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3. ANÁLISE DO CORPUS

3.3. Campanha da Fraternidade 1988

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O poder do pai sobre os filhos era absoluto na Grécia. Era-lhe permitido matar, vender ou expor os filhos recém-nascidos. A deformidade da criança ou a pobreza da família bastavam para que a justiça doméstica decretasse sua morte ou seu abandono. O aborto era legítimo, e o infanticídio admitido (MARCÍLIO, 1998, p.23)

No interior das zonas antrópicas, a “criança” do cartaz assume duas funções distintas:

primeiramente, enquanto ideia concretizada na própria imagem do cartaz. Nesse caso, ela assume a posição de fetiche, ocupa o mundo do óbvio, sendo possível inseri-la entre a zona identitária e a zona proximal. Em outro patamar, a mesma imagem toma a criança enquanto ser representacional, uma ideia genérica, um ser de quem se fala (ELE/ELA). Fala-se do menor e do seu estado disfórico de abandonado. Nesse sentido, situam-se elementos eufóricos como a restituição, o bem-estar, o amparo, enquanto estados desejáveis a serem atingidos. Assim, estão situados na zona distal junto com aquele modelo de criança e, por isso, pertencem à categoria dos ídolos.

Ainda, no cartaz, o versículo bíblico recebe o status de ídolos que, conforme já mencionado por Rastier, compartilham do mesmo conjunto dos códigos jurídicos, teorias filosóficas, científicas e religiosas. O cartaz e a bíblia são objetos transacionais e compõem o universo dos fetiches. Além disso, o enunciado “Quem acolhe o menor, a mim acolhe” relaciona as zonas identitária e proximal (um “eu” enunciador se dirige a um “tu”, enunciatário/público) com a zona distal (um “ele”, ou o menor). Logo, o versículo funciona também como um mandamento e, neste sentido, é compatível com um ato nomológico – aquele regulado por uma lei religiosa, artística ou jurídica – que é uma das três espécies de ação proposta por Rastier (2010, p.38).

67 No interior da igreja, Dom Eugênio Sales, um dos fundadores da Campanha da Fraternidade, realizava um evento próprio em sua arquidiocese situada no Rio de Janeiro, adotando um viés diferente daquele apresentado no texto-base. Este, por sua vez, fazia uma autocrítica quanto à atuação da Igreja enquanto um dos legitimadores da escravatura no país.

No entanto, Dom Eugênio propôs o lema “Várias raças, um só povo”, defendendo que o fenômeno discriminatório estava relacionado mais a fatores sociais e econômicos do que raciais. O religioso ainda se posicionou contra a proposta de criação da Pastoral do Negro, reivindicada por alguns religiosos12.

Em contrapartida, autarquias como Dom Marcelo Pinto Cavalheira, bispo de Guarabira (PB) da época, concorda com a posição de que pessoas negras ocupam pouco espaço em certos setores da sociedade normalmente ocupados em sua maioria por pessoas brancas, como médicos, advogados, engenheiros. Além disso, o bispo reconhece que, no próprio âmbito da instituição católica, o número de negros é reduzido.

Normalmente, pessoas negras ocupam postos de trabalho mais populares e que não exigem extensa formação acadêmica, como faxineiros, açougueiros, motoristas, garis, entre outros tantos que, de certa forma, promovem, estruturalmente, um ambiente separado entre aqueles que servem e aqueles que são servidos. Carvalho (2021) afirma que “entre os negros escravizados, os homens eram os copeiros e as mulheres se dividiam entre as funções de mucamas, arrumadeiras e cozinheiras, sendo as amas de leite, logo o braço que sustentava a criação das crianças” (CARVALHO, 2021, p.319).

Nesse contexto, ainda se verifica a discrepância no que se refere à formação acadêmica, na qual escolas públicas, embora disponham de alguma mistura racial, são frequentadas majoritariamente por negros. Enquanto isso, as escolas particulares são destinadas à elite branca com mais condições de vida e, por consequência, ocupa as vagas nas universidades.

Evidentemente, esta constatação não esbarra no fator “capacidade”, mas na questão de

“igualdade de condições”. Contudo, é necessário não entrar em generalizações, afinal, há pessoas brancas também ocupando baixos postos na sociedade também, porém em menor quantidade do que pessoas negras. Além disso, mesmo que o negro alcance os mesmos níveis ocupados por pessoas brancas, ele acaba sendo considerado “estrangeiro”, tanto por parte da elite quanto por parte do público.

Nesse âmbito, é notório o olhar dessa realidade, contrapondo-a ao discurso religioso proferido pelo Papa em sua mensagem para a campanha de 1988: “a escravidão tem a sua

12 Cf. http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/eugenio-de-araujo-sales

68 origem última no pecado e que têm a mesma origem os fermentos de ódio e de divisão, que alimentam os preconceitos raciais e proliferam em situações conflituosas e em discriminações e emarginações” (JOÃO PAULO II, 1988). Portanto, o olhar da Igreja insere o problema enquanto consequência do pecado, em outra perspectiva, trata a temática sob o resultado de um longo processo histórico em que pessoas negras foram submetidas, por séculos, aos mais cruéis castigos e mesmo após a abolição da escravatura, tiveram um enorme bloqueio para se instaurar enquanto pessoa na sociedade.

Como mencionado, a Igreja reconhece o papel negativo que desempenhou no processo escravagista no Brasil. Embora a instituição tenha, de fato, silenciado diante da escravidão, houve ações que foram na contramão dessa atitude. Assim, como a semiótica das culturas trabalha em perspectiva multidisciplinar, convém elucidar tais ações religiosas, uma vez que compõem o universo discursivo da campanha de 1988.

Dessa maneira, é sabido que a ideologia católica era voltada para a conversão e propagação da fé cristã e uma das vias de acesso foi as navegações portuguesas pelo marítimo.

Assim, em meio aos relatos, há o discurso vigoroso de Joaquim Nabuco, na sua obra “O abolicionismo”, segundo o qual “nenhum padre tentou, nunca, impedir um leilão de escravos, nem condenou o regime religioso das senzalas. A Igreja Católica, apesar do seu imenso poderio em um país ainda em grande parte fanatizado por ela, nunca elevou no Brasil a voz em favor da emancipação” (NABUCO, 1949, p.18).

Outra informação vem do artigo “A Igreja e a escravidão no Brasil”, do professor, filósofo e teólogo Inácio Strieder, segundo o qual:

a instituição se ajeitou com a escravidão negra. Foram necessários 300 anos para que, finalmente, fosse declarada desumana e abolida oficialmente.

Durante este longo período, também o clero possuía escravos. Contudo, já por meados do século XIX, mesmo antes da campanha abolicionista, os religiosos começaram a dar-lhes a liberdade (STRIEDER, 2000, p.220).

Strieder (2000) conta, ainda, a realização do Sínodo da Igreja da Bahia, ocorrido em 1707. Os poucos participantes que estavam presentes concordaram com as “Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia”, que foram uma compilação de normas que tinham o objetivo de facilitar o trabalho de uma diocese na colônia. Essas normas perduraram até fins do século XIX. Strieder (2000) conclui que quarenta cânones foram reservados aos escravos, mas nem um questionava a escravatura.

69 O sociólogo Clóvis Moura, em sua obra “Dicionário da escravidão negra no Brasil”, afirma precisamente que a Igreja e seu clero sempre foram escravistas. Nestes termos, revela que os jesuítas utilizavam do trabalho escravo em suas reduções e nas fazendas. Certamente, há muitos relatos, denúncias e insatisfações envolvendo a postura da Igreja perante à escravidão, o que incomodavam membros da CNBB.

No que se refere ao cartaz desta campanha, ele contém uma imagem representativa, logo não realista, de um homem que se posiciona de perfil e com a cabeça voltada para o alto. Pintada na cor preta, a imagem produz reverberações dela mesma, porém nas cores branca, amarela e laranja. Semioticamente, as cores traduzem o clamor de uma classe por mais igualdade. Além disso, a boca aberta retoma o ato do grito, o qual se manifesta no lema da campanha.

Dessa forma, o enunciado “ouvi o clamor deste povo” evoca uma memória bíblica que remete ao livro do Êxodo: “... Tenho visto, atentamente, a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores”

(BÍBLIA SAGRADA, Ex 3, 7). Como se observa, do ponto de vista do foco narrativo, as ações são narradas em terceira pessoa, apesar de que a tradição judaico-cristã compreende o protagonista Moisés como autor da obra.

Figura 4 - cartaz da campanha da fraternidade 1988

https://campanhas.cnbb.org.br/campanha/fraternidade1988

Em toda ocasião, o “clamor” advém da situação de escravidão vivida pelo povo hebreu.

Nesse contexto, Deus fala com Moisés e designa-o como o líder de uma grande missão: libertar os hebreus da dominação egípcia. No plano semiótico-cultural, a negação da exploração e

70 consequente afirmação da liberdade implica a negação da influência de um sistema religioso baseado no politeísmo para a preservação das raízes monoteístas. Além disso, o clamor pela liberdade é também a saída (por isso, o nome êxodo) de uma cultura cuja espaço não lhe pertence, afinal, a libertação dos hebreus também carrega a ideia de habitar uma “terra prometida”.

Com base no exposto, o hino da campanha traz os seguintes versos “O Deus da aliança nós vamos cantar”, “Meu Deus, és a força de quem confiou”. Um ponto crítico a se destacar é a presença de figura divina cristã. No entanto, considerando a influência do contexto histórico para a construção do hino, incluindo o sofrimento dos escravos negros certamente trazidos da África para serem escravizados em outros continentes, considera-se que esse grupo cultuava outras divindades, – logo, politeístas – pois tinham sua própria cultura, suas próprias crenças.

Assim, a menção da figura de “Deus” (escrita em maiúscula) remete ao ser representado na Bíblia de tradição hebraica, portanto, monoteísta.

Ainda em relação ao hino, percebe-se a estratégia que o enunciador desenvolve para expor sua história: vários são os versos que são iniciados isolando o verbo “olhar”: Olha, / que eu vim lá de longe, / perdendo raízes”, “Olha, / cruzei tantos mares”, “Olha, / vendido em leilão”, “Olha, / nos campos roçados / Reguei com meu sangue, meu sonho maior”; “Olha, eu venho sofrido”, “Olha, rompendo correntes / Pra nós, liberdade enfim vai chegar”.

Certamente, os versos acima convocam a atenção de toda a sociedade a acompanhar a história de sofrimento do povo negro, ora cruzando mares e habitando novas terras não por vontade própria, mas para satisfazer os interesses do colonizador, e ora sendo vendido em leilão como um ordinário objeto de troca, maculando sua dignidade humana. Nesse sentido, restou-se o atraso educacional e econômico em relação aos indivíduos brancos que foram durante séculos privilegiados apenas por sua cor de pele.

Portanto, no interior das zonas antrópicas do entorno humano, a humilhação, o sofrimento, o encarceramento, a discriminação são sanções impostas ao negro, elas habitam a fronteira entre a zona identitária e proximal, assumindo, dessa maneira, o status de fetiche.

Enquanto o “respeito”, a “dignidade”, a “igualdade”, a “liberdade” são valores almejados e, por isso, distantes do grupo social abordado, portanto ocupam a zona distal e são categorizados como ídolos.