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O CONCEITO LÍNGUA NA L INGUÍSTICA

C APÍTULO 15 A FORMA E O SENTIDO NA LINGUAGEM

Esse artigo constitui a fala proferida por Benveniste, em 1966, na conferência inaugural de um congresso para filósofos71. Posteriormente, essa fala foi publicada, em 1967, na Le

Langage72. Na primeira parte do artigo, há a exposição de Benveniste sobre o tema e, na

segunda parte, é transcrito o debate ocorrido.

Inicialmente, o autor pondera que falará sobre a forma e o sentido na linguagem do ponto de vista do linguista, mais particularmente, do ponto de vista dele, dado que entre os linguistas não há concordância sobre o tema e muitos deles têm “uma aversão a tais problemas e uma tendência a deixá-los fora da linguística” (2006[1966a], p. 221), tal como o fez Bloomfield. Essa tendência levou os estudos linguísticos a privilegiarem a forma, deixando o

sentido a descoberto, podendo então ser tomado como objeto por qualquer outro campo. Em

vista disso, esse interdito gera desconfianças pelo caráter vago das obras consagradas à semântica. Nessa medida, em um esforço pessoal, Benveniste propõe situar, organizar e analisar as funções das noções forma e sentido.

Em sua primeira aproximação dessas noções, Benveniste defini sentido como “conjunto de procedimentos de comunicação identicamente compreendidos por um conjunto de locutores” (2006[1966a], p. 222); e forma como “matéria dos elementos linguísticos quando o sentido é excluído ou o arranjo formal destes elementos ao nível linguístico relevante” (2006[1966a], p. 222). Convencionou-se opor forma e sentido, contudo, ao analisá-los no funcionamento da língua, Benveniste vê como essas noções, juntas e articuladas, colocam o problema da significação.

De acordo com o autor, os lógicos americanos Carnap e Quine se dedicaram aos estudos da significação, entretanto, não definiram precisamente esse conceito. Carnap aborda-o, em suas análises, a partir do critério de aceitabilidade do sujeito falante. Quine, por seu turno, utilizando um procedimento lógico de Russel, toma a significação como sinonímia, ou “mesma significação”. Para Benveniste, o linguista, incluindo ele, não deve “se contentar com um

71 Especificamente, o 13e Congrès des Sociétés de Philosophie de langue française, que ocorreu em Génova, entre os dias 2 e 6 de setembro de 1966. Esse congresso teve como temática o estudo da linguagem, para tanto, os filósofos reuniram estudiosos de diferentes áreas das Ciências Humanas, por exemplo, linguistas e historiadores, para debaterem sobre a temática. Benveniste e Mircea Eliade, um historiador, foram os conferencistas da abertura. Segundo Coppieters (1966, p. 612, tradução nossa), “não só a linguística experimenta hoje em dia um desenvolvimento considerável, mas tende a fornecer seu modelo e ferramentas conceituais às ciências humanas, em particular, à antropologia, à crítica, e, assim, forjar uma nova chave para inteligibilidade, o estruturalismo, que, na medida em que se pretende universal, diz respeito diretamente ao filósofo”. No original, « non seulement la linguistique connaît de nos jours un développement considérable, mais elle tend à fournir leur modèle et leur outillage conceptuels aux sciences humaines, en particulier à l'anthropologie, à la critique, et, par là, à forger une nouvelle clé d'intelligibilité, le structuralisme, qui, dans la mesure où elle se veut universelle, concerne directement le philosophe » (COPPIETERS, 1966, p. 612).

72 Le Langage é uma revista francesa de divulgação científica da área da Linguística reconhecida internacionalmente.

conceito global como aquele de significação definida em si e de uma vez por todas. O curso mesmo de nossa reflexão nos levará a particularizar esta noção, que nós entendemos de modo diferente do que o fazem os lógicos” (2006[1966a], p. 223). Tanto é especificado esse conceito nessa teorização que, para nós, é por centrar-se nele que Benveniste funda uma Linguística autoral.

Em vista disso, Benveniste retoma os pressupostos de Saussure sobre a natureza da língua, assinalando que Saussure “não parece ter visto que ela [a língua] podia ser outra coisa ao mesmo tempo” (2006[1966a], p. 224). Logo, analisa a relação das noções forma e sentido a partir da teoria saussuriana do signo, focando especificamente no significante e no significado. A partir de sua análise, Benveniste pondera sobre a natureza semiótica da língua, ligada à função de significar, mas acrescenta a natureza semântica, aquela de comunicar.

Desse artigo, selecionamos os recortes 17 e 18 para análise.

RECORTE 17:

[...] parece-nos que se deve traçar, através da língua inteira, uma linha que distingue

duas espécies e dois domínios do sentido e da forma, ainda que, eis ainda aí um dos paradoxos da linguagem, sejam os mesmos elementos que se encontrem em

uma e outra parte, dotados, no entanto, de estatutos diferentes. Há para a língua

duas maneiras de ser língua no sentido e na forma. Acabamos de definir uma

delas: a língua como semiótica; é necessário justificar a segunda, que chamamos de língua como semântica. Esta condição essencial aparece de forma bastante clara, esperamo-lo, para que nos perdoem o emprego de termos tão semelhantes,

e que nos concedam o direito de especializá-los, distinguindo “semiótico” de

“semântico”; não conseguimos encontrar termos melhores para definir as duas

modalidades fundamentais da função linguística, aquela de significar para a semiótica, aquela de comunicar para a semântica (2006[1966a], p. 229, grifo

itálico do autor e negrito nosso).

Salientamos, de início, o emprego tipográfico de itálico e de aspas em “semiótico” e em “semântico” no recorte 17. O uso dessas marcações, pelo autor, relaciona-se aos diferentes sentidos que esses conceitos podem contrair na formulação; “ao mesmo tempo, elas atestam seu fechamento, pois anunciam que numa determinada discursividade, o sentido que se constitui é um e não outro, embora saibamos que o outro é parte constitutiva de todo dizer” (COSTA; SANTOS, 2012, p. 110). Ao destacá-los, o autor adverte o emprego não usual desses conceitos, momento em que Benveniste convoca o leitor a lhe conceder “o direito de especializá-los”, no âmbito de sua teorização, dado que, segundo ele, não conseguiu “encontrar termos melhores para definir as duas modalidades fundamentais da função linguística, aquela de significar para a semiótica, aquela de comunicar para a semântica”.

Benveniste volta-se, novamente, à explicitação de “um dos paradoxos da linguagem”, a saber: “há para a língua duas maneiras de ser língua no sentido e na forma”; há “duas espécies e dois domínios do sentido e da forma”. Há “a língua como semiótica” e há a “língua como

semântica”. Nesses dois domínios, conforme ressalta o autor ao longo de sua teorização, há forma e há sentido: no semiótico, a forma é o signo e o sentido da designação é distintivo; no semântico, a forma é a frase e o sentido é a significação decorrente da referência à atitude do

locutor em uma situação de discurso específica. Esses dois domínios constituem, conforme Guimarães (2018, p. 39), “um acontecimento decisivo na obra de Benveniste” e na formulação de uma “semiologia geral”.

Ressaltamos, também, que o recorte 17 contrai relação parafrástica com o recorte 15, já analisado, no qual Benveniste assevera a dupla propriedade inerente à língua: “há a propriedade que é constitutiva de sua natureza de ser formada de unidades significantes”, cuja função linguística é significar; “e há a propriedade que é constitutiva de seu emprego de poder arranjar esses signos de maneira significante”, cuja função linguística é comunicar (2006[1968b], p. 99). Notemos: Benveniste, ao retomar já-ditos e (re)formular seus dizeres teóricos, produz o efeito de investir na construção de sua identidade autoral.

RECORTE 18:

[...] esses dois sistemas se superpõem assim na língua tal como a utilizamos. Na

base, há o sistema semiótico, organização de signos, segundo o critério da significação, tendo cada um destes signos uma denotação conceptual e incluindo

numa sub-unidade o conjunto de seus substitutos paradigmáticos. Sobre este

fundamento semiótico, a língua-discurso constrói uma semântica própria, uma significação intencionada73, produzida pela sintagmatização das palavras em que cada palavra não retém senão uma pequena parte do valor que tem enquanto signo. Uma descrição distinta é então necessária para cada elemento

segundo o domínio no qual está encaixado, conforme é tomado como signo ou como palavra. Em outros termos, é necessário traçar uma distinção no interior do domínio semântico entre a multiplicidade indefinida das frases possíveis, quer por sua diversidade quer por sua possibilidade de se determinarem umas pelas outras, e o

73 Benveniste diz: « sur ce fondement sémiotique, la langue-discours construit une sémantique propre, une

signification de l’intenté produite par syntagmation de mots où chaque mot ne retient qu’une petite partie de la

valeur qu’il a en tant que signe » (1974[1966a], p. 229, grifo negrito nosso). Na edição brasileira dos Problemas

de Linguística Geral II, esse trecho é assim traduzido: “sobre esse fundamento semiótico, a língua-discurso

constrói uma semântica própria, uma significação intencionada, produzida pela sintagmatização das palavras em que cada palavra não retém senão uma pequena parte do valor que tem enquanto signo” (2006[1966a], p. 233-234, grifo negrito nosso). De acordo com Teixeira e Mello (2013, p. 12), a expressão « une signification de l’intenté », em língua portuguesa, seria melhor traduzida por “uma significação do intentado”, uma vez que, tendo em vista a teorização benvenistiana, nada tem de relação com algo que seja da intenção consciente do locutor, mas com o modo como o locutor age sobre o interlocutor de modo a instaurar uma nova realidade. O locutor atua na e pela

língua de modo a tentar “influenciar” o outro, contudo, não há garantias de que isso se dará, haja vista a experiência de linguagem de cada um.

número sempre limitado, não só de lexemas utilizados como palavras, mas também dos tipos de esquemas sintáticos a que necessariamente a linguagem recorre. Este

é o duplo sistema, constantemente em ação na língua, e que funciona tão velozmente, de um modo tão sutil, que exige um longo esforço de análise e um longo esforço para dele se desprender, se se quer separar o que é do domínio de um e do outro. Mas no fundo de tudo está o poder significante da língua, que é anterior ao dizer qualquer coisa (2006[1966a], p. 233-234, grifo negrito

nosso).

Continuando sua argumentação, Benveniste, nessa formulação, ressalta que, no uso da

língua, os domínios semiótico e semântico se “superpõem”, isto é, estão “constantemente em

ação na língua”. Segundo o autor, o “sistema semiótico” está ligado à “organização de signos, segundo o critério da significação”, relacionando-se ao eixo paradigmático. O conceito língua, em operação, nesse domínio, é o língua-sistema. O “sistema semântico”, por seu turno, relaciona-se a “uma significação intencionada [intentada], produzida pela sintagmatização das palavras em que cada palavra não retém senão uma pequena parte do valor que tem enquanto signo”; logo, relaciona-se ao eixo sintagmático. O conceito língua, em operação, nesse domínio, é o língua-discurso. Esse duplo sistema, conforme o autor, permite descrições e análises distintas, sendo que, “no fundo de tudo está o poder significante da língua, que é anterior ao dizer qualquer coisa”. É esse “poder significante” que interessa a Benveniste e que permite a ele fundar sua Linguística Geral, uma linguística autoral.

No recorte 18, Benveniste parafraseia discursivamente sua formulação analisada no recorte 15, ao asseverar que: no domínio semiótico lida-se com um “número sempre limitado” de unidades significantes; e no domínio semântico lida-se com a “multiplicidade indefinida das frases possíveis”. No recorte 15, que data de 1968b, o autor (re)afirma essa colocação dizendo que a estrutura da língua “é composta de signos, de unidades de sentido, numerosas mas sempre em número finito, que entram em combinações regidas por um código e que permitem um número de enunciações que ultrapassa qualquer cálculo” (2006[1968b], p. 99). Discursivamente, Benveniste vai, ao longo de sua (re)formulação, conforme já salientado, (re)dizendo e (re)afirmando seu posicionamento teórico.

É válido ressaltar, ainda, que no debate decorrente da apresentação desse estudo em uma conferência, Benveniste afirma:

[...] acho totalmente e altamente vantajoso, para a clarificação das noções pelas quais nos interessamos, que se avance por linguísticas diferentes, se elas devem, separadas, conquistar cada uma maior rigor, deixando para ver em seguida como elas podem se juntar e se articular (2006[1966a], p. 240, grifo negrito nosso).

Benveniste parafraseia discursivamente, aqui, em 2006[1966a], as “duas linguísticas diferentes” apresentadas em 2005[1962b] e analisadas no recorte 7, e às “duas análises diferentes” de 2006[1968b], analisadas no recorte 15. Logo, observamos o efeito de consistência significativa que a teorização benvenistiana edifica e constrói ao longo do processo de sua (re)formulação. O acontecimento da distinção semiótico e semântico, embora nomeado somente em 2006[1966a], está em operação, na formulação teórica desse autor, desde, no mínimo, 2005[1939] (cf. AGUSTINI; RODRIGUES, 2018).