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3. ANÁLISE DO CORPUS

3.15. Campanha da Fraternidade 2001

A primeira campanha do século XXI reflete a questão das drogas no país. O cartaz da campanha é dividido em quatro quadros: os dois superiores mostram uma criança de olhos abertos, à esquerda, e um rapaz, de olhos fechados, à direita. Respectivamente, os quadros inferiores ocupam uma flor saudável e outra ressecada.

Figura 21 - cartaz da campanha da fraternidade 2001

https://campanhas.cnbb.org.br/campanha/fraternidade2001

123 Na parte superior, observa-se o lema “Vidas sim, drogas, não!” estendendo-se por todo o cartaz que exibe um sincretismo semiótico construído à base da antítese. Culturalmente, a origem dos jogos de oposição constitui a base filosófica da religião maniqueísta, a qual surgiu na Pérsia por meio de Maniqueu, seu fundador. Essa visão de mundo, que influenciou inclusive o pensamento de Santo Agostinho, caracteriza certas religiões ocidentais, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Todas acreditam na coexistência de duas forças em permanente conflito. Este pensamento esteve sempre presente nos valores cristãos e exemplos não faltam para expressá-los.

Um ponto crítico a se fazer é em relação aos hinos litúrgicos da campanha deste ano.

Eles não trataram da temática das drogas ou do dependente químico, apenas enfocam o valor da “vida”, “fraternidade”, “esperança”. Ao contrário de hinos de campanhas anteriores, os quais contemplavam a problemática social escolhida em versos.

Assim, recorre-se a dados do texto-base a respeito da temática sob uma perspectiva cultural. Nesse sentido, a CNBB, por meio do referido documento, afirma que:

Temos consciência de que ainda é pouco o que sabemos sobre o uso das drogas, intimamente ligado aos padrões culturais de cada sociedade. Em algumas, elas se enquadram num contexto ritual, como entre certos povos indígenas; noutras, são inseridas em procedimentos médicos, como nas sociedades modernas (CNBB, 2001, p.3).

Portanto, o texto-base não exclui o fator cultural que envolve a utilização de substâncias psicotrópicas. Contudo, é necessário fazer uma ressalva nesse discurso, ao ser aplicada a contextos de comunidades tribais, o uso da palavra “droga” pode impor sanções negativas, já que, para elas, o ritual provém da utilização de ervas naturais e não manipuladas, contrariamente à medicina, em que “droga” é utilizada como termo proveniente do seu entorno e não produz o efeito pejorativo do senso comum.

A fim de complementar o pensamento do texto-base, é imprescindível conhecer os aspectos culturais de pelo menos três plantas ou ervas e quais são as implicações que as tornaram um problema social.

A folha de Cannabis foi utilizada por volta de 2.000 a.C. por chineses, indianos e egípcios com finalidades terapêuticas e ritualísticas; a Erythroxylum coca, nativa da Bolívia e do Peru, tinha uso restrito a uma classe social na antiga civilização peruana há cerca de oito mil anos; e a Papaver rhoeas ou papoula foi utilizada pelos sumérios por volta de 4000 a.C. para fins de ritual. Nas sociedades modernas, essas plantas influenciaram a medicina tradicional

124 como o uso de Canabiol para o tratamento da Síndrome de Dravet (epilepsia genética da infância), porém sob autorização judicial; da papoula se originou o ópio e do qual se extrai a morfina, essencial para certos tratamentos cirúrgicos; já a coca foi utilizada pela primeira vez por Sigmund Freud como anestésico.

O problema se instala quando essas plantas são utilizadas para fins comerciais de promoção ao tráfico de drogas. Assim, do refinamento da folha de coca surgiu a cocaína; da morfina sintetizada originou-se a heroína; já a Cannabis é conhecida pelo nome popular de maconha, que também sofre, assim como as outras, algum tipo de manipulação pelos traficantes para gerar mais lucro e causar mais dependência no usuário. No entanto, cannabis hoje é usada para o tratamento de Alzheimer, síndrome de west, depressão, ansiedade, epilepsia, mal de Parkinson, entre outras.

Nesse contexto, compreende-se a existência de um grande sistema financeiro:

No caso das drogas ilícitas, o elemento mais visado desse sistema é o traficante, por ser quem faz a mediação entre o produtor e o consumidor. Não é ele, porém, quem detém a posição mais forte no complexo e sim o agente financeiro cujo capital põe em movimento todo o sistema, e que, de alguma forma, detém o comando, tanto da produção quanto do tráfico ou intermediação comercial. Seria, portanto, ingênuo reduzir o sistema das drogas à sua parte visível que, geralmente, é apresentada na mídia na figura dos pequenos produtores (plantadores de coca ou maconha), pequenos traficantes (que fazem a entrega direta) e consumidores presos por estarem drogados ou portando alguma droga (geralmente pessoas pobres) (CNBB 2001, p.7).

Portanto, a luta pela erradicação das drogas ilícitas começa desarticulando o agente financeiro. Porém, o que se observa é a criminalização de usuários que, embora estejam contribuindo para o financiamento, são vítimas de um amplo sistema que corrompe, que empobrece, que usurpa direitos.

Além de drogas ilícitas, o texto-base compreende “drogas” como “substâncias capazes de provocar alterações da percepção, do humor e das sensações. Incluem-se, portanto, entre as drogas também o álcool, o tabaco, certos produtos naturais (ex.: cogumelos), inalantes (ex.:

cola, éter) e medicamentos (ex.: anfetaminas, morfina)” (CNBB 2001).

No que diz respeito ao álcool, é cultural a utilização de bebidas alcoólicas para festejos e celebrações. Inclusive, há uma espécie de glamourização em torno de consumidores de álcool na forma de atributos como “aquele que aproveita a vida”. Ainda, a ingestão de certas bebidas pode, em alguns casos, determinar o status social do usuário.

125 O pesquisador Câmara Cascudo defende que o brasileiro é devoto da cachaça, porém não é “cachaceiro”. Cita o botânico Augusto de Saint-Hilaire que, de 1816 a 1822, informa que não se deve supor que o gosto dos brasileiros pela cachaça os conduza a estados de embriaguez e que não se lembrava de ter visto, no decurso das suas longas viagens, um único homem embriagado (CASCUDO, 2014)

A cachaça popular ou a “aguardente da terra” (em contraposição ao aguardente do Reino), como informa Cascudo, “elaborada no Brasil, podia atender ao apetite dos fregueses humildes, escravos, mestiços, trabalhadores de eito a jornal, todo um povo de reduzida pecúnia”

(CASCUDO, 2014, p.18). Tal bebida, ao lado do tabaco em rolo, estava ligada com a questão escravagista:

Além de ser jubilosamente recebida pelo vendedor na Costa d’África, figurava necessariamente como alimento complementar na trágica dieta das travessias do Atlântico. O escravo devia forçosamente ingerir todos os dias doses de aguardente para esquecer, aturdir-se, resistir. Soldados e marinheiros através do oceano sorviam álcool. (CASCUDO, 2019, p.18)

No tocante ao fumo, sabe-se que os povos indígenas faziam uso social do tabaco. Em outros contextos, prevaleciam o aspecto ritualístico e religioso e as substâncias narcóticas seriam uma forma de comunicação entre esses povos e o mundo sobrenatural. Como as doenças tinham explicação nesse universo, o uso do tabaco possuía aplicação medicinal. (SANTOS;

BRACHT; CONCEIÇÃO, 2011)

Embora as tradições culturais contenham narrativas sobre o uso justificável e relativamente saudável de plantas, ervas e substâncias, nas sociedades contemporâneas, a lei do capital, cujo fim é a obtenção de lucro, se sobressai ao bem-estar do ser humano. Vende-se uma ideia em forma de propaganda e o indivíduo consome o produto de maneira desordenada, levando-o ao vício, à destituição da unidade familiar e, muitas vezes, à morte. Por isso, a campanha de 2001 imprimiu seus esforços para mobilizar a sociedade brasileira no enfrentamento desse problema que acaba com a vida de milhares de pessoas e destrói o convívio familiar.