CAPÍTULO 2 - A HISTÓRIA DO RELATIVISMO LINGÜÍSTICO ATÉ O
3.2. E DWARD S APIR (1884-1939)
3.2.1. A hipótese de Whorf merece o nome de Sapir?
Landar (1966) discute especificamente a atribuição do nome de Sapir à hipótese de Whorf (ele se pergunta, aliás, se o termo “hipótese” não seria melhor substituído por
“metáfora de base arquetípica”; Landar, 1966: 217). A mesma discussão feita acima é usada como base argumentativa para Landar, que procura atribuir a Whorf uma leitura equivocada de Sapir e à tradição posterior uma ligação excessivamente apressada entre os dois quanto à visão da relação causal entre língua e cultura/pensamento64. Landar
64 Para Joseph, Love & Taylor (2001: 16), também, a associação do nome de Sapir ao da hipótese de Whorf é “desafortunada”, já que, para Sapir, um fato essencial sobre a linguagem, a capacidade que ela tem de moldar culturas, é contrabalanceada pelo seu papel complexo de produtor e produto de personalidade e conformação psicológica individual. Rollins (1972: 572) também critica a associação direta entre Sapir e Whorf na chamada “hipótese”. Para ele, a visão geral de Sapir mudou muito ao longo do tempo e, mais fundamentalmente, Sapir compartilhava da visão de Boas de que o que falta nas línguas pode ser preenchido por seus sistemas criativos.
chama de “triste fato da história” que os ensinamentos de Sapir não tenham sido compreendidos por Whorf. Em um dos freqüentes e repetidos ataques que Whorf costuma receber (veremos adiante como Pinker usa uma argumentação parecida), Landar (loc. cit., p. 222) defende que a formação acadêmica e os interesses de Whorf o impediam de compreender adequadamente o ponto de vista de Sapir (esta discussão será feita na seção seguinte).
A explicação de Landar para a associação direta entre Sapir e Whorf no contexto do estabelecimento da hipótese clássica do RL do século XX é mais ou menos como se segue: Sapir é “transferido” para os trabalhos de Whorf através da “transdução ou transferência da linguagem de Sapir para dentro da descrição do sistema de Whorf”65. Afinal, continua, “as palavras que um homem usa são coloridas pelo contexto”66 (Landar, 1966: 222). A explicação parece nebulosa. No entanto, ela é seguida de um fato importante: um texto posterior de Sapir, uma conferência chamada “The Status of Linguistics as a Science”, publicada em 1929 no periódico Language, apresenta formulações muito mais relativistas, dentre elas um trecho clássico que foi utilizado por Whorf como epígrafe em um dos seus artigos mais importantes para o estabelecimento da sua versão da hipótese do RL (Whorf, 1956: 134). A citação deve ser apresentada em sua totalidade:
Os seres humanos não vivem no mundo objetivo sozinhos, nem sozinhos no mundo da atividade social como entendida comumente, mas estão deveras à mercê da língua particular que se tornou o meio de expressão de sua sociedade. É certamente uma ilusão imaginar que alguém se ajusta à realidade essencialmente sem o uso da língua e que a língua é meramente um meio incidental de resolver problemas simples de comunicação e de reflexão. O cerne da questão é que o
“mundo real” é, em grande medida, construído sobre os hábitos lingüísticos do grupo. Não há duas línguas que sejam suficientemente similares para serem consideradas como representantes da mesma realidade social. Os mundos em que as sociedades diferentes vivem são mundos distintos, não meramente o mesmo mundo com rótulos diferentes grudados a ele67. (Sapir, 1929: 209)
65 “transduction or transfer of Sapir’s language into a description of Whorf’s system”.
66 “the words a man uses take color from context”.
67 “Human beings do not live in the objective world alone, nor alone in the world of social activity as ordinarily understood, but are very much at the mercy of the particular language which has become the medium of expression for their society. It is quite an illusion to imagine that one adjusts to reality essentially without the use of language and that language is merely an incidental means of solving specific problems of communication or reflection. The fact of the matter is that the 'real world' is to a large extent unconsciously built up on the language habits of the group. No two languages are ever sufficiently similar to be considered as representing the same social reality. The worlds in which different societies live are distinct worlds, not merely the same world with different labels attached.”
Apesar do tom fortemente relativista, a passagem continua a não misturar os elementos linguagem e cultura, defendendo um relativismo lingüístico ligado ao modo de conceber a realidade exterior, que não será a mesma posição que Whorf adotará.
Uma análise mais detida desta palestra de Sapir poderá iluminar alguns pontos nessa complexa relação de tensão entre relativismo e universalismo encontrada em Sapir.
A primeira observação importante a respeito da motivação do trecho anterior é que o artigo em questão é uma espécie de tentativa de elevar a lingüística a um status importante dentre as outras ciências humanas. No caso específico do estudo das culturas, segundo Sapir, é através da língua que esse estudo pode se tornar científico.
Um estudo antropológico sobre uma cultura primitiva sem o estudo aprofundado da língua falada por essa cultura é como um estudo de história sem o acesso às fontes. O
“simbolismo lingüístico” guia o estudioso através dos meandros da cultura: “em um certo sentido, a rede de padrões culturais de uma civilização é indexada na língua que expressa essa civilização”68 (loc. cit., grifo meu). A aparente mudança de perspectiva de Sapir tem agora um tom de propaganda que pretende, principalmente, legitimar os estudos da linguagem não no que já tinham conseguido de importante (e a lingüística indo-européia do século XIX é citada como modelo), mas no que poderia vir a fazer pela ciência como um todo.
A partir daqui, uma “teoria” do RL de Sapir pode ser esboçada: a linguagem é um produto social (cf. já Sapir, 1954[1921]), portanto, as palavras, elementos formados socialmente, são formulações específicas de grupos sociais distintos que levam o conteúdo de sua significação socialmente dependente aos sistemas de pensamento destes grupos. Para Sapir,
Mesmo atos simples de percepção estão muito mais à mercê dos padrões sociais chamados palavras do que nós podemos suspeitar. Se alguém desenhar uma dúzia de linhas, por exemplo, de diferentes formas, as perceberá como divisíveis em categorias como “retas”, “tortas”, “curvadas”, “em ziguezague” por causa da sugestividade dos próprios termos lingüísticos. Nós vemos, ouvimos e de outra forma experienciamos em grande medida do modo como o fazemos porque os hábitos lingüísticos de nossa comunidade predispõem certas escolhas de interpretação69. (Sapir, 1929: 210)
68 “in a sense, the network of cultural patterns of a civilization is indexed in the language which expresses that civilization”.
69 “Even comparatively simple acts of perception are very much more at the mercy of the social patterns called words than we might suppose. If one draws some dozen lines, for instance, of different shapes, one perceives them as divisible into such categories as 'straight', 'crooked', 'curved', 'zigzag' because of the
Pretendo apresentar as pesquisas relativistas experimentais contemporâneas no capítulo seguinte, mas já é importante apresentar essa formulação relativista de Sapir como muito mais próxima das versões plausíveis e testáveis do relativismo do que as de Whorf. Há em Sapir uma agudeza de observação motivada por questões mais objetivas que parece estar ausente em Whorf e seus textos mais inflamados e retóricos. A relação entre a língua e a cultura não é a de interdependência causal forte determinista, mas, antes, “podemos pensar na língua como o guia simbólico da cultura70” (loc. cit.).
Uma formulação alternativa do RL de Sapir se encontra em uma passagem de um texto de 1931 citado por Joseph, Love & Taylor:
A linguagem… não apenas se refere à experiência amplamente adquirida sem o seu auxílio mas na verdade define a experiência para nós por meio de sua completude formal e por causa de nossa projeção inconsciente de duas expectativas implícitas no campo da experiência... Categorias tais como número, gênero, caso, tempo... não são descobertas na experiência como impostas sobre ela por causa do controle tirânico que a forma lingüística tem sobre a nossa orientação no mundo.71 (Sapir, 1931 apud Joseph, Love & Taylor, 2001: 10)
No entanto, um dos pontos mais importantes deste texto de Sapir, também tratado de modo bastante superficial, é a relação dos filósofos com a linguagem. O texto faz um estudo dos modos como se interrelacionam lingüística e antropologia, psicologia, biologia, física, mas é no ponto dedicado à filosofia que Sapir nos apresenta uma discussão de bastante impacto que, infelizmente, não foi desenvolvida com mais vagar. Trata-se, antes de tudo, de um reconhecimento de como a filosofia já na década de 1920 se preocupava fundamentalmente com problemas de linguagem (é reconhecidamente uma abordagem do final do século XIX e do século XX o movimento da filosofia que concentra seus esforços em problemas da linguagem, a filosofia analítica, que tem entre seus mais importantes representantes nomes como os de Gottlob Frege (1848-1925), Bertrand Russell (1872-1970) e Ludwig Wittgenstein (1889-1951)).
classificatory suggestiveness of the linguistic terms themselves. We see and hear and otherwise experience very largely as we do because the language habits of our community predispose certain choices of interpretation.”
70 “we may think of language as the symbolic guide to culture”.
71 “Language... not only refers to experience largely acquired without its help but actually defines experience for us by reason of its formal completeness and because of our unconscious projection of its implicit expectations into the field of experience… Such categories as number, gender, case, tense… are not so much discovered in experience as imposed upon it because of the tyrannical hold that linguistic form has upon our orientation in the world.”
A crítica de Sapir ao modo tradicional de identificar categorias gramaticais a elementos metafísicos é moderna e atualizada, já que Sapir procura aconselhar os filósofos para que tomem cuidado com os prejuízos72 de sua própria língua; ele o faz na esteira dos lógicos e filósofos analíticos que buscavam uma linguagem independente de certas características da língua natural tais como ambigüidades, indeterminação/indefinitude etc., como o fizeram tanto os três citados acima, quanto outros proponentes de teorias lingüísticas formais de base lógica. Assim, Sapir já em 1929 colocava o lingüista no papel de auxiliar no processo de libertar os filósofos e lógicos das amarras da língua natural, conforme podemos ver com a passagem abaixo:
O filósofo precisa entender sobre a linguagem ao menos para proteger-se contra seus próprios hábitos lingüísticos, e, portanto, não é surpreendente que a filosofia, ao tentar livrar a lógica dos impedimentos da gramática e entender o conhecimento e o significado do simbolismo, seja compelida a fazer uma crítica preliminar do próprio processo lingüístico. Os lingüistas deveriam estar em uma posição excelente para auxiliar no processo de tornar claras para nós mesmos as implicações de nossos termos e procedimentos lingüísticos. De todos os estudantes do comportamento humano, o lingüista deveria, pela própria natureza do seu assunto, ser o mais relativista no sentimento, e o que menos fosse tomado pelas formas de sua própria fala73. (Sapir, 1929: 212, grifo meu)
Mais uma vez Sapir adverte o lingüista incauto para que ele não se deixe enredar pelas prisões de sua própria língua: o lingüista deve ser, sim, afirma, o mais relativista de todos os cientistas do comportamento humano, mas não para propor o determinismo lingüístico da relação ingênua entre categorias gramaticais e categorias do pensamento, ao contrário, para livrar a ciência do comportamento humano dos preconceitos de visões irrefletidas e ingênuas sobre o próprio processo lingüístico.
Joseph, Love & Taylor (2001) identificam neste mesmo ponto do texto de 1929 de Sapir uma das saídas para o dilema apresentado pelo texto de 1921, colocado da seguinte maneira:
72 Apesar de soar como cognato mal traduzido, “prejuízo” neste sentido se aproxima menos da tradução de “prejudice” do inglês e mais da idéia de algo que se perde, como no antônimo de “lucro” em português.
73 “The philosopher needs to understand language if only to protect himself against his own language habits, and so it is not surprising that philosophy, in attempting to free logic from the trammels of grammar and to understand knowledge and the meaning of symbolism, is compelled to make a preliminary critique of the linguistic process itself. Linguists should be in an excellent position to assist in the process of making clear to ourselves the implications of our terms and linguistic procedures. Of all students of human behavior, the linguist should by the very nature of his subject matter be the most relativist in feeling, the least taken in by the forms of his own speech.”
Os sentidos romântico e antropológico de “cultura” são responsáveis pela tensão no Language de Sapir entre afirmações tais como, por um lado, ‘a fala é... uma função “cultural”’ (Sapir, 1921: 210) e ‘a língua e as nossas sendas mentais estão inseparavelmente interligadas; são, em um certo sentido, uma e a mesma coisa’
(Sapir, 1921: 232) e, por outro lado, ‘E eu não posso acreditar que a cultura e a linguagem sejam em algum sentido verdadeiro relacionados causalmente’ (Sapir, 1921: 233) e ‘faremos bem em considerar as derivas da língua e da cultura como sendo processos não-comparáveis e não-relacionados’ (Sapir, 1921: 234).74 (Joseph, Love & Taylor, 2001: 8)
Para os autores, é exatamente a nova posição de Sapir sobre a língua como algo que estabelece “problemas” filosóficos na sua relação com o pensamento que ajuda a livrá-lo da tensão resultante do dilema exposto acima, e, em especial, a livrá-lo das implicações românticas de um relativismo de tradição de Humboldt e de Herder.
Um dos pontos mais importantes do trabalho de Joseph, Love & Taylor é que, ao longo da tradição dos estudos sobre os autores e propostas relativistas quanto à linguagem, pensamento e cultura, muito pouco se discutiu sobre o seguinte: se a língua que falamos molda o nosso modo de pensar, o que dizer do fato de que “língua”, de maneira geral, é um termo que abrange uma série de formulações teóricas de diversas naturezas, tais como um símbolo político, um conjunto de palavras em um dicionário, o conjunto de dialetos e idioletos falados por um certo grupo social, e não, ao contrário, uma entidade única e uniforme (cf. Joseph, Love & Taylor, 2001: 14)? A crítica que neste ponto os autores fazem a Sapir pode ser facilmente expandida para abarcar todas as formulações mais ingênuas de hipóteses de RL: sem uma definição precisa de
“língua”, não há nem mesmo como começar a investigar a sério a relação desta com o pensamento do grupo que a fala75.
O saldo que se pode aduzir da discussão que apresento sobre Sapir é positivo:
embora não tenha empreendido esforços específicos no sentido de formular uma hipótese relativista da influência da linguagem no pensamento e na cultura, acabou por iniciar a tradição explorada por Whorf, ainda que seu papel e seu próprio nome na formulação famosa de Whorf sejam mais facilmente entendidos como uma homenagem que se reverteu em força e visibilidade para o discípulo Whorf. No entanto, as tensões
74 “The anthropological and romantic senses of ‘culture’ are responsible for the tension in Sapir’s Language between statements such as, on the one hand, ‘speech is … a “cultural” function’ (Sapir, 1921:
210) and ‘Language and our thought-grooves are inextricably interwoven, are, in a sense, one and the same’ (Sapir, 1921: 232) and, on the other, ‘Nor can I believe that culture and language are in any true sense causally related’ (Sapir, 1921: 233) and ‘we shall do well to hold the drifts of language and of culture to be non-comparable and unrelated processes (Sapir, 1921: 234).”
75 Naturalmente, a definição de “pensamento” também seria urgente nesse caso, bem como a separação clara entre “língua” como manifestação individual de “linguagem”, a capacidade lingüística abstrata.
estabelecidas entre a relação de influência causal língua-pensamento por um lado e a independência relativa entre língua, raça e cultura, por outro, além do papel preponderante da língua na formação individual da personalidade e da alteridade colocam Sapir no patamar de Humboldt quanto à sua visão complexa das tensões inerentes ao processo lingüístico, com a diferença de que Sapir buscou conscientemente se afastar da tradição romântica que acabava por permitir julgamentos valorativos sobre culturas mais ou menos primitivas, o que a nova antropologia e etnografia em um mundo revirado como o da primeira metade do século XX não poderiam aceitar.