3.1 A cidade como lugar de espreita
3.1.3 Medo e o dispositivo de controle
Baierl (2004, p. 37), corrobora que o medo, em certa medida, tem sido, ao longo do tempo, “utilizado como estratégia de manipulação para subjugar, controlar, escravizar e dominar as pessoas. Frente às situações de uso do medo, as pessoas se sentem aterrorizadas, fogem do perigo ou se entregam”. Entretanto, se partir das explicações de Baierl, que trata do medo no contexto brasileiro, sobretudo, da sua categoria “medo social”, nos baseamos, nesta dissertação, nas explicações históricas de Delumeau para entender o uso do medo enquanto dispositivo de controle. Assim, o relato do Montaigne, que cita Delumeau (2009, p. 12), da entrada na cidade de Augsburgo de noite por um estrangeiro é bem eloquente neste sentido, uma vez que ele deveria passar através de um dispositivo de segurança35 composto de “quatro grossas portas sucessivas, uma ponte
35 No século XXI, não é fácil entrar à noite em Augsburgo. Montaigne, que visita a cidade em 1580,
maravilha-se diante da “porta falsa”, protegida por dois guardas, que controla os viajantes chegados depois do pôr do sol. Estes deparam, antes de tudo, com uma poterna que primeiro guarda abre de seu quarto, situado a mais de cem passos dali, por intermédio de uma corrente de ferro, a qual puxa uma peça também de ferro “por um caminho muito longo e cheio de curvas”. Passado esse obstáculo, a porta volta a fechar-se bruscamente. O visitante transpõe em seguida uma ponte coberta situada sobre um
sobre um fosso, uma ponte levadiça”.
Assim, para Baierl (2004, p. 40), o medo “que leva as pessoas a paralisarem e alterarem suas relações e suas formas de ser no espaço em que vivem, em seus contextos individuais”, se faz do “outro, o estranho potencialmente ou não, de acordo com as circunstâncias, [...] objeto de medo”, ele “provoca no sujeito reações de paralisação, de entrega ou de agressão”. Para a autora, a diferenciação de reação provocada pelo medo “vai depender, contudo, do conjunto das normas e regras tecidas nesses contextos e dos códigos aprendidos e internalizados pelas pessoas”. Ou seja, vai depender da “cena do medo” que, através da “fala do crime”, cria a “geografia do medo”. Assim, o medo se configura como uma estratégia do exercício do poder de controle e produção social do espaço.
O exercício do poder se configuraria, interpretando Balandier (1982, p. 10), a uma forma mais apurada do jogo dramático. Isto é, um poder que se utiliza dos “meios espetaculares para marcar sua entrada na história (comemorações), expor os valores que exalta (manifestações) e afirmar sua força (execuções) ”. Para o autor, “este último aspecto é mais dramático, não somente porque põe em ação a violência das instituições como porque também sanciona publicamente a transgressão dos interditos” considerado “invioláveis pela sociedade e seu poder”.
E, sobre a que a questão do poder em Balandier – reflete sobre a política contemporânea, na verdade, trabalha a questão do poder na política – mesmo que esta questão pareça fugir da discussão desta pesquisa, mas se configura como essencial, quando evocamos o poder da mídia, ou seja, não um poder abstrato, mas antes, evocamos um poder real de produção e controle do espaço. E que este poder, a partir da sua encenação, materializa e cristaliza a sua presença na vida dos indivíduos submetidos aos
fosso da cidade e chega uma pequena praça onde declara sua identidade e indica o endereço que o alojará em Augsburgo. O guarda, com um toque de sineta, adverte então seu companheiro, que aciona uma mola situada numa galeria próxima ao seu aposento. Essa mola abre em primeiro lugar uma grande roda, comanda a ponte levadiça “sem que nada se possa perceber de todos esses movimentos, pois, são conduzidos pelos pesos do muro e das portas, e subitamente tudo isso volta a fechar-se com grande ruído”. Para além da ponte levadiça abre-se uma grande porta, “muito espessa, que é de madeira e reforçada com várias grandes lâminas de ferro” através dela o estrangeiro tem acesso a uma sala onde se vê encerrado, só e sem luz. Mas outra porta semelhante à precedente permite-lhe entrar numa segunda sala em que, desta vez, “há luz”, e onde ele descobre um vaso de bronze que pende de uma corrente. Deposita aí o dinheiro de sua entrada. O (segundo) porteiro puxa a corrente, recolhe o vaso, verifica a soma depositada pelo visitante. Se não está de acordo com a tarifa fixada, o porteiro o deixa “de molho até o dia seguinte”. Mas, se fica satisfeito, “abre-lhe da mesma maneira mais uma grossa porta semelhante às outras, que se fecha logo que passa, e ei-lo na cidade”. Detalhe importante que completa esse dispositivo ao mesmo tempo pesado e engenhoso: sob as salas e as portas existe “um grande porão para alojar” quinhentos homens de armas com seus cavalos, no caso de qualquer eventualidade. Se for necessário, são enviados para a guerra “sem a chancela do povo da cidade” (Delumeau, 2009, p. 11-12).
seus efeitos.
Assim, em diálogo com Mumford, a partir das explicações Balandieriana da encenação do poder, constatamos que no seu primórdio, a realeza, o rei caçador, encenava o seu poder por meio da violência, portanto, do medo para consolidar a sua influência. Para Mumford, o rei caçador, fundador da cidade, só tinha uma função e preocupação, “acumular o poder, conservar o poder, manifestar o poder por deliberados atos de destruição assassina. [E] pelo próprio ato da guerra, o rei vitorioso demonstrava as possibilidades máximas de controle real e invocava novo apoio divino” (MUMFORD, 2004, p. 51-52) impondo a morte em massa dos considerados como seus inimigos.
Na contemporaneidade, através das explicações de Balandier (1982, p.5) sobre a encenação ou a “teatrocracia” do poder, dizer que ele, o poder, se encena, por exemplo, a partir da corrida nos armamentos sofisticados das nações que visam dissuadirem seus inimigos36 contra todas suas veleidades de invadir as suas fronteiras soberanas. Como arsenal dissuasivo, por exemplo, as armas37 atômicas, nucleares, biológicas e químicas, como herança das grandes guerras mundiais.
Para Balandier (1982, p. 11), as cidades “compõem-se de múltiplas cenas construídas pelos regimes sucessivos. Apresentam um espaço urbano onde abundam os símbolos e as significações”. É o que denuncia as suas origens marcadas sempre por: “um mito e um homicídio”. A encenação do poder, como afirma Balandier, é uma estratégia de sua manutenção e exercício na contemporaneidade. No entanto, esta encenação pode se fazer através de extrema violência que visa causar medo em todos que se opõem ao seu exercício.
A partir da noção de encenação do poder Balandieriana e do relato histórico do Mumford da fundação da cidade pelo rei caçador, podemos alegar que o medo causado nessas encenações se configuraria como estratégia de manutenção e exercício de tal
36 A nova abordagem dos Estados Unidos sobre as armas nuclear se inscreve nesta direção de provocar
medo em seus adversários e conservar a sua superioridade hegemônica enquanto a primeira potência militar mundial. No dia 2 de fevereiro de 2018, os norte-americanos publicaram o documento “Nuclear posture review” no qual o presidente Trump deseja dotar seu país de armas nucleares de última geração com raio de ação curto o que não deixou indiferente os chineses e russos que o documento apresenta como inimigos diretos dos Estados-Unidos da América. Para mais informação sobre o assunto, acesse: https://media.defense.gov/2018/Feb/02/2001872886/-1/-1/1/2018-NUCLEAR-POSTURE-REVIEW- FINAL-REPORT.PDF
37 Com essas armas, a cidade se tornou como lugar onde larga-se bombas – as cidades de Hiroshima e
Nagasaki no Japão podem nos relatam melhor está experiência e a dramatização do poder através do medo – uma vez que a cidade, na sua essência, se configura como um dos cenários capaz de uma dramatização generalizada.
poder.
As explicações de Balandier sobre o poder facilita em a compreender como o medo, enquanto dispositivo de encenação do poder, faz parte das estratégias geopolítica de exercício e manutenção do poder sobre e em determinado espaço. Ou seja, de constatar como o medo é utilizado como estratégia de produção e controle do espaço, portanto, da cidade. Controle que se materializa, por exemplo, nas narrativas midiáticas, na elaboração da cena do medo e geografia do medo a partir de um processo que chamamos de geomidiatização.