3. ANÁLISE DO CORPUS
3.2. Campanha da Fraternidade 1987
63 O discurso expõe, implicitamente, a estrutura de poder em que o luxo e a ambição representam os valores de uma classe dominante que se apropria do espaço do trabalhador rural, configurado como ser independente, para torná-lo dependente dos interesses de um sistema capitalista que o torna mero objeto de troca. A respeito disso, Friedrich Engels teoriza que:
numa fase bastante primitiva do desenvolvimento da produção, a força de trabalho do homem se tornou apta para produzir consideravelmente mais do que era preciso para a manutenção do produtor (...) Não se demorou muito a descobrir a grande “verdade” de que também o homem podia servir de mercadoria, de que a força de trabalho do homem podia chegar a ser objeto de troca e consumo, desde que o homem se transformasse em escravo (ENGELS, 1984, p. 198)
Portanto, o cenário representado pelo hino da campanha associado às ideias de Engels traduz um estado de barbárie. Em contrapartida, o olhar cosmopolita manifesta-se no discurso proferido no hino litúrgico de entrada da celebração. O enunciador reafirma sua crença em uma única divindade, criador de todos os homens e mulheres, e ainda enfatiza a fraternidade entre os cidadãos, em que todos seriam aceitos independentemente das condições sociais, econômicas e culturais:
Somos filhos do mesmo Pai que dá tudo;
Vida, amor, terra, bens e perdão;
Mas exige de nós, sobretudo, Convivência de irmão com irmão.
64 Pelo discurso, D. Luciano dissemina os valores negativos como formas antagônicas que eliminam o desenvolvimento infantil: o egoísmo, imoralidade, injustiça. Tais valores provêm da precária e defeituosa gestão pública que visa a interesses próprios em detrimento da vida dos menores abandonados. As estruturas em primeira pessoa incluem a participação da sociedade, e inclusive a Igreja, como responsáveis pela proteção desse público. Assim, ao enfatizar “o problema somos nós”, D. Luciano desloca a perspectiva do senso comum que atribui o abandono de menores como se fosse um “problema social” e, com isso, exime o menor de qualquer culpa. Em seguida, transfere a responsabilidade para um “problema da sociedade”.
Nessas condições, as causas do abandono infantil são diversas e muitas vezes associadas à pobreza familiar decorrente da desigual distribuição de renda. Muitas crianças abandonam a unidade familiar biológica para viver em outra: a “família” dos excluídos nas ruas. As consequências desse abandono são a marginalização e, não raro, tornam-se menores infratores até serem conduzidos a abrigos e casas de detenção, a fim de serem reconduzidos ao lar de origem.
O cartaz da campanha de 1987 mostra um jovem sentando na calçada de uma rua. Ele se encontra de cabeça baixa, sobre os antebraços apoiados nas pernas. Veste calça e sandália.
Seu rosto não é revelado. Embora seja, um menino, é possível interpretar como uma forma de representação genérica de todas as crianças que sofrem pelo abandono. A imagem se encontra bem no centro no cartaz, no interior de um círculo. Ao redor deste, na parte exterior, duas cores quentes se destacam: o laranja e o vermelho. Com elementos de uma semiótica verbal, o cartaz aporta o lema “Quem acolhe o menor, a mim acolhe”, extraído do livro de Marcos 9, 37. Em outra tradução, verificam-se poucas mudanças no versículo que, integralmente, se tem:
“Qualquer que receber um destes meninos em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, recebe, não a mim, mas ao que me enviou” (BÍBLIA SAGRADA, Mc 9, 37).
Figura 3 - cartaz da campanha da fraternidade 1987
https://campanhas.cnbb.org.br/campanha/fraternidade1987
65 Contudo, as questões em torno da tradução tornam-se peculiares no momento em que a palavra “meninos”, especifica o gênero do público em evidência, como se observa no versículo anterior: “E, lançando mão de um menino, pô-lo no meio deles e, tomando-o nos seus braços, disse-lhes:” (BÍBLIA SAGRADA, Mc 9, 36). O vocábulo paidíon (παιδίον), em nota de rodapé em uma versão da República de Platão feita pelo tradutor Edson Bini, significa “criança de ambos os sexos com menos de sete anos”. Porém, o versículo inscrito no cartaz traz o vocábulo
“menores”, o que atribui, ao mesmo tempo, uma conotação específica no que se refere a crianças e também genérica, incluindo meninos e meninas. Na esfera jurídica brasileira, o ano de 1987 foi de intensos diálogos e debates para a elaboração de uma nova constituinte que se consolidaria no ano seguinte. Naquele contexto, os menores foram considerados como aqueles abaixo dos dezoito anos.
Conforme mencionado, o espaço físico habitado pelo menor no cartaz da campanha da fraternidade é a rua, com seus semáforos, calçadas, lixões. O abandono infantil e o desamparo por parte das autoridades simbolizam a negação potencial da vida, do desenvolvimento e consequente degradação psicológica. Nesse sentido, já se materializa precocemente uma espécie de infanticídio.
Maria Luiza Marcílio, na obra “História social da criança abandonada”, refletindo sobre o abandono de bebês na Antiguidade, informa que tal prática era comum no ocidente. Dessa maneira, cita dois exemplos emblemáticos do Antigo Testamento. No primeiro, Sara, esposa de Abraão, exigiu-lhe a expulsão de seu primeiro filho com sua escrava Agar. Ismael e sua mãe tiveram que sair pelo deserto sem água e sem ter o que comer. Além de aspectos como as relações de hierarquia social, observa-se a motivação do ato por meio da inveja ou da insegurança, afinal a herança familiar estava destinada ao primeiro filho homem.
Outro caso do abandono infantil nas mediações bíblicas se encontra na história de Moisés, o qual, apenas com três meses de vida, fora deixado às margens do Nilo dentro de uma arca de juncos. A narrativa conta que o Faraó ordenou a todo o povo que os meninos nascidos fossem lançados ao rio. Dessa maneira, a filha do faraó encontrou Moisés e entregou-lhe a uma serva hebreia que, por articulação da irmã, era a mãe da criança, para criá-lo e amamentá-lo em troca de uma remuneração. Quando Moisés cresceu, a filha do faraó tomou-o como filho adotivo. Nessa narrativa, a motivação do abandono se dá por coerção ou imposição da autoridade máxima aos servos.
Maria Luiza Marcílio ainda revela que entre os hebreus do Antigo Testamento, o ato de abandonar bebês era perfeitamente aceito, e praticado em situações extremas. Segundo a autora:
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O poder do pai sobre os filhos era absoluto na Grécia. Era-lhe permitido matar, vender ou expor os filhos recém-nascidos. A deformidade da criança ou a pobreza da família bastavam para que a justiça doméstica decretasse sua morte ou seu abandono. O aborto era legítimo, e o infanticídio admitido (MARCÍLIO, 1998, p.23)
No interior das zonas antrópicas, a “criança” do cartaz assume duas funções distintas:
primeiramente, enquanto ideia concretizada na própria imagem do cartaz. Nesse caso, ela assume a posição de fetiche, ocupa o mundo do óbvio, sendo possível inseri-la entre a zona identitária e a zona proximal. Em outro patamar, a mesma imagem toma a criança enquanto ser representacional, uma ideia genérica, um ser de quem se fala (ELE/ELA). Fala-se do menor e do seu estado disfórico de abandonado. Nesse sentido, situam-se elementos eufóricos como a restituição, o bem-estar, o amparo, enquanto estados desejáveis a serem atingidos. Assim, estão situados na zona distal junto com aquele modelo de criança e, por isso, pertencem à categoria dos ídolos.
Ainda, no cartaz, o versículo bíblico recebe o status de ídolos que, conforme já mencionado por Rastier, compartilham do mesmo conjunto dos códigos jurídicos, teorias filosóficas, científicas e religiosas. O cartaz e a bíblia são objetos transacionais e compõem o universo dos fetiches. Além disso, o enunciado “Quem acolhe o menor, a mim acolhe” relaciona as zonas identitária e proximal (um “eu” enunciador se dirige a um “tu”, enunciatário/público) com a zona distal (um “ele”, ou o menor). Logo, o versículo funciona também como um mandamento e, neste sentido, é compatível com um ato nomológico – aquele regulado por uma lei religiosa, artística ou jurídica – que é uma das três espécies de ação proposta por Rastier (2010, p.38).