CAPÍTULO 2 - A HISTÓRIA DO RELATIVISMO LINGÜÍSTICO ATÉ O
2.2. O DEBATE ENTRE EMPIRISTAS E RACIONALISTAS
23 Naturalmente, muito está sendo suprimido da história do relativismo como um todo. O escopo desta tese não permitiria uma abordagem que incluísse a retórica romana de Cícero e Quintiliano, nem as discussões medievais de gramática universal, modista ou até mesmo das propostas de Port-Royal. Remeto os leitores interessados a discussões interessantes sobre a gramática de Port-Royal em Harris & Taylor (1989) e Arnauld & Lancelot (2001), sobre os gramáticos especulativos medievais em Bursill-Hall (1971, 1972), em Beccari (2007), e sobre uma visão mais profunda sobre o relativismo em geral em Hollis &
Lukes (1982) e Krausz (1989).
Nesta seção, analisarei brevemente os conceitos de empirismo e racionalismo nos sentidos relevantes para a discussão desta tese. É certo que um trabalho mais específico sobre o tema deveria contemplar mais profunda e competentemente os tópicos aqui abordados, mas acredito que, por razões do escopo do trabalho, seja suficiente tratar desses temas de forma introdutória, remetendo o leitor a alguma literatura específica sobre essas questões.
Os termos “empirismo” e “racionalismo” referem-se mais comumente a correntes filosóficas surgidas no século XVI a partir do problema do conhecimento, fulcrais para autores como Descartes, Locke, Leibniz, Hume, entre outros. No entanto, os termos também serão usados para fazer referência a essas duas escolas de maneira mais ampla, visando defender a tese de que a oposição empirismo – racionalismo segue o curso dos séculos como subjacente a diversas abordagens também opostas, ao menos na história da lingüística. Falamos assim de uma lingüística empirista e de uma lingüística racionalista, emprestando os termos do debate seiscentista e setecentista para entender certas dualidades no tratamento da linguagem que permanecem até hoje.
Segundo o filósofo Michel Ayers (apud Garber & Ayers, 1998: 1003), “a concepção de conhecimento como um ato cognitivo infalível era uma manifestação distintamente seiscentista e conseqüência de uma nova obsessão com a dúvida e sua resolução”. A questão da dúvida e da resolução, então, levou os filósofos do período a uma “suposta” nova problemática: a da origem do conhecimento. Daí as duas escolas filosóficas vistas, grosso modo, como opostas: o empirismo, que buscava o fundamento do conhecimento no “conteúdo puro da experiência sensorial” e o racionalismo, que
“buscava remédio para a dúvida em sistemas quase-geométricos construídos sobre axiomas supostamente inatos, evidentes para o self, independentes do mundo” (loc. cit.).
É evidente que todo o pensamento e as querelas dos séculos XVII e XVIII de pensadores do calibre de Descartes, Locke e Leibniz não se resumem a uma explicação assim apressada. No entanto, embora nos interessem os desdobramentos mais específicos dos sistemas filosóficos desses autores (especialmente para entender a teorização sobre a linguagem em Condillac), esse ponto de partida já é suficiente para uma discussão geral que possa estabelecer uma conexão com as ciências da linguagem.
Ayers traça um histórico da posição racionalista que identifica em Platão e Aristóteles uma oposição antiga a teorias do conhecimento que confiassem apenas na memória e percepção.
Em Platão, uma “epistemologia triangular” separa a mente humana dos universais transcendentais e das coisas sensíveis particulares. As coisas particulares são como que meras instâncias dessas coisas ideais, modelares, e os sentidos nos proporcionam a relação com as coisas sensíveis apenas na medida em que preparam nossa mente para apreender esses universais.
Para Ayers, essa teoria foi incorporada pelos escolásticos Aristotélicos. No entanto, no que diz respeito às escolas de pensamento da Antigüidade, pode-se dizer, de maneira um tanto generalizante, que Aristóteles, os estóicos e os epicuristas eram precursores do empirismo, pois se opunham à idéia de Platão de que os sentidos atrapalham a alma em seu contato com a realidade eterna dos universais ideais.
Embora Descartes tivesse desenvolvido as teses fundamentais do racionalismo a partir de Mersenne e, em última instância, a partir de Platão e de Santo Agostinho, as idéias racionalistas do francês compartilhavam um fundo comum juntamente com as de racionalistas importantes como Malebranche, Spinoza e Leibniz. Esse fundo comum, correndo o risco de neglicenciar detalhes importantes e cruciais que separam os sistemas de pensamento desses autores, pode ser descrito com as seguintes palavras de Ayers (loc. cit., p. 1018), como “uma concepção dos princípios da ciência como realização do intelecto através de seu acesso, direto ou indireto, parcial ou completo, às essências como sendo concebidas por Deus.”
Assim, pode-se perceber que o que une os pensadores do período sob um mesmo nome de escola filosófica é um conjunto fundamental de teses sobre a natureza do conhecimento. Ao propor que o conhecimento deriva desse “acesso” às essências, os racionalistas opunham-se à tese contrária de que o conhecimento deriva do acesso direto aos dados sensoriais ou da experiência. Utilizarei para fins da nossa discussão o termo racionalismo de maneira bastante larga e não-específica, querendo manter a idéia de que a ciência deriva do acesso ao intelecto em si, de modo que as noções inatas são a base a partir da qual o conhecimento é possível. Nas teorias lingüísticas, isso vai se refletir em pensamentos de base fortemente universalista e dedutivista, como as posições contemporâneas universalistas e cognitivistas de Chomsky, Pinker, Fodor, entre outros.
Por sua vez, o empirismo do século XVII, herdeiro da tradição helenística epicurista e estóica, busca eliminar as “verdades eternas do racionalismo” (loc. cit., p.
1024). A idéia fundamental compartilhada pela maioria dos filósofos chamados de empiristas no século XVII, como Hobbes, Locke e Hume, é a de um anti-dogmatismo que, basicamente, postula que o conhecimento das coisas só existe através da mediação
dos nossos sentidos, e que não há, portanto, idéias universais inatas. De certo modo, o pensamento empirista enxerga a mente como uma tabula rasa, uma folha em branco, na qual se escrevem as instâncias do conhecimento através da experiência (para um desenvolvimento interessante do debate empirismo versus racionalismo na ciência contemporânea, cf. Pinker, 2004, que propõe um combate às posições da tabula rasa em favor de uma nova abordagem da noção de natureza humana).
2.2.1. Empirismo e racionalismo no pensamento sobre a linguagem
Na base da discussão empirismo-racionalismo na forma em que é relevante para a nossa tese está a distinção entre indutivismo e dedutivismo. Ou seja, se a história do pensamento sobre a linguagem sofre alguma influência das questões filosóficas ligadas à natureza do conhecimento, é porque as teorias sobre a natureza e o uso da linguagem vão sendo desenvolvidas ao longo dos séculos com base em questões que são fundamentais na filosofia ocidental. Assim, a revolução do século XVII se dá em termos de uma reação aos modos antigos e medievais de alcançar o conhecimento: se a nova ciência é resultado do empirismo radical das ciências naturais, que vai culminar nas visões mais radicais do behaviorismo no século XX, por exemplo, é natural que as discussões sobre a linguagem se dêem lado a lado com as discussões que são feitas sobre a mente, sobre o conhecimento, sobre a ciência.
Dessa forma, uma vez que a ciência natural indutivista aparece como uma alternativa poderosa e sedutora ao modo especulativo e metafísico de se chegar ao conhecimento praticado, por exemplo, pelos filósofos da Antigüidade ou pelos medievais, o aumento da importância das línguas vernáculas, o expansionismo e colonialismo e o ambiente intelectual borbulhante dos séculos posteriores ao Renascimento vão favorecer olhares indutivistas para a linguagem que culminam no surgimento de uma abordagem histórico-comparativa no século XIX, quando a lingüística finalmente clama para si o status de ciência. A virada do século XX ainda mantém a abordagem indutivista de fundo, e mesmo com a revolução estruturalista, as generalizações sobre as línguas ainda são baseadas na coleta e análise da maior quantidade de dados possível. A lingüística é, portanto, uma ciência empírica por excelência desde que se vê como ciência.
No entanto, Chomsky propõe, em meados dos anos 50, uma teoria fortemente dedutivista: a gramática gerativa. A pesquisa sobre a gramática universal será, portanto, de fundo racionalista. Sua lingüística se inscreve na tradição cartesiana (Chomsky, 1972), e seu universalismo decorre naturalmente da idéia de que a gramática universal é a teoria do estado inicial do “órgão da linguagem” que deve ser, portanto, igual para todos os seres humanos, uma vez que é transmitida geneticamente e é altamente especializada para se desenvolver e se transformar no estado final da língua do indivíduo.
Assim, as abordagens empirista e racionalista são como que concorrentes que se alternam de modo pendular para estabelecer o fundamento filosófico das abordagens freqüentemente concorrentes na lingüística. A idéia, nesta seção e no restante da tese, será mostrar que, em certa medida, as abordagens relativistas são dependentes de abordagens empiristas e as abordagens universalistas, por sua vez, dependem do racionalismo clássico.