Campo: trajetórias e autoconstruções O objetivo deste item é apresentar de forma resumida as trajetórias
2.2 Atualizando oito casas autoconstruídas: 2006 e
2.2.4 Casa Menina
Uma casa boa e confortável é aquela que tem espaço e é bem ventilada. A frente de uma casa bonita deve ter uma sacada. Uma casa bonita por dentro deve ser bem dividida e com bom espaço. A casa dos meus sonhos é uma casa rebocada e pintada. (informação verbal90)
Fala do morador da Casa Menina, 2006
Em 2006...
A Casa Menina tem vizinhança com a Casa Sonho (B5), apresentada previamente, pelo seu lado direito e, à esquerda, tem-se uma viela. A casa tinha como arranjo familiar o casal e seus dois filhos pequenos. Em 2006, o marido trabalhava com esquadrias de alumínio e a mulher, como faxineira. De acordo com o cadastro, a casa possuía um pavimento térreo de área igual à 14,48m² e um pavimento superior de área 15,62m², prolongado frontalmente, totalizando uma área total construída de 30,10m² e resultando em, aproximadamente, 7,50m² por pessoa. A residência ocupa 100% do terreno, não apresentando nenhum afastamento lateral e de fundos, tendo, assim, somente possibilidade de ventilação pela fachada frontal. No térreo, havia uma pequena sala e cozinha conjugadas e um banheiro abaixo da escada. No pavimento superior, dois pequenos quartos: um de casal com 7,06m² de área com janela, e outro sem abertura, onde dormem os filhos, com 4,27m² de área (Figura 87).
89 O cadastro da Casa Menina foi feito no dia 11 de agosto de 2006 e a
apresentação da proposta no dia 21 de novembro.
Figura 86: Cadastro da Casa Menina em 2006. Fonte: adaptado arquivo EPAE, 2006.
Vê-se, a seguir, a estreita fachada da residência (Figura 88), com porta de entrada e duas janelas, uma para sala, no térreo, e a segunda para o quarto do casal, no 1º pavimento. Parcela da elevação frontal é revestida em cerâmica, correspondente ao setor térreo, enquanto o restante permanece sem revestimentos. Nota-se também que a telha de cobertura se projeta frontalmente, criando um pequeno beiral, bem como o 1º pavimento, que se expande em alguns centímetros, como pode ser percebido no sombreamento que a laje de piso deste andar gera na fachada.
O formulário da pesquisa, realizada em 2006, revela várias etapas de obra na casa, considerando os acabamentos no interior, tendo parte em alvenaria sem reboco, parte com reboco sem pintura e outra com pintura. O piso, no térreo, é revestido com cerâmica, enquanto nos quartos segue no contrapiso. O banheiro não possuía lavatório e ainda não tinha revestimento cerâmico.
As “condições de habitabilidade” avaliados pela “sensação do morador” eram: na sala, na cozinha, no banheiro e no quarto dos filhos consideradas “escura e quente”. A umidade estava presente em todos os cômodos, e a ventilação era considerada “ruim” no quarto dos filhos e no banheiro. Essas condições refletem a ausência de janelas nesses compartimentos, somente o quarto do casal tinha uma boa ventilação e iluminação. A cozinha integrada com a sala por uma pequena bancada ajuda à habitabilidade, mesmo que o ambiente ainda não tenha acabamento cerâmico. (Figura 89-91)
Figura 87: Fachada principal da Casa Menina, em 2006.
A escada existente em 2006, em concreto e ainda sem revestimento, é bastante íngreme, como se pode perceber no corte aproximado (Figura 92).
Figura 91: Corte aproximado escada, levantamento em 2006. Fonte: EPAE, adaptado pela autora.
Na “avaliação da habitabilidade” referente aos termos de “problemas visíveis” na residência, indicam-se: infiltração, esfarelamento do revestimento, problemas de estrutura, ventilação e iluminação ruins, unidade sanitária precária, instalação elétrica inadequada, alta densidade ocupacional. Na época, perguntados o que gostavam da casa, não souberam responder. O “programa solicitado” para a
Figura 90:Cozinha e sala Fonte: EPAE, 2006.
Figura 90: Vista de um dos quartos. Fonte: EPAE, 2006.
Figura 90: A escada em 2006, em concreto e ainda sem revistimento, bem como a parede em alvenaria.
assistência técnica: “mais um quarto, reformar o banheiro e rebocar a casa por dentro”. Isso reflete o depoimento inicial dado pelo morador ao ser perguntado “Como seria uma casa boa e dos sonhos”.
Considerações sobre a proposta de projeto do EPAE
Figura 92: Maquete física da Casa Menina e Casa Sonho – à direita, tem-se a situação preexistente; à esquerda a representação da proposta do EPAE, adensamento para as casas B5 (Casa Sonho) e B11 (Casa Menina).
Fonte: EPAE, 2006.
A proposta se apropria de duas unidades: a B5, Casa Sonho, e a B11, Casa Menina (Figura 93). Lembro-me das discussões para a solução desse dois projetos dentro da equipe na época. Hoje, pra mim, se torna emblemático: tínhamos a preocupação de seguir os parâmetros da legislação, e um dos dispositivos era a escada, ela deveria seguir a norma, a NBR 6492/94 – de Acessibilidade91. A escada deveria
tmabém seguir os parâmetros do Código de Obras de Salvador92. No
entanto, começamos a nos deparar com um grande problema, pois as dimensões dos terrenos eram exíguos, a Casa Sonho - B5 com
91NBR 6492/1994 - Representação de projetos de arquitetura (ABNT).
92 Lei nº 9.281/2017 – CÓDIGO DE OBRAS – Institui normas relativas à execução de
19,56m² e a Casa Menina - B11, com 14,48m². Ao calcularmos o desenvolvimento da escada seguindo a norma, este ocupava quase toda a área útil do andar. A solução proposta para este caso foi resultado dessa “fé cega” a norma, à lei. Nós propusemos fazer uma “escada ideal” e nos valemos de um desenho inusitado, penso eu hoje. As casas B5 e B11 se desenvolviam alternadamente num terreno e no outro, assim fizemos uma proposta coletiva, unindo duas famílias vizinhas e respectivamente os seus terrenos (Figura 94).
Figura 93: Proposta arquitetônica elaborada pelo EPAE, em 2006. Fonte: adaptado arquivo EPAE, 2006.
A escada de uma casa ocupava o espaço da outra casa, e vice-versa, para que o desenvolvimento da escada acontecesse. Com esta solução, propusemos um adensamento com térreo e mais três pavimentos, sendo: o térreo com cozinha e sala, o primeiro
pavimento com um quarto e banheiro, o segundo mais um quarto e o último pavimento sendo um terraço, para a área de serviço, com isso chegando a uma área aproximada de 82,00m².
Podemos ver que os quartos ficaram com áreas de 8,49m² e de 11,33m², pois demos prioridade a dimensão destes, no entanto nos esquecemos da privacidade. Vemos na maquete física a simulação do adensamento, seguindo a essência da autoconstrução (Figura 93).
Em 2014...
Naquela mesma tarde de 2014, depois de estar na Casa Sonho vou até a Casa Menina, afinal é do lado, vizinhas de parede, mas a casa está fechada, ninguém em casa. Somente em outubro de 2015, volto ao Costa Azul93. Num pequeno largo, que parece ser devido à
demolição de uma casa, encontro-me com a moradora da Casa Menina sentada na porta da casa, fazendo unha e conversando com uma jovem (Figura 95-97). Apresento-me e a conversa acontece ali mesmo, antes de entrarmos na casa.
93 A conversa aconteceu no dia 26 de outubro de 2015, era uma terça-feira.
Figura 95: Casa Menina em outubro de 2015, as moradoras na porta de casa.
Fonte: acervo da autora. Figura 96: Casa Menina fechada em
setembro de 2014. Fonte: acervo da autora. Figura 94: Casa Menina fechada em
setembro de 2014. Fonte: acervo da autora.
A dona da casa trabalha como doméstica e o marido continua no ramo de esquadrias como em 2006, e não estava em casa por esse motivo. Confirmo sobre quem mora na casa, ela diz o casal, os dois filhos e agora a sobrinha dela, a que está com ela fazendo unha: “Veio para ficar com as crianças!” para ela poder voltar a trabalhar. Converso com ela buscando histórias da casa e da construção (Figura 98), segundo a moradora: “Todos os serviços foram contratados, menos os de esquadrias”, já que o marido trabalha com isso, mas não soube informar em que época aconteceram as obras.
Observo que a Casa Menina não teve ampliação de área construída, como as casas Sonho e Frida, no entanto foram realizadas algumas melhorias internas de acabamento e revestimentos (Figura 99). A fachada que tinha revestimento somente no térreo, em 2006, agora está completamente revestida.
Figura 97: Desenho; Linha do tempo da autoconstrução na Casa Menina. Fonte: Elaborado pela autora, 2019.
A cozinha, que já era conjugada com a pequena sala por uma mureta, agora está com os pisos mudados, com uma cerâmica clara que ajuda no ambiente, que antes era escura. Os serviços foram feitos por um pedreiro há pouco tempo, diz a moradora. A integração dos ambientes é um tipo de solução interessante, uma vez que permite a ventilação e a iluminação com maior facilidade. A cozinha, mesmo pequena, está organizada: geladeira ao fundo, pia no meio e fogão, o microondas está instalado em um suporte acima, transparecendo um cuidado com aquele pequeno espaço (Figura 100-101). A mureta que já existia em 2006, foi melhorada com revestimento e com uma peça de granito. As paredes estão agora rebocadas e pintadas de amarelo e ainda, parte destas, recebem um “acabamento especial”: uma cerâmica imitando madeira cria um painel para colocar a televição LED de 40’ e o aparelho de som (Figura 103). Apesar de organizada a moradora reclama pois “não dá para colocar uma mesa de jantar”. Quase abaixo da escada vejo uma pequena mesinha com o computador, onde as crianças se divertem com filmes e jogos.
Uma espacialização que acontece na Casa Sonho, se repete aqui: o banheiro utilizando o espaço embaixo da escada e se abrindo para a cozinha. Peço para entrar e ela abre a porta e me surpreendo! A Figura 98: Atualização do cadastro Casa Menina, em 2014.
sensação era de estar em outra casa: mesmo não tendo iluminação direta para o exterior, mas com uma lâmpada com grande luminosidade, somada a cerâmica clara produz um ambiente totalmente diferente (Figura 104-105). Todo revestido em cerâmica, equipado com todas as peças sanitárias e com um belo box em
blindex, serviço do próprio dono da casa, afinal é a especialidade
dele. Apenas falta o forro, onde podemos ver ainda a laje pré- moldada com chapisco. Mesmo todo reformado, a moradora reclama do tamanho do banheiro “é pequeno”, pois tem apenas 1,73m² de área útil. Do lado do banheiro, num pequeno “nicho” um tanquinho, ainda a ser instalado, para facilitar a lavagem da roupa.
Continuando a conhecer a casa, subimos a escada (Figura 106-109). Só de olhar percebo a característica da escada da Casa Frida, parece a “escada rapel”. Segundo a moradora, foi feita por um pedreiro na época, mas recebeu críticas do último que esteve lá para revesti-la “Mal feita!”. Com apenas 11 degraus para um pé direito de 2,63 metros na sala mais 10 cm de laje, totalizando uma altura de 2,73 metros. Os pisos variam de 0,17 m a 0,14 metros. Os espelhos de 0,22 m, 0,26 até a 0,31 m de altura. Sinto dificuldade em subir. O que me chamou também a atenção foi a solução do 1º degrau que é um Figura 99: Vista da cozinha.
Fonte: acervo da autora. Figura 100: A cozinha conjugada com a pequena sala.
Fonte: acervo da autora. Figura 101: Um tanquinho guardado num resto de espaço entre o banheiro e a parede da cozinha. Pergunto se lava roupa ali, ela diz que não, utiliza a magueira e baldes no espaço em frente à casa, ao ar livre. Um espaço “perdido”.
Fonte: acervo da autora. Figura 102: As paredes estão agora rebocadas e pintadas- de amarelo e ainda um “acabamento especial” uma cerâmica imitando madeira cria um painel para colocar a televição LED de 40’ e o som. Fonte: acervo da autora. Figura 103: Banheiro Casa Menina.
Fonte: acervo da autora. Figura 104: contraste do blindex do box e o teto do banheiro ainda sem acabamento.
Fonte: acervo da autora.
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“intermezzo” entre “patamar e piso”, com uma dimensão diversa e maior que a dos outros pisos, permite o acesso “lateral” da escada, já que não há espaço útil para tal , este mede na maior profundiadde 0,34 metros.
Chegamos a um pequeno hall: o primeiro quarto, que não tem porta, é o quarto das crianças (Figura 110). Antes não havia ventilação nem iluminação, agora abriram uma pequena basculante para o terreno do vizinho, que proporciona um pouco de ventilação e iluminação, apesar de ser pouco (Figura 111). Os dois filhos e a prima dormem numa cama de casal embrenhada na “largura” do quarto, não há espaço para guarda-roupa, e prateleiras fazem a função. Sugiro à moradora aumentar a janela para melhorar a ventilação, mas ela não se mostra preocupada com isto, e diz ser sua maior preocupação o crescimento do filho: “Quero mais um quarto só para as meninas”. Só
Figura 105: A Menina e o primeiro degrau “ patamar e piso”.
Fonte: acervo da autora. Figura 106: Íngreme, a moradora reclama da escda pois causa - desconforto na subida.
Fonte: acervo da autora. Figura 107: Conforme cadastro de 2006 e minha experiência os pisos revelam dimensões exíguas de até 0,14 metros.
Fonte: acervo da autora. Figura 108: A escada agora revestida em cerâmica branca, lisa , e ainda sem corrimão. Obra realizada em 2015.
Fonte: acervo da autora.
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não diz como conseguirá e não fala de planos para fazer mais uma laje, diferente da Casa Sonho.
À frente, o quarto do casal um pouco maior, mas mesmo assim não tem espaço para um guarda-roupa (Figura 112). Ali uma janela aberta para a “rua” permite uma boa ventilação e iluminação, com sol da manhã e vento nordeste, além da vista do mar (Figura 115). Na janela, como na Casa Sonho, um varal pendurado para a secagem de roupa, aqui também não tem uma área de serviço (Figura 113-114). Diz a moradora: “lavo roupa do lado de fora, com mangueira e baldes” no pequeno largo à frente de sua casa. Neste quarto as paredes ainda estão sem reboco e revestimentos, contrasta com o Figura 109: A cama de casal
para as crianças, prateleiras para as roupas e uma TV no quarto.
Fonte: acervo da autora. Figura 110: Uma pequena abertura no quarto das crianças.
Fonte: acervo da autora. Figura 111: No pequeno quarto do casal não cabe um guarda-roupa.
Fonte: acervo da autora. Figura 112: Fachada da Casa Menina com varal externo na janela do 1º pavimento. Fonte: acervo da autora. Figura 113: Pequeno varal para secagem de roupa. Fonte: acervo da autora. Figura 114: Uma pequena vista para o mar da janela do 1º pavimento.
Fonte: acervo da autora.
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acabamento já realizado no andar térreo da casa. Novamente a cobertura em fibrocimento complica o conforto térmico.
Atravessamentos da proposta da ATHIS
Na Casa Menina, não ouve aproveitamento da proposta de ampliação realizada em 2006, como visto anteriormente na proposta da Casa Sonho. No entanto, considerando o “programa solicitado” em 2006 à assistência técnica – “mais um quarto, reformar o banheiro e rebocar a casa por dentro” – percebe-se que parte foi realizado pelos moradores sem a participação do Programa Viver Melhor e sem a assistência técnica, como a melhoria do banheiro, o revestimento em parte da casa, e a ventilação de um dos quartos. (Figura 116).
Figura 115: Processo de consolidação da volumetria da Casa Menina. Fonte: elaborada pela autora, 2019.