O CONCEITO LÍNGUA NA L INGUÍSTICA
C APÍTULO 1 E STRUTURALISMO E L INGUÍSTICA
O capítulo 1 dos Problemas de Linguística Geral II, intitulado “Estruturalismo e linguística”, constitui-se de uma entrevista realizada por Pierre Daix com Émile Benveniste, em julho de 1968, a qual foi publicada no periódico Les Lettres Françaises62. Pierre inicia suas
questões indagando Benveniste sobre as transformações por que passou a Linguística naqueles últimos 40 anos, as quais possibilitaram a ascensão dessa disciplina à posição central nas Ciências Humanas. Situando esse contexto, Pierre questiona Benveniste sobre o que o levou à Linguística. Benveniste responde contextualizando seu encontro, ainda muito jovem, com Antoine Meillet; esse que lhe ensinou gramática comparada, a qual foi modelada por Saussure. Dito isso, Benveniste salienta as transformações pelas quais a Linguística Comparada sofreu
62 Trata-se de um jornal de cunho literário, criado por Jacques Decour e Jean Paulhan, na França, em 1941, no período da Segunda Guerra Mundial. Les Lettres Françaises contou com publicações semanais de 1942 a 1972. Suas publicações, no panorama intelectual francês, se posicionavam contra o movimento nazista, sendo consideradas como atreladas ao movimento de resistência e militância. Entre 1948 e 1972, o jornal possuía como editor-chefe Pierre Daix, o qual realiza com Benveniste a referida entrevista. Após 1990, o jornal L’Humanité publica suplementos com o nome Les Lettres Françaises.
nos últimos anos e a Linguística Geral que “transpunha em traços gerais as características extraídas pelos métodos comparativos” (2006[1968a], p. 13). A Linguística Comparada e a Linguística Geral eram, para Benveniste, os dois polos em que se concentravam os estudos linguísticos no início daquele século. A partir disso, Benveniste assinala a importância de Saussure, “um homem que agiu sobretudo depois de sua morte” (2006[1968a], p. 14)63, e a
incidência dos pensamentos desse linguista no ensino de Meillet. Pontuando sobre as grandes modificações pelas quais a Linguística passou após Saussure, Benveniste situa o estruturalismo e as vertentes a partir das quais se desenvolveu.
Na sequência, o autor pondera sobre o problema do sentido, o qual, ignorado por grande parte dos estudiosos da Linguística, coloca-se, para Benveniste, na ordem do dia. O autor se propõe, assim, a analisar os dois domínios do sentido: o semiótico e o semântico. No primeiro, reconhece-se o signo como detentor de sentido. No segundo, analisa-se o sentido decorrente do encadeamento dos signos no uso da língua, o que requer distinguir e compreender. A partir disso, Benveniste diz: “é neste nível [o da significação] que o estudo da língua pode tornar-se uma ciência piloto” (2006[1968a], p. 24), dado que, segundo ele, “como fundamento de tudo encontra-se o simbólico da língua como poder de significação” (2006[1968a], p. 25).
Desse artigo, analisamos o recorte 9 abaixo:
RECORTE 9:
[...] então, em geral, se diz: o uso da língua regula tudo isso. Mas nós tendemos
então para as questões fundamentais: como a língua admite esta “polissemia”? Como o sentido se organiza? Mais genericamente, quais são as condições para que alguma coisa seja dada como significante? Qualquer pessoa pode fabricar
uma língua, mas ela não existe, no sentido o mais literal, desde que não haja dois indivíduos que possam manejá-la como nativos. Uma língua é primeiro um
consenso coletivo. Como ele se dá? A criança nasce em uma comunidade linguística, ela aprende sua língua, processo que parece instintivo, tão natural quanto o crescimento físico dos seres ou dos vegetais, mas o que ela aprende, na verdade, não é o exercício de uma faculdade “natural”, é o mundo do homem. A apropriação da linguagem pelo homem é a apropriação da linguagem
pelo conjunto de dados que se considera que ela traduz, a apropriação da língua por todas as conquistas intelectuais que o manejo da língua permite. É algo de
fundamental: o processo dinâmico da língua, que permite inventar novos conceitos e por conseguinte refazer a língua, sobre ela mesma de algum modo.
Muito bem! Tudo isso é o domínio do “sentido” (2006[1968a], p. 20-21, grifo negrito nosso).
63 Foi a partir da publicação póstuma do Curso de Linguística Geral (2006[1916]) que circulou o pensamento de Saussure e produziu efeitos importantes no desenvolvimento da Linguística, inclusive com a emergência do que se convencionou chamar “Linguística Moderna”.
Considerando que “uma língua não tem outra função a não ser ‘significar’” (2005[1958b], p. 69), Benveniste, nessa formulação, volta-se a “questões fundamentais” que permeiam o estudo da língua como objeto de investigação: “como a língua admite esta ‘polissemia’? Como o sentido se organiza? Mais genericamente, quais são as condições para que alguma coisa seja dada como significante?”. Essas questões, de nosso ponto de vista, ou seja, do ponto de vista do histórico-discursivo, relacionam-se ao projeto benvenistiano de Linguística Geral: colocar no centro das investigações linguísticas o estudo da significação, concebido a partir do trinômio língua-cultura-personalidade, de tal modo a reinserir a Linguística no campo das Ciências Humanas.
Na sequência do recorte 9, Benveniste afirma que “uma língua é primeiro um consenso coletivo”. Em outro momento, desse mesmo artigo, o autor afirma: “não há existência comum sem língua” (2006[1968a], p. 23). Essas afirmações, em sua rede de filiações, relacionam Benveniste, novamente, a Saussure, para quem: “a língua existe na coletividade sob a forma duma soma de sinais depositados em cada cérebro” (SAUSSURE, 2006[1916], p. 27). É por considerar o aspecto convencional da língua que é possível a Saussure falar em arbitrariedade do signo linguístico, e a Benveniste falar na relação de necessidade entre significante e significado. Observemos: a partir de um princípio comum, cada um desses autores traça raciocínios teóricos distintos em vista de seus objetivos.
Ratificando seu posicionamento, na sequência, Benveniste argumenta: “a criança nasce em uma comunidade linguística, ela aprende sua língua, processo que parece instintivo, tão natural quanto o crescimento físico dos seres ou dos vegetais, mas o que ela aprende, na verdade, não é o exercício de uma faculdade ‘natural’, é o mundo do homem”. Essa afirmação filia Benveniste aos estudos da linguagem que consideram que a língua é “aprendida”, e não inata ao homem. Por exemplo, Saussure, em sua reflexão linguística, afirma: “o indivíduo tem necessidade de uma aprendizagem para conhecer-lhe o funcionamento [da língua]; somente pouco a pouco a criança a assimila” (SAUSSURE, 2006[1916], p. 22) e “é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna; ela se deposita em nosso cérebro somente após inúmeras experiências” (SAUSSURE, 2006[1916], p. 27). De modo contrário, Chomsky, defendendo o inatismo, argumenta que “a aquisição de língua se parece muito com o crescimento dos órgãos em geral; é algo que acontece com a criança e não algo que a criança faz” (2000, p. 23).
Ainda no recorte 9, o autor, reivindicando uma posição contrária ao inatismo e ao naturalismo, assevera que o processo de aprendizagem de uma língua “parece instintivo, tão natural quanto o crescimento físico dos seres ou dos vegetais, mas o que ela [a criança] aprende, na verdade, não é o exercício de uma faculdade ‘natural’, é o mundo do homem”. Essa
aprendizagem, “parece instintiv[a]”, mas não é; parece “natural”, mas não é. Aqui Benveniste parafraseia discursivamente outros momentos de sua teorização, tais como: “a linguagem não está na natureza do homem, que não a fabricou” (2005[1958a], p. 285) e “o homem não nasce na natureza, mas na cultura” (2006[1968a], p. 23). Ao afirmar categoricamente que “não é o exercício de uma faculdade ‘natural’”, o autor coloca aspas em “natural”, abrindo os sentidos à equivocidade, jogando com sentidos que o termo pode assumir. Por exemplo, podemos ler “natural” como: a) vindo da natureza, produzido pela natureza, por isso, externo ao homem, instrumento; b) natural, próprio ao homem, inerente, inato. Benveniste, ao aspear o termo, joga com os sentidos propalados pelas teorias de seu tempo. Diz ele: “vemos sempre a linguagem no seio da sociedade, no seio de uma cultura” (2006[1968a], p. 23). Para Benveniste, a língua não é produto da natureza, ela não está fora do homem, não há existência humana sem língua. Tendo em vista as questões expressas por Benveniste na formulação do recorte 9, ele assevera que, de onde quer que se analise “o processo dinâmico da língua”, “tudo isso é do domínio do ‘sentido’”. Essa afirmação foi parafraseada discursivamente por Benveniste em 2005[1962b], quando afirma que o sentido, “essa cabeça de Medusa está sempre aí, no centro da língua, fascinando os que a contemplam” (2005[1962b], p. 135). Ao aspear “sentido”, nessa
formulação, Benveniste emprega uma marca que remete ao discursivo: trata-se de um elemento
formal que não significa em si, “porque o sentido é estabelecido sempre em relação ao texto e sua exterioridade” (COSTA; SANTOS, 2012, p. 102). De nosso ponto de vista, algumas leituras aceitáveis para esse gesto relacionam-se ao fato de o autor conceber que a língua possui duas formas de significar; logo, há “sentido” no domínio semiótico e há “sentido” no domínio
semântico. No primeiro caso, no domínio semiótico, a significância em jogo é a significância
dos signos, em seu caráter conceitual, genérico, não circunstancial, haja vista serem puramente distintivos. No segundo caso, no domínio semântico, a significância em jogo é a significância da enunciação, que é provocada pela instância de discurso e pelo simbolismo que implica. São esses, conforme o autor, dois modos de analisar a língua, duas Linguísticas possíveis que não escapam ao sentido. Assim sendo, ao aspear, o sujeito-autor possibilita ao sujeito-leitor ler o termo de distintas formas, haja vista os sentidos que pode contrair nessa formulação.
SEGUNDA PARTE –A COMUNICAÇÃO