CAPÍTULO 5 – O ASPECTO CRIATIVO E O RELATIVISMO
5.1. A NALOGIA , RECURSIVIDADE E O ASPECTO FORMAL DO ASPECTO CRIATIVO
5.1.3. Chomsky, o aspecto criativo do uso da linguagem e a recursividade
Esta seção olha para a idéia de Chomsky de aspecto criativo como resultante de suas propostas de que a recursividade sintática é a característica formal que possibilita o que ele entende por capacidade gerativa da linguagem, base para a idéia de uma gramática gerativa, como a que vem propondo desde meados dos anos 1950.
Assim, a idéia de gerativismo, implícita na maneira como a gramática de uma língua proposta inicialmente por Chomsky como fundamentada em um sistema de regras recursivas capazes de gerar sentenças nunca antes proferidas, baseia-se, indiretamente, na noção de aspecto criativo da linguagem. No entanto, para a teoria gerativa desde suas primeiras formulações (cf. Chomsky, 1957 e 1965, por exemplo), a idéia de poder gerativo baseia-se em definições formais de funções recursivas que permitem que certas regras sintagmáticas livres-de-contexto, por exemplo, associem categorias e itens lexicais de modo a construir outras categorias. Uma gramática de
estrutura sintagmática elementar, como as de Syntactic Structures (1957), por exemplo, poderia ser escrita mais ou menos como se segue:
a. S -> SN SV b. SN -> DET N c. SN -> N d. SV -> V SN e. SN -> SN SP f. SP -> PREP SN
g. N -> menino, menina, bolo h. V -> vê, ama, come
i. PREP -> do, da j. DET -> o, a
Embora a gramática de estrutura sintagmática exemplificada acima seja trivial e muito diferente do que propõem as versões mais recentes das teorias gerativas (cf., por exemplo, as teorias de Regência e Ligação / Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1981) e o Programa Minimalista (Chomsky, 1995)), ela já serve para nos mostrar algumas características das tentativas de formalização de regras internalizadas de que os falantes disporiam para interpretar e produzir sentenças de acordo com a gramática de sua língua, que seria, por sua vez, o estágio final do desenvolvimento da Gramática Universal, geneticamente inscrita em todos os seres humanos normais. Isso se percebe, por exemplo, a partir da constatação de que o conjunto de regras sintagmáticas como as acima poderia ser aumentado bastante, para dar conta das muitas possibilidades de estruturas sintáticas disponíveis em português, e de que o conjunto de itens lexicais que compõem as regras de reescritura de (g) a (j) poderiam incluir todos os itens possíveis do léxico da língua. No entanto, mesmo com uma gramática de um fragmento quase ínfimo da língua como a esboçada acima, já é possível perceber que, a partir de recursos finitos (seis regras de estrutura sintagmática e quatro regras de elementos terminais que incluem um número limitado de itens lexicais), o número de possíveis sentenças (embora semanticamente pouco criativas e até mesmo implausíveis) é bastante grande, como percebemos nos exemplos de sentenças geráveis abaixo:
(1) O menino ama a menina.
(2) O menino ama a menina do bolo.
(3) O menino come o bolo da menina.
(4) O menino da menina come o bolo da menina do menino.
Desconsiderando as restrições que impeçam a geração de sentenças como “O menina come a bolo da menino”, temos a clara percepção de que certas regras são responsáveis pela possibilidade de recursividade, o que permite que, caso seja necessário, uma língua possa gerar categorias que apresentem a mesma categoria dentro de si, e assim por diante. Veríamos um exemplo simples disso, em uma sentença como
“O menino ama a menina do bolo do menino”, em que o SN objeto contém outros SNs (via regra (e), que permite a recursividade, ainda que de modo bastante primitivo), de forma que, seguindo as regras disponíveis, é possível ampliar o tamanho do SN supostamente indefinidamente.
Além disso, ao longo dos primeiros anos do desenvolvimento das idéias de Chomsky sobre a linguagem, o “Aspecto Criativo do Uso da Linguagem” (creative aspect of the language use, doravante CALU) foi considerado por Chomsky, seguindo Descartes (cf. Chomsky, 1972) como o terceiro componente da faculdade da linguagem humana, juntamente com o léxico e com a gramática (ou a sintaxe).
Além disso, mais recentemente Baker (2005) analisa o CALU chomskiano como uma capacidade inata, de caracterização computacional complexa e responsável por executar tarefas cognitivas abdutivas, como as que derivam conclusões não a partir da forma das premissas, mas a partir de seu conteúdo (na linha de Fodor, conforme discussão no texto de Baker).
A analogia proposta por Baker parece dar conta da complexidade envolvida na noção de aspecto criativo, especialmente no sentido em que ela não pode ser considerada simplesmente como uma característica formal: se pensarmos na linguagem em termos de uma comparação com a construção civil (reproduzo aqui a analogia de Baker), o léxico pode ser comparado aos tijolos, cimentos e materiais parecidos; a gramática/sintaxe pode ser comparada com os modelos (códigos, para Baker) de construção factíveis, de acordo com as possibilidades de engenharia, e, finalmente, o aspecto criativo seria comparado com os arquitetos e empreiteiros, que se utilizam da capacidade de criação sobre os modelos dados de maneira imprevisível e inovadora.
Sem o aspecto criativo, a linguagem seria previsível e fechada como os behavioristas gostariam que fosse: Skinner dizia poder prever as respostas lingüísticas a estímulos
pré-definidos como se pode prever o comportamento de animais irracionais guiados pelo instinto.
Outro ponto importante do texto de Baker diz respeito à discussão da caracterização do aspecto criativo elaborada por Chomsky (1972): o aspecto criativo caracteriza o uso lingüístico como (i) irrestrito (unbounded); (ii) livre de estímulos e (iii) apropriado a situações. Quanto ao primeiro ponto, o uso da linguagem é criativo no sentido em que produzimos e compreendemos qualquer sentença possível da língua, a partir dos elementos léxico e gramática. Isso não seria compartilhado por autômatos e animais, defendem Descartes e Chomsky (cf. discussão abaixo de Chomsky (1972));
sobre o segundo, não precisamos reagir a estímulos determinados com respostas específicas, e isso fica a partir da simples percepção de que as pessoas são propensas a se utilizar da linguagem de modos surpreendentemente inovadores, e não apenas a produzir sentenças pré-definidas como respostas a estímulos definidos (mais uma vez, como queria Skinner). Sobre o terceiro ponto, a linguagem humana é criativa nos dois sentidos anteriores, mas é apropriada à situação de modo que, caso não tenhamos algum tipo de afasia que desabilite esse componente, não respondemos de maneiras absolutamente imprevisíveis a situações específicas. Assim, ao mesmo tempo que reagimos de maneira apropriada (e Grice (1975) é um exemplo excelente de uma tentativa de sistematização dessa questão) aos contextos específicos, nossa ação lingüística não é totalmente determinada pelo contexto, o que gera resultados poderosos e imprevisíveis.
Baker (2005) também argumenta favoravelmente a classificar o aspecto criativo como inato, e a argumentação é interessante:
Eu portanto me atenho ao que poderia ser o mais simples nesse conjunto de idéias: a questão de se os meus pais são autômatos ou não. Certamente as pessoas maduras sabem que eles não são, e isso é bastante significativo sobre o modo como eles vivem – particularmente sobre como eles falam com os outros. Mas não falamos de uma maneira irrestrita e livre com coisas que consideramos ser autômatos, tais como bonecas e sistemas de menu de voz no telefone. Então, parte do CALU é saber com quem não usá-lo – a saber, aqueles que também têm a capacidade do CALU. Agora, ou a noção de que os meus pais são usuários do CALU e não autômatos é inata, ou é aprendida. Suponhamos que seja aprendida.
Como ela poderia ser aprendida? Que tipos de experiências a criança teria com outras pessoas que a convenceriam de que eles não são autômatos? Esses tipos de experiências estão disponíveis para a criança? Se não, e se as crianças regularmente adquirem essa crença, então nós temos um argumento de pobreza de estímulo que se aplica a pelo menos essa parte importante do CALU. E eu assumo que, se os argumentos de pobreza de estímulo se aplicam a isso, o componente
mais simples do CALU, então a fortiori eles provavelmente se aplicam também aos outros aspectos do CALU, mais complexos e misteriosos.181 (Baker, 2005: 8)
Passemos a um histórico da formulação do aspecto criativo na obra de Chomsky.
No Aspects of the theory of syntax, Chomsky diz que “dentro da teoria lingüística tradicional, foi claramente entendido que uma das qualidades que todas as línguas têm em comum é o seu aspecto “criativo” (Chomsky, 1965: 6). Nesse momento, Chomsky parece estar muito preocupado em defender que sua teoria é cartesiana, e ele avalia a distinção que Descartes e seus seguidores propuseram entre homem e animal com base principalmente na capacidade de criar novas instâncias de língua com o vocabulário e gramática pré-existentes. Assim, é no Lingüística Cartesiana (Chomsky, 1972, original de 1966) que Chomsky desenvolve a noção de aspecto criativo como algo fundamentalmente “humanizador”, desenvolvendo mais a fundo a proposta do livro de 1964, Current Issues in Linguistic Theory, no qual inicia a defesa da visão cartesiana de que o homem é mais que um atômato, possuidor da “verdadeira linguagem”, dotada do aspecto criativo que tornaria uma teoria lingüística que não o abordasse algo simplesmente de interesse marginal (Chomsky, 1964: 8).
O livro Lingüística Cartesiana inicia-se com um capítulo exatamente sobre essa questão, no qual Chomsky cita textualmente Descartes nos poucos momentos de sua obra em que fala sobre questões da linguagem. Segundo Descartes (apud Chomsky, 1972: 14):
é um fato muito notável que não há homens tão embotados e estúpidos, sem mesmo excluir os dementes, que não sejam capazes de arrumar várias palavras juntas, formando com elas uma proposição pela qual dão a entender seus pensamentos; enquanto, por outro lado, não há outro animal, por mais perfeito e afortunadamente construído que seja, que faça a mesma coisa.
181“I therefore retreat to what might be the simplest in this cluster of ideas: the question of whether my parents are automata or not. Surely mature people know that they are not, and it has great significance in how they live – in particular how they talk to others. We do not talk in a free, unbounded way to things that we believe are automata, such as dolls and voice-menu systems on the phone. So part of the CALU is knowing who to use it with – namely those that have the CALU capacity themselves. Now either the notion that my parents are CALU users, not automata, is innate, or it is learned. Suppose it is learned.
How could it be? What kind of experiences would the child have with other people that would convince him that they are not automata? Are those kind of experiences available to the child? If not, and if children do regularly acquire this belief, then we have a poverty of stimulus argument that applies to at least this important part of the CALU. And I assume that if poverty of stimulus arguments apply to this the simplest component of the CALU, then a fortiori they probably apply to the other, more complex and mysterious aspects of the CALU as well.”
Esse trecho citado de Descartes resume a argumentação encontrada na literatura a respeito do que constitui o que chamamos de língua/linguagem humana e que nos separa radicalmente dos animais ou das possíveis máquinas que produzem instâncias de linguagem ou traduzem de uma língua para outra. Os animais que “falam”, como os chimpanzés que são ensinados a falar (cf. Joseph, Love & Taylor, 2001) ou as abelhas que dançam em movimentos específicos para cada ato de comunicação (cf., por exemplo, Benveniste (1995)), não são capazes de organizar sua fala de modo a estruturar o pensamento ou “criar” como fazem os humanos. Assim, para Chomsky,
o homem tem uma faculdade, peculiar à espécie, um tipo único de organização intelectual, que não pode ser atribuído a órgãos periféricos ou relacionados à inteligência geral e se manifesta naquilo que podemos designar como “aspecto criador” do uso ordinário da língua, tendo a propriedade de ser ao mesmo tempo ilimitada em extensão e livre de estímulos. (Chomsky, 1972: 14)
Para Chomky, identificar em Descartes parte da origem da noção de aspecto criativo faz parte de uma argumentação filosófica intrincada que busca fundamentação epistemológica e histórica para parte de seu conjunto de postulados básicos para uma teoria da linguagem que182, durante os anos 50 e 60 – em que as primeiras versões da teoria formaram-se –, tentava se estabelecer em meio a teorias estruturalistas amplamente disseminadas, de orientação muitas vezes fortemente empirista183.
Chomsky diferencia-se radicalmente de Descartes em suas posições quanto à natureza da linguagem, e defende que, ao se considerar a Gramática Universal como parte da dotação genética do homem, a linguagem seja, portanto, eminentemente de natureza biológica. Descartes fala do aspecto criativo da linguagem, em linhas gerais, para refutar uma visão mecanicista radical e para propor a existência do espírito como entidade responsável pelas capacidades racionais humanas. Ou seja, Chomsky está longe de propor uma teoria epistemológica racionalista clássica, e a busca apenas na
182 Além disso, é claro, Chomsky constrói uma história monumental que visa legitimar certas afirmações e reafirmar suas posturas como pertencentes a uma longa tradição filosófica, que aqui identificamos com a tradição filosófica racionalista (cf. Lahud, 2004; Aarsleff, apud Otero (ed.), 1994). Curiosamente, e não apenas nesse livro, Chomsky se apropria, por exemplo, de citações de Humboldt para justificar a sua proposta de gramática gerativa baseada na questão da criatividade e da recursividade, reconstruindo Humboldt como um racionalista universalista, sem levar em conta o lado complexo e dialético da tensão que identificamos no pensamento de Humboldt no capítulo 2.
183 Para Bloomfield, para quem “As únicas generalizações úteis sobre a lingua(gem) são as indutivas.”
(Bloomfield, 1935: 20 apud Lyons, 1987: 47), a capacidade criativa não passa de capacidade para produzir novas formas a partir do mecanismo de analogia (apud Chomsky, 1972: 23). Bloomfield está em sintonia com Saussure nessa opinião, mas, como vimos na sub-seção anterior, Saussure admite algum grau de aspecto criativo nas criações analógicas.
medida em que suas teorias sobre linguagem e mente precisam pressupor um afastamento radical das posições mecanicistas/behavioristas que não dão conta de explicar, através de atividades repetitivas e experiências abundantes, como preenchemos nossa suposta tabula rasa com tanta informação a partir de estímulo tão escasso.
O próximo cartesiano que Chomsky cita é o filósofo Géraud de Cordemoy (1626-1684), que, em seu trabalho Discours physique de la parole (1668), antecipa grande parte da filosofia da linguagem contemporânea com idéias como a seguinte:
(...) toda a razão que temos para acreditar que há espíritos unidos aos corpos dos homens que nos falam é que nos dão muitas vezes pensamentos novos, que não tínhamos, ou nos obrigam a modificar os que tínhamos (...) (Chomsky, 1972: 19)
Além de apresentar-se defensor do aspecto criativo da linguagem, Cordemoy, com esse trecho, lembra-nos de grande parte das discussões contemporâneas sobre a questão da intersubjetividade e da língua como atividade constitutiva, ao postular que a criatividade decorre do fato de que poder dizer coisas novas e nunca antes ditas é parte fundamental da constituição do sujeito e do próprio discurso (cf., por exemplo, Tyler, 1978; Benveniste, 1995; Geraldi, 2000; Franchi, 2002, e discussão sobre a questão adiante).
Em seguida, Chomsky menciona o Ensaio de Herder como pertencente à tradição racionalista que reconstrói para si. Chomsky lê Herder da seguinte maneira (Chomsky, 1972: 25):
Sendo livre para refletir e contemplar, o homem é capaz de observar, comparar, distinguir propriedades essenciais, identificar e dar nomes. É nesse sentido que a linguagem (e a descoberta da linguagem) é natural no homem, que “o homem foi criado como ser falante”. De um lado, Herder observa que o homem não tem linguagem inata, o homem não fala por natureza. De outro lado, a linguagem, no seu modo de ver, é tão especificamente um produto da organização intelectual particular do homem, que é capaz de afirmar: “pudesse eu reunir todos os fios e mostrar o conjunto do tecido que se chama natureza humana, infalivelmente seria um tecido criado para a linguagem”.
Chomsky também alista Schlegel em sua linhagem de ancestrais intelectuais, para quem a linguagem é “a mais maravilhosa criação da faculdade poética humana”
(loc. cit., p. 27). Assim, Chomsky utiliza-se, na construção da sua história intelectual, de autores que claramente misturam a noção tradicional de criatividade com a que ele identifica como aspecto criativo da linguagem. A discussão de Schlegel diz respeito
muito mais ao fazer poético que constitui parte da capacidade criativa dos seres humanos que interessava aos românticos do que propriamente a uma história das noções que possam ajudar a corroborar as hipóteses inatistas/gerativistas. Contudo, isso não tira o interesse da escolha de Chomsky: a flutuação nas noções de aspecto criativo em Chomsky se dá também em grande parte por motivos de escolha de filiação teórica, mas não apaga as marcas sutis da idéia de Shelley retomada por Steiner de que a linguagem é perpétua canção órfica, capaz de criar, em última instância, a própria realidade.
Finalmente, a discussão de Chomsky sobre o aspecto criativo da linguagem chega na figura de Humboldt, que, como vimos anteriormente, estabelece uma série de conceitos fundamentais para a discussão sobre língua e aspecto criativo, como a distinção entre linguagem enquanto energeia (atividade/processo) em oposição a ergon (produto, ato). Assim, Humboldt interessa a Chomsky por defender que a língua é algo que está em processo, sendo, pois, “o trabalho do espírito, que se repete constantemente para tornar possível que o som articulado expresse o pensamento”. (Humboldt, apud Chomsky, 1972: 30). O aspecto criativo da linguagem como definido por Humboldt é formulado em termos que lembram muito os utilizados por Chomsky em suas obras, e é transcrito por Chomsky da seguinte forma: “[A língua] deve portanto fazer com meios finitos um uso infinito, e só consegue isso porque a força criadora das idéias e da linguagem é a mesma.”
Embora Chomsky liste Humboldt como influência importantíssima no desenvolvimento de suas idéias, há pelo menos uma ressalva que considero importante nas palavras do norte-americano (op. cit., p. 32):
[Para Humboldt], de modo mais geral, uma língua humana, como totalidade orgânica, interpõe-se entre o homem e “a natureza interna e externa que atua sobre ele”. Embora as línguas tenham propriedades universais, atribuíveis à mentalidade humana enquanto tal, cada língua oferece um “mundo de pensamento” e um ponto de vista de tipo único. Ao atribuir este papel na determinação dos processos mentais às línguas individuais, Humboldt separa-se radicalmente do quadro da lingüística cartesiana, evidentemente, e adota um ponto de vista que é mais tipicamente romântico.
Chomsky defende-se, dessa forma, de parte das acusações que viria a receber dos críticos de sua história monumental, ressalvando que a filiação de Humboldt ao quadro que ele identifica como cartesiano na história do pensamento sobre a linguagem é, no mínimo, controversa e complicada (cf. cap. 2). No entanto, Chomsky defende que a visão de Humboldt é “cartesiana” no sentido em que seus conceitos de língua como
processo e não como produto e língua primordialmente como meio de expressão do pensamento, ao invés de mero sistema funcional que possibilitaria a comunicação, permitem que ele seja “alistado” em seu exército intelectual. Voltaremos a discutir esse ponto adiante neste mesmo capítulo.
O saldo da discussão do aspecto criativo no Lingüística Cartesiana é consideravelmente positivo. Se, por um lado, Chomsky constrói a história intelectual de forma bastante enviesada, por outro, como vemos abaixo, abre caminho para a ligação direta entre o que chama de “novo relativismo dos românticos” e a noção de aspecto criativo como fundamental para o estudo da linguagem:
Sob o impacto do novo relativismo dos românticos, a concepção da linguagem como instrumento constitutivo do pensamento sofre significativa modificação; é explorada a noção de que a diferença de língua pode conduzir a diferenças tornando-os menos incomparáveis nos processos mentais. (Chomsky, 1972: 41)
Além disso, o saldo é positivo pela constatação importantíssima que citamos abaixo:
Em resumo, é a diversidade do comportamento humano, sua adequação às novas situações e a capacidade, que o homem possui, de inovar – sendo o aspecto criador do uso da linguagem que fornece a principal indicação disso – que leva Descartes a atribuir a posse do espírito aos outros homens, pois considera esta faculdade como situada além das limitações de qualquer mecanismo imaginável.
Assim, uma psicologia totalmente adequada exige que se postule um "princípio criador", ao lado do “princípio mecânico”, que basta para explicar todos os outros aspectos do mundo inanimado e animado e também uma significativa gama de ações e “paixões” humanas. (Chomsky, 1972: 16)
Nos anos seguintes, Chomsky tratou de aspecto criativo com alguma liberdade, ora tratando-o como um dos “mistérios” do estudo da linguagem no capítulo “Problems
Nos anos seguintes, Chomsky tratou de aspecto criativo com alguma liberdade, ora tratando-o como um dos “mistérios” do estudo da linguagem no capítulo “Problems