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3. ANÁLISE DO CORPUS

3.21. Campanha da Fraternidade 2009 e 2018

Optou-se, neste momento, por analisar o universo de discurso dessas duas campanhas, devido à aproximação temática entre ambas. Em 2009, os olhares da Igreja voltaram-se para o problema da segurança pública, ao passo que em 2018, a instituição trata da temática da violência no Brasil.

142 O tema “Fraternidade e segurança pública” guiou as ações da CNBB para a campanha de 2009. O lema “A paz é fruto da justiça” vem explicitado no cartaz do evento, pintado em um cercado de madeira. Pode-se considerar que essa frase é uma tradução contida no livro de Isaías:

“E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre”

(BÍBLIA SAGRADA, Is 32, 17). Parte do discurso do capítulo aborda a segurança, como no versículo seguinte: “E o meu povo habitará em morada de paz, e em moradas bem seguras, e em lugares quietos de descanso” (BÍBLIA SAGRADA, Is 32, 17).

Ambiente semelhante ao que se verifica nos versículos é perceptível no cartaz da campanha, na qual um homem sentado no chão, com roupas bastante simples e de sandálias, lê tranquilamente um livro e assume uma postura com as pernas dobradas, posição cujas reminiscências remetem ao sistema cultural hindu, denominada posição de lótus.

Figura 29 - cartaz da campanha da fraternidade 2009

http://campanhas.cnbb.org.br/campanha/fraternidade2009

A imagem certamente dialoga com o slogan no que se refere à propagação e a manutenção de uma cultura de paz, o extremo oposto daquilo que se considera uma agressão à liberdade individual, à violência. Nestes termos, a literatura desta campanha gira em torno da relação de oposição entre segurança x violência. O texto-base da campanha aponta três tipos de violência: estrutural, física, simbólica, mas considera, também, a violência psicológica e a sexual.

O primeiro tipo está estreitamente vinculado à organização da estrutura social em que se presenciam situações de exclusão e a perpetuação de uma mentalidade determinista em relação às classes sociais, em que aos empobrecidos são negados os meios básicos do ser-cidadão. Uma manifestação discursiva da violência estrutural se manifesta no hino da campanha. Percebe-se que o terceiro verso é manifestação direta do lema “A paz é fruto da

143 justiça” e o valor “tranquilidade” como elemento isotópico tanto do tema “paz” quanto da característica em que se apresenta o homem do cartaz do evento:

É vão punir sem superar desigualdades;

É ilusão só exigir sem antes dar.

Só na justiça encontrarás tranquilidade;

Não-violência é o jeito novo de lutar.

Além disso, violência psicológica diz respeito a importunações que ferem o emocional dos sujeitos. Ela pode ser manifestada na forma de humilhações, manipulação, insulto, proibições, constrangimento. O hino da campanha traz a humanidade como ator que sofre de insegurança e medo:

Ó povo meu, chegou a mim o teu lamento, Conheço o medo e a insegurança em que estás.

Eu venho a ti, sou tua força e teu alento.

Vou te mostrar caminho novo para a paz

Por outro lado, há a questão da segurança, a qual articula setores governamentais e a população em geral. Neste âmbito, propaga-se a visão de mundo de que “armar a população”

reduz o índice de criminalidade, discurso baseado em políticas de segurança pública de outros países. No entanto, o perigo reside na transferência de responsabilidades, pois com a população de posse de armamento, o investimento em segurança pública poderia sofrer sanções negativas.

Como se sabe, a semiótica das culturas trata da visão de mundo, dos discursos, do saber compartilhado entre os cidadãos de uma comunidade, de como um complexo cultural ressignifica a realidade em sua volta. Nestes termos, observa-se a diferença entre o sentido denotativo de segurança em contraposição àquele veiculado nos limites da ideologia católica.

O dicionário Houaiss traz a significação do lexema “segurança” elaborada de forma mais técnica ou geral. Esta entra em consonância com a segunda estrofe do hino da campanha, que traz uma perspectiva particular sobre o lexema e uma concepção mais idealizada:

dicionário hino

[estado, qualidade ou condição de quem ou do que está livre de perigos, incertezas]

[assegurado de danos e riscos eventuais]

[é vida plena para todos], [Trabalho digno, moradia, educação], [É ter saúde e os direitos respeitados], [É construir fraternidade, é ser irmão]

144 Dessa forma, o enunciador do canto religioso constrói a visão de “segurança” baseado em elementos que estão no âmbito da cidadania. Dessa maneira, o discurso é voltado para a aquisição dos direitos dos cidadãos e a fraternidade entre eles.

O cartaz da campanha de 2018 reúne diferentes atores sociais em faixas etárias distintas como adulto, jovem e idoso, somando oito pessoas que estão dispostas em círculo e de mãos dadas. O ângulo fotográfico foca-os de baixo para cima, de modo que se vejam o rosto de cada participante, os quais estão vestidos com cores diferentes. Com isso, a intenção da Igreja nacional é celebrar uma campanha que vise à superação da violência, apoiada no lema “Vós sois todos irmãos”, extraído do livro de Mateus, 23-8.

Figura 30 - cartaz da campanha da fraternidade 2018

http://arquidiocesedecuritiba.org.br/campanha-da-fraternidade-2018/

Sobre o aspecto cultural, a palavra “irmãos”, do lema “Vós sois todos irmãos”, alcança intensa discursão. Como se trata de uma tradução do Hebraico para o português, indubitavelmente, a significação deste lexema, no contexto de produção, não está centrada nas relações consanguíneas, mas em um universalismo parental, em que todos pertencem a uma mesma origem e, portanto, são responsáveis pelos mesmos deveres. No entanto, o texto hebraico possui uma variedade de acepções para o termo ahim (irmãos). Além de se referir àqueles reunidos por laços de sangue, inclusive “primo”, o vocábulo também é utilizado para se referir a membros do mesmo clã. Também ahim conecta-se a relações contratuais, a exemplo de Labão, que recebe Jacó e o chama de “irmão”, mas também o engana por lhe ter dado a filha Lia, no lugar de Raquel.

Além disso, considera-se que o lema constitui parte de um discurso maior, o qual não pertence propriamente ao campo semântico de “violência”. Ocorre que, no referido capítulo, é

145 tecido um discurso de denúncia sobre o comportamento dos escribas e fariseus. Os primeiros possuíam a tarefa de copistas, isto é, que copiavam os textos da lei judaica com o objetivo de instruir o povo. De outro lado, os fariseus constituíam uma classe de judeus de grande prestígio religioso e que defendiam a pureza da cultura hebraica contra qualquer imposição estrangeira, portanto, a significação da palavra remetendo à ideia de “separação”.

Neste contexto, Jesus, segundo o livro de Marcos, denunciava a hipocrisia dos considerados doutores da lei, os quais deveriam ser exemplos de líderes fieis aos desígnios das escrituras, mas não seguem e mesmo assim cobram o cumprimento da lei aos demais. Além disso, fazem obras de modo que sejam vistos e admirados pelo povo, exigindo a este que os chamem de Rabi, um título de honra que significa “mestre”.

Apesar disso, apenas no final o capítulo traz a denúncia de violência na forma de assassinatos de profetas: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!” (BÍBLIA SAGRADA, Mt 23, 37). Em suma, verifica-se uma voz que se impõe, por meio da denúncia, diante das forças de poder, um discurso que combate costumes e que, ao expor atitudes dissimuladas, apela para uma consciência, a reflexão e a ruptura de um sistema e das relações de poder.