. Scaramuzzi (2016) afirma que isso ocorre devido aos mecanismos da comunidade que auxiliam na gestão dos espaços, das pessoas e daquilo que já existia antes da chegada da Igreja Católica. Um exemplo é a gestão sobre o estabelecimento de moradias, pois nas comunidades do TQ Alto Trombetas 1 e na comunidade Último Quilombo é comum os quilombolas deslocarem suas moradias de forma temporária ou permanente, pelo território pelos mais variados motivos: em busca de solos mais férteis para cultivar a roça, coletar produtos florestais, e também devido à escassez de caça e pesca em determinados locais. Sempre que os recursos necessários para a