CAPÍTULO 1 - RELATIVISMOS: VISÃO GERAL
1.2. O RELATIVISMO LINGÜÍSTICO
1.2.3. Discussões preliminares
Mesmo fugindo da apresentação mais formal da proposta como feita acima, há também discussões importantes a serem relatadas acerca de uma visão geral do RL. Um
12“There are a variety of specific linguistic relativity proposals, but all share three key elements linked in two relations. They all claim that certain properties of a given language have consequences for patterns of thought about reality. The properties of language at issue are usually morphosyntactic (but may be phonological or pragmatic) and are taken to vary in important respects. The pattern of thought may have to do with immediate perception and attention, with personal and social-cultural systems of classification, inference, and memory, or with aesthetic judgment and creativity. The reality may be the world of everyday experience, of specialized contexts, or of ideational tradition. These three key elements are linked by two relations: Language embodies an interpretation of reality and language can influence thought about that reality. The interpretation arises from the selection of substantive aspects of experience and their formal arrangement in the verbal code. Such selection and arrangement is, of course, necessary for language, so the crucial emphasis here is that each language involves a particular interpretation, not a common, universal one. An influence on thought ensues when the particular language interpretation guides or supports cognitive activity and hence the beliefs and behaviors dependent on it.”
dos pontos importantes que podem ser levantados é que, ainda que a tese geral do RL seja, historicamente, assim como algumas das teses relativistas expostas acima, motivada por princípios românticos de igualdade, caridade, ausência de julgamentos de superioridade ou inferioridade de línguas afastadas das grandes metrópoles lingüístico-culturais ocidentais, mais especificamente européias, de certa forma, assim como as teses relativistas, o RL pode acabar seguindo o caminho exatamente oposto. Kramsch (1998: 12-3) argumenta que, uma vez que a tese do RL como formulada por Whorf relativizasse a capacidade de culturas muito diferentes até mesmo entenderem os resultados do avanço científico (já que ele dependia da língua em que fosse expresso ou formulado), a comunidade científica imediatamente rejeitou as formulações do RL.
Assim, segundo a autora, se um determinado grupo tiver que aprender a língua da ciência para poder ter alguma noção dos seus resultados, esse grupo é naturalmente incapaz de, com sua própria língua, formular de alguma maneira as proposições que a ciência gera nas línguas capazes de fazê-lo. Ora, isso é exatamente o contrário de uma hipótese caridosa e igualitária: é uma hipótese racista e preconceituosa (Kramsch, 1998:
13).
O argumento de Kramsch não é muito diferente do de Newton-Smith acima: se podemos traduzir de uma língua para outra, a incomensurabilidade dos sentidos ou dos conceitos é, pela própria possibilidade de tradução, relativizada. As hipóteses mais fortes do RL prevêem que as diferenças entre as línguas geram visões de mundo tão diferentes que, de certa forma, há certas coisas que só podem ser ditas em uma língua e não em outra. O exemplo de Whorf da ausência de tempo verbal na língua hopi (que será discutido mais profundamente no capítulo 3) serve, em sua argumentação, para demonstrar que o falante de inglês e o de hopi pensam de maneira muito diferente sobre o tempo e que, de certa maneira, a concepção newtoniana de tempo seria menos favorecida para um falante de hopi, enquanto que, para ele, os hopi seriam favorecidos por conseguirem pensar de maneira mais facilitada na concepção de tempo e espaço einsteiniana. No entanto, o argumento em favor da intraduzibilidade é aqui bastante fraco, já que todas as características radicalmente diferentes da língua hopi, por exemplo, são traduzidas para o inglês pelo próprio Whorf, de modo que fica claro que a própria possibilidade de parafrasear uma expressão ou palavra para outra língua relativiza a própria tese do relativismo: se podemos traduzir os verbos “sem tempo” dos hopi para o inglês ou para o português, as diferenças não são assim tão graves, e a
profundidade da diferença cognitiva causada por esse tipo de característica conseqüentemente não será tão grande, se houver13.
Para Kramsch, contudo, há algumas possibilidades nas teses ligadas ao RL que não são tão radicalmente negativas quanto as formulações radicais de Whorf. A traduzibilidade como argumento contra o RL não é tão forte, pois, segundo ela, se falantes de línguas diferentes não se entendem, não é apenas por causa das dificuldades de tradução. Eles também carecem de uma mesma maneira de ver e interpretar os
Formas extremas do relativismo e determinismo lingüístico teriam implicações sérias, não somente para o estudo da humanidade de si mesmo, mas também para seu estudo da natureza, porque elas fechariam a porta para o conhecimento objetivo de uma vez por todas. Se as propriedades do ambiente são conhecidas somente através dos mecanismos infinitamente variáveis e seletivos da linguagem, o que percebemos e experienciamos é, de certo modo, arbitrário, e não é necessariamente relacionado com o que está “lá fora”, mas somente com como a nossa comunidade lingüística particular concordou em falar sobre o que está “lá fora”. Nossa exploração do universo seria restrita às características codificadas pela nossa língua, e o trânsito do conhecimento entre as culturas seria limitado, se não impossível.15
13 Há aqui, talvez, um excesso de confiança na noção de traduzibilitade e de equivalência completa entre os sentidos dos textos traduzidos. Naturalmente, percebe-se em Whorf que, ainda que ele traduza os elementos considerados incomensuráveis da língua hopi (remeto o leitor mais uma vez ao capítulo 3), a tradução é bastante complicada e muitas vezes executada através de paráfrases complexas e estranhas.
14 Também aqui é necessária uma intervenção: naturalmente, é muito difícil definir claramente o que sejam línguas “muito” diferentes umas das outras. Penso em graus de diferenças que se percebam nas classificações genéticas das línguas ou na ausência de contato mútuo freqüente entre falantes de grupos lingüísticos diferentes. Por exemplo, são menos diferentes entre si línguas que façam parte do mesmo ramo dentro de uma mesma família, e a diferença entre elas aumenta conforme diminui o contato regular entre os povos falantes, assim como conforme aumenta a distância dentro da árvore da mesma família lingüística, ou, aumenta ainda mais se duas línguas fazem parte de famílias lingüísticas diferentes e seus falantes têm pouco contato. Ainda assim, trata-se de uma noção um tanto intuitiva.
15 “Extreme forms of linguistic relativity and determinism would have serious implications, not only for mankind’s study of himself, but for his study of nature as well, because it would close the door to objective knowledge once and for all. If the properties of the environment are known only through the infinitely varying selective and organizing mechanisms of language, what we perceive and experience is
Mais uma vez, a preocupação é claramente a de afastar as formas radicais do RL em favor da possibilidade da ciência, do conhecimento, da compreensibilidade universal. O universalismo filosófico, que podemos encontrar na base de tantas tentativas de criação e preservação de línguas universais (cf. Eco, 2001; Robins, 1981;
Steiner, 2005; Kristeva, 1974; Mounin, 1970), das línguas clássicas da ciência, religião, filosofia e erudição (como o grego antigo, o latim e o hebraico), dos caracteres de John Wilkins à lógica simbólica, passando pelo esperanto e pelas linguagens formais dos computadores, sempre tentou sobrepor as barreiras das línguas particulares para o “bem maior” da universalização do conhecimento. O positivismo lógico na ciência dos séculos da modernidade pós-renascentista foi responsável, em grande parte, pela possibilidade de uma ciência universal, exata, objetiva, supostamente neutra e isenta de preconceitos individuais ou de prejuízos da linguagem ordinária. Tudo isso seria demolido por uma versão forte e determinista do RL.
Pela própria existência alegada pelos universalistas de universais científicos, filosóficos, lingüísticos, as teses fortes do RL são descartadas e combatidas fortemente.
Assim, para os seguidores de hipóteses relativistas quanto à língua e à cultura, restam as versões testáveis e razoáveis do RL.
Passemos à análise da forma da hipótese do relativismo lingüístico talvez mais citada, discutida e testada. Trata-se da versão da hipótese do RL que discute a influência das diferenças entre os léxicos das línguas nos grupos que as utilizam.