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Capítulo 2 Dinheiro, desejos e cidades

2.4. Cidade e aldeia

Uma das questões que mais me chamou atenção ao retornar a Aiha depois de alguns anos foi o fato de muitas pessoas estarem saindo da aldeia para estudar nas cidades, o que inclusive vinha significando uma redução na quantidade de alunos matriculados na escola da aldeia.21 Esse grupo de pessoas, os morado, são filhos/as, netos/as, genros e noras de pessoas que moram em Aiha e que estão residindo temporariamente (ao menos é a expectativa dos

21 Parece ter havido uma redução nesse fluxo após a centralização da escola de Aiha, em meados de 2015, que significou também a inclusão de cursos de Ensino Médio e a contratação de professores brancos.

residentes na aldeia) nas cidades. Mas as pessoas não se submetem a essa situação por qualquer razão: a maior parte daqueles que se mudaram nessas condições o fizeram para estudar e “aprender português”.22 Entretanto, se idealmente o conhecimento escolar é percebido como a aquisição “mais importante”, no limite, todo tipo de objetos e de conhecimentos adquiridos durante essa estadia na cidade é considerado valioso. Dentre aqueles que passaram alguma temporada na cidade e retornaram a Aiha, muitos são considerados agora especialistas, de alguma forma, como o caso de um rapaz que trabalhou algum tempo em uma oficina mecânica e é constantemente acessado para consertar as motos, carros e motores de Aiha e das aldeias vizinhas. Ou então dos homens que trabalharam em obras quando em Canarana e que foram convocados “pela comunidade” para a execução do piso da escola da aldeia, feito com cimento. Ainda que todas as experiências do “mundo do branco” tenham seu valor, o foco principal continua sendo a educação escolar. A intenção de “aprender português” é algo que os pais das crianças matriculadas na escola indígena cobram dos professores desde a criação da escola de Aiha, reclamando que os professores não deveriam ensinar “a língua” (karib kalapalo) naquele espaço, já que “‘a língua’ eles aprendem em casa”. Os professores, por sua vez, defendem que o ensino deve contemplar tanto a língua materna quanto o português, seguindo as recomendações para a concepção de uma escola diferenciada. Insatisfeitos com esse formato escolar e com a falta de recursos na escola da aldeia,23 os pais optam por incentivar seus filhos a estudarem nas cidades, reforçando a importância desses estudos “pra eles conseguirem algumas coisas pra eles, patikula”. As escolas (das cidades) e o aprendizado do português são percebidos como as chaves de acesso ao mundo dos bens, o que inclui desde saber negociar em lojas e “não ser enganado” até um desejo de serem assalariados dentro da Terra Indígena ou mesmo a ampliação das redes de amizade (com não indígenas) nas cidades, o que também aumenta seu prestígio dentro da aldeia e do sistema xinguano de forma mais geral. A criação e manutenção dessas redes de relação é uma das formas possíveis de “magnificação” das pessoas, por meio da ampliação de “seu poder de agir, [de] sua potência de fala, sua capacidade de controlar os perigos da alteridade” (HORTA, 2015, p. 11). A situação é semelhante à descrita por Hugh-Jones sobre os povos do Noroeste Amazônico, quando afirma que “part of the value

22 Ao menos esse é o caso das pessoas de Aiha. Sobre as razões de mudança dos Nahukuá – outro grupo de língua karib da região – para as cidades, ver Horta (2015).

23 Até meados de 2015, a escola de Aiha não possuía nem mesmo um prédio que fosse considerado adequado pelos Kalapalo, funcionando sempre em construções improvisadas. Apenas no segundo semestre de 2015 a prefeitura de Gaúcha do Norte (município ao qual está vinculada a escola) construiu um prédio novo, com paredes de madeira e telhas de fibrocimento. A nova escola tem três salas de aula e uma varanda que será transformada, quando tiverem recursos, em um espaço de trabalho para o merendeiro.

of manufactured goods lies in the act of acquiring them, the context in which they are acquired, and in the people from whom they derive” (HUGH-JONES, 1992, p. 67).

O desejo fomentado pela cidade é realmente intenso, mas as dificuldades de morar no ambiente urbano fazem com que algumas pessoas optem por mudar para outras aldeias que sejam próximas a alguma cidade e, em função dessa localização, permitam a continuidade dos estudos em uma escola regular (não indígena). Tanto essas pessoas quanto os que moram nas cidades compõem um grupo de pessoas sempre presentes na aldeia, não só porque constantemente visitam a Terra Indígena,24 mas porque eventualmente retornam a ela, após concluírem seus estudos ou quando consideram muito difícil a vida na cidade. É, inclusive, bastante complexa a tarefa de manter um censo atualizado dessas famílias. Durante minha pesquisa, muitas famílias se mudaram entre Canarana e Aiha, seja porque concluíram seus estudos ou então por outras razões, que envolveram doenças e a dificuldade de se manterem nas cidades. Mas é bom ressaltar que estou falando aqui sob a perspectiva de quem permanece na aldeia, já que não fiz pesquisa com os morado, apenas entretive algumas conversas com eles, durante períodos em que estavam na aldeia, por qualquer razão. Então mesmo quando se trata da percepção de algum morado, é uma percepção do ponto de vista da aldeia, o que produz, sem dúvida, diferenças significativas em relação ao ponto de vista de quem mora e está na cidade.

A situação desses morado é bastante variada, mas há uma questão em comum: todos aqueles que saem da aldeia para estudar e são casados, carregam consigo suas esposas e filhos. As meninas somente saem para estudar enquanto são solteiras e, em geral, são mandadas para morar em outras aldeias que possuem acesso facilitado a algum município da região, ficando sob os cuidados de parentes próximos. Nesses casos, há uma preocupação constante dos pais com suas filhas, temendo que engravidem ou se casem nas cidades ou em outras aldeias. Há apenas o caso de duas meninas de Aiha que se mudaram sozinhas para a cidade:25 uma delas o fez por ter sido “adotada” por uma pastora de umas das igrejas evangélicas de Canarana,26 e a outra foi levada por um dos irmãos do pai que se mudou com a família para São Paulo/SP e,

24 O trajeto entre a aldeia e a cidade é bastante caro e leva cerca de um dia de viagem, envolvendo trechos fluviais e estradas mal conservadas.

25 Não por coincidência, elas são filhas de dois irmãos que, por sua vez, compõem uma parentela sem muitas redes em Aiha.

26 Essa moça ficou em Canarana por cerca de dois anos e retornou à aldeia no início de 2016. No tempo que permaneceu na cidade, residiu com uma pastora a quem chama de “mãe”. Nesse sentido, apesar de ter ido desacompanhada para a cidade, o caso não chega a ser uma exceção à regra de que as meninas não ficam sós na cidade, já que ela está efetivamente sob os cuidados de uma “mãe”.

em 2015, residia em São Carlos/SP, também sob os cuidados de uma mulher que a tratava como filha.

Os rapazes, por sua vez, quando solteiros, são enviados tanto para outras aldeias quanto para a cidade, a depender da idade (já que, quando crianças, dificilmente são enviados à cidade), de sua vontade (o que é considerado fundamental, cabendo à própria pessoa que se muda, ainda que seja criança, a decisão final sobre ir ou não), da existência de redes de parentela em outras aldeias e da disponibilidade de recursos, havendo uma preferência por sua permanência em alguma aldeia, quando isso é possível. Depois que se casam, os rapazes levam suas esposas e filhos para onde quer que se mudem, afirmando que “sem a família não dá pra ficar, é muito difícil”. As mulheres casadas não estudam, indiferentemente de morarem na aldeia ou na cidade, principalmente em função de serem as responsáveis pelos cuidados dos filhos. Os maridos reforçam isso dizendo que “mulher depois que casa não vai mais pra escola”.27 Algumas dessas mulheres demonstram interesse em continuar estudando, mas os trabalhos domésticos e de cuidado com os filhos, especialmente quando pequenos, restringem significativamente o tempo disponível para estudar.

O período de permanência dos morado fora da aldeia também é bastante variado, se estendendo de poucos meses a alguns anos. Todavia, mesmo nos casos em que a permanência é mais longa, continua existindo uma expectativa de retorno à aldeia (ao menos por quem ficou, já que talvez essa expectativa não seja compartilhada por aqueles que se mudaram) que faz com que as pessoas ausentes sejam consideradas, em alguma medida, parte da família residente. Isso pode ser expresso de diversas formas, desde os residentes na aldeia se referindo às pessoas efetivamente como “pessoas da casa”, até por meio da circulação constante de bens, especialmente alimentos, entre aqueles que permanecem na aldeia e aqueles que estão na cidade.

Mas, assim como o dinheiro, “a cidade”28 também é desejada e temida. Desejada, pois é vista como um lugar de abundância, onde tem tudo o que se quiser, na hora em que quiser; na

27 Não sei como essa questão se coloca em outras aldeias da região, mas sei, por exemplo, que há entre os Yawalapiti e os Kamayura agentes de saúde mulheres que passaram pelos cursos de formação já tendo filhos. 28 Não há diferença, na visão dos Kalapalo, entre as cidades do entorno, quando se trata dessa relação. Há apenas uma diferença prática, relativa à quantidade de comércio e de serviços disponíveis em cada uma delas, função também de seu tamanho. Nesse sentido, Canarana é o maior dos municípios do entorno sul da TI, seguida de Querência e, posteriormente, Gaúcha do Norte. Canarana é também o município que possui uma rede rodoviária mais completa, dando acesso às principais capitais estaduais da região, sendo também por essa razão mais acessada por todos que circulam pela TI. Apesar disso, a aldeia Aiha está localizada territorialmente dentro do município de Querência, onde foram feitos os cadastros da maior parte das famílias de Aiha no Cadastro Único, ou onde é o domicílio eleitoral da maior parte das pessoas que possui título de eleitor. Apesar disso, o acesso a Querência é

cidade, “quando está com fome é só ir no mercado e pegar. Na aldeia, às vezes, não tem peixe. Aí, ainda tem que buscar, fazer. É difícil”. Ouvi falas como essa de diversos adultos, mas esse tipo de percepção era mais frequente ainda entre as crianças, que todo o tempo ficavam me perguntando sobre “como era na minha cidade” e o que existia ou não por lá. Na verdade, sua surpresa era sempre muito grande quando eu dizia que não tinha na minha casa, ou na minha cidade, algumas das coisas sobre as quais me perguntavam, como alguns tipos de plantas, por exemplo.29 Com o aumento da frequência com que assistem televisão também aumenta a curiosidade das crianças com esses temas. Algumas delas, e inclusive alguns jovens, nunca estiveram na cidade, mas isso não impede que tenham opiniões sobre ela e sobre os brancos. É bastante comum ver as crianças brincando de imitar brancos, seja como “polícia” ou, então, brincando de “restaurante”. Neste último caso, vestem suas roupas, utilizam apetrechos de cozinha (algumas vezes fabricados por elas próprias, com restos de garrafa plástica, folhas ou galhos) e se referem uns aos outros utilizando nomes de personagens de novela ou de políticos (especialmente os que aparecem com frequência no noticiário nacional).

Outra brincadeira que tem se tornado comum é a filmagem de esquetes cômicas, sob a supervisão de algum adulto. Em uma das filmagens que acompanhei, intitulada “Pânico na floresta”, dois meninos interpretaram de forma caricatural o papel de brancos que atacam, matam ou sequestram pessoas. O roteiro foi pensando pelo adulto que realizou a filmagem, mas as crianças puderam inventar as roupas e adornos corporais de seus personagens, bem como sugerir cenas e algumas ações. O título foi decidido em conjunto pelo idealizador e as crianças que participaram da filmagem. É possível perceber que nas brincadeiras das crianças os brancos estão sempre envolvidos com dois tipos de atividade: violência (seja como “polícia” ou como “bandido”, no caso desse filme) ou alimentação, que é uma questão central, que envolve o desejo – há um encantamento das crianças principalmente com a variedade alimentar e os distintos sabores das comidas dos brancos – e os cuidados envolvidos nas relações entre parentes.

O ponto que pretendo discutir aqui, todavia, está menos ligado às imagens retratadas pelas crianças e mais à maneira como a cidade é pensada, como lugar da abundância, e, ao mesmo tempo, de perigo, pobreza e saudade, já que a visão geral que as pessoas que moram na aldeia têm dos indígenas que estão na cidade é de que eles são jatsi, “coitados”, que precisam

considerado muito difícil, sendo feito, atualmente, por meio de trilhas que atravessam a porção sul da TI que são bastante precárias, especialmente durante o período chuvoso.

29 As crianças me perguntavam basicamente sobre a existência de chuveiro, privada, piscina, certos tipos de comida e de plantas.

ficar “pedindo trocadinho”, pois nunca têm dinheiro suficiente para se manterem confortavelmente. A permanência por períodos prolongados na cidade é a principal causa apontada pelos Kalapalo para contraírem dívidas monetárias (seja com os bancos ou com os donos de pousadas, mercados, oficinas, ou ainda, com conhecidos e amigos). O dinheiro é utilizado para pagar pela estadia e alimentação, gerando dívidas muitas vezes bastante altas (especialmente quando contraídas junto aos bancos ou outras instituições financeiras, em função das altas taxas de juros cobradas), e a dificuldade em pagar as parcelas dos empréstimos consignados. Por essa razão, não é raro que os Kalapalo estejam “com o nome sujo” ou “negativados” em decorrência de períodos mais ou menos longos de estadia na cidade.

Abro apenas um pequeno parêntesis para tratar das dívidas contraídas junto às instituições financeiras, avaliadas pelos representantes dessas instituições como um “descontrole financeiro”, decorrente da “falta de educação financeira”. Isso se manifestaria no fato de que, segundo os gerentes dos bancos de Canarana, “os índios usam todo o crédito disponibilizado para eles e só vêm conversar quando precisam pegar mais dinheiro”, sem se preocupar em pagar as dívidas contraídas. Minha sugestão é de que isso não se trata apenas de uma falta de educação financeira – ainda que haja, efetivamente, uma parcela significativa da população de Aiha que não saiba lidar com dinheiro ou com bancos –, mas na forma como os Kalapalo lidam efetivamente com os brancos (e os bancos...), que lhes parecem fontes inesgotáveis de recursos. Ainda é bastante comum que, quando afirmo não ter dinheiro em situações em que sou solicitada, alguém me responda que “vá ao banco e pegue”. Os endividamentos bancários possuem ainda uma peculiaridade na medida em que, contraídos junto a máquinas de autoatendimento ou com gerentes que lhes são desconhecidos, são altamente impessoais e, desta forma, não produzem relações. Assim, entendo que o fundamental a esse respeito é que, diferentemente do endividamento que se estabelece com outras pessoas, as dívidas com bancos ou instituições financeiras não são percebidas como algo para o qual devam despender muitas energias (e recursos) para pagar, o que só faz com que as dívidas cresçam, impulsionadas pelos altos juros cobrados por essas instituições.

Por essas razões apontadas, rapidamente a ausência de recursos transforma a “cidade da abundância” em um “ambiente de pobreza”. Com frequência, as pessoas reclamam do tempo em que permanecem na cidade – sejam dias, ou meses –, dizendo que “é muito difícil ficar lá, não é igual à aldeia”, “aqui [na aldeia] tem muita comida e é tudo de graça”, “na cidade tem que pagar por tudo”, ou reforçando todo o sofrimento que enfrentam quando ficam por períodos longos em ambientes urbanos. A situação é sempre mais difícil quando levam seus filhos

pequenos consigo, pois isso encarece bastante a viagem, já que as crianças têm uma capacidade muito menor de conter seus desejos e “querem comer o tempo todo, ficam pedindo sorvete e refrigerante”, pedidos que não podem ser negados, conforme já apontei. Ainda que possuam algum tipo de recurso financeiro proveniente das políticas de transferência de renda, os jovens que se mudam para as cidades, especialmente quando carregam consigo esposas e filhos, se veem obrigados a trabalhar para conseguir se sustentar enquanto estudam, o que também dificulta muito a experiência, tanto para os homens – que trabalham todo o dia e ainda estudam à noite – quanto para as mulheres – que passam o dia todo em casa sozinhas, cuidando dos filhos. A cidade é percebida por quem está na aldeia como um espaço de muita solidão e com uma sociabilidade reduzida (ao menos em teoria), o que pode provocar saudade e tristeza – e, portanto, adoecimento – nas pessoas. Olhando da aldeia, a impressão que se tem é de que longe das redes de parentesco a vida desses jovens seria muito sofrida e “igual branco”, sem ninguém para “dividir comida” e com quem contar nas horas de dificuldade. A inexistência de redes de compartilhamento – de parentesco, portanto –, proporciona grande sofrimento e, em casos mais extremos, leva ao adoecimento e à morte, sendo esse um dos principais temores quando os Kalpalo tratam da possibilidade de “virar branco”. Um rapaz que fez curso técnico de enfermagem e retornou à aldeia me contou dos planos que ainda tem de continuar os estudos na cidade, fazendo algum curso superior. Perguntei se não seria muito difícil, pensando no tempo prolongado de permanência na cidade exigido nesse caso e a resposta que recebi foi que “sofrer é normal”, indicando que a expectativa que têm de ir morar na cidade é sempre de enfrentar dificuldades. Esse tema do sofrimento associado à permanência na cidade também aparece com frequência nas postagens de muitos alto-xinguanos que acompanho pelas redes sociais, que afirmam que a “luta”, o “sofrimento” e a “dificuldade” são caminhos necessários para “realizar seus sonhos”, ou seja, para suprir seus desejos.

Aqui cabe recuperar a argumentação de Carlos Fausto acerca do valor dos objetos – que, sugiro, pode ser estendida também para as experiências vivenciadas nas cidades. Segundo ele, o valor dos objetos para os Kuikuro está associado “to the fatigue, the suffering and the difficulty involved in their manufacture” (FAUSTO, 2016, p. 135). Assim também, as vivências na cidade seriam valiosas, em parte, pelo sofrimento que proporcionam e à sua superação.

Para aqueles que moram na cidade, dividir a casa com outros alto-xinguanos (preferencialmente parentes ou afins) é uma das estratégias para tentar suprir essa situação de isolamento e também para reduzir os custos de moradia. Esses jovens também acabam passando muito tempo juntos, o que é percebido por quem está na aldeia como um grande problema, já

que, nesses casos, pouco falam em português e “não aprendem porque ficam fazendo amizade e conversando na língua”. Existe também uma percepção de que a cidade possui muitas “distrações” – que incluem as amizades com outros xinguanos, mas também os namoros, as festas, o acesso às bebidas alcoólicas – que acabam por fazer com que os jovens não consigam atingir os objetivos que fizeram com que se mudassem para lá. Mas essa percepção, em geral, refere-se aos jovens de forma genérica. Quando perguntados sobre a situação de jovens específicos (especialmente aqueles mais próximos, em termos de relações de parentesco), a percepção é de que estejam estudando muito e trabalhando muito. E, só por isso, as famílias continuam investindo muitos de seus recursos – financeiros e emocionais, já que sofrem com a saudade e a preocupação – na manutenção desses jovens na cidade.

Diferentemente de outros contextos etnográficos (como, por exemplo, o Alto Rio Negro, descrito por Lasmar [2005]), os casamentos com os brancos não parecem ser uma opção muito frequente para os alto-xinguanos. Ainda que exista a possibilidade de manutenção de relações sexuais esporádicas de homens kalapalo com mulheres não indígenas (casos de mulheres kalapalo que tenham esse tipo de relacionamento com homens brancos são ainda mais raros), o casamento parece estar sempre fora de questão e, quando ocorre, é muito mal avaliado, especialmente se resulta em filhos que são criados por suas mães nas cidades e não são (re)conhecidos pelos parentes nas aldeias. Nas discussões ocorridas durante o II Encontro do Povo Kalapalo houve consenso de que “O povo Kalapalo não permite o casamento de ambos sexos com branco” (POVO KALAPALO, 2017).

Isso, entretanto, não é exclusivo da relação que mantêm com os brancos, mas também se estende a indígenas de povos não xinguanos. Ouvi muitas pessoas afirmando que seus filhos