4. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS: PARTE I
4.1 O CONTEXTO INTERNACIONAL
4.1.1 Características gerais do contexto internacional
A avaliação dos principais fatos e eventos que caracterizam o contexto internacional do ambiente de modo amplo, fomentam o sentimento que estes, nas
palavras de PARKER (1998, p. 400), “estão rapidamente convergindo para delinear um mundo único, integrado, em que influências econômicas, sociais, culturais, tecnológicas, entre outras, atravessam fronteiras tradicionais como nações, culturas nacionais, tempo, espaço e indústrias com facilidade crescente”. Neste sentido, o termo denominado globalização tem sido amplamente utilizado para caracterizar as principais tendências mundiais recentes.
O crescimento do comércio e dos fluxos de capital, principalmente na última década do século XX, têm funcionado como locomotivas para o crescente nível de integração e interdependência das economias mundiais, sobretudo as industrializadas.
Nos anos 90, mais especificamente em sua segunda metade, a economia americana atuou como uma das principais forças motrizes da economia mundial, favorecendo inúmeros países em desenvolvimento e seriamente afetados por problemas financeiros quando das crises internacionais ocorridas no período. Em outras palavras a crescente integração dos fluxos de comércio e investimentos entre os países industrializados sugere que o crescimento global da economia internacional esteja cada vez mais suscetível à evolução economia e comercial dos países economicamente mais desenvolvidos.
No contexto de globalização, o comércio internacional tem recebido papel de destaque. Diversas análises internacionais têm apontado para a crescente vinculação entre o crescimento do produto interno bruto mundial e o desenvolvimento do comércio internacional (vide Gráfico 1). Em outras palavras, o comércio internacional tem-se concretizado como mola propulsora do crescimento econômico mundial.
Segundo análises da CEPAL (2003), credita-se tal vinculação aos seguintes movimentos: i) contínua expansão dos investimentos físicos e dos fluxos financeiros;
ii) maior participação das empresas transnacionais na produção e comércio com criação de redes de produção mundiais que ampliaram a subcontratação; iii) crescente aumento do comércio intra-firmas; iv) maior exploração das tecnologias de informação e comunicação que potencializam a maior conexão entre as empresas em países
distintos.
Delineando ainda as tendências do sistema global de comércio desde a década de 90, destaca-se a crescente ampliação de acordos de comércio regionais. Em linhas gerais, tais acordos estimulam o comércio pela redução e eliminação de tarifas dos produtos comercializados. Corrobora esta tendência a observação que, até março de 2003, apenas quatro países membros da Organização Mundial de Comércio – OMC –, ainda não participavam de nenhum acordo regional de comércio: Hong Kong, China, Macao, Mongólia e Taipei Chinesa (OMC, 2003).
GRÁFICO 1 - PERCENTUAL DE CRESCIMENTO DAS EXPORTAÇÕES E PRODUTO INTERNO BRUTO MUNDIAIS
FONTE: Extraído de OMC (2003, p. 28)
Em contrapartida às ampliações do comércio, dos fluxos de capital, dos investimentos e da integração entre os países que caracterizaram a última década do século XX, os primeiros anos do século XXI inauguraram um período de incertezas e fraquezas na economia global, e além disto um período marcado por conflitos geopolíticos e guerras no contexto internacional.
No contexto econômico, a seqüência de crescimento verificada na década passada veio a ser interrompida pelos seguintes: redução dos planos de investimento de muitas empresas dos países desenvolvidos; colapso nas bolsas de valores no segundo e terceiro trimestres de 2000; perda de confiança dos agentes econômicos ante as fraudes contábeis de grandes empresas (CEPAL, 2003).
Em 11 de setembro de 2001, o atentado terrorista no World Trade Center nos Estados Unidos, desencadeou uma completa mudança nas relações políticas
internacionais entre os países, sobretudo culminando em duas guerras nos anos posteriores. Em 2002, os Estados Unidos declararam guerra ao regime fundamentalista Afeganistão, acusado de proteger Osama Bin Laden líder do grupo terrorista Al Kaeda ao qual se creditou a autoria dos atentados de 11 de setembro. Já em 2003, Estados Unidos e Inglaterra declararam guerra contra o regime ditatorial de Sadam Husseim, no Iraque.
Tal como se pode observar no Gráfico 1, em 2001, face às incertezas da conjuntura internacional, reduziu-se tanto o produto mundial bruto como o comércio internacional, que, pela primeira vez em 20 anos, registra crescimento negativo em relação a 2000.
No plano econômico severas ações foram realizadas no sentido de alterar as perspectivas de recessão nos principais países industrializados. Entre janeiro e dezembro de 2001, o banco central americano reduziu a taxa de juros de longo prazo em 11 ocasiões, saindo de 6% ao ano para 1,75% ano, sendo este o valor mais baixo registrado em 40 anos. Bancos centrais de diversos países acabaram seguindo esta política (FMI, 2003). Em 2002, apesar da constante preocupação com ataques terroristas e dos altos preços dos combustíveis, já se verifica tendência à recuperação do declínio do ano anterior.
Sob estas breves considerações observa-se que a evolução dos eventos que têm delineado o contexto internacional até o presente momento, evidenciam o fato da estreita interdependência entre os países sob a contínua liderança dos Estados Unidos.
Além disto é amplamente compartilhada neste contexto a idéia de que à medida que a comunidade global alcançar maiores níveis de liberalização comercial multilateral, maiores serão os níveis de crescimento e prosperidade global.
Neste nível do contexto ambiental (internacional), o comércio internacional tem sido foco de constante debate e discussão. Sugerem as principais análises econômicas que os países mais bem sucedidos nos esforços de desenvolvimento foram aqueles com orientação exportadora, mentalidade de abertura comercial e redução de
barreiras ao comércio. Tais entendimentos delineiam um contexto substancialmente distinto para organizações que efetivamente atuam ou tem por referência o nível internacional do ambiente. Assim, faz-se importante destacar mais especificamente como estas características expressam os principais valores, crenças e significados compartilhados neste nível do contexto ambiental, sobretudo são eles os principais elementos que pressionam, influenciam e orientam das ações organizacionais.
Em termos gerais a abertura comercial como um todo e a ampliação dos fluxos de comércio expuseram os produtores dos países em desenvolvimento frente a maiores expectativas e demandas quanto à qualidade dos produtos e sistemas logísticos de distribuição. Nesta direção, alinham-se os incentivos para a eficiência e redução de custos; a necessidade de modernização via atualização tecnológica em máquinas e equipamentos que proporcionam automação ao processo produtivo; e a utilização das novas tecnologias de comunicação e informática como a Internet. É importante notar que, no plano internacional, quando se observam as expectativas relacionadas à qualidade, além de estas serem pré-requisitos para a participação no mercado, a qualidade envolve não apenas questões vinculadas ao produto, mas também à qualidade da mão-de-obra. O progresso tecnológico das últimas décadas ampliou a demanda por mão-de-obra treinada e especializada capaz de lidar com as novas tecnologias.
O fator tecnologia, parece sedimentar-se como o elemento central da competitividade apregoada pela globalização. É importante notar que os fluxos de tecnologia são normalmente traduzidos no desenvolvimento de máquinas e equipamentos, desenvolvidos nos países mais ricos, e importados por países em desenvolvimento. Paralelamente acompanham este tipo de fluxo tecnológico a transferência de conhecimentos e as inovações organizacionais e de gestão.
Aliados do comércio e dos investimentos diretos no contexto internacional destaca-se o papel dos contratos. Tais instrumentos utilizados em uma ampla gama de negócios internacionais envolvem desde simples transferências de conhecimento e
tecnologia até a formação de complexas joint ventures e alianças estratégicas entre empresas. Assim, é recorrente em grande parte dos artigos pesquisados, a discussão sobre a necessidade da ampliação da qualidade das instituições internacionais.
Constitui foco deste debate a clara definição para os direitos de propriedade, a ampliação de regras formais e informais que regulam e governam as interações internacionais, bem como a demanda por uma reforma institucional a nível internacional. Além disto, é importante destacar que os contratos internacionais têm assumido papel fundamental no que diz respeito à internacionalização das empresas neste contexto. Em outras palavras, modos de entrada contratuais têm-se tornado substancialmente mais utilizados nas atividades de internacionalização neste contexto.
Nesta direção, observa-se o fomento de acordos de licenciamento, transferência de tecnologia, desenvolvimento de produtos, contrato de produção no exterior, entre outros.
A análise do contexto internacional revela ainda o crescente debate e ênfase dada às questões de ordem ecológica, desenvolvimento sustentável, desenvolvimento humano e responsabilidade social. No que tange aos aspectos de ecologia e desenvolvimento sustentável, enfatiza-se a preocupação com as questões ambientais, a utilização de matérias-primas ecologicamente corretas e a busca de soluções para o tratamento de resíduos e outras questões ambientais, biotecnologia e manipulação genética.
No plano da responsabilidade social e do desenvolvimento humano destacam-se a disparidade social entre os países, a necessidade de equilíbrio no que diz respeito à distribuição de renda, ampliação e maiores condições de vida para as populações carentes, o acesso à educação, bem como preocupações relacionadas à saúde da população mundial. A respeito dos problemas de saúde pública destacam-se algumas doenças e epidemias recentes como a SARS (Sindrome Respirátória Aguda Grave), a AIDS (Sindrome da Imuno Deficiência Adquirida), os diversos tipos de câncer e as doenças relacionadas à obesidade e ao uso do tabaco.
De forma geral estas características são predominantes e características amplas do contexto internacional, ou seja pressionam e caracterizam genericamente os mais diversos setores industriais. A seguir, aprofunda-se a descrição das principais características e lógica de ação presente no contexto internacional específico da indústria de alimentos.