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THE CHALLENGES IN PSYCHOLOGY PROFESSIONALS’ FORMATION FOR ACTING IN THE SOCIAL-EDUCATIONAL SYSTEM

SCARAMUSSA, Claudia Schramm1 MACHADO, Bianca Zanchi2 SANTOS, Samara Silva31 Introdução: Atualmente, a discussão a respeito das violências e atos infracionais cometidos por adolescentes tem demonstrado ocupar crescente espaço nos veículos de comunicação e no cenário social. Nesse sentido, o ato infracional cometido por jovens é exposto sob o olhar de criminalização, fomentando os estigmas sociais de periculosidade atribuídos aos jovens em cumprimento de medida socioeducativa (MSE), além de reproduzir o discurso de que a MSE seria uma forma de não responsabilização dos adolescentes. O estudo de Zappe e Ramos realizado no município de Santa Maria-RS, aponta para os preconceitos existentes na sociedade que cercam os adolescentes autores de atos infracionais1. Contudo, o estudo sinaliza que apesar do que é perpetuado no ideário social, as trajetórias dos adolescentes são perpassadas por violências e negação de direitos básicos, sendo a MSE muitas vezes um reflexo de tal contexto. Dessa forma, evidencia-se que ao discutir o ato infracional cometido por adolescentes, é necessário buscar compreender os reflexos de uma infância permeada por diversas formas de violação que se perpetuam cotidianamente no período da adolescência2. Tendo em vista a complexidade das vivências dos adolescentes e seus contextos, O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo, promulgado no ano de 2012, preconiza uma atuação interdisciplinar por meio de redes de trabalho a partir do viés multiprofissional de atenção estruturando equipes multidisciplinares incumbidas de garantir acesso aos direitos básicos e a um desenvolvimento saudável. Nesse sentido, o Plano Nacional de Atendimento Socioeducativo busca promover uma articulação entre diferentes setores da sociedade, como o setor judiciário, governos, políticas de educação, saúde, assistência, profissionais que atuam com os adolescentes e seus familiares, contribuindo para a responsabilização de caráter educativo, a fim de restituir direitos, com objetivo para além da superação da trajetória infracional, mas promovendo também a inclusão social, educacional, cultural e profissional dos adolescentes em conflito com a lei. Dessa forma, cabe ressaltar que a psicologia constitui parte importante das equipes multidisciplinares. Contudo, a formação em Psicologia ainda está predominantemente voltada para atuação clínica tradicional, a partir de uma lógica de mercado que traduz-se na formação de profissionais autônomos3. Dessa maneira, os profissionais da Psicologia que adentram como força de trabalho na área da socioeducação vem encontrando desafios no que diz respeito a formação voltada para a reflexão das possibilidades de desenvolver suas atribuições de maneira interdisciplinar nessa recente política social. Objetivo: Objetiva-se com esse trabalho refletir a respeito dos desafios na formação dos psicólogos para atuar no Sistema Socioeducativo. Método: O presente trabalho constitui um recorte de uma pesquisa de mestrado intitulada “O Sistema Socioeducativo como Garantidor dos Direitos Humanos: A Visão do Profissional Psicólogo”, que buscou investigar a compreensão dos profissionais da psicologia que atuam nos serviços vinculados ao cumprimento de medida socioeducativa a respeito da garantia dos direitos humanos dos usuários ali inseridos. O projeto foi submetido na Plataforma Brasil para avaliação do Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Maria e teve a aprovação necessária, sob o protocolo CAEE n.97054618.9.1001.5346. A

1 Psicologia. Graduanda. Acadêmica de Psicologia. Universidade Federal de Santa Maria. E-mail: [email protected];

2Psicologia. Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria;

coleta de dados se deu no período de outubro e novembro de 2017. A pesquisa caracterizou-se como um estudo de cunho qualitativo-exploratório, nesse sentido, esse tipo de estudo viabiliza a visualização dos diferentes aspectos em que o fenômeno social está inserido, a partir dos significados, particularidades, valores e razões atribuídos ao fenômeno pelos participantes do estudo4. Os dados foram coletados a partir de entrevistas semiestruturadas audiogravadas e transcritas com seis profissionais da psicologia de quatro instituições que executam medidas socioeducativas no município de Santa Maria-RS. Posteriormente, os dados foram analisados conforme a análise de conteúdo de Bardin5. Resultados e Discussão: A partir da análise das entrevistas, foi possível constatar que todos os profissionais possuíam ao menos uma especialização em áreas tradicionais como clínica e avaliação psicológica. Além disso, dois participantes realizaram especializações na área da saúde. Apesar dos profissionais demonstrarem estar bem qualificados, chama-se atenção para o fato de nenhum dos profissionais ter investido em capacitações relacionadas à política socioeducativa e sim, para a área clínica, corroborando com a herança social da psicologia que está voltada para o atendimento clínico individualizado (identidade de profissional autônomo). Dessa forma, salienta-se que o Plano Nacional de Atendimento Socioeducativo prevê uma integralidade no atendimento ao adolescente em cumprimento de MSE, que deve ser garantido a partir da ação articulada com outras políticas públicas necessárias a rede de atendimento. Nesse sentido o CFP aponta que a parceria, articulação com outros programas e serviços é um dos aspectos do trabalho do psicólogo que trabalha com MSE6. Portanto, ainda que os participantes tenham apontado que a Psicologia constitui um campo que possui condições técnicas para o trabalho interdisciplinar, cabe problematizar o predomínio do modelo de atendimento no setting clínico individual nos cursos de graduação em psicologia, que não abrange satisfatoriamente as particularidades do trabalho multiprofissional preconizado pelo campo das políticas públicas. O atendimento desenvolvido pela Psicologia no Sistema Socioeducativo tem cunho institucional e visa ao acompanhamento (em suas diversas modalidades), das/os adolescentes e de suas famílias, devendo ser balizado pela Proteção Integral7. Fazer a leitura de tantas realidades complexas e distintas (pois são individuais e subjetivas) demanda do profissional uma gama de conhecimentos no campo do social, além do conhecimento acerca do seu campo de trabalho e das técnicas da Psicologia em si. E não menos importante é a necessidade de articular todos esses aspectos da melhor forma possível, visando garantir os direitos de cada jovem que ali se encontra. Isso significa articular conhecimentos teóricos psicológicos, contexto social, direitos, rede de atendimento e trabalho interdisciplinar, preceitos socioeducativos, princípios éticos e responsabilidade profissional; é complexo, mas indispensável. Nas entrevistas foi possível observar que a graduação em Psicologia deixou lacunas na formação dos profissionais por não contemplar disciplinas ou reflexões com finalidade de instrumentalizar os mesmos para a prática no campo da socioeducação. A partir disso, atentou-se para o fato de que todos os participantes já possuíam experiência prévia no campo das políticas públicas em outros setores como saúde, assistência pública e segurança e tais experiências foram apontadas pelos profissionais como um importante recurso para superar a lacuna deixada pela graduação. Nessa perspectiva, os profissionais têm aprendido formas de trabalhar com as demandas dos serviços conforme estas aparecem, o que demonstra ser arriscado dado o compromisso ético dos profissionais com a qualidade do serviço ofertado. Contudo, apesar das lacunas nos cursos de graduação apontadas anteriormente, as entrevistas apontaram para o fato que os profissionais desenvolvem suas atividades em consonância com os direitos dos adolescentes. Diante disso, a prática dos psicólogos no contexto da socioeducação demonstra estar sendo exercida com base na articulação com a rede de atendimento, incluindo também as famílias e comunidade, apontando para a dedicação e competência ao ampliar o acesso aos direitos básicos dos adolescentes, buscando os melhores resultados possíveis dentro do sistema socioeducativo. Conclusão: A partir desse recorte, conclui-se que ainda que as/os psicólogas/os tenham formações ainda voltadas ao desenvolvimento de profissionais autônomos para o trabalho clínico tradicionalmente conhecido da psicologia, vem-se construindo uma identidade de profissionais trabalhadores da política social. Ainda que as/os profissionais tenham demonstrado que não deixam de lado a identidade do psicólogo clínico, pois buscam especializações na área. O desenvolvimento

desta nova identidade profissional não vem custando pouco aos que se encontram na prática diária que faz a política socioeducativa funcionar, pois muitos são os desafios. Mas as práticas que vêm sendo implementadas, criadas e produzidas no cotidiano das/os psicólogas/os entrevistadas/os se mostram comprometidas, responsáveis e éticas. Pois são interdisciplinares, promotoras de direitos e defendem as condições necessárias para o desenvolvimento dos jovens inseridos no Sistema Socioeducativo. Entretanto, deve-se atentar para que os entraves da formação possam gradativamente diminuir, o que pode ser viabilizado não só com mudanças na formação acadêmica, mas com educação permanente para os profissionais atuantes e com o fomento das gestões neste aspecto.

Eixo temático: Saúde do Adolescente

Descritores: Políticas Públicas, Psicologia, Prática Profissional Referências:

1. Zappe, JG, Ramos, NV. Perfil de adolescentes privados de liberdade em Santa Maria/RS. Rev. Psicologia & Sociedade 2010 Mai [acesso em 12 de nov 2019]. Disponível em < https://www.redalyc.org/pdf/3093/309326457017.pdf>

2. Souza, ILPC. Formação Política como uma forma de enfrentamento à violência na Juventude. Rev. Psicologia Política 2014 Ago [acesso em 12 de nov 2019]. Disponível em: < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1519-549X2014000200010 >

3. Bardagi, MP, Bizarro, L, Andrade, AMJ. , Audibert, A & Lassance, MCP. Avaliação da formação e trajetória profissional na perspectiva de egressos de um curso de psicologia. Rev. Psicologia: ciência e profissão 2018 Jun [acesso em 12 nov 2019]. Disponível em: < http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932008000200007>

4. Minayo, M. C. S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes 1997. 5. Bardin, L. Análise de Conteúdo. Edição 70 Lisboa: 1977 Ed. rev., atual. e ampl 2011

6. Conselho Federal de Psicologia, CFP. Referências técnicas para atuação de psicólogos no âmbito das medidas socioeducativas em unidades de internação. Brasília: CFP.

7. Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, CRP-RJ. Livro da Primeira Conferência: O Trabalho da Psicologia na Socioeducação no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Conselho Regional de Psicologia 5ª Região 2019 Recuperado de: <http://www.crprj.org.br/site/wp- content/uploads/2019/07/miolo_livro.pdf>

PROPOSTA DE ACOMPANHAMENTO DO CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO

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