Campo: trajetórias e autoconstruções O objetivo deste item é apresentar de forma resumida as trajetórias
2.2 Atualizando oito casas autoconstruídas: 2006 e
2.2.3 Casa Sonho
Uma casa boa e confortável deve ter uma cozinha com espaço para trabalhar, pelo menos dois quartos e uma sala. A frente de uma casa bonita deve ter um hall de acesso com jardim e varanda. Uma casa bonita por dentro deve ser bem pintada. A casa de meus sonhos é uma casa bem pintada e com cerâmica na fachada (informação verbal88)
Fala da moradora da Casa Sonho em 2006
Em 2006...
A Casa Sonho ocupa 100% de um terreno de esquina da viela que tem também a Casa Frida e a Casa Paciência, contando com aproximadamente 19,50m² de área. O arranjo familiar era de cinco pessoas, o casal e seus três filhos, que moravam nessa casa com apenas um quarto de 4,19 m², além da sala, cozinha e banheiro, com 1,32 m², conforme cadastro arquitetônico realizado em 2006 (Figura 63).
87 O cadastro da Casa Sonho foi realizado em 7 de agosto de 2006, e a
apresentação da proposta em 21 de novembro.
88 Informação verbal
Figura 62: Cadastro da Casa Sonho, em 2006. Fonte: adaptado EPAE, 2006.
A área por pessoa que era de apenas 3,90m² contribuía para que as condições de habitabilidade fossem consideradas “ruins”, segundo o questionáro preenchido na época do cadastro. Somava-se à falta de espaço, a falta de ventilação e iluminação nos cômodos, com paredes úmidas e com infiltrações. A cobertura em telhas de fibrocimento em conjunto ao pé direito variando entre 2,31 metros, na parte mais baixa do telhado, e 2,62 metros na mais alta, favorecia as condições de habitabilidade. É assim descrita a “habitabilidade” da casa pela “sensação do morador” no único quarto que não possuía janela – “escura, quente, úmida e muito quente” (Figuras 64-69).
Figura 63: Fachada da Casa Sonho em 2006. Fonte: EPAE, 2006.
Figura 64: No interior com a moradora e a equipe do EPAE fazendo o cadastro. Fonte: EPAE, 2006.
Figura 65 e Figura 66: Interior da Casa Sonho. Fonte: EPAE, 2006.
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Ao ser pergutanda o que mais gostava na casa, a moradora não soube dizer, mas identificava a “falta de quartos” como principal problema. O programa solicitado era “bater uma laje” para aumentar em dois quartos, ampliando, assim, a cozinha no térreo.
Considerações sobre a proposta de projeto do EPAE
A proposta de melhoria para a Casa Sonho foi solucionada articulando-a com a casa vizinha, a Casa Menina (Figura 70-71). Figura 67 e Figura 68: interior
da Casa Sonho e as paredes com infiltrações e umidade. Fonte: Epae, 2006.
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Figura 69: Proposta arquitetônica elaborada pelo EPAE, em 2006. Fonte: adaptado arquivo EPAE 2006.
Então iremos primerio apresentar a Casa Menina, e a seguir faremos as considerações da proposta que engloba as duas unidades.
Figura 70: Maquete representando a situação preexistente da Casa Sonho e da casa vizinha - Casa Menina (à direita) e da proposta do EPAE, à esquerda.
Fonte: EPAE.A, 2006
Em 2014...
Naquela mesma tarde de setembro, depois da conversa na Casa Frida, chego a Casa Sonho. A janela aberta com gradil para a “rua” me permite chamar a dona da casa. Ela abre a porta, me apresento e falo da breve conversa que tive com seu marido e de meu interesse em saber o que aconteceu na casa nestes oitos anos. Ela é solícita, me convida a entrar, “não repara a bagunça!”. Na sala está um dos filho, dos três que o casal tem, assistindo TV. Na época desse encontro estavam com 18, 20 e 21 anos, e afirma “todos estudam!”. A Dona Sonho é “do lar” e com o marido, mantém a pequena mercearia, conseguindo uma renda de dois salários mínimos. Pergunto sobre o processo de construção da casa, ela não sabe dizer pois quando foi morar no Costa azul o marido já tinha a casa, afirma “meu marido já morava na casa, viu tudo aquilo crescer”, e infelizmente, não voltei a conversar com ele para saber mais detalhes e de “tudo” que ele viu ali no Costa Azul.
Observo que a casa fora ampliada (Figura 72) e pergunto sobre este processo, diz: “Tínhamos apenas esse andar, onde havia o banheiro, cozinha, sala e um quarto, era tudo muito apertado, agora já está melhor”, aponta para a sala agora mais “ampla”, com cerca de 10m². Diz: “Nós fizemos mais um andar e dois quartos lá em cima!” que aconteceu em 2008, quando bateram a laje.
A casa ampliada em mais um pavimento tem agora o dobro do que tinha em 2006, de 19,50 m² para 39,00 m² de área construída. Assim ela descreve o processo de ampliação: “Fomos pra casa do vizinho e ficamos lá uma semana para bater a laje” e no processo da obra “perdemos alguns móveis”. Completa: “Todo mundo ajudou! Aqui todo mundo ajuda!”, e diz ter feito uma comida. Lembra que o material da obra teve que ser comprado fiado, e para ajudar economicamente vendia lanches. Das condições que se encontrava a casa com cinco pessoas vivendo em 19,50m²: “Não tinha condições, eram três crianças”, além das infiltrações e o péssimo conforto térmico constatado em 2006. Na sala (Figura 73), agora maior, tem- se um espaço de convívio com sofá e uma pequena mesa com Figura 71: Desenho; Linha do tempo da autoconstrução na Casa Frida.
cadeiras, onde era o único quarto da casa, e com uma pequena janela à direita da porta.
Também melhorou os revestimentos das paredes com pinturas e aparentemente sem infiltrações, o piso todo revestido em cerâmica em cor clara permite uma certa claridade na cozinha e na sala, que foi realizado em 2013. O problema é o banheiro que está no mesmo lugar que em 2006, sem ventilação e iluminação diretas e se abrindo para a cozinha, pois aproveita o espaço embaixo da escada. A cozinha (Figura 74-76), que já tem uma pequena báscula abrindo-se para a viela, poderia ser ampliada para uma melhor ventilação e iluminação. Figura 72: Atualização do cadastro Casa Sonho, em 2014.
Continuando a conversa, o que me chama a atenção ali no térreo é uma escada logo à esquerda da porta de entrada, pois não me parece íngreme com a da Casa Frida, pergunto quem a fez: “Foi o irmão de meu marido que é pedreiro”, mas ela salienta “nós pagamos a ele”. A escada com desenho em L tem corrimão e alguns degraus em leque, toda revestida em cerâmica (Figuras 77-79). Subimos a escada, que por sinal sinto ser bem melhor do que a da Casa Frida, senti conforto em subi-la e constato que o “irmão-pedreiro” era bom. A escada foi construída perto da porta de entrada, facilitando o fluxo de subida que acompanha o desenho do terreno que é “de esquina”, com
Figura 73: Cozinha Casa Sonho, 2014. Fonte: acervo da autora.
Figura 74: Cozinha Casa Sonho, 2014. Fonte: acervo da autora.
Figura 75: Sala Casa Sonho, 2014. Fonte: acervo da autora.
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degraus balanceados e com corrimão. Sinto falta apenas de aberturas para ventilação e iluminação nessa subida.
Chegamos a um pequeno espaço onde há uma cama (Figura 80), e Dona Sonho explica que um dos filhos dorme ali, e tem também um espaço livre, parece que pensado para que a escada continue para mais um andar, com direito a pilar de espera (Figura 82-83), e é o que ela afirma “ela foi feita pra isto”, referindo-se a mais uma laje. Na janela que se abre para a paisagem, pendurado tem-se a “área de serviço” da casa: um varal para a secagem de roupas (Figura 84-85). Figura 76, Figura 77 e Figura
78: Escada Casa Sonho, 2014. Fonte: acervo da autora.
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Dona Sonho abre a porta de seu quarto, pequeno e escuro. A pequena janela está fechada, ela a abre e vejo a cama de casal, um colchão onde um dos filhos dorme e um pequeno guarda-roupa. Na
Figura 79: Cama no hall da Casa Sonho. Fonte: acervo da autora.
Figura 80: Quarto Casa Sonho. Fonte: acervo da autora.
Figura 81: Pilar de espera Casa Sonho. Fonte: acervo da autora.
Figura 82: Pilar de espera Casa Sonho. Fonte: acervo da autora.
Figura 83: Janela para a paisagem com varal externo. Fonte: acervo da autora. Figura 84: Vê-se o varal na janela primeiro andar e a pequena báscula da cozinha no térreo. Fonte: acervo da autora.
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segunda porta, o quarto da filha que tem uma cama de solteiro e um guarda-roupa, com um pequeno espaço para abrir as portas (Figura 81). Noto a escuridão, que me faz pedir para acender a luz para tirar uma foto, pois não há janela ou qualquer abertura que possa iluminar e ventila-lo. Ali, as paredes do quarto estão no limite do terreno, e as casas vizinhas também possuem dois pavimentos até o limite do terreno: a Casa Frida e a Casa Menina. Como nas casas anteriores, a cobertura é com telhas de fibrocimento em conjunto com um pé direito baixo, um arranjo que não contribui para o conforto térmico. Houve melhorias de habitabiliadde na Casa Sonho, já que a área construída dobrou com a construção do segundo pavimento, passando para cerca de 39m². Agora, com dois quartos tem-se uma melhoria em termos de privacidade, mas ainda falta mais um quarto e a área de serviço.
Pergunto sobre o que ainda precisa melhorar, e ela afirma do desejo de ampliar em mais um pavimento, fazendo mais um quarto e um terraço com área de serviço, mas reclama da orientação por parte da equipe técnica do Programa Viver Melhor que ainda está lá: “O meu sonho é fazer mais um quarto para meu filho, e um terraço para secar as roupas, mas o pessoal da CONDER disse para esperar a assistência técnica”. Não sei se eles ainda estão esperando a assistência técnica, espero que não!
Atravessamentos da proposta da ATHIS
Eles buscam o “sonho” e há uma melhoria da habitabilidade com a verticalização da casa, com mais uma laje, e conseguem resolver com uma escada, não “ideal” conforme a norma existente, no entanto, sem a articulação com o vizinho como foi elaborado pela equipe do EPAE. Eles buscam ampliar a quantidade de quartos com áreas bem pequenas e que tragam a privacidade para os moradores, ao contrário da asssitência que propõe quartos com áreas variando de
9m² a 11m², mas desconsidera a necessidade da privacidade entre os três filhos, propondo apenas um quarto para os três. (Figura 86)
Figura 85: Processo de consolidação da volumetria da Casa Sonho. Fonte: elaborado pela autora, 2019.