• Nenhum resultado encontrado

3. ANÁLISE DO CORPUS

3.8. Campanha da Fraternidade 1993

Concretamente, o objetivo da Igreja ao promover a campanha de 1993 era despertar nos seus fiéis a consciência para exigir dos governantes a criação de leis que favorecessem projetos habitacionais, como Fundo Nacional de Moradia Popular. No entanto, este projeto foi aprovado doze anos depois, em 2004.

Outro ponto a se destacar, nos anseios da CNBB, é o discurso do cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns que defende a aquisição de moradias dignas com o propósito de reduzir a violência nos grandes centros urbanos. Como o envolvimento de líderes da Igreja Católica com as forças governamentais brasileiras é deveras conhecido, o religioso apoia-se no presidente da época, Itamar Franco, para defender e difundir a Campanha da Fraternidade (ESTADÃO, 25 fev. 1993).

“Fraternidade e moradia” foi eleito o tema que a Igreja se propôs a discutir. O lema “Onde moras?” faz alusão direta ao livro de João 1, 35-42, em que dois discípulos começaram a seguir Jesus, após descobrirem, através de João Batista, que ele era o

“Cordeiro de Deus”. Então, André e Simão Pedro foram os primeiros discípulos e este episódio inaugurou a jornada do Messias e a convocação de novos membros.

Contudo, a narrativa bíblica acima não está conectada com a imagem do cartaz da campanha, cujos signos não verbais são de um homem e uma mulher descalços e com o olhar para cima. Ele segura ferramentas que remetem ao ofício da carpintaria, e ela,

94 vestida de branco, com um pano na cabeça e grávida. Ao redor deles, há um reflexo luminoso arredondado que projeta uma sombra de uma casa a partir dos corpos do casal.

Simbolicamente, o cartaz promove a memória bíblica da figura dos personagens José e Maria. De acordo com as escrituras, involuntariamente, eles se colocaram na condição de refugiados devido à carnificina provocada pelo rei Herodes que ordenou o assassinato de todos os meninos recém-nascidos até dois anos de idade. Então, conforme relatos do livro de Lucas, o casal sai pelo deserto e se aloja em um estábulo, única alternativa para que Maria pudesse conceber seu filho.

Figura 11 - cartaz da campanha da fraternidade 1993

https://campanhas.cnbb.org.br/campanha/fraternidade1993

No cartaz, o estar descalço evoca o tema da pobreza ou da desapropriação material ao evidenciar cidadãos com poucos recursos financeiros para obter uma moradia. A luz que reflete sobre eles figurativiza um “olhar” em pelo menos duas abordagens: a social, como uma tentativa de convocar o governo a “olhar” para esses indivíduos; e a religiosa, na intercessão do divino sobre os fiéis.

O ambiente caracterizado acima recebe um investimento semântico, por meio do sema /privação/. Este é também retratado no hino da campanha, por meio de figuras como

“crianças pela rua”, “famílias pelo chão”, “pouco teto”, “pouco chão”:

Há crianças pela rua, Há famílias pelo chão, Nas calçadas, gente nua...

Onde moras, meu irmão?

Há favelas na cidade, Pouco teto, pouco chão, Quem pergunta, com bondade:

Onde moras, meu irmão?

95 Embora seja assunto próprio da teoria literária, é preciso ressaltar que as quadras acima são heptassílabos (redondilha maior), com estrutura ABAB, com um detalhe: ambas terminam com a mesma frase interrogativa encerrando uma rima. A respeito disso, “Onde moras, meu irmão?” funciona como o mote, verso que se repete sempre no fim do poema, bastante cunhado na literatura oral e escrita nordestina conhecida como cantoria de viola ou de repente e também na literatura de cordel.

Trata-se de uma canção que, de certa forma, reivindica o direito do outro de não apenas ter uma moradia, mas o anseio por uma vida digna. A brevidade dos versos reproduz recortes da realidade e o cenário apresentado deixa implícito o apelo aos governantes pela assistência aos empobrecidos economicamente e com precários recursos para obter um lar mais estruturado. Disso, resulta a imagem da “favela” como espaço onde a população habita em moradias de apenas um cômodo e, na maioria das vezes, superlotadas.

Nessa mesma consonância, o cântico de Entrada da celebração da campanha conecta-se, semanticamente, ao cartaz e, por conseguinte, ao episódio bíblico do nascimento de Jesus:

Deus amigo, bem conheces a dureza do penar De quem vive procurando uma casa pra morar Sorte igual teve o teu filho sem poder nascer num lar,

Só a gruta, escura e fria, encontrou, enfim, lugar.

Observa-se, então, que até mesmo o filho de Deus, reconhecido como uma divindade, não foi poupado de uma interferência antagônica do poder, já que estava sob ameaça do imperador. De maneira análoga, os indivíduos desprovidos de moradia digna são vítimas de um sistema corrupto que acaba rebaixando esse público a um status de “não-cidadão”.

Diante de tal contexto, é comum o discurso religioso tender para uma visão cosmopolita, como versos que demonstram a integração entre as pessoas:

Deus vivente, nosso abrigo, nós queremos partilhar Com irmão empobrecido, que não tem ainda um lar.

Celebrando tua páscoa, vamos dar-nos sempre as mãos Pra teu reino de justiça, construir em mutirão.

96 Nesta estrofe, percebe-se a carga semântica trazida pelo vocábulo “empobrecido”.

Nesse sentido, questiona-se: quem tornou esse grupo empobrecido? ou será que já nasceram nessa condição? Dessa maneira, a desigualdade econômica constitui uma primeira resposta para a existência de pessoas que dispõem de pouquíssimos recursos para sobreviver ou quase nada (Mas irmãos estão ausentes / A sofrer sem lar, nem pão) e outros que abundam em bens materiais muitas vezes supérfluos.

A interpretação acima enfatiza as condições sociais dos cidadãos, porém o refrão do Salmo escolhido da campanha faz uma comparação entre elementos da natureza e o ser humano:

“As aves têm ninhos e habitam os céus, mas vejam onde moram os filhos de Deus”. O enunciador expõe, essencialmente, a condição humana por meio de um discurso de que todo ser vivo tem o seu espaço próprio, mas um espaço que proporcione a ele um bem-estar.

Ainda sobre o refrão acima, trata-se de uma ressignificação do discurso contido no livro de Salmos: “Junto delas [as fontes] as aves do céu terão a sua habitação, cantando entre os ramos” (BÍBLIA SAGRADA Sl 104, 12). Este, por sua vez, tem referência nos escritos de Mateus: “As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (BÍBLIA SAGRADA, Mt 8, 20). Nesse caso, articulam-se as oposições semânticas /suficiência/ x /carência/, concluindo que até mesmo os animais possuem suas próprias habitações, mas ao ser humano é negado este direito em comunidades empobrecidas.