3.3 De que cidade se trata? Cidade nas literaturas
3.3.1 Cidade como texto
Na descrição da Tamara feita por Marco Polo para Kublai, percebe-se a dimensão textual da cidade. Para Marco Polo, o seu olhar percorria as ruas da Tamara como se fossem percorrendo as páginas escritas. Em Rolnik (2004, p. 18), enfatiza a atribuição de novos sentidos ou usos a certos lugares da cidade como também uma forma de sua leitura. Por exemplo, para a autora, “quando os cortiçados transformam o palacete em maloca estão, ao mesmo tempo, ocupando e conferindo um novo significado para um território, estão escrevendo um novo texto. É como se a cidade fosse um imenso alfabeto, com o qual”, montamos, desmontamos e remontamos as palavras ou frases.
Muitas vezes, este desmonte e remonte das palavras não se configura como um processo pacifico, pelo contrário, é conflituoso. Em geral, ele não é bem visto, já que é entendido sempre como uma deterioração da cidade. Como constatou-se no trecho da entrevista do Sr. AMPA5 (64 anos, informação verbal46), ao responder à pergunta sobre as mudanças que ocorreram em Belém, enquanto morador, fala com nostalgia, critica a ocupação da rua João Alfredo pelos camelôs que, para ele, deterioraram a função daquela rua de ser uma “passarela” na qual desfilava as moças bonitas e ser um espaço de paquera.
[...] entrou tanto camelô na João Alfredo, era uma avenida bonita que a gente passeava no sábado, uma passarela pra mulheres bonitas que passeavam para ser vistas. Hoje dia não, todo tomado e ninguém não entra mais [...] não era assim, aquele aí, a avenida João Alfredo era, era uma passarela lá no comércio, as pessoas passeavam, rapazes passavam, moças passavam, se olhavam, entendeu? [...] aí não tem mais condição, está cheia de barraco, entendeu?
Assim, o processo de valorização e desvalorização da cidade, ao longo da história, a fez “como conjunto de formas físicas, económicas, culturales, espirituales” (AMENDOLA, 2000, p. 35). Conjunto que nos possibilita, dizer com Mumford (2004, p. 39) que,
[...] a cidade se revelou não simplesmente um meio de expressar em termos concretos a ampliação do poder sagrado e secular, mas, de um modo que passou muito além de qualquer invenção consciente, ampliou também todas as dimensões da vida. Começando por ser uma representação do cosmo, um meio de trazer o céu à terra, a cidade passou a ser um símbolo do possível.
Símbolo do possível que, acreditamos, a sua dimensão textual permite, uma vez que, enquanto texto, ela pode ser desmontada e remontada, de acordo com o contexto espaciotemporal do seu autor e seu leitor. Autor e leitor que, em permanência trocam de lugar.
Enquanto texto, a cidade se configura realmente como obra coletiva já que o texto, como anunciado acima, é uma obra de coautoria. Neste sentido, Gadamer (2007b, p. 40, grifo do autor), nos afirma, o texto é “uma obra de arte [...] que se encontra diante de nós destacada de seu ‘criador’ [como] alguém que responde incansavelmente a um esforço jamais esgotável de compreensão interpretativa e é como um indivíduo questionador” que sempre tem a frente dele um outro indivíduo com quem se contrapõe e que é sempre preste a responder.
Em Ricoeur (2013, p. 52), se o texto é “muito mais que um caso particular de comunicação inter-humana [e] revela um caráter fundamental da própria historicidade da experiência humana”, ele é uma obra incompleta que se completa no ato de leitura durante o qual, o texto descontextualizar-se “de maneira a deixar-se recontextualizar numa nova situação” (RICOEUR, 2013, p. 62). Situação através da qual, dialogando com Schmidt (2012, p. 223), “o texto – objetificado e des-historicizado – se torna a mediação necessária entre escritor e leitor”. É deste fato, que o texto se configura uma obra de coautoria já que, a sua autonomia faz com que ele não pertença “mais nem ao seu autor nem ao seu leitor” (RICOEUR, 2013, p. 62). É assim, que “a coisa do texto” (RICOEUR, 2013, p. 50), consegue nos fazer comunicar a distância. Distancia que é simultaneamente temporal e espacial.
Considerar a cidade, particularmente a cidade de Belém como um texto, é uma postura metodológico-conceitual estratégica visando alcançar o objetivo desta pesquisa e de, através da hermenêutica compreensiva, entender o que é cidade nas narrativas do cotidiano. Entretanto, entender a cidade de Belém, nessas narrativas, nos coloca diretamente no caminho do projeto interpretativo Ricoeuriano cristalizado no seu empreendimento da teoria narrativa e hermenêutica. No entanto, isso nos leva na velha discussão hermenêutica atualizada por Ricoeur (2013, p. 51) do explicar e do
compreender que gira entorno da problemática do “distanciamento alienante e da participação por pertença”.
Contudo, para o autor, o texto seria a resposta a esta preocupação hermenêutica que a questão do interpretar trouxe consigo ao longo da história, uma vez que o texto, se configura como “o paradigma do distanciamento na comunicação” (RICOEUR, 2013, p. 52).
No entanto, para Schmidt (2012, p. 155), a interpretação do texto corresponderia em uma “fusão de horizontes onde o horizonte do intérprete é expandido para incluir o horizonte projetado do passado”. É neste sentido, Ricoeur (2013, p. 49) que cita Gadamer, afirma, a “comunicação à distância entre duas consciências diferentemente situadas faz- se em favor da fusão de seus horizontes, vale dizer, do recobrimento de suas visadas sobre o longínquo e sobre o aberto”. Neste sentido, se arbitrariamente considerarmos, como visto acima, o primeiro autor de Belém como texto, a mídia impressa e o seu leitor, os taxistas de Belém, a sua compreensão resultaria, enquanto pesquisador, da fusão do nosso horizonte com o horizonte do texto.
Neste sentindo, afirma-se junto com Ricoeur (2013, p. 49-50), que a “fusão de horizonte” significaria que “não vivemos nem em horizontes fechados, nem num horizonte único. Na medida mesma em que a fusão dos horizontes exclui a ideia de um saber total e único”. Desse modo, a fusão de horizonte implica “a tensão entre o próprio e o estranho, entre o próximo e o longínquo e, por conseguinte, fica excluído o jogo da diferente na colocação em comum”. É neste sentido que a cidade, se configura como uma experiência com o outro. Ela se narra e pode ser narrada.
Dizendo assim, remete em considerar que a cidade se configura como “uma intencionalidade” (SOUZA, M. A. A., 1997, p. 4). Intencionalidade cristalizada nos restos arqueológicos, nos monumentos, nos lugares, nos arquivos, nos prédios antigos, entre outros restos, que se configuram como testemunhas do passado longínquo e mais recente da cidade, ou nas suas estruturas urbanísticas e arquiteturais contemporâneas, testemunhas da engenhosidade do seu momento presente rumo ao seu futuro47.
47 Por exemplo, a cidade de Belém nos narra o seu passado colonial através, por exemplo, do complexo
“Feliz Lusitânia”. Ela narra o seu passado pós-colonial, por exemplo, através do Teatro da Paz, testemunha do momento chave da exploração e exportação da borracha amazônica mundo afora. Por fim, narra o seu momento presente, por exemplo, através da sua modificação arquitetural urbano dominado por prédios, condomínios fechados e casas parecidas com estruturas prisionais que domiciliares que denunciou Souza, M. L. (2006) na sua “A prisão e a ágora” como visto acima. No entanto, essas estruturas testemunham, pensamos, do medo dos moradores da cidade diante da insegurança e a criminalidade, portanto, da violência urbana que os obrigam, adotar atitudes de segregação e auto-exclusão (CALDEIRA, 2000; BAIERL, 2004; SOUZA, M. L., 2006).
A cidade se narra no dia a dia de seus habitantes, por exemplo, quando os habitantes de Belém compram e vendem: peixes fritos ou não, ervas medicinais, camarões, farinha de mandioca, entre outros produtos, no Ver-o-Peso. Ela se narra também, através de bandeiras vermelhas que sinalizam venda do açaí; do Círio de Nazaré e na prática culinária, como o tomar tacacá de tarde mesmo no dia quente; saborear o açaí com camarão, peixe ou frango assado; a farinha e farofa que não podem faltar na mesa do almoço ou do jantar, nem nos lanches de seus habitantes. Belém do Pará se narra no linguajar, ou seja, por meio de expressões, tais como: égua, e-gu-á, pai d’égua, levou o farelo, pitiú, só-te-digo-vai, bora logo, mais quando, mais credo, olha já, arreda aí, diz que, já queres, chope, pão careca, pira, pirento, papai, tá ralado, pior, visagem, igarapé, papagaio, rasga, entra tantas outras expressões.
Por fim, Belém narra-se nas práticas sociais de suas instituições, como as instituições midiáticas como o Diário do Pará e O Liberal. Encontramos a cidade urbanizada através de imagens que mostram a colonização do seu espaço vertical, por meio de seus arranha-céus, edifícios de mais de 20 andares e “desurbanizada”, através de imagens que mostram a colonização do seu espaço horizontal por meio de invasões propensas a uma “favelização” da cidade, principalmente, nos bairros apresentados como “periféricos”. Nas imagens a seguir, sem nenhuma análise, podemos observar como os impressos paraenses narram a cidade de Belém. Geralmente, através de ruas engarrafadas (vide figura 2), dominadas pela violência urbana (vide figura 1 acima), ruas alagadas (vide figura 3); movimentadas (vide figura 4), entra outras representações.
Se a cidade é um texto, construí-la seria, em certa medida, uma forma de escrita” que faz do habitar, ganhar, como afirma Rolnik,
[...] uma dimensão completamente nova, uma vez que se fixa em uma memória que, ao contrário da lembrança, não se dissipa com a morte. Não são somente os textos que a cidade produz e contém (documentos, ordens, inventários) que fixam esta memória, a própria arquitetura urbana cumpre também este papel. O desenho das ruas e das casas, das praças e dos templos, além de conter a experiência daqueles que os construíram, denota o seu mundo (ROLNIK, 2004, p. 16-17).
Se a escrita proporciona uma outra dimensão ao habitar, para Ricoeur (2013), ela não se constituí somente como dispositivo de fixação da memória, mas também, torna, o texto autônomo à intenção do seu autor. Quer dizer, para o autor, o seu significado não mais coincide “com aquilo que o autor quis dizer. Significação verbal, vale dizer, textual,
Figura 2 - Corte da capa do Diário do Pará, 22 maio 2012
e significação mental, ou seja, psicológica, são doravante destinos diferentes [...] graças à escrita, o ‘mundo’ do texto pode fazer explodir o mundo do autor” (RICOEUR, 2013, p. 62, grifo do autor). É neste sentido, para Rolnik (2004, p. 18), que a cidade se “encarregue de contar sua história”. Mas a cidade não só conta a sua história uma vez que sua história está presente nos relatos, nas ruas, nas janelas e portas das casas, nas antenas dos para-raios e de televisões, nos corrimãos das escadas, nos mastros das bandeiras, entre outros lugares da cidade. Assim, ela se constitui como uma linguagem.
Figura 4 - Corte da capa do O Liberal, 16 dez. 2017
Fonte: O Liberal, 2015.
Uma linguagem estruturadora de outras linguagens tais como, em relação a esta pesquisa, linguagem jornalística e linguagem dos taxistas. No entanto, apesar da complexidade dessas linguagens, elas oferecem somente uma perspectiva parcial da cidade já que “não há uma linguagem perfeita, e que toda visão da linguagem é apenas uma visão limitada do mundo” (SCHMIDT, 2012, p. 175).
Enquanto linguagem, a cidade se configura verdadeiramente como obra coletiva já que, para Di Fanti (2003, p. 109), “a linguagem [se configura como] uma prática social,
partilhada, uma entidade concreta e viva de signos ideológicos”. Também, ela, a linguagem, geralmente, se configura como uma atividade responsiva, isto é, uma atividade que implica a intencionalidade e a responsabilidade. Quer dizer, uma atividade que envolve pelo menos mais de uma pessoa e que os envolvidos são voluntariamente responsáveis de seus atos perante os outros. E por fim, para a autora, a linguagem sempre é dialógica no sentido de que, nela, ressoam outras vozes.
É neste sentido, em Quéré (1991, p. 11), a linguagem faz “necessariamente parte integrante da construção social da realidade [já que ela] tem um papel importante na compreensão que temos de nós mesmos e de nossas práticas ordinárias”. Assim, continua o autor, ela “nos permite também articular nossos sentimentos, nossas emoções, nossas práticas e nossas relações”. Isso implica dizer, dialogando com Ricoeur ([1976], p. 18), que a linguagem, se configuraria “como uma mediação entre as mentes e as coisas” do mundo. Ou então, segundo Rodrigues (2007, p. 14), é “pela linguagem que o homem constrói os seus diferentes mundos e, deste modo, dá sentido à sua existência”.
Comunicar com, é o que faz a linguagem ter vida, pois, para Di Fanti (2003, p. 98), “a linguagem somente tem vida na comunicação dialógica, comunicação de sentidos, que constitui o seu campo de existência [que fundamenta a] compreensão do princípio dialógico da linguagem que se constitui por uma abordagem social que lhe é própria”, o “compartilhar com o outro” incompatível com uma abordagem individualista”.
O “compartilhar com o outro” da linguagem é que faz da cidade uma obra compartilhada. A dimensão linguageira da cidade se configura capital, nesta dissertação, uma vez que a linguagem, além de ser um “compartilhar com”, ela tem uma relação estreita com a experiência. Pois, somente falamos o que já experienciamos, e experienciamos somente o que já falamos. Segundo Schmidt (2012, p. 171), “a experiência não ocorre fora e antes da linguagem, mas dentro dela”. O que faz dela, Schmidt (2012, p. 179), “ao mesmo tempo o meio e o objeto da compreensão”. Isso implica dizer, que “a compreensão ocorre no meio da linguagem” (SCHMIDT, 2012, p.
169). A “linguagem traz os seres para a presença dentro da consciência efetuada historicamente”. Isto é, traz “aquilo que compreendemos através da linguagem, através da fusão de horizonte”(SCHMIDT, 2012, p. 169).
Para concluir sobre a dimensão linguageira da cidade, vale ressaltar para Ricoeur (2013), que a linguagem efetua-se como discurso. Tal efetuação é importante aqui, uma vez que proporciona o entendimento discursivo da cidade. E, a partir deste entendimento que podemos entender, o sentido da cidade nas narrativas do cotidiano. Pois, a cidade enquanto discurso, se configura como uma verdadeira linguagem estruturadora de outras linguagens, portanto, fonte de compreensão do mundo, de si e do outro.
Para Rodrigues (2007), o discurso se configura como,
[...] o uso ou a actualização que fazemos da língua, mas a utilização da língua não é uma utilização qualquer, como a utilização que fazemos de um instrumento ou de um utensílio para desempenharmos uma tarefa. O uso que fazemos da língua é um fenômeno, ao mesmo tempo, de natureza interlocutiva e de natureza interactiva. Enquanto fenômeno interlocutivo, a língua é utilizada para dirigirmos a palavra a alguém que também nos dirige a palavra. Enquanto fenômeno interactivo, a língua é utilizada para exercermos influência sobre alguém que também
nos influencia (RODRIGUES, 2007, p. 14).
Neste sentido, quando falamos a alguém sobre algo ou sobre uma pessoa, acontece algo. Isso implica que o discurso, sempre, de acordo com Ricoeur (2013, p. 54), “remete a seu locutor, mediante um conjunto complexo de indicadores tais como os pronomes pessoais. Neste sentido, diremos a instância do discurso é autorreferencial”.
Deste fato, o discurso, se configura como “evento”. Para Ricoeur (2013, p. 54), “o evento consiste no fato de alguém falar, de alguém se exprimir tomando a palavra [assim, enquanto evento] o discurso é sempre discurso a respeito de algo [isto é, sempre] refere-se a um mundo que pretende descrever, exprimir ou representar”. No entanto, Ricoeur (2013, p. 55, grifo do autor), o discurso não contém somente um mundo, mas também “ ‘o outro’, outra pessoa, um interlocutor ao qual se dirige”. É por isso, que Di Fanti (2003, p. 98), advoga, “o outro projeta-se a partir de discursos variados (passados,
atuais, presumidos) [assim] o outro apresentasse em diferentes graus de presença no enunciado, às vezes é visível, às vezes está escondido, mas sempre está lá”. Em Ricoeur (2013, p. 55), o discurso enquanto evento, remete a um “fenômeno temporal da troca, o estabelecimento do diálogo, que pode travar-se, prolongar-se ou interromper-se”.
Assim, a cidade como discurso é uma cidade que, a partir da “função hermenêutica do distanciamento” Ricoeuriana, nos desloca do entendimento do texto, passando do
entendimento do outro até chegar ao entendimento de si, ápice desta investigação uma vez que remete a uma abordagem responsiva e de responsabilidade.
E, vale ressaltar que por intermédio das literaturas conclui-se sobre o entendimento da cidade como lugar com o outro, ou seja, se efetiva somente a partir da dimensão textual da cidade. Enquanto texto que se presta a ser compreendido, a cidade se efetua em linguagem, está em discurso. Assim, a dimensão textual, linguageira e discursiva da cidade nos leva a entendê-la como uma experiência com o outro. Neste sentido, a cidade se configura como o “mundo intersubjetivo 48”.