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Brigadeiro-do-Ar Marcio Cesar Leal Coqueiro

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 90-106)

Entrevista realizada pelo Coronel Aurelio Cordeiro da Fonseca, no dia 19 de março de 2002.

Sinto-me gratificado pela oportunidade de poder transmitir informações e dados, com relação aos fatos dos quais participamos, pessoal e intensamente, há cerca de quatro décadas. Acredito que poderão compor, com significativa auten-ticidade, o quadro da atuação das Forças Armadas na Revolução de 31 de Março de 1964. Desejo externar, ainda, neste início de entrevista, meus calorosos elogios à brilhante iniciativa.

O senhor poderia precisar quais foram as raízes do Movimento revolucionário de-sencadeado em 31 de Março de 1964?

Entendemos que o Movimento nasceu, cresceu e se desenvolveu muito an-tes dessa tradicional data que rotula sua eclosão. Ainda que não nos afoitemos a arriscar conjecturas nos acontecimentos políticos mais distantes, dos idos de 1922, 1930, 1932, 1935, 1937 etc., cujas influências político-militares, na vida nacional, sempre apresentaram elos e vínculos consideráveis, podemos assumir, tranqüilamente, como data-base, desencadeadora dos pródromos da Contra-Revo-lução Democrática de 1964, o dia 25 de Agosto de 1961, data da renúncia do Presidente Jânio Quadros à Presidência da República.

Naquele exato momento em que, como anualmente acontece, se comemo-rava o Dia do Soldado, eram lançados, de forma impensada e irresponsável, um pesado ônus e aflitivas preocupações sobre a Nação e as Forças Armadas.

É claro que, nesse episódio acontecido cerca de três anos antes, as princi-pais raízes fixaram-se na terra, politicamente revolta e adubada. Outras raízes foram se apresentando, como conseqüência tumultuada dos fatos ocorridos após a renúncia do Presidente Jânio Quadros.

À esta altura, devemos esclarecer, à guisa de confirmação e da autenticida-de autenticida-de nosso relato, que, à época, nos encontrávamos em Brasília, servindo no Gabinete do Ministro da Aeronáutica, como Oficial de Ligação com o Gabinete Militar da Presidência da República.

Na análise que fazemos dos acontecimentos, a bem da verdade histórica, com propósito saudável e sem intenção de críticas pessoais, é necessário que se declare, honestamente, acreditarmos ter havido, por parte dos Chefes Militares no Poder, uma avaliação malconduzida da situação, ao decidirem pelo deslo-camento dos ministros militares, de Brasília para o Rio de Janeiro, após a renún-cia. Assim afirmamos, por considerar que, havendo o Presidente da República abandonado o seu posto e tendo ficado a Nação praticamente, acéfala, o con-comitante afastamento dos ministros militares, da Capital da República, centro do Poder, deixaria a sede do governo do País sem a presença dos responsáveis e

zeladores pela manutenção da autoridade e segurança interna. Isso, evidente-mente, constituía um risco, deixando-a à mercê dos políticos, no Congresso Nacional, que, como se sabe, não são confiáveis e cuidam, preferencialmente, dos interesses pessoais, partidários e ideológicos. Foi, aliás, o que veio a acontecer, realmente, naquela oportunidade.

Permanecer em Brasília e solicitar a presença dos demais chefes militares das três Forças Armadas, inclusive dos Comandantes de Grandes Unidades, seria exercer, embora de forma indireta, necessariamente, pressão sobre os políticos, inibindo-os de assumirem comportamentos prejudiciais à conjuntura. O que, aliás, veio a ocorrer, ao ser estabelecida, por decisão do Congresso Nacional, a forma de governo parlamentarista, ardilosamente montada, com o propósito de assegurar a posse do Vice-Presidente João Goulart.

Por outro lado, não resta a menor dúvida de que os ministros militares, ao se deslocarem para o Rio de Janeiro, onde turbilhonavam as decisões sobre as possíveis soluções e transparecia o mal-estar, no próprio meio militar, indeciso e inseguro, quanto ao caminho a seguir, iriam se envolver, necessariamente, nesse deteriorado processo, dificultando as suas análises da situação para as tomadas das decisões.

Dessa forma, acabaram deixando-se impressionar com as preocupações la-tentes, em alguns setores, de ferir os termos e os princípios constitucionais, quando as circunstâncias indicavam que o maior risco que ameaçava a estrutura política do País era a posse do Vice-Presidente João Goulart, muito maior do que assumir posições mais drásticas contra a sua posse. Acabaram, como se sabe, cedendo em seus propósitos estabelecidos, em Brasília, sendo ludibriados pela tese do governo parlamentarista, habilmente apresentada pelo Congresso Nacio-nal e apressadamente aprovada pelos políticos.

Que fatos o senhor gostaria de abordar sobre sua participação pessoal na crise surgida com a renúncia do Presidente Jânio Quadros?

É oportuno que se relate, neste momento, a fim de deixar claro, o sub-reptício e ardiloso comportamento dos políticos, em Brasília: o episódio ocorri-do, pessoalmente, conosco, fruto de manobras e falsas versões articuladas pelos partidários ideológicos do senhor João Goulart.

Na condição de Oficial de Gabinete do Ministro da Aeronáutica, Brigadei-ro Grüm Moss, e mais antigo presente em Brasília, recebemos ordem expressa do Ministro de interditar os aeroportos de acesso à Capital da República, a fim de impossibilitar o pouso de qualquer aeronave, civil ou militar, que conduzisse o

Vice-Presidente, João Goulart. Cumprimos estritamente as ordens recebidas, através das providências normais, de bloqueios das pistas de pouso, interditan-do-as com obstáculos.

Logo, os políticos, senadores e deputados, aliados do senhor João Goulart, reagiram à ordem e às medidas tomadas, através de declarações amplamente divulgadas pela imprensa do País, denunciando a existência de um plano que passaram a chamar de “Operação Mosquito”, operação militar com o objetivo de atacar e derrubar qualquer aeronave, civil ou militar, que conduzindo o Vice-Presidente, tentasse pousar na Capital da República.

A verdade é que a “Operação Mosquito” nunca existiu, nem foi cogitada. A interdição dos aeroportos foi, porém, executada, com rigor, sobre a nossa orien-tação, e em obediência às ordens superiores.

Qual o significado da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, qualificada de movimento reacionário pelos opositores da Revolução?

As imagens fotográficas, amplamente divulgadas, pela imprensa livre e in-dependente da época, bem retratam o reconhecimento do Povo e da Nação às Forças Armadas. Aliás, até hoje, são altamente consideradas pelos elevados índi-ces de aceitação e de aprovação, junto à sociedade, conforme atestam, reiteradamente, as pesquisas de opinião pública, reconhecendo as Forças Arma-das, como a mais confiável Instituição do País.

As Marchas da Família com Deus pela Liberdade, com a presença de cerca de um milhão de pessoas, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, claramente atestam o reconhecimento inequívoco da Nação brasileira pela Contra-Revolução Democrática de Março de 1964, no seu inatacável desempenho e em sua pura ideologia, de amor à Pátria e de defesa dos reais interesses do povo brasileiro.

Quais, na sua opinião, os principais líderes civis e militares da Revolução de 31 de Março de 1964?

A partir da decisão dos chefes militares em favor da posse do Vice-Presi-dente João Goulart, e no período imediatamente decorrente, vários grupos de oficiais da ativa e da reserva das Forças Armadas, apreensivos com os destinos do País, que passavam às mãos de conhecido e fervoroso adepto da ideologia socia-lista marxista-leninista, passaram a se reunir. Isoladamente, em princípio, man-tendo, porém, contatos através de representantes credenciados, periodicamente, a fim de acompanhar a evolução dos acontecimentos, atentos às manobras políti-cas das correntes da esquerda radical e dos propósitos ideológicos do Governo.

Grande número de militares, das três Forças, participou desses encontros, dentre os quais, apenas para citar alguns:

Da Marinha: Almirantes Sylvio Heck, Augusto Hamann Rademaker Grünewald, Estanislau Façanha, Paulo Antonioli, Paulo Mirabeau, Sá Earp. Comandantes Gustavo Engelke, Newton Azevedo, Mario Mello Marques e outros.

Do Exército: Generais Odylio Denys, Olympio Mourão Filho, Carlos Luís Guedes, Arthur da Costa e Silva, Cordeiro de Farias, Nelson de Mello, Antonio Carlos da Silva Muricy, Panasco Alvim, Cezar Montagna, Golbery do Couto e Silva, Helio Ibiapina Lima, Leo Etchegoyen, Ramos de Castro, Fábrega Loureiro e outros.

Da Aeronáutica: Brigadeiros Guedes Muniz, Marcio de Souza Mello, Eduardo Gomes, Ivo Borges, Armando Perdigão, Gabriel Grüm Moss, Serra de Menezes, Ma-nuel Vinhais, Roberto Hippóllyto, Mario J Dias, Souza e Silva, Carlos Affonso Dellamora, Coronéis Adhemar Lyrio, Gustavo Borges, Joaquim Vespasiano, João Paulo Burnier, Juarez de Deus, Velloso e outros.

Civis: Antonio Neder, Antonio Carlos Magalhães, Armando Falcão, Eduardo C Lousada, Otavio Mangabeira, Batista Luzardo, Adhemar de Barros.

Havia, a seu ver, uma revolução em andamento, de cunho comunista, para a mudança da ordem institucional do Brasil?

O Governo João Goulart, de acordo com as previsões, decorrido pouco tempo, passou a dar demonstrações inequívocas de seus propósitos ideológicos. Sentindo-se fortalecido, politicamente, deu início a uma série de ações em favor de suas preten-sões. Com o apoio do Congresso Nacional, tornou nula a balela do regime parlamen-tarista. A seguir, passou a ativar a participação no governo dos sindicatos de tra-balhadores e de órgãos estudantis, como a União Nacional dos Estudantes (UNE). Realizavam-se comícios, promoviam-se manifestações públicas de vulto, tudo com agitação programada das massas, sempre utilizando o rótulo de temas ideológicos. Com o passar do tempo, sentindo-se, também, militarmente apoiado pelas Forças Armadas, embora errando na premissa, iniciou infiltrações nas fileiras de pessoal subalterno. Aliás, foi seu grande erro de avaliação. Logo vieram a ocorrer episódios gravíssimos de quebra de disciplina e de desobediência hierárquica, pon-do em risco a estabilidade política e institucional pon-do País.

No dia 13 de março de 1964, teve lugar a realização do explosivo comício na Estação da Central do Brasil, local muito próximo ao Quartel-General do Exército, organizado pelo Presidente Goulart, em acintosa demonstração de desrespeito às Forças Armadas.

Em outra baderna, transformou-se a reunião realizada no Sindicato dos Metalúrgicos, junto ao Largo do Pedregulho, no Rio de Janeiro, à qual

compare-ceram cabos, marinheiros e fuzileiros navais, representantes de uma Associação de Graduados da Marinha; à reunião, seguiu-se um deslocamento pela cidade, apoiada pelo Almirante Aragão, Comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, que acabou sendo carregado nos ombros das praças.

Por fim, veio o jantar, também oferecido aos sargentos pelo Presidente da República, nos salões do Automóvel Clube do Brasil, na noite de 30 de março, com a presença de significativo número de militares, ligados a João Goulart, onde houve pronunciamentos ofensivos às Forças Armadas.

Essa reunião, acima referida, do Automóvel Clube do Brasil, assistida por toda a Nação estarrecida, foi considerada inaceitável pelos chefes militares, e constituiu, como não poderia deixar de ser, a gota d’água detonadora do processo de reação das Forças Armadas, atendendo aos reclamos da Nação.

Não havia mais o que esperar. Estava decretada a eclosão da Contra-Revolu-ção Democrática que teve lugar na manhã de 31 de março de 1964.

As reuniões periódicas ocorridas entre os grupos de oficiais da ativa e da reserva, durante o período do Governo Goulart, facilitaram as articulações entre as diversas Unidades e Guarnições das Forças Armadas, principalmente das sediadas nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Ceará. Fora dado o basta às manobras políticas e aos propósitos ideológicos, de fundo socialista marxista-leninista, do então Presi-dente João Goulart.

A movimentação das tropas, em Juiz de Fora, comandadas pelo General Olympio Mourão Filho, em direção ao Rio de Janeiro e do General Guedes, em direção a Brasília, bem como os demais fatos ligados ao Movimento revolucioná-rio de 1964, nos diversos Estados da União, estão historiados em várevolucioná-rios documen-tos, cabendo salientar a atuação da Academia Militar das Agulhas Negras, sob lúcido comando do General Médici, de fundamental importância para decidir a situação na região do Vale do Paraíba.

Do mesmo modo, a participação direta do Governador Magalhães Pinto, através de seu vigoroso manifesto de apoio, rompendo relações, na primeira hora, com o Governo Federal.

A que o senhor atribui o rápido desmoronamento do chamado “esquema militar” do Governo Federal de João Goulart, quando se desencadeou a Revolução?

A adesão, praticamente unânime, de todo o País, à atitude revolucioná-ria tomada em Minas Gerais, no dia 31 de março de 1964, o que determinou o desmoronamento do Poder, em menos de 48 horas.

Quanto às operações militares, o senhor pode precisar alguns objetivos estratégicos visados pelas tropas que deflagraram a Revolução?

No âmbito da Aeronáutica, o grupo organizado planejou e colocou em execução uma ação militar, visando à tomada e ocupação da Escola de Especialis-tas da Aeronáutica, com sede em Guaratinguetá, com o objetivo de ter em mãos uma Unidade dotada de campo de pouso e estrutura para operar, normalmente, com aeronaves, em apoio às Forças Terrestres.

O planejamento da operação previa o deslocamento do grupo, pelo mar, a partir do Iate Clube do Rio de Janeiro, com a cooperação de civis possuidores de embarcações apropriadas, e desembarque no litoral do Estado de São Paulo. A seguir, por terra, subiriam a serra, até Guaratinguetá. Deveriam participar da operação, comandada pelo Brigadeiro Guedes Muniz, os Brigadeiros Manoel Vi-nhas, Adhemar Lyrio e eu, além de outros companheiros. Com o desenrolar favo-rável do Movimento revolucionário, nos primórdios do dia 1o de abril, a operação foi cancelada, momentos antes da largada das embarcações para seus destinos.

Outro grupo de oficiais da Aeronáutica, relativamente numeroso, veio a par-ticipar diretamente das operações militares em defesa do Governador do Estado do Rio, Carlos Lacerda, cujo palácio de despachos – Palácio da Guanabara – estava para ser cercado por tropas de Fuzileiros Navais, comandadas pelo Almirante Aragão. Pertenciam a esse grupo os Brigadeiros Carlos Affonso Dellamora, Souza e Silva, João Paulo Burnier e os Coronéis Gustavo Borges, Francisco Fontenelle, Roberto Leuzinger, Próspero Punaro Barata, Juarez de Deus Gomes, além de outros. O Palá-cio Guanabara transformar-se-ia em um real campo de batalha, mas com a chegada de carros de combate, comandados pelo Tenente Perdigão, que aderiu à Revolução, e a desistência das tropas do Almirante Aragão de executarem o cerco, pressionadas pelo General Morais Âncora, Comandante do I Exército, que desautorizou qualquer ataque dos fuzileiros ao Palácio, evitou-se um verdadeiro massacre.

No seu entender, está correto o termo Revolução? Como denominaria o Movimento de 31 de Março de 1964? Por quê?

Desde logo, desejamos salientar que consideramos haver um acentuado grau de impropriedade nas denominações atribuídas ao Movimento revolucionário de 1964. Na realidade, o que ocorreu foi uma Contra-Revolução democrática, em frontal oposição à preparação e ao desenvolvimento de uma Revolução Socialista, de fundo “marxista-leninista”, em acelerado processo de concretização, sob o comando pessoal e as ordens do Presidente da República, senhor João Belchior Goulart, apoiado pelas esquerdas radicais.

De sua experiência pessoal, que avaliação o senhor faz dos vinte anos de Governo da Revolução?

É claro que o desempenho de qualquer função, seja no setor público seja no setor privado, no âmbito civil ou militar, no meio industrial ou comercial, ou, ainda entre os profissionais liberais, irá, naturalmente, depender do cunho pes-soal que lhe der o seu executante. Há militares, por exemplo, que desempenham funções de comando, com características eminentemente civis e há civis que exer-cem funções de mando, com características eminentemente militares. Por outro lado, são as circunstâncias do momento que determinam este ou aquele tipo de comportamento, mormente no caso em pauta, abrangente, de um período pós-revolucionário, freqüentemente afetado por crises, sujeito a ações subversivas capazes de ameaçar a segurança interna.

Demandaria muito tempo, expor, pormenorizadamente, o desempenho do Governo de cada um dos chefes militares nos períodos de seus respectivos manda-tos. Podemos, porém, desde logo, afirmar que as acusações e imputações a eles atribuídas pelas esquerdas radicais, inimigas do Movimento revolucionário de 1964, são falsas e mentirosas, fruto de um “revanchismo” tendencioso e odioso, de fundo ideológico, com propósito, inclusive, de auferir benefícios financeiros concedidos pelo atual Governo da República.

O primeiro Chefe de Estado do período da Contra-Revolução Democrática de 1964, o Presidente Humberto Castello Branco, não tomara parte, pessoalmen-te, nas conspirações, mas, certamenpessoalmen-te, delas tivera conhecimento. Foi, porém, escolhido, em face de suas extraordinárias qualidades morais, integridade pes-soal, com acentuadas características de equilíbrio, de justiça e bom senso, aliadas a uma invulgar capacidade profissional, amor ao trabalho e dedicação à Pátria.

É do conhecimento geral, que, para ele, foi muito difícil e constrangedor a conciliação de seu espírito extremamente legalista e seus escrúpulos de fidelidade constitucional, diante da alternativa, que lhe fora apresentada pelo destino, de ter de concordar com a solução institucional, imposta pela grave crise político-militar. Aceitou o Governo, impondo condições ditadas por sua consciência, ou seja, eleição por ato do Poder Legislativo, voto indireto, com mandato limitado ao término do período do Governo João Goulart. Invocava a tendência nacional, intuitiva do povo brasileiro, para a liberdade e para a democracia.

Encontrou o País à beira do caos. A indústria e o comércio desmantelados, por falta de capitais, em face das greves intermináveis. As Forças Armadas, apre-sentando sinais de descontentamento e divisão interna principalmente pela falta de atos punitivos contra todos aqueles que se voltaram acintosamente contra a

disciplina e a hierarquia nas três Forças e contra os subversivos e corruptos de uma maneira geral. Sistema financeiro em desordem. Saúde pública e agricultura desorganizadas e desmontadas. Sistema político, sem lideranças significativas, e o sindicalismo, nas mãos dos pelegos. Sistema educacional, à deriva; alunos e professores, dedicando-se à subversão da ordem. Sistema rodoviário e ferroviário inoperantes. Sistema de comunicações em estado desesperador. Essa a herança deixada pelo Governo do senhor João Goulart.

Em carta, o Presidente escrevia: “Sou, verdadeiramente, síndico de uma falência, cuja massa está em uma desordem incrível”.

A meta inicial deveria ser pôr a casa em ordem. Castello tinha uma forte convicção democrática. Jamais transigiria dela. É claro que, através de um gover-no ditatorial, seria muito facilitada a administração dos problemas intergover-nos, po-rém criaria outros problemas, igualmente graves.

Seu comportamento no Governo era, ao mesmo tempo, suave nas maneiras e inflexível nas determinações.

O Estado de São Paulo, jornal que manteve sempre uma posição de crítica ao seu governo, publicou, no Editorial do dia que se seguiu à sua morte, 19 de julho de 1967, o seguinte:

“Habituamo-nos a ver em S. Exa um dos maiores Presidentes que a Repúbli-ca já teve no Brasil. Se não podemos, realmente, olvidar a ação, no Poder, de um Prudente de Morais, de um Campos Salles, de um Rodrigues Alves, não devemos, também, reduzir a gravidade, gravidade extrema da situação nacional ao ascender ao Governo o Marechal Castello Branco. Econômica, política e socialmente, chega-mos, em março de 1964, à beira do colapso e, medindo agora o caminho que, desde então, palmilhamos, temos a sensação de nos acharmos em face de um verdadeiro milagre, tal é a diferença entre a situação que hoje desfrutamos e a que então angustiava o País. E se essa admirável obra é de toda a Nação, que soube arcar com os sacrifícios a ela impostos, manda a Justiça acentuar que o grande fator do êxito foi a confiança por todos depositada no homem impoluto, destemi-do e honradestemi-do que a Revolução guindara à curul presidencial.”

Ao Presidente Castello Branco, seguiu-se, na Chefia do Estado, o General Arthur da Costa e Silva; tendo assumido a 15 de março de 1967 e deixado o Governo, por motivo de saúde, em 31 de agosto de 1969.

Sua participação, na seqüência e desenvolvimento do Movimento revolucio-nário de 1964 foi intensa e relevante, tendo assumido o comando do Exército em

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 90-106)