CAPÍTULO 2 PERCURSO METODOLÓGICO
2.4 CENÁRIO DO ESTUDO
No Brasil, a atividade policial é matéria da Constituição Federal, embora o combate ao crime comum seja da competência dos estados-membros (Brasil, STF, 2018). A Polícia Militar é encarregada do patrulhamento ostensivo, a Polícia Civil é incumbida da investigação criminal, e a Polícia Científica realiza a perícia forense. Os peritos criminais e fotógrafos técnico-periciais são subordinados ao IC, e esse à Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC) que, por sua vez, está subordinada à Secretaria de Segurança Pública. As atividades são realizadas por equipes distintas pertencentes e distribuídas entre a Capital, a Grande São Paulo e o interior.
O estudo foi realizado com os peritos criminais e fotógrafos técnico-periciais pertencentes ao IC do município de São Paulo, especificamente da equipe do Núcleo de Perícias em Crimes contra a Pessoa (NPCCPessoa). O NPCCPessoa realiza perícias criminalísticas de ações lesivas ou letais contra a pessoa, o que envolve análise técnica no local do crime, análise de peças periciais e reconstituição (simulação do ato criminoso).
O local do crime é definido como a área onde tenha ocorrido um fato que assume a configuração de um delito e que, portanto, exige providências da polícia. O instrumento do crime é analisado tecnicamente, apreciando-se a natureza, o grau de culpa e a eficiência e potencialidade dolosa (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, 2018).
Como resultado da perícia, produz-se um laudo pericial que consiste na exposição minuciosa, circunstanciada, fundamentada e ordenada das apreciações e interpretações realizadas pelo perito, com pormenorizada enumeração e caracterização dos elementos materiais encontrados no local do fato, no instrumento do crime, na peça de exame e na pessoa física, viva ou morta. As requisições de perícias criminais e de pesquisas científicas relacionadas à Medicina Legal são feitas por autoridade policial (delegado), judiciária ou membro do Ministério Público.
O levantamento do local de crime com a descrição da dinâmica do crime são atividades executadas por peritos criminais que, por sua vez, elaboram laudos sobre ocorrências cuja infração penal tenha deixado algum vestígio que integre o inquérito
criminal. Os registros visuais são realizados pelo fotógrafo técnico-pericial que, por meio de imagens, capta todos os vestígios e dinâmica do crime para elucidar o laudo. Nesse estudo, escolheu-se um núcleo que realiza perícias em locais com vítimas humanas (mortas ou vivas), por natureza distintas e resultantes de uma ação exógena e lesiva (suicídio, homicídio, acidente, entre outros). Segundo CROCE e CROCE JÚNIOR (2009), mortes violentas são aquelas listadas no código de Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). O cenário de estudo foi além da demarcação da área física do estabelecimento administrativo do IC, já que, na maior parte do tempo, a equipe pericial do NPCCPessoa realiza suas atividades na rua, atendendo aos locais de crime requisitados no plantão.
Os principais alvos de morte violenta no Estado de São Paulo são pessoas de cor negra, moradores da periferia urbana da Região Metropolitana de São Paulo, bem como adolescentes e adultos jovens do sexo masculino (ADORNO, 2002). Essas observações são confirmadas em dados mais recentes publicados no Anuário da Violência (2017). Segundo CARDIA (1999), esses crimes ocorrem em contextos variados e resultam de diferentes formas de violência, como violência doméstica/familiar, conflitos interpessoais, criminalidade comum, crime organizado, atuação de grupos de extermínio ou outras formas de violações de direitos humanos.
A temporalidade dos homicídios dolosos no município de São Paulo segue padrões bem definidos. A maior concentração de homicídios ocorre à noite (18:01h às 24:00h), a menor frequência ocorre na madrugada (00:01h às 6:00h) e de manhã (6:01h às 12:00h), e uma retomada na intensidade de crimes é observada à tarde (12:01h às 18:00h) (ADORNO, 2008). Diante disso, inferimos que a demanda pericial na periferia de São Paulo tem pico no horário vespertino/noturno. As equipes periciais enfrentam sérias restrições geográficas de deslocamento e acesso, como a circulação em áreas comandadas por facções criminosas. Em algumas dessas áreas, nem mesmo a polícia militar tem acesso, o que torna fundamental um planejamento prévio do número de policiais necessários para adentrar o local de crime ou, até mesmo, a mobilização de forças táticas para dar suporte à equipe (CONSTANTINO, P. et al., 2013).
A exposição à violência é percebida como experiências de vitimização direta e indireta. A vitimização indireta refere-se à violência na qual a pessoa testemunha o ocorrido ou aos casos que envolvem parentes ou amigos próximos, dos quais apenas
ouviram falar. Os crimes violentos mais testemunhados são também aqueles que mais vitimaram. Estar mais ou menos exposto à violência não é um evento neutro na vida das pessoas. Essa característica descreve ainda diferenças de padrão de qualidade de vida e de novos riscos de vitimização (CARDIA, 1999).
Os participantes dessa pesquisa atuavam não apenas no âmbito administrativo (aqui nomeada “base” ou “sede”, conforme designação utilizada por eles) mas também em deslocamento pela cidade usando viaturas identificadas como “Polícia Técnico-Científica” para atendimento das ocorrências periciais (nesse caso nomeado “local do crime”). A atuação técnica pericial ocorre em diversos espaços incluindo via pública, domicílios, presídios, delegacias e hospitais.
Nesse cenário impregnado de significados é que se dá o trabalho da equipe do NPCCPessoa. Acredita-se que o fazer diário desses profissionais os aproximam de uma realidade violenta, “nua e crua”, em que o fim já está posto. Para alguns autores, esse cenário pode levar o trabalhador a antever sua própria morte e/ou a questionar sua existência para um fim que pode ser igual ao das vítimas periciadas. Porém, se os profissionais permanecem na “ativa”, acredita-se que eles dispõem de mecanismos que lhes possibilitem conviver e manter-se sadios e positivos, mesmo diante da dramaticidade diária da violência.