• Nenhum resultado encontrado

A imagem que vemos do mundo está sempre incompleta porque o cérebro omite partes da verdade para se concentrar no que ele considera prioridade. O que percebemos passa por um filtro, deixando-nos um pequeno fragmento da verdade.

O mundo nos enche de informações a cada segundo de cada dia. Por meio dos sentidos, podemos observar cada variável. A temperatura do ambiente, a claridade da luz, os sons de fundo, o movimento de uma mosca, as palavras de um amigo e milhões de outros estímulos. A maior parte dessas informações não é relevante para cada decisão que precisamos tomar a cada instante. E o poder do cérebro, embora supere em muito o do maior supercomputador já inventado, ainda é limitado. Como resultado, o cérebro otimiza seus recursos cuidadosamente filtrando detalhes que são irrelevantes para a situação em questão. Isso permite que ele se concentre dos dados essenciais que parecem mais críticos à decisão que precisa tomar.

Quando você tenta atravessar a rua, sua visão disponibiliza informações sobre os carros que se aproximam, sua velocidade e direção. O cérebro calcula a distância que é preciso percorrer. Com conhecimento instintivo de trigonometria e dinâmica, ele avalia a existência de um ponto de colisão. O cérebro instrui os olhos a se concentrarem e procurarem por semáforos ou placas de trânsito e aguça a audição para que detecte buzinas de motoristas tentando alertá-lo. Ele coordena seus movimentos musculares para que você olhe para a esquerda e para a direita como precaução extra para garantir que não ocorram surpresas – então você decide seguir em frente.

Fazemos tudo isso numa fração de segundo. Mas se você tentasse programar essa funcionalidade num robô, logo perceberia o quanto é difícil alcançá-la.

Evitar obstáculos exige um cálculo espacial muito complexo aliado a uma

operação avançada de coordenação muscular. Isso exige muito poder de processamento. E, como qualquer erro, por menor que seja, pode colocar a vida em risco, o cérebro leva essa tarefa muito a sério e dedica a ela toda a sua atenção. Então o que ele faz? Filtra.

Enquanto atravessa a rua, você não presta atenção aos aromas que o rodeiam.

Ouve buzinas e sirenes, mas silencia quase todos os outros sons irrelevantes, como o canto dos pássaros na árvore da esquina e o choro de um bebê atrás de você. Se os carros se aproximam a uma velocidade alta o suficiente para atrair toda a sua atenção, até mesmo uma mulher bonita de saia curta ou o Brad Pitt atravessando na sua direção passarão despercebidos. Sim, o filtro é eficaz a esse ponto.

Depois de ler o que está escrito neste quadro, talvez você perceba que o

o cérebro humano costuma não informá-lo de que o

o artigo “o” se repetiu algumas vezes e foi filtrado

em todas elas.

Daniel Simons e Christopher Chabris projetaram o Teste de Atenção Seletiva para demonstrar a eficácia desse tipo de filtro. Eles pediram aos participantes que assistissem a um vídeo curto de duas equipes com camisetas brancas ou pretas passando uma bola de basquete. Os participantes deviam contar o número de passes feitos pela equipe branca, o que não parece uma tarefa muito complicada. O cérebro humano, no entanto, leva esse tipo de tarefa muito a sério, e se concentra mesmo. Faça o teste antes de seguir com a leitura. Procure por ele no YouTube (selective awareness test).

A maioria dos observadores conta o número certo de passes, mas, quando perguntados sobre o gorila, mais da metade interroga: “Que gorila?”9

Experimentamos esse tipo de filtro quando entramos numa sala de cinema. No início, notamos os lugares vazios, as pessoas, o cheiro da pipoca e a luz irritante da placa que indica a saída. Quando o filme começa a nos atrair, filtramos todas as outras coisas e dedicamos toda a nossa concentração a ele. Ficamos alheios ao entorno e, se o filme for bom o suficiente, não percebemos nem a passagem do tempo.

Os filtros são usados para reduzir reações de dor ou emoção quando

enfrentamos uma situação que ultrapassa nossa capacidade de superação. A dor extrema é filtrada quando quebramos um osso, por exemplo, para que o cérebro possa se concentrar em procurar ajuda. No caso da perda de um ente querido, o primeiro estágio do processo de luto é a famosa negação, que é, por si só, um mecanismo usado pelo cérebro para lidar com o estresse filtrando o acontecimento e desconsiderando a perda como se ela não tivesse acontecido.

Quando os filtros são levados ao extremo, a capacidade de concentração passa a atrapalhar. Às vezes ficamos obcecados com uma coisa que nos deixa infelizes, e filtramos quaisquer sinais positivos que poderiam mudar nosso estado de espírito. Quando fazemos isso, absorvemos cada vez mais sinais que corroboram o filtro e confirmam os motivos pelos quais nos sentimos infelizes. Ao filtrarmos a verdade, as variáveis da Fórmula da Felicidade são distorcidas. Sofremos, não porque a vida não nos dá exatamente o que esperávamos, mas porque não percebemos o que ela nos deu de fato.

Se fizer a conta e perceber o quanto é filtrado, você ficará chocado com o resultado. Qualquer que seja o momento considerado, a quantidade de fatores filtrados é infinitamente maior do que a quantidade de fatores absorvidos. Faça o teste. Largue o livro por um instante e olhe em volta. Observe a magnitude dos detalhes complexos que passaram despercebidos – foram filtrados – enquanto você se concentrava nas páginas deste livro. Conte o número de objetos que passa a perceber, as cores, os cheiros e os sons omitidos enquanto seus filtros estavam ativos. Agora calcule rapidamente o quanto da verdade isso representa e você perceberá que, por causa dos filtros:

A história que o cérebro nos conta está sempre incompleta.