CAPÍTULO 5 – O ASPECTO CRIATIVO E O RELATIVISMO
5.1. A NALOGIA , RECURSIVIDADE E O ASPECTO FORMAL DO ASPECTO CRIATIVO
5.1.2. Saussure e a analogia como fator criativo
Ferdinand de Saussure foi um dos autores da lingüística moderna que discutiram a analogia como fator de possibilidade criativa para a linguagem através da vontade individual do falante179. Se, por um lado, Varrão está preocupado apenas em explicar o uso sistêmico da língua e, por outro, como veremos adiante, Chomsky busca na recursividade uma propriedade formal que dê conta da aparente infinitude de possibilidades de geração de sentenças nunca antes produzidas, Saussure encontra na analogia um dos motores da mudança lingüística motivada pelo nível lingüístico individual, ou seja, o da fala, em oposição à mudança que se dá no nível social, ou seja, o da língua.
No Curso de Lingüística Geral, publicado pelos seus estudantes em 1916 (e citado aqui na 26ª edição, de 2004), Saussure propõe a famosa segmentação da faculdade da linguagem em língua (langue), conjunto de fatos sociais e externos convencionais que permitem que o falante, através de sua fala individual (parole), compreenda e se faça compreender. Saussure, versado na lingüística do século XIX, assume a posição cientificizante de tomar como objeto do estudo da lingüística apenas a língua, que pode ser observada, e separa o estudo dos estados a-históricos da língua (lingüística sincrônica) do que vê a língua ao longo da passagem do tempo (lingüística diacrônica).
No entanto, a velha tensão encontrada em Humboldt e seus contemporâneos está presente claramente na obra de Saussure. Por exemplo, para ele, “a cada instante, a linguagem implica ao mesmo tempo um sistema estabelecido e uma evolução: a cada instante, ela é uma instituição atual e um produto do passado.” (Saussure, 2004: 16)
Para além dessa distinção inicial entre língua e fala, para entendermos a proposta de analogia como possibilitadora da criação individual da fala na língua como um todo, é preciso entender a teoria semiológica de Saussure. Sua postulação de que o signo é uma unidade que contém ao mesmo tempo o conceito (significado) e a imagem acústica (significante) tem uma decorrência importante: aquilo que Saussure chama de caráter imotivado do signo, que ficará famoso com a formulação “arbitrariedade do signo”.
Mesmo Saussure, contudo, no texto editado pelos seus discípulos, adverte para o fato de que o signo ser “arbitrário” nesse contexto não quer dizer que ele seja modificável pela simples vontade individual do falante comum, e sim que não há necessariamente
179 Outros são Bloomfield e Jespersen, por exemplo.
nenhuma motivação natural para a relação que une o significante ao significado (como queria a personagem de Crátilo no diálogo epônimo de Platão).
É importante notar que a teoria do signo de Saussure também precisa ser complementada pela discussão sobre duas características simultâneas: sua imutabilidade e sua mutabilidade (Saussure, 2004: 88ss.). Se, por um lado, o fato de que a língua é constituída de acordos sociais bem estabelecidos, de forma que os signos são transferidos a cada geração, além do fato importante de que a língua precisa de uma quantidade muito grande de signos para funcionar adequadamente são motivos importantes para que eles sejam considerados imutáveis, haverá, por outro lado, motivos para que eles sejam considerados mutáveis: o tempo, em especial, responsável pela manutenção do signo, é naturalmente responsável pela alteração inevitável que se verá atuar nele. Ainda que a matéria velha persista em sua maior parte, haverá possibilidade do “deslocamento da relação entre significado e significante” (Saussure, 2004: 89). É a partir desse ponto que Saussure precisa definir o que poderá causar alterações na língua.
Curiosamente, Saussure descreve vários mecanismos possibilitadores de mudança, mas toma sempre o cuidado necessário para esclarecer o nível em que cada mudança pode ocorrer: as mudanças no nível da fala não são importantes, a não ser que passem a fazer parte da fala de um grupo de pessoas grande o suficiente para gerar algum reflexo na língua. Em um ponto da argumentação, ao fazer uma de suas inúmeras comparações entre língua e o jogo de xadrez (loc. cit., p. 104), Saussure argumenta da seguinte maneira: assim como no xadrez, estados sucessivos do jogo não se influenciam mutuamente, e é possível analisar cada estado, tanto da língua quanto de um jogo em movimento, como único, e entender as relações das peças entre si apenas naquele contexto. Porém, tendo sido feito um movimento (que, na comparação, é análogo a uma instância de mudança), todo o sistema sofre alguma conseqüência, que pode ser de pouca, média ou grande monta. Nesse ponto, Saussure afirma que
Existe apenas um ponto em que a comparação falha: o jogador de xadrez tem a intenção de executar o deslocamento e de exercer uma ação sobre o sistema, enquanto a língua não premedita nada; é espontânea e fortuitamente que suas peças se deslocam – ou melhor, se modificam; (...) (Saussure, 2004: 105)
Portanto, será mister para Saussure definir as mudanças lingüísticas como elementos tão imotivados quanto possível, para evitar que a análise coloque ênfase do
processo diacrônico na vontade individual dos falantes isolados, o que o deixaria na situação ruim de ter que explicar todas as leis fonéticas (tidas como absolutas e universais não apenas por ele, mas também por vários dos antecessores neogramáticos e mesmo por alguns dos lingüistas comparativistas anteriores) em termos de motivação, propensão ou aptidão de um grupo social para certas mudanças. Isso constituiria uma espécie de prisão determinista análoga à dos relativistas radicais estudados nos capítulos anteriores, mas cujo sentido de influência causal se inverteria: o povo, a raça ou o grupo seriam dotados de características que inevitavelmente gerariam mudanças de um ou de outro tipo. Isso não deixou de ser proposto, por exemplo, por aqueles que consideram que as línguas dos trópicos são mais coloridas e ensolaradas na sua profusão de sílabas CV com vogais abertas alegres, contra as línguas de regiões temperadas setentrionais, com suas muitas consoantes e encontros consonantais obscuros e frios180. Assim, a proposta de Saussure é a do cientista que propõe a análise neutra e imparcial dos fenômenos sincrônicos separados dos diacrônicos, estabelecendo claramente os planos de atuação do lingüista nos dois domínios.
A posição de Saussure sobre o papel do indivíduo na mudança lingüística se altera sutilmente quando começa a lidar com a questão da analogia. Num primeiro momento, a diacronia é ligada fortemente à fala:
Uma vez de posse desse duplo princípio de classificação, pode-se acrescentar que tudo quanto seja diacrônico na língua, não o é senão pela fala. É na fala que se acha o germe de todas as modificações: cada uma delas é lançada, a princípio, por um certo número de indivíduos, antes de entrar em uso. O alemão moderno diz:
ich war, wir waren, enquanto o antigo alemão, do século XVI, conjugava: ich was, wir waren (o inglês diz ainda: I was, we were). Como se efetuou essa substituição de was por war? Algumas pessoas, influenciadas por waren, criaram war por analogia; era um fato da fala; esta forma, freqüentemente repetida e aceita pela comunidade, tornou-se um fato de língua. Mas todas as inovações da fala não têm o mesmo êxito e, enquanto permanecem individuais, não há porque levá-las em conta, pois o que estudamos é a língua; elas só entram em nosso campo de observação no momento em que a coletividade as acolhe. (Saussure, 2004: 115, grifo do original)
No entanto, quando discute especificamente a questão da diacronia, Saussure identifica as mudanças fonéticas como as responsáveis pela mudança lingüística mais substancial e implacável, enquanto que a analogia, ainda que tratada como causa
180 Saussure mesmo dá um contra-exemplo para esse tipo de proposta, com o finlandês que, ainda que falado por um povo vizinho dos povos nórdicos cujas línguas apresentam a característica frieza e crueza proverbiais, é cheia de sílabas CV com vogais abertas e “harmoniosas”.
principal de mudança (outras causas de mudança, como a chamada etimologia popular ou a aglutinação, são muito menos importantes), é considerada ora produtora de mudança efetiva, ora como produtora de mudanças menores e menos perceptíveis.
No capítulo dedicado à analogia Saussure analisa primeiramente um exemplo do latim que se parece bastante com os encontrados em Varrão: a forma de nominativo singular honos foi por um tempo a forma que não sofreu mudança no paradigma nominal de radical terminado em –s, sujeito à mudança fonética chamada rotacismo, ou a mudança do –s– intervocálico em –r–. Com a passagem do tempo, a aplicação da analogia gerou honor, pois a forma acusativa honorem era análoga a formas como oratorem, de nominativo orator. Assim, de acordo com a proposta já de Varrão, a série oratorem:orator::honorem:x resulta em honor no lugar de x, anteriormente ocupado por honos.
Pela própria descrição do processo analógico de Saussure, decorre daí a conclusão que os procedimentos analógicos não são mudanças propriamente: a forma deduzida do padrão analógico coexiste com a forma anterior, e uma das duas cai em desuso:
Enquanto a mudança fonética nada introduz de novo sem antes anular o que precedeu (honorem substitui honosem), a forma analógica não acarreta necessariamente o desaparecimento daquela a que vem duplicar. Honor e honos coexistiram durante certo tempo e era possível usar uma pela outra. (Saussure, 2004: 190)
Aqui começamos a compreender a argumentação de Saussure: a analogia não produz mudança, e sim criação. A analogia é o mecanismo através do qual o indivíduo, no nível imediato da fala, é capaz de introduzir novidades na língua, o nível social da faculdade da linguagem de Saussure: “a criação, que lhe constitui o fim, só pode pertencer, de começo, à fala; ela é obra ocasional de uma pessoa isolada.” (loc. cit., p.
192). A conclusão é fundamental para a argumentação deste capítulo:
A analogia nos ensina, portanto, uma vez mais, a separar a língua da fala; ela nos mostra a segunda como dependente da primeira e nos faz tocar com o dedo o jogo do mecanismo lingüístico (...). Toda criação deve ser precedida de uma comparação inconsciente dos materiais depositados no tesouro da língua, onde as formas geradoras se alinham de acordo com suas relações sintagmáticas e associativas. (ibidem)
Aqui, a tensão dialética que explorarei na seção seguinte entre usuário e língua, entre prisão e canção órfica, começa a tomar forma: a criação só se dá com base no material já existente da língua, de forma que o indivíduo consegue expandir os limites de sua consciência lingüística de forma a agir sobre ela e produzir algum tipo de alteração no material pré-existente que pode vir a ser aceito pelos outros usuários, tornando-se a norma posterior. Essa tensão também se dá no sentido em que Saussure considera a analogia como procedimento criador conservador, já que opera sobre material necessariamente existente. Além disso,
A língua retém somente uma parte mínima das criações da fala; mas as que duram são bastante numerosas para que se possa ver, de uma época a outra, a soma das formas novas dar ao vocabulário e à gramática uma fisionomia inteiramente diversa. (Saussure, 2004: 197)
Assim, a analogia exerce ação sobre a língua. Por outro lado, mais uma vez Saussure parece não querer dar ênfase demasiada para o processo criativo analógico, tanto quando considera o procedimento analógico como conservador, quanto quando afirma que “as inovações da analogia são mais aparentes que reais. A língua é um traje coberto de remendos feitos de seu próprio tecido.” (loc. cit., p. 200)