Pereira de Andrade Nery
É uma satisfação muito grande estar aqui para rememorarmos um fato históri-co que marhistóri-cou a nossa geração. Realmente, o que ohistóri-correu na década de 1960 históri-com a sua evolução até a década de 1980 foi um passo importante na história brasileira. Prazerosamente, portanto, estou aqui para, nesta oportunidade, rememorar os fatos vividos, por um jovem tenente, com vinte e um anos de idade. Estou à sua disposição.
Vamos iniciar, perguntando ao General Andrade Nery que fatos ele gostaria de abordar relativos à sua participação nos pródromos da Revolução, na sua eclosão e nas suas conseqüências?
Pois não. Cheguei Aspirante-a-Oficial ao 6o Regimento de Infantaria, tradici-onal Regimento da História do Brasil, da história da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Cidade de Caçapava-São Paulo. Embora jovem, sentia no Vale do Paraíba uma movimentação que, naquela época, 1958, já preocupava. Eu era um pouco politizado. O meu velho pai, Antunes Andrade Nery, tinha sido vereador e prefeito de Jaguaquara-BA, foi também, caixeiro viajante, tendo transmitido a nós toda sua experiência de vida, bem como o meu avô, o velho Antônio Porfírio – Coronel da Guarda Nacional. Ele transmitiu a preocupação com as oligarquias que dominavam o interior do Brasil e que foi o ponto-chave dos movimentos dos tenentes que vinham desde 1924, 1926, 1929 e fizeram a Revolução de 1930, para afastar aquelas oligar-quias que dominavam o Brasil e que levavam o povo a uma vida de sacrifícios, sem reforma agrária e sem nenhum bem-estar. Cheguei ao Vale do Paraíba, no 6o RI, sentindo aquela movimentação política, pois naquele momento, o Brasil já vivia o cenário mundial da guerra fria.
Eram dois impérios dominando o mundo. O Brasil, pela sua posição geo-estratégica, estava na área de interesse e de influência do império dos Estados Unidos e era, também, área de interesse da URSS – os dois impérios que domina-vam o mundo. Eu vivia a efervescência das prontidões. Vamos lembrar uma passa-gem do Presidente Juscelino Kubitschek quando deu a volta ao mundo depois de ter sido eleito. Nessa ocasião, nos Estados Unidos, o Presidente Eisenhower, disse para ele: “Não entendo como o Brasil, um País com a sua dimensão, um País continental, não possui um serviço de informações de governo”. O Presidente Juscelino ao chegar, e após ser empossado, chamou o seu Ministro da Guerra – Marechal Odylio Denys – e deu a missão de criar um Serviço de Informações. Essa missão foi transmitida ao seu Assistente que era o então Coronel Humberto de Souza Mello. Ele reuniu um grupo de assessores e criou o SFICI (Serviço Federal de Informações e Contra-Informações) que funcionava no Rio de Janeiro. Posterior-mente, mudaram o nome para SNI (Serviço Nacional de Informações).
Num dado momento, em 1959, no Vale do Paraíba solicitei a uma pessoa, que passara por lá, para trazer a minha família – minha mulher e o meu filho – para o Rio de Janeiro, porque iria ocorrer, na região, um levante, talvez o início de uma revolução, de ideologia marxista-leninista – semelhante àquela que ocor-reu em 1935. E me fizeram uma recomendação: “Passe a andar armado”. Mandei a família para o Rio de Janeiro e passei a andar armado. Assim, comecei a sentir, naquele momento, o envolvimento político que estava ocorrendo no Brasil, fruto da guerra fria, quando esses dois impérios queriam dominar o mundo. Tivemos o caso de Cuba, dos foguetes de Cuba. Quando os Estados Unidos colocaram os seus foguetes na Turquia, a URSS, por sua vez, colocou em Cuba. O mundo viveu um agravamento da guerra fria, que se tornou muito quente, quase a eclosão de uma terceira guerra mundial.
O Brasil sentia isso na sua política. Os jornais publicavam a todo instante notícias de estranhas movimentações no campo – início da ação das “Ligas Campone-sas” –, movimentações até nas cidades. E isso foi, realmente, muito significativo na minha formação militar, não há dúvida. Como jovem tenente, sofria essa influência. Em seguida, tivemos, em 1961, a renúncia do presidente eleito – Jânio Qua-dros. Já me encontrava no Núcleo da Divisão Aeroterrestre, a tropa pára-quedista. Havia realizado os cursos necessários e fui surpreendido, numa madrugada, com a notícia de que nós deveríamos entrar em prontidão. No caso, éramos um Batalhão de Infantaria Pára-quedista, que em oito horas deve estar aprestado e embarcado. Cheguei na Companhia – estava comandando o Pelotão de Morteiros, da 1a Com-panhia de Petrechos Pesados, do Regimento Santos Dumont. Aquela movimenta-ção, acondicionar o material, enfardar a munição e, então, surgiu o primeiro pro-blema. As granadas de morteiro deveriam ir prontas, mas qual era a nossa missão? A renúncia do Presidente Jânio Quadros deu início à cadeia da legalidade que estava a comando do então Governador do Rio Grande do Sul que, no seu palácio de governo, iniciou a campanha para a posse do vice-presidente que esta-va, nós sabemos, na China. Foi mandado para lá pelo Jânio Quadros, o Presidente. Não há dúvida de que ele programou tudo aquilo para renunciar. Pegou um avião e foi para São Paulo para voltar nos braços do povo e governar com todo o poder. Inclusive, isso nos foi transmitido pelo piloto que conduziu o Presidente, um amigo meu de turma, da Escola Preparatória. Ele foi o piloto do avião que condu-ziu o Jânio Quadros até a Base de Cumbica–SP. O Presidente não desembarcou e ficou esperando, com o rádio ligado, pensando em voltar a Brasília para então, com todos os poderes, provavelmente com o Congresso fechado, prosseguir no seu governo. Porém, o que nós vimos, foi uma ação rápida dos ministros militares
com a liderança do Marechal Denys que, em ligação com o Congresso e na ausência do vice-presidente, deram posse ao Presidente da Câmara, o Deputado Ranieri Mazzilli. Bem, e o que estava ocorrendo então?
O Governador do Rio Grande do Sul iniciou uma rebelião contra essas medi-das, querendo dar posse ao vice-presidente, que estava fora do País. O governa-dor, na sua pregação revolucionária, falava todos os dias na Rádio Guaíba, na “Cadeia da Legalidade”. Lembro, perfeitamente, quando ele dirigia a palavra aos militares dizendo: “Sargentos do Exército, matem seus oficiais!” Era uma prega-ção subversiva, para gerar a inquietaprega-ção, para desagregar. Seria o fim das Forças Armadas. Era outra tentativa do Império Comunista para implantar no Brasil um regime marxista-leninista. A primeira tentativa foi com o Prestes, o Apolônio e outros companheiros a soldo do movimento comunista internacional. Não tive dúvidas, lutar contra esta ameaça era o caminho certo. A Brigada Pára-quedista que, na época, era Núcleo da Divisão Aeroterrestre, recebeu a missão de fazer um deslocamento aéreo, com todo seu efetivo. Era uma realidade indescritível para um tenente! Éramos em torno de cinco mil pára-quedistas e todos nós embarca-mos em aeronaves para fazer um vôo direto, aliás com uma parada no meio do caminho, se não me engano em São Paulo para colocarmos os pára-quedas e ficar-mos prontos para o salto para conquistar, por meio de um assalto vertical, a Base de Canoas e, em seguida, partir em direção ao Palácio Piratini para ocupá-lo.
Uma tropa pára-quedista, quando é lançada, fica, realmente, numa situação de guerra, de combate. Você salta, é um alvo fácil enquanto está descendo com o seu pára-quedas aberto, mas você pode retirar a sua arma do invólucro e usá-la durante a queda. Tínhamos a consciência de que aquela operação era uma operação de guerra. É claro que jovens tenentes não discutem – cumprem as ordens – e nós estávamos com o nosso general comandante a bordo das aeronaves que eram mais de vinte. A nossa missão era conquistar. À frente, uma hora, seguia uma esquadrilha de bombardeio que iria atacar os objetivos. Então, o que ocorreu?
Primeiro, na cabeça daquele jovem tenente e eu peço a sua compreensão para abordar todos esses fatos como um jovem tenente, quer dizer, da maneira como eu pensava na época, nos meus 25 anos de idade. Estava consciente de que aquela era a melhor opção, no momento. Porém, vi alguns companheiros que relu-taram em cumprir a ordem. Houve uma pequena reunião em que se discutiu uma preocupação: “Nós tínhamos companheiros de arma, de turma, lá em Porto Alegre, e o regimento deles já estava ocupando a Base de Canoas”. Não me lembro se era o 18o ou 19o Regimento. Precisamos lembrar que algumas unidades no Rio Grande do Sul aderiram à cadeia da legalidade, ao comando do General Machado Lopes.
Naque-la hora, eu disse: “Olha, os aviões vão à frente, vão bombardear os objetivos. Vamos ter mortos e feridos e, quando nós saltarmos, eles não vão perguntar quem está saltando, eles não vão perguntar quem está no pára-quedas. Vai haver combate, é guerra mesmo, mas temos que cumprir a nossa missão”. E, assim, embarcamos nos aviões para cumprir a missão que nos foi dada pelo Comandante do Núcleo que a recebeu diretamente do Ministro, o Marechal Denys.
Quem era o comandante da tropa pára-quedista?
Era o General Paulo Torres. O problema de você embarcar, no meu caso, o meu pelotão com toda a munição enfardada e com os morteiros enfardados é que você lança os morteiros com pára-quedas próprios, mas você salta com a munição no corpo. E como preparar a munição? A munição de morteiro tem o explosor e a espoleta. Se a granada cair, após a colocação do explosor e da espoleta, ela poderá funcionar realmente. Aí, percebemos que a guerra é diferente do treinamento. Ape-sar da tropa pára-quedista estar muito bem adestrada, naquele momento, levei um choque. Porém, lembrei-me de uma ação de um regimento inglês, traduzido em um livro muito bom “Major Fantasma”, do Coronel David Stirling com seus Comandos, os S.A.S. O S.A.S. era um regimento que atuou nas Malvinas e que está, agora, em ação no Afeganistão. Esse regimento foi o primeiro a atuar à retaguarda das forças alemãs na Segunda Guerra Mundial com uma passagem no livro que dizia assim: “Primeiro, eles lançaram a munição toda preparada – espoleta, explosor e a grana-da – perderam alguns pára-quegrana-das, mas eles conseguiram recuperar outros em que a granada estava preparada”. Numa missão anterior, eles fizeram o que o regulamen-to mandava – as espoletas num pára-quedas, os explosores em outro e as granadas em pára-quedas diferentes – e não puderam cumprir a missão porque perderam, justamente, o pára-quedas em que estavam os explosores.
Quando preparei a granada para aquela missão de 1961, meu comandante de companhia perguntou: “Tenente, o que você está fazendo?” “Estou preparando a granada”. “Mas você tem que fazer isso lá. Agora, você põe o explosor no pára-quedas”. Mostrei o livro para ele. “Capitão, eu não posso perder as granadas”. “Isso é uma loucura”, disse ele. É a realidade da guerra, respondi. Aprendi real-mente. Foi uma viagem longa e cansativa. Você embarca os soldados do seu pelo-tão – 45 homens – dentro de um avião militar. Você levanta durante o vôo, vai lá na porta, olha para os seus soldados e vê que eles estão olhando para você. Você é o mestre de salto, o comandante, o líder. Você vai para dentro do avião, caminha no outro sentido, olha para os soldados e eles continuam fixos no seu olhar. Se você ficar verde, eles ficam verdes; se você ficar azul, eles ficam azuis; se você
tiver medo, eles vão ter medo, também. Mas, na hora em que você abre a porta, põe a cabeça para fora e que dá o comando de “JÁ”, você salta na frente e pode ficar certo de que eles irão atrás.
Por felicidade, hoje digo por felicidade, quando estávamos ultrapassando a divisa de Santa Catarina, entrando em território gaúcho, veio a ordem para retornar. Naquele período, soubemos, depois, que os deputados reunidos com os ministros militares chegaram a um acordo. Aí vem a importância, que eu sei que ocorreu, do Tancredo Neves ter apresentado uma fórmula para evitar aquele derramamento de sangue – o parlamentarismo. Voltamos – o parlamentarismo foi aceito. O Vice-Presidente João Goulart não desfrutava mais dos poderes do presi-dencialismo. Sabemos que não demorou muito, porque o próprio Tancredo Neves, no cargo de Primeiro-Ministro, fez tudo para que o parlamentarismo terminasse e se retornasse ao presidencialismo. Essa é uma passagem importante que vejo na minha vida de tenente.
Prosseguimos, ainda, na Brigada Pára-quedista. A partir dali, passamos a perceber melhor a guerra fria. Veio o plebiscito, voltou-se ao presidencialismo e nós começamos a ser envolvidos naquela agitação do Rio de Janeiro. A imprensa publicava a todo instante, desde o Governo do Juscelino, uma certa infiltração do movimento comunista internacional. O que ele pretendia? Aspirava, exatamente, depois da conquista de Cuba – tentou colocar os seus foguetes lá – entrar na área de influência americana. Era, infelizmente, a situação do Brasil, em virtude da sua posição geo-estratégica. O objetivo era ameaçar o outro império dominador. Eram os dominadores do momento contra o Brasil dominado.
Há uma passagem interessante criada pelos tenentes pára-quedistas. Fizemos uma reunião numa tarde de 1962, não lembro o dia, era um grupo grande de tenen-tes. E começamos a discutir o que fazer, o que é que nós vamos fazer? De que lado vamos ficar? Essa pergunta tinha ligação com a situação mundial, com a radicalização ideológica que envolvia a todos, a instabilidade política, a rarefa-ção do Poder e as reinvidicações das áreas subdesenvolvidas do País e com as ameaças que ocorriam naquele instante. Fomos informados pelo noticiário da volta do Luís Carlos Prestes, de Moscou. Estávamos assistindo à campanha do Governador do Estado do Rio de Janeiro – Carlos Lacerda. Vivíamos aquela agitação.
Com vários tenentes presentes, exatamente na sala de reunião de oficiais, que chamávamos de cassino dos oficiais, no Regimento Santos Dumont. Era o início de 1962, o então Ministro da Guerra General Kruel, foi almoçar na Vila Militar do Rio de Janeiro e, quando entrevistado, declarou que estava ali para decidir “de que lado ia ficar”, referia-se, claro, à situação política. Pois bem, nós
tenentes pára-quedistas do Regimento Santos Dumont, decidimos fazer uma reu-nião para também decidir se ficaríamos contra o império soviético que pretendia implantar no Brasil o regime comunista, ou se ficaríamos contra o império ameri-cano que pretendia nos manter como colônia de um regime capitalista selvagem com um modelo baseado na exploração de trabalho humano, onde o império procura se apoderar da maior quantidade possível de recursos naturais. A posse desses recursos, combinado com o monopólio tecnológico e, se necessário, com a utilização de meios violentos garantiriam a hegemonia da potência exploradora. O ambiente era de revolta, como brasileiros nacionalistas desejávamos ver o País livre dos dois impérios, sonhávamos com prosperidade e grandeza para o nosso povo e que viesse a ocupar uma posição de destaque no contexto das na-ções. O certo seria dividir para vencer. Primeiro, lutar contra o império soviético, representado pelo movimento comunista internacional e, depois, contra o império americano. Éramos jovens tenentes, vinte e poucos anos. Decidimos: “Vamos partir contra um império e vamos vencer esse império”. Olha a pretensão dos tenentes! “Depois vamos partir contra o outro império e com isso defender o Brasil”. Lembro que dois companheiros se levantaram indagando: “Qual foi a decisão? Vamos partir contra o império da Rússia Soviética e...”. Levantou-se uma questão interessante. Naquela época, o Exército Brasileiro vivia um Acordo Militar com os Estados Unidos que foi, muito tempo depois, rompido pelo Presidente Geisel, em seu Governo. O Governo revolucionário... A tropa pára-quedista era integrante do Acordo Militar. Pensamos: vamos contra o império comunista agora e depois contra o outro impé-rio, porque não há dúvida de que eles vão ameaçar o Brasil, vão querer limitar a nossa soberania. Os dois companheiros que se levantaram discordaram e disseram: “Não vamos fazer isso. Vocês vão contra o império russo e nós vamos contra o império americano, desde já. Depois nós vamos nos encontrar”.
A partir daquele dia, daquela reunião, começamos a fazer ligações com o General Augusto Cezar Muniz de Aragão que, naquela época, escrevia no jornal O Globo artigos importantíssimos para nós – “Mensagem aos Oficiais Jovens”. Eram lições de moral, de fortalecimento moral, para levantar a auto-estima, mostrar a necessidade de defender a soberania brasileira contra a ameaça de quem quer que fosse. Também nos aproximamos, bastante, da liderança do Marechal Denys que, logo após a introdução do parlamentarismo, se retirou e passou a cuidar justamente das ameaças que passaram a ocorrer contra o Brasil. Nós cerramos fileiras com um grupo que depois comandou o Movimento Revolucionário de 31 de Março de 1964. Quem eram esses oficiais? Eram os tenentes de 1924, de 1930 que, em 1964, eram os coronéis e os generais. Eles fizeram a Revolução. Essa reunião que realizamos
marcou a nossa decisão. Continuamos com as ligações, a agitação permanecia, isso durante os anos de 1961 e 1962 – final de 1961 e início de 1962.
Trocaram o comando dos pára-quedistas. Com a renúncia do Jânio Quadros e com a posse do Presidente João Goulart, o General Santa Rosa foi nomeado comandante. Ele assumiu o comando da Brigada, ainda, com a denominação de Núcleo da Divisão Aeroterrestre. Ele vinha do Rio Grande do Sul, estava com o Governador Leonel Brizola, então Governador do Rio Grande do Sul. Assumiu o comando do Núcleo e determinou uma reunião logo após àquela solenidade nor-mal da caserna, da passagem de comando de uma Grande Unidade, na qual ocorre o desfile da tropa em continência ao novo comandante.
Ao terminar o desfile, ele determinou: “Todos os oficiais e sargentos devem se reunir, agora, na ‘baiúca’ – hangar onde a Intendência dobrava os pára-quedas”. Era a maior sala de reuniões que nós dispúnhamos na época. Os oficiais e os sargentos de todas as unidades pára-quedistas se reuniram naquela sala. Fui co-nhecer o novo comandante – General Santa Rosa – e fiquei surpreso, levei um susto, um susto muito grande, porque ele subiu numa mesa, num tablado, nós sentados – oficiais e sargentos – e disse assim: “Quero falar para os sargentos pára-quedistas, quero cumprimentá-los porque vocês não cumpriram as ordens de seus oficiais”. Era inadmissível para mim, presenciar o General comandante em flagrante desrespeito aos princípios basilares da Instituição.
Diante de tal absurdo, passamos a nos envolver cada vez mais naquele mo-vimento para derrubar, destruir aquele império – o soviético – que usava um movimento que se chamava movimento comunista internacional, pretendendo ocupar um país continental, o Brasil, geo-estrategicamente área de influência e de interesse do outro império – o norte-americano. Sentimos que a ameaça era muito maior do que aquela que tínhamos imaginado e precisávamos sim, o mais rápido possível, acelerar aquilo e evitar o mal maior, porque a disciplina começou a cair visivelmente. Como um General-de-Brigada assume um grande comando de uma tropa tão preparada como a nossa e o seu primeiro ato é pregar a indisciplina, é jogar os sargentos contra os oficiais? Aquilo foi demais para mim.
Mas teve outra coisa em seguida. Dois ou três meses depois, o contraste. Meu Comandante de Companhia me chama às 7h da manhã, início de uma jornada, ainda, na Companhia de Petrechos Pesados, da qual eu era o subcomandante. “Nery, nós temos uma missão, agora, muito importante – prontidão”. Perguntei-lhe: “O que é?” O problema era com um “grupo dos onze”, lembra? – grupos com formação guerrilheira. Um “grupo dos onze” estava atuando em Xerém, aqui no Estado do Rio de Janeiro, invadindo terras nos moldes das “Ligas Camponesas”. Tinha um
coman-dante que era chamado pelo codinome de “Capacete Verde”. Não sei o nome do indivíduo, muito em evidência na imprensa na época. Em Xerém, aqui! “Ele está criando problemas e nós vamos com a Companhia. A ordem foi do capitão”. Vamos eliminar este “grupo dos onze”. A missão é do General Santa Rosa. “Está bem. A gente cumpre – missão não se discute”. A missão veio do comandante. Partimos. Eu com a companhia. Primeira surpresa! Ocupamos umas cinco viaturas, todos arma-dos. Eu, ao lado do motorista, na “boléia” da viatura, e o capitão, no jipe, puxan-do o comboio pela Avenida Brasil. Assim, fomos na direção de Xerém. Num dapuxan-do momento, ele entrou ao lado do caminhão e fez um sinal para que eu