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3. ANÁLISE DO CORPUS

3.5. Campanha da Fraternidade 1990

75 entre a zona identitária (EU/NÓS) e a zona proximal (TU/VÓS). Por outro lado, como a preocupação da Igreja era com a “verdade”, esta foi tratada de forma idealizada, uma vez que é inconcebível um mundo ou ambiente em que a informação tenha sido veiculada sem erros ou alterações. Portanto, ela (a verdade dos fatos) é o objeto a ser alcançado integralmente, logo, ocupa o status de “ídolo” no âmbito do entorno humano.

76 as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima (BÍBLIA SAGRADA, Lc 21, 25-28).

Dessa maneira, constata-se a presença da palavra “homens” significando a noção de “humanidade”, e não “seres do sexo masculino”, conforme se observa no texto original, o qual utiliza o termo ἀνθρώπων13. No que se refere ao lema oficial “Mulher e homem: imagem de Deus”, ele transmite uma memória bíblica da figura de Eva e Adão como figuras que representam a origem da humanidade e representantes da estrutura familiar canônica, em que homem e mulher deveriam ser um só corpo, uma só unidade, embora se saiba que, de acordo com o plano cultural, a sociedade desde os primórdios fora edificada sob o prisma patriarcal. Logo, não é de se admirar a escolha da Igreja por esse lema no lugar do anterior, uma vez que o primeiro traz apenas a figura da mulher, isolada, como se ela tivesse condicionada a estar próxima a uma figura masculina, portanto, destoante das fronteiras ideológicas da instituição católica, a qual prevê a comunhão entre homem e mulher seres que se unem para formar um só corpo.

Além do exposto, o lema “Mulher e homem: imagem de Deus” acrescenta novas significações ao texto original contido no livro do Gênesis: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (BÍBLIA SAGRADA, Gên. 1, 26). No entanto, para compreender essas significações, são necessárias algumas elucidações sobre a tradução do versículo. Conforme o dicionário Hebraico-português, o termo ם ָדאָ é traduzido como “homem”, “Adão”, “pessoa”, logo, se refere à humanidade, já que o termo רֶּבֶּג designa “homem”, “varão”.

Contudo, como se explicaria, então, traduções em que aparece o vocábulo

“mulher”? como em “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou;

homem e mulher os criou” (BÍBLIA SAGRADA, Gên. 1, 27). Acontece que o termo תוֹבֵקְנ é primeiramente traduzido como “fêmea”, mas também pode ser “mulher”,

“gênero feminino”, enquanto o vocábulo “mulher” possui diversas acepções dependendo da situação social. Em Gênesis 3,2, por exemplo, quando se narra “E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos”, o termo הָש ִא significa a “mulher esposa”.

Assim, o lema “Mulher e homem: imagem de Deus” ressignifica o original no instante em que o ator “homens” (humanidade) cede lugar ao “homem” específico, acompanhado da “mulher” ser social e não como “sexo feminino”. Além disso, embora

13 Cf. https://biblehub.com/whdc/luke/21.htm

77 o discurso bíblico se reporte à ideia de humanidade, o discurso de que “Deus criou o homem à sua imagem”, transmite sempre a sensação de uma figura masculina, pois, infelizmente, a língua não possui outro termo para designá-la a não ser o lexema

“homem” ao qual está conectado morfologicamente àquela.

Como mencionado, o discurso papal constitui parte da literatura das campanhas da fraternidade. A respeito deste, cabe expor parte do discurso de João Paulo II sobre o tema: “Assim, nem o homem é superior à mulher, nem a mulher ao homem. Isso não quer dizer que ambos são iguais em tudo. Cada um dos dois, possui a totalidade e a dignidade do ser humano, mas não da mesma forma (JOÃO PAULO II, 1990).

Com esse discurso, João Paulo II toca em um problema social que percorre tanto o mundo oriental quanto o ocidental. O tratamento desigual entre homens e mulheres ocupam espaços artísticos, políticos, educacionais e vínculos trabalhistas de forma estrutural. Nesse aspecto, a falsa superioridade masculina foi sendo propagada por gerações, com o argumento baseado na história de que o homem pré-histórico era o provedor, o caçador, o que possuía a força física para enfrentar os animais selvagens e disso resultando na figura de um herói, responsável pela sobrevivência familiar. Além disso, justifica-se o sexo feminino como inferior com base nas características psicológicas: geralmente, mulheres têm aspectos emocionais mais acentuados do que os homens. Com isso, propaga-se o mito de que homens são mais racionais e que essa faculdade é essencial para obtenção de sucesso pautado em relações capitalistas.

A respeito do cartaz da campanha, observa-se o desenho de uma jovem mulher sorridente em pé, com as mãos estendidas para frete, e um homem que se posiciona diante dela, porém ajoelhado e com os braços estendidos para o lado. Ambos olham para o a alto e na mesma direção. Além disso, observa-se um ambiente colorido, com formas e cores que ornamentam um ambiente verde ou uma paisagem natural. O ambiente noturno está representado por uma lua e as estrelas. A imagem intenciona recuperar, antes de tudo, os atores bíblicos Eva e Adão, representando a gênese do plano da salvação e, Maria e José como modelo de casal que sofreu as adversidades da sociedade em que viviam.

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Figura 6 - cartaz da campanha da fraternidade 1990

https://campanhas.cnbb.org.br/campanha/fraternidade1990

No entanto, um aspecto peculiar permeia os referidos atores bíblicos: em Adão e Eva, a mulher é, em certo nível, retratada como a geração da desobediência, enquanto Adão é o servo obediente, a pessoa fiel aos desígnios do divino. Em contrapartida, a figura de Maria inaugura aquilo que a comunidade cristã denomina de História da Salvação. Ela representa a humildade, a obediência, a resignação ao plano divino.

Enquanto isso, José tem uma participação fundamental para a manutenção desse plano, pois aceitou as condições pelas quais sua esposa foi condicionada, mas suas ações são bastante precárias na narrativa bíblica. Em todo caso, embora haja muitas recorrências regrando e, outras vezes, condenando o gênero feminino no Antigo e Novo Testamento, a figura de Maria surge como modelo de subversão às imposições patriarcais da época.