Nossa compreensão científica do tempo deu um grande passo à frente na virada do século XX. Antes disso, a física clássica newtoniana nos ensinava que o tempo tinha sempre um valor absoluto. Os matemáticos inseriam esse valor em suas equações sem pestanejar até que as revelações teóricas de Einstein foram publicadas em 1905. Suas teorias da relatividade especial e, mais tarde, da relatividade geral representaram uma mudança dramática na nossa relação com o tempo. Einstein afirmou que o tempo e o espaço não são duas coisas separadas, mas que eles se combinam para criar uma estrutura tetradimensional que chamou de espaço-tempo.
Einstein explicou também que a força da gravidade na realidade desacelera o tempo. Então, se você fosse um astronauta numa longa viagem interestelar e a sua espaçonave passasse perto de um buraco negro (onde a força gravitacional é enorme), o tempo desaceleraria de forma significativa. Quando você voltasse para a Terra, vários anos teriam se passado para vocês, mas seu cônjuge e seus amigos já estariam muito velhos. Nós podemos observar esse efeito de uma maneira bem menos evidente aqui mesmo na Terra. Se morasse no último andar de Burj Khalifa, em Dubai, a torre mais alta do mundo, o tempo passaria um pouco mais depressa para você, a 828 metros de altura, do que se você estivesse morando no térreo, só porque a gravidade afeta cada pessoa de forma diferente.
Embora uma variação como essa seja pequena demais para o corpo humano detectar, ela é mensurável com a tecnologia de hoje.
A coisa fica ainda mais bizarra. A matemática indica que, no espaço-tempo, passado, presente e futuro fazem parte de uma estrutura tetradimensional integrada em que todo o espaço e todo o tempo existem permanentemente.
Imagine o espaço-tempo como sendo um pão de forma, onde cada fatia representa tudo o que está acontecendo em qualquer lugar no universo num momento específico. Nós, humanos, podemos nos mover em diferentes direções no espaço, mas experimentamos a dimensão do tempo apenas fatia a fatia enquanto nos movemos nele. Se tivéssemos a capacidade de perceber o tempo como percebemos o espaço, seríamos capazes de saltar para trás e para frente no tempo, como se estivéssemos entrando e saindo de um trem em qualquer estação que quiséssemos. Você entra no trem em 2017 e vai visitar o período jurássico − não que eu recomende isso − que está lá para ser apreciado naquele filme épico da vida real chamado espaço-tempo. Cara, essas coisas ainda me dão dor de cabeça, mesmo depois de tantos anos de estudo.
Isso parece difícil de acreditar? Deve mesmo parecer. Porque é difícil de acreditar. Mas a matemática fala claramente. E se o tempo é realmente assim estranho e exótico, então por que nós achamos que o conhecemos tão instintivamente? O pão de forma espaço-tempo não se parece nada com o tempo que conhecemos no dia a dia, esse que nos deixa tão estressados. De fato, o tempo fica ainda mais estranho e desconhecido à medida que o estudamos mais profundamente.
A razão de estarmos geralmente limitados à nossa fatia particular de espaço-tempo se deve a um fenômeno da física chamado de “a flecha do espaço-tempo”. Esse é o motivo pelo qual nós temos a liberdade de nos mover para qualquer lugar nas três dimensões do espaço, mas de só podermos existir na fatia “agora” do espaço-tempo. Esse é um conceito complicado. Vai ser mais fácil de entender se passarmos de pães de forma para trens.
Imagine que o universo inteiro está enfiado dentro de um trem: cada galáxia, estrela e planeta, e cada grão de areia e ser vivo. Esse trem parte para uma viagem, não de uma cidade para outra, mas para uma viagem através do tempo.
Como passageiro desse trem, você pode se mover para onde quiser, mas não pode mudar nem a direção nem a velocidade do trem, que está limitado a um só trilho que é a flecha do tempo. Você vai nessa viagem sem nenhum controle sobre sua posição ou orientação, saltando de uma fatia de “agora” para a próxima ao longo da dimensão tempo.
O tempo não está se movendo; é você que está se movendo através do tempo.
Então nós estamos sempre posicionados para experimentar a fatia corrente de agora, mas mesmo isso é relativo. Segundo Einstein, a velocidade na qual você se move afeta a sua experiência de tempo. Na sua viagem de volta à Terra, no papel daquele astronauta que mencionei antes, você estaria se movendo em velocidades astronômicas que o levariam a cortar o pão de forma do
espaço-tempo num determinado ângulo. Em consequência disso, teria uma percepção muito diferente de “agora” do que sua esposa em casa, na Terra. Como o resto de nós, ela iria experimentar uma fatia de tempo que incluí acontecimentos em diferentes partes do mundo, todos eles ocorrendo simultaneamente. Ela poderia estar dando comida ao seu filho enquanto assiste a um noticiário na tevê mostrando imagens da guerra na Síria, e enquanto ouve um vizinho comemorar na sala ao lado o fato do New England Patriots ter vencido seu quinto Super Bowl. Esses fatos estão acontecendo simultaneamente conforme percebidos aqui na Terra dentro da sua fatia de tempo. Mas, viajando em velocidade astronômica, o astronauta, você, veria diferentes pontos no espaço em tempos muito diferentes.
À medida que a velocidade distorce o espaço-tempo, a percepção dos pontos mais próximos chegam até ele mais depressa do que os pontos mais distantes no caminho que está seguindo, então acaba fatiando o pão de forma de forma angular. O resultado disso é que a fatia de tempo dele pode incluir a destruição do Muro de Berlim em 1989, a morte da mãe dele de câncer em 2016 nos Estados Unidos e a descoberta da cura do câncer dez anos mais tarde no Japão!
Todos esses acontecimentos vão parecer como se estivessem ocorrendo ao mesmo tempo porque estão ocorrendo num “lugar” diferente na sua fatia de espaço-tempo. Nossa, minha cabeça está doendo de novo.
O motivo pelo qual eu estou falando sobre os complexos aspectos científicos do tempo é porque quanto mais você souber a respeito do tempo, mais você vai entender que, na realidade, ele não se parece nada com o que nós pensamos dele. O tempo como nós geralmente o vemos é uma ilusão que tem muito pouco a ver com o que ele é realmente ou como se comporta. O tempo que nós pensamos conhecer não existe (como você viu no experimento da cápsula).
Nada sobre o modo como experimentamos individualmente o tempo é absoluto.
O tempo muda para todo mundo.
Como o tempo muda e se modifica de pessoa para pessoa e de uma situação para outra, não se pode deixar de concluir que ele não é real. O tempo fracassa completamente no teste da permanência. O tempo é uma ilusão porque, e isso é muito interessante:
O tempo não passa no teste do tempo!