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General-de-Brigada Celso dos Santos Meyer

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 128-154)

Foi com grande satisfação que recebi o convite para participar deste traba-lho que considero de alta relevância para as gerações que estão por vir. Fazia-se necessário colocar por escrito tudo o que aconteceu nesse período, sem dúvida, um dos mais desagradáveis e, também, dos mais sérios já vividos por todos nós brasileiros. De modo que eu tive feliz e infelizmente uma certa participação como a maioria dos brasileiros, principalmente, dos militares. E estou pronto a fazer o meu depoimento daquilo que vivi, daquilo que soube, para que fique devidamente registrado... aliás, isso eu já venho fazendo no meu ciclo de amizade e na minha família. Tenho sempre transmitido a eles o que vivemos, todos nós, na luta contra a expansão comunista em âmbito mundial.

Que fatos o senhor gostaria de citar a respeito da sua participação pessoal nos pródromos do Movimento de 31 de Março de 1964, na sua eclosão e durante o seu desenvolvimento?

Primeiramente, a minha participação pessoal na Revolução de 31 de Março de 1964 foi de expectativa, como era de praticamente todos nós militares, volta-dos para seus afazeres castrenses. Já diplomado pela Escola de Estado-Maior do Exército, em 1949, a minha visão se ampliou. Aliás, um dos objetivos da Escola de Comando e Estado-Maior é abrir os horizontes. Passei a me preocupar mais com os problemas políticos que, até então, nunca tinham me inquietado. Acredito, tam-bém, que fosse a situação da maioria dos meus companheiros. Cada um cuidava da sua vida, ministrava a sua instrução, as suas aulas, recebia ensinamentos nas esco-las militares, e o tempo ia passando.

Gostaria de assinalar o seguinte: na época – não digo que tenha sido o único, porque não sei os outros – recebi um livro de autoria de um coronel português intitulado Guerra Revolucionária. Esse livro era uma antevisão da Quinta Coluna que foi muito bem usada pelos nazistas para dominar, praticamente, toda à Euro-pa visando ao domínio mundial. Esse coronel descrevia o processo com muita lucidez e objetividade e era um alerta. Para mim, foi um alerta. Depois, emprestei esse livro e como livro e dinheiro quando se empresta geralmente se perde, não sei mais aonde ele foi parar. Dali, então, é que comecei a despertar mais para essa questão – perigo comunista, política em si.

Atribuo o início das atividades de defesa da democracia à fundação do IPES (Instituto de Pesquisa e Estudo Social) e IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Demo-crática) duas instituições que foram criadas por civis com a participação de mili-tares. Não tive a oportunidade de tomar parte, mas alguns militares foram convo-cados e participavam, tentando vender a idéia de que alguma coisa tinha que ser

feita. O ritmo em que os acontecimentos estavam se desenvolvendo, principal-mente, a partir da posse de João Goulart, com a renúncia do Jânio, começou a estabelecer uma enorme preocupação. Havia mesmo civis que estavam pensando em se retirar do País, achando que não havia mais solução. Um companheiro nosso, contemporâneo, que chegou aos mais altos postos do Exército, chegou a considerar que estava tudo perdido, tirou um ano de licença sem vencimentos e foi trabalhar numa empresa civil. Acreditava que já estava tudo perdido!

Outros militares, que eram mais politizados, começaram a fazer oposição ao Governo Goulart que tinha assumido e foram afastados, mandados para as cha-madas Circunscrições de Recrutamento (CR), que passaram a ser, depois as Cir-cunscrições do Serviço Militar, as CSM. Por que os mandaram para as CSM? Porque eram Organizações Militares sem tropa, voltadas para atividades administrativas, relativas a Serviço Militar e Mobilização, contando com um efetivo muito reduzi-do, inexpressivo. Eram oficiais muito politizados, como os irmãos Serpa. Para Bauru, foi o Golbery, se não me engano, e o Couto e Silva. O Serpa “louro” foi para Sorocaba, o Serpa “preto”, que era o irmão mais velho, foi para o Piauí, o Serpinha – Luís Gonzaga de Andrada Serpa –, o mais moço e o mais politizado, foi para Manaus. Esses oficiais merecem todo o meu respeito e minha admiração. Eles tiveram a antevisão, que eu mesmo admito que não tinha. Estava voltado para as minhas atividades castrenses, como já disse, para o meu esporte... Às vezes, acha-va que eles exageraacha-vam, que eles estaacha-vam vendo, como se diz normalmente, “chi-fre em cabeça de cavalo”.

O Serpinha – Luís Gonzaga – em uma ocasião me procurou – sempre que nos encontrávamos, conversávamos muito – e eu disse para ele: “Quando é que você vai fazer o seu curso de estado-maior?” Os irmãos mais velhos já tinham feito, na minha turma, de 1947 a 1949. “No momento, não posso. Estou preocu-pado com a situação do País”. Disse: “Luís Gonzaga, por que não deixa os generais se preocuparem e vai se preparar, para você chegar a ser um desses generais?” Essa conversa, ainda me lembro nitidamente, tivemos em plena Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Eu respeito e admiro esses oficiais pela sua antevisão.

Da mesma forma, muitos oficiais contestavam abertamente o Governo que os punia normalmente com transferências para guarnições distantes dos gran-des centros.

Depois, já no governo da Revolução, uns foram “castigados” de uma maneira mais agradável. Eles continuaram a fazer oposição, embora fosse já amistosa. Queriam mais rigor por parte da Revolução contra corruptos e subversivos. Os Serpa, principal-mente. Então, um foi designado Adido em Paris, o outro para a Aditância de Roma.

Foi a forma que encontraram de, pelo menos, suavizar mais a oposição que eles faziam, protestando que o Governo estava sendo muito tolerante, foi mandá-los para longe. Isso são os fatos que eu me permito colocar de início nessa entrevista. Quanto às raízes do Movimento Revolucionário de 31 de Março, já falei no IPES e no IBAD. Atribuo a eles a iniciativa de protestar, de se organizar e de tentar alertar à sociedade e aos militares para o que estava ocorrendo no País. Então, a partir daí, o IPES e o IBAD, foram fechados pelo Governo Jango, porque continua-ram a fazer uma oposição de forma mais veemente. Quanto a outras raízes, me ocorre os protestos desses militares mais politizados e de alguns políticos, aqueles que viviam pedindo providências. Como, hoje mesmo, no meu deslocamento para cá, em conversa com o motorista de táxi. Ele sabendo que eu era militar – quando lhe dei o destino da corrida – ele disse: “Quando é que os senhores vão tomar uma atitude quanto ao descalabro que está ocorrendo no País?” Isso me tem sido cobra-do – verbo usacobra-do na nossa linguagem militar como pedir providências – amiúde em barbeiro, em táxi e em reuniões com amigos civis. Eles perguntam: “Até aonde isso vai nos levar?” Todos preocupados, porque, no momento, na minha visão, nós te-mos um governo de comunistas ou de ex-comunistas, como preferir.

O Presidente, é sabido, era comunista e, na minha opinião, um dos piores, embora digam que a sua mulher era mais ativa do que ele. Por que é dos piores? Porque ele era um professor, não poderia ser considerado um inocente-útil como muito estudante que foi aliciado, ficou nessa situação, virou simpatizante ou parti-cipante ativo. Era um professor, um homem que aplicava a inteligência, que sabia das coisas, e que estudava sociologia, matéria da qual ele foi professor em curso na Sorbonne – França. Ele era do grupo, na minha opinião, daqueles que mandavam fazer, não era do grupo ativista como o ex-Ministro Serra, como é o atual Ministro da Justiça, Aluísio Nunes Ferreira, que tem uma ficha que qualquer marginal que a possuísse estaria preso. Matou, roubou, fez, aconteceu e hoje é o Ministro da Justi-ça. O Francisco Weffort, da Cultura, e o Paulo Renato, da Educação, também. E outros mais. O governo está fazendo uma ação entre amigos.

Agora, a imprensa noticiou que o José Dirceu, ex-presidente da UNE, tam-bém terrorista, comunista, viveu em Cuba quando foi banido do País depois do seqüestro do embaixador americano – Charles Burke Elbrick, em 4 de setembro de 1969 – está sendo premiado com uma importância em dinheiro, porque teve a sua vida prejudicada pela Revolução de 1964. O jornal cita outros que estão sendo beneficiados com mais de um milhão de reais porque a sua atividade foi interrom-pida. Na opinião deles, estavam exercendo atividade política. Para mim, é uma pouca vergonha, com licença da expressão.

Quanto a guerra fria, após a Segunda Guerra Mundial, é claro que teve uma influência, porque o mundo após a guerra ficou dividido em dois: de um lado, a União Soviética, com a sua expansão para o domínio mundial, baseada na ideologia comunista, e, do outro lado, as nações aliadas, chefiadas pelos Estados Unidos, em defesa da democracia. O cenário que se vivia era esse. De um lado, a democracia se defendendo; do outro lado, o Movimento Comunista Internacional (MCI), sob a ori-entação soviética, tentando o domínio mundial. Não havia como deixar de influir em tudo e em todos.

Com relação ao panorama político brasileiro na época da guerra fria, anterior a 31 de março, era praticamente o de sempre. Um panorama político inconsistente, com partidos disputando o Poder e, também, defendendo os seus interesses. Não havia nada de novo, mas vivia-se num regime democrático. Cabe ressaltar o seguinte: há quem diga que o regime democrático – não sei se foi o Churchill – é um dos piores do mundo, só que não há outro melhor. Que eu saiba, realmente não há outro melhor. Entretanto, tem um grande defeito, seja ele de que tipo for, apresenta nuances, de acordo com o país que o adota. As franquias democráticas consentem que qualquer pessoa delas se aproveitem para destruir o próprio regime democrático.

A revolução comunista, bolchevista na Rússia, foi uma tomada do Poder em dois tempos como preconizavam, depois, os soviéticos. A revolução foi feita mais por Kerenski e por Trotsky. O Lênin veio a seguir. Dizem os historiadores, que Lênin, foragido da Alemanha – onde eles pregavam o comunismo –, estava na Suíça. Ele e os seus companheiros foram colocados num vagão de carga ferroviário, transporta-dos, através da Alemanha, e lançados na Rússia para complicar mais a situação interna do País que estava em guerra com a Alemanha, ainda sob o regime czarista. Então, o Lênin e os seus asseclas embarcaram na revolução de Kerenski e Trotsky e, lá dentro, eles deram a volta: derrubaram Kerenski e Trotsky, assumiram e implan-taram a ditadura comunista que, até onde se sabe, foi a mais violenta que já houve na História, responsável por cerca de cem milhões de mortes, entre amigos e inimi-gos, como bem relatado no Livro Negro do Comunismo.

Quais as conseqüências da intempestiva renúncia de Jânio Quadros? Qual o panorama político vivido a partir de 25 de agosto de 1961?

A eleição do Jânio Quadros foi recebida com grande euforia. Houve uma votação prodigiosa de seis milhões e meio de votos. Entretanto, ele, infelizmente, fez a aliança com o João Goulart e o colocou como Vice, nessas composições políticas de bastidores – essa já nem era mais de bastidores, tornou-se ostensiva. Ele foi eleito com aquela avalanche de votos e criou-se um clima de euforia no

País: “Agora as coisas vão melhorar, agora nós vamos para frente...” Era o homem da vassoura, dos inquéritos, acabar com a corrupção. Subitamente, em 25 de agosto de 1961, no Dia do Soldado – eu estava em frente ao antigo Ministério da Guerra, hoje do Exército, Palácio Duque de Caxias, onde estamos agora, pois o Ministério já se encontrava em Brasília oficialmente – libera-se a notícia que ele havia renunciado. Os historiadores, até hoje, divergem se aquilo foi uma tentativa de golpe ou apenas se ele perdeu o juízo. Com a renúncia do Jânio, automatica-mente, assumia – tinha que assumir – o Vice-Presidente João Goulart. Houve reação, os chefes militares da época, Generais Denys, Ernesto e Orlando, principal-mente, se opuseram. Viveu-se aquela situação no, então, III Exército, cujo Gover-nador do Rio Grande do Sul, cunhado do Goulart, Leonel Brizola, lançou uma enorme campanha favorável à posse através da rede da legalidade por ele implementada. Formou-se, assim, a cadeia da legalidade, formalizando-se a opo-sição. De certa forma, ele conseguiu o seu intuito. O Comandante do III Exército, na época, que me abstenho de citar o nome, aderiu ao Senhor Leonel Brizola. Mas a situação acabou se resolvendo quase de per si. Criaram, primeiro, a posição política intermediária do parlamentarismo que não levou a coisa nenhuma, per-mitindo, apenas, que o Jango fizesse um plebiscito que ele comandou e ganhou. Quer dizer, só reforçaram a posição dele e do seu pessoal. Foi um dos nossos graves erros, porque nós é que forçamos a criação do parlamentarismo. As forças de oposição acharam que seria uma solução e não foi. Com o plebiscito de 6 de janeiro de 1963, Goulart transformou o regime parlamentarista em presidencialista, recuperando todos os poderes anteriormente perdidos.

Havia um clima de insatisfação contra o João Goulart?

Havia um clima de grande insatisfação. Em primeiro lugar, porque o João Goulart não era confiável, era um provinciano, filho de estancieiro da região de São Borja, no Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina. Nunca tinha saído dali, dizem até que nem para ir a Porto Alegre. Com o retorno do Getúlio, quando foi deposto, pelo que se sabe, ele se tornou uma espécie de mensageiro, garoto de recado do Getúlio na sua articulação para voltar ao Poder pelo voto, como real-mente aconteceu, infelizreal-mente. Era um camarada de província, vivia nos bordéis de fronteira – que são da pior espécie – mas a família tinha dinheiro. A irmã do Jango casou-se com o Brizola. Teria sido um casamento de conveniência, não sei direito, mas isso é problema de família.

Essa insatisfação aumentou muito, a partir de 1963, com greves generali-zadas, que ocorriam permanentemente em seu Governo, falta de gêneros de

primei-ra necessidade, inflação crescente e agitação insuportável, promovida pelos pelegos infiltrados no sindicalismo – Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), confedera-ções de trabalhadores e sindicatos.

A posição da Igreja, naquela época, era a favor ou contra o Goulart?

A posição da Igreja era preocupante. A Igreja, obviamente, nunca viu com simpatia o comunismo, porque ele é ateu. Ela estava preocupada, mas não podia fazer muito. Começou a surgir, também, a infiltração na Igreja, os tais padres de passeata ou até mais do que isso. Um dos destaques foi o Helder Câmara e depois o Evaristo Arns – o Cardeal “vermelho” de São Paulo. A Igreja tinha os católicos sempre, repito, preocupados, querendo que as coisas se resolvessem, mas eles não tinham o poder para influir, para provocar uma decisão.

Gostaria de falar sobre as “Ligas Camponesas” e o “grupo dos onze”? O que o senhor destacaria a respeito desse pessoal?

Entendo bastante do “grupo dos onze” porque fui designado para fazer o IPM (Inquérito Policial Militar) desses grupos. Sobre as “Ligas Camponesas”, sei que elas foram criadas e eram chefiadas pelo Francisco Julião, mas elas cresce-ram mais no Nordeste e pretendiam, sob orientação cubana, fazer a reforma agrária “na marra”, como eles diziam. Invadir e ocupar. Aliás, não está muito diferente do que estamos vendo hoje em dia, no Movimento dos Sem-Terra, que fazem o que bem entendem, com a total inércia, a completa indiferença do Governo. Entende-se essa passividade porque, como disse, ele é todo ou quase todo constituído de ex-comunistas. Alguns até nem muito arrependidos, na minha opinião.

Quanto ao “grupo dos onze”, disse que fui designado para fazer o IPM. Era a milícia “brizolista”. Com ela, o Brizola pretendia se opor às Forças Armadas em apoio ao “cunhado-presidente” e depois em benefício próprio, porque ele já teria, naquela época, pretensões de chegar ao Palácio do Planalto. Eles assumiram a Rádio Mayrink Veiga que era uma estação do Rio de Janeiro, de certo renome, e ali insta-laram o seu quartel-general. O seu chefe de estado-maior, na rádio, era um cidadão chamado Paulo Shilling, cuja filha, extremista de esquerda, foi presa e não sei se desapareceu ou não no Uruguai, onde andou exercendo atividades terroristas. O “gru-po dos onze” se propôs a criar uma milícia a imagem de uma equipe de futebol – onze jogadores – pois eles achavam que aquilo tinha um chamamento místico sobre a população: futebol, onze jogadores, onze integrantes. Na noite da Revolução – noite de 31 de março – eles tentaram convocar a sua milícia, mas não conseguiram.

Como o senhor denomina o Movimento de 31 de Março de 1964?

Naquela época, pré-revolucionária, digamos assim, ou pré-movimento – não me detenho nessas questões semânticas – revolução é o nome dado há um movimen-to de maior envergadura, que muda completamente tudo, de cima a baixo ou de baixo para cima. Acho que vocês têm preferido falar em movimento...

Não, nós aqui falamos tanto em Movimento como em Revolução. Entendemos que, na verdade, ela pode ter sido, inicialmente, um movimento armado, com as características de uma contra-revolução, porque sabemos que havia, do outro lado, uma revolução em andamento.

Acho que havia. Com essa revolução que estava em andamento, de origem comunista, deveria ser implantado – uma república sindicalista –, segundo consta-va, em 1o de maio do ano de 1964, que a Revolução de 31 de Março evitou.

Se antecipou, por isso contra-revolução. Mas, depois, como ficou vinte anos no Poder e modificou, realmente, o retrato do Brasil nos diversos campos, particu-larmente, no campo econômico, acho que ela, através até dos atos institucionais, transformou-se numa verdadeira e grande Revolução. Essa é a minha opinião, que não é a dos comunistas, porque, para eles, revolução é aquela que mata milhares de seres humanos.

Concordo com você, concordo em gênero, número e grau. A Revolução nos seus vinte anos durou muito tempo e com isso se desgastou. Haja vista a nós mes-mos. Nenhum de nós é mais o jovem dos seus vinte, trinta ou mesmo quarenta anos. A própria idade, o tempo, desgasta. Ela demorou muito e, na minha opinião, foi um tanto reticente, um tanto tímida. Acho que teria sido preferível, naquele início, que a chefia tivesse sido atribuída ao General Costa e Silva, porque o Castello era soldado, era muito culto, mas soldado até a alma. Era muito formal, tanto que ele relutou até o último momento para assumir a Revolução. Quando ele se dispôs a emitir aquele documento, dirigido aos generais, alertando para o que estava ocor-rendo, acho que ele já o fez tarde. Foi em março, nos últimos dias. Lembro-me o movimento no Estado-Maior do Exército. Ele era o Chefe do Estado-Maior e era o militar de maior projeção na época. Tinha ido à FEB e comandado a Escola de Estado-Maior. Em termos militares, ele era o Chefe de maior representatividade. Não havia nada que ele pudesse ser acusado, ou disso ou daquilo. Os outros, sempre, tinham alguma coisa. Então, ele foi naturalmente alçado àquela condição.

Lembro-me que, na noite de 31 de março, há uma passagem curiosa. Estava na Comissão Militar Mista, com o General Nestor Penha Brasil. Ele morava na rua Nascimento e Silva, em Ipanema, perto do General Castello que, também, residia na mesma rua. Ele comentava conosco, oficiais de estado-maior dele, as reuniões que o

Castello, o Costa e Silva e os outros faziam, discutindo, examinando e avaliando o panorama político do País. O Castello sempre era reticente e que o Costa e Silva era mais impulsivo. Talvez, naquela hora, naquele primeiro momento, fosse melhor um homem impulsivo, um homem de decisão, como o Costa e Silva do que um Castello, mais ponderado. Acho que deviam ter invertido. O primeiro comando da Revolução deveria ter sido dado ao Costa e Silva e o segundo ao Castello, porque ele, segundo se sabe, não queria o Costa e Silva como seu sucessor. Isso já é fato aceito. Na minha opinião, até onde entendo de alguma coisa, o seu preferido seria o General Adhemar de Queiroz, pelo qual sei que ele tinha grande respeito. Tanto que, na transição de

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