Ao concluir seu filme, é importante gerar interesse e expectativa. Queremos que o público e a crítica comentem sobre o filme, e, quem sabe, se for possível conquistar até mesmo algum espaço
143 num veículo de mídia! Para atingir tais metas, uma das opções mais controladas (vejam bem:
“controladas” não significa “fácil”!) é a trajetória no circuito de festivais. Escolhi a palavra “controlada” pois o realizador/produtor do filme não necessita intermediários para cumprir essa etapa. Você mesmo pode planejar sua estratégia, escolher os festivais, submeter seu filme, torcer e aguardar pelos tão desejados louros! No entanto, antes de sair atirando para todos os lados, observe a seguir dicas valiosas que podem transformar sua experiência no circuito de festivais em um momento produtivo e benéfico para a carreira do seu filme:
A) Faça uma pesquisa extensa e um levantamento de todos os festivais para os quais o seu filme poderia ser enviado (muitos festivais trabalham com categorias específicas como curtas, longas, filmes de horror etc.). Uma excelente fonte de consultas para festivais nacionais é o site: knoforum.org após listar os festivais interessantes, verifique necessidades logísticas como por exemplo o formato exigido para a exibição do filme (alguns festivais somente aceitam cópias em Blu-Ray, outros em DVD, outros em DCP etc.), os prazos e custos para submissão do filme e FIQUE ATENTO para o caso do festival exigir ineditismo! Ao ser aceito em um festival que exige obras inéditas, você automaticamente estará abrindo mão da participação em outros eventos e festivais. Para os produtores e realizadores, essa é uma exigência chata e problemática, mas muitos festivais trabalham dessa maneira.
B) Após selecionar os festivais que parecem interessantes, faça um trabalho de “detetive”: investigue a fundo os festivais – procure conversar com outros cineastas que já tenham participado de tais festivais, faça todas as perguntas que quiser aos organizadores e, se possível, tente conversar com pessoas que tenham ido ao festival como “público” e não como cineastas! Procure saber também o que o festival oferece em termos de prêmios e estrutura (passagens, estadia etc.). Essa investigação é importantíssima, afinal de contas, há tantos festivais mal organizados e mal estruturados que podem não valer o esforço e o custo do envio de seu projeto! Há festivais que não possuem estrutura adequada para exibições decentes e seu filme pode ser prejudicado por um projetor ruim, uma sala abafada ou um sistema de som falho. Há ainda festivais que parecem valorizar mais a presença de celebridades do que os próprios filmes. Fique atento e não submeta seu filme a festivais assim – uma exibição ruim pode
causar mais danos do que benefícios ao seu projeto (além de desrespeitar todo seu trabalho e esforço de anos sobre um filme!).
C) Prepare seu material promocional! Aqui, infelizmente, é chegado o momento de, mais uma vez, abrir a carteira e investir um pouco mais de dinheiro. De nada adiante ir a um festival se o público não sabe sobre seu filme. Assim, crie pôsteres, cartazes e banners para poder enviar à comissão organizadora do festival ou simplesmente para espalhar pela cidade que sedia o festival (de preferência em lugares estratégicos e próximos ao local da exibição de seu filme). Não esqueça de incluir no pôster as datas e horário de suas sessões/exibições. Além disso, leve cartões de visita/negócios! Não há nada mais chato do que conhecer uma pessoa interessante em um festival e precisar ouvir ou falar a famigerada frase “Puxa, meus cartões acabaram!”. O limite para a criação e produção de material promocional será seu bolso! Enquanto houver dinheiro, faça cartazes, cartões postais, camisetas, brindes relacionados ao filme etc. Só lembre de não gastar tudo em um único festival.
144 D) Ao ser aceito em um festival, procure gerar/criar interesse para seu filme. Além do
material promocional, utilize as redes sociais, crie blogs e sites, convide o público local, tente entrar em contato com a mídia local! Se você possuir amigos na área de publicidade e marketing, converse com eles e levante idéias! Só cuide para não “desgastar” o filme, ou seja, gerar e disponibilizar conteúdo demais cedo demais.
E) Tenha paciência e controle suas expectativas: levar um “Não” em um festival não é o fim do mundo! O início é sempre a fase mais difícil e a espera até ser aceito em um primeiro festival parece interminável. Mantenha a calma e o bom humor e, eventualmente, algum festival irá se interessar pelo seu filme e convidá-lo (mas, geralmente, para que isso aconteça, é bastante comum ouvir dezenas de “Nãos” antes!). Finalmente, ao ser selecionado, lembre-se que isso por si só já é um prêmio! Não crie expectativas com relações a prêmios, pois a seleção oficial já significa muito! Alguns festivais recebem literalmente milhares de filmes todos os anos. Ser escolhido dentre milhares já é um grande trunfo!
Ter uma boa trajetória no circuito de festivais pode significar gerar interesse por parte dos distribuidores, mas lembre-se: isso NÃO é garantia de distribuição! Apenas aumenta suas chances e, no mínimo, leva seu filme a públicos diversos – o que já é uma experiência e tanto! A indústria cinematográfica está cheia de histórias de filmes que foram literalmente
comprados por grandes distribuidores em festivais: A Bruxa de Blair, os premiadíssimos Crash e Guerra ao Terror dentre muitos outros! Quem sabe seu filme pode ter a mesma sorte? Para ilustrar bem a questão do circuito de festivais, vou utilizar a princípio dois de meus últimos projetos como “Case Studies” e, finalmente, para ilustrar o processo de “self distribution” ou “auto distribuição”, vou utilizar como case study o longa independente “A Lonely Place for Dying” do diretor americano Justin Evans.
CASE STUDY #1: SEM FIO (ou “quando as fórmulas não funcionam”!)
No ano de 2008, após ter realizado dois filmes de longa metragem nos Estados
Unidos, finalizei o longa SEM FIO no Brasil. O projeto era (e ainda é!) bastante ousado e nada ortodoxo. Como a história no roteiro tratava de relações caóticas e jovens desgarrados na vida urbana contemporânea (com todos os ingredientes que o “caos” e o “desgarramento” podem sugerir), eu optei por levar às telas uma linguagem visual que refletisse esse conteúdo. Também por se tratar de um roteiro rápido, caótico e agressivo, seria incoerente gravar o filme utilizando uma linguagem tradicional, então optei por arriscar bastante. Foi um risco calculado e, até onde eu podia conceber, um risco que certamente traria vantagens ao filme. Bom, o tempo mostrou que esse risco foi verdadeiramente uma faca de dois gumes: muitos colegas cineastas e até mesmo parte do público comparavam e associavam o SEM FIO à filmes como “Trainspotting” de Danny Boyle ou “Requiem para um Sonho” de Darren Aronofsky, logo, é fácil perceber que não é um filme de fácil digestão e assimilação. Ainda assim, eu acreditava que o filme possuía todos os elementos necessários para atingir grande êxito junto ao público: uma história ágil, um Rock Star no papel da personagem principal (o cantor Nasi, ex-vocalista do IRA! protagonizou o longa em uma performance brilhante), trilha sonora bastante contemporânea incluindo uma música do grupo “O Teatro Mágico”, cenas de luta e vale tudo contando inclusive com a participação de “Gibi”, ex-campeão mundial de Muay-Thai (e todos nós sabemos como eventos à la UFC geram público hoje em dia). Logo, passei à realização de cabines (ou exibições fechadas) para distribuidores convidados – antes mesmo de tentar inserir o filme no circuito de festivais. O resultado das cabines foi invariavelmente o mesmo: o distribuidores achavam o filme “ousado” e arriscado demais, preferindo esperar os festivais para avaliar a reação do público. Dessa forma, embarcamos na segunda etapa:
145 o circuito de festivais. Foi um período maravilhoso para o filme. O SEM FIO foi selecionado e premiado em festivais importantes do Brasil e do mundo, incluindo uma sessão histórica na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (com lotação máxima esgotada e uma enorme fila de espera!) e um pomposo prêmio de “Excelência em Cinema” conquistado no Festival Internacional do Canadá, em Vancouver. Com tudo isso, acreditamos que tínhamos a faca e o queijo na mão, e que era somente uma questão de tempo até choverem propostas de distribuidores. Ledo engano. O SEM FIO foi de fato adquirido por uma distribuidora e lançado no circuito comercial, no entanto, sem qualquer tipo de grandiloquência ou glamour! Foi uma distribuidora pequena e uma temporada pra lá de modesta, com retorno de bilheteria ainda mais modesto – modesto até demais para quantificar! Evidentemente, isso deu um nó na minha cabeça, afinal de contas, tínhamos atravessado todas as etapas com grande êxito para, no final das contas, alcançar um retorno de mercado mínimo. Com isso, só conseguia lembrar das palavras do meu professor no California Institute of The Arts em Los Angeles, quando ele afirmava que “...a única coisa que eu sei é que na indústria de cinema ninguém sabe de absolutamente nada.”. Ele estava certo. Tínhamos um filme ousado e premiadíssimo nas mãos (contando inclusive com prêmios internacionais de prestígio), tínhamos uma distribuidora, repercussão de mídia razoável incluindo matérias em diversos canais de televisão e artigos em jornais e revistas, atores e famosos no elenco... ainda assim tudo isso não foi o suficiente para garantir o êxito do projeto no circuito comercial. O case study do SEM FIO serve para mostrar como não há, de fato, regras ou fórmulas fixas que possam garantir o sucesso de um filme. Mas que isso não sirva para desanimar os cineastas e produtores. Vou passar agora a outros dois case studies bem diferentes, com estratégias únicas e que parecem estar funcionando muito bem: meu outro longa realizado em 2011 (“Alguém Qualquer”) e o longa já mencionado “A Lonely Place for Dying”. A questão agora - pelo menos para mim e para minha equipe - era avaliar tudo que havia sido feito e planejar estratégias
diferentes para um próximo projeto. E foi o que tentamos fazer, o que nos leva à nossa próxima analise:
CASE STUDY #2: ALGUÉM QUALQUER (criando estratégias personalizadas)
Durante todo o processo atravessado com o longa SEM FIO (onde procuramos seguir à risca toda a cartilha de lançamento para filmes independentes), um fato chamou muito a nossa atenção: enquanto o filme angariava louros e gerava repercussão nos principais festivais de cinema do Brasil (incluindo a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Festival Internacional do Rio), a grande mídia parecia não se interessar pelo projeto. Evidentemente, isso frustrou muito a equipe, afinal de contas, estamos falando dos maiores eventos de cinema em território nacional! Fizemos tudo que estava ao nosso alcance, chegamos a contratar uma assessoria de imprensa especializada e ainda assim pouquíssimos veículos de comunicação se mostraram interessados. No entanto, assim que o filme foi selecionado para um festival internacional e conquistou o prêmio de
"Excelência" no Canada International Film Festival, repentinamente começamos a receber convites para matérias, entrevistas, programas de televisão etc. Foi, também, somente após o prêmio no Canada que recebemos a proposta de uma pequena distribuidora nacional. Com isso em vista (e dispostos a não repetir os mesmos resultados!), decidimos apostar numa estratégia inversa quando chegasse o momento do próximo projeto. No ano de 2012, escrevi, dirigi e editei o longa-metragem "Alguém Qualquer" - finalizado em meados de 2012. Junto à minha equipe de lançamento e produção executiva (dirigida pela também atriz e integrante da equipe Amanda Maya), decidimos começar exclusivamente pelo circuito internacional de festivais. Essa é uma escolha que
evidentemente sai mais cara (custos de envios e submissões à festivais estrangeiros são sempre bastante salgados!), porém, a trajetória com o longa SEM FIO nos mostrou que basta um
reconhecimento ou prêmio internacional para que a mídia e o público se interessem pelo projeto. Para o "Alguém Qualquer", tal estratégia parece ter dado certo! Em menos de seis meses,
acumulamos prêmios de peso na Universidade de Harvard (o prêmio "Curator's Choice"), na California Film Comission (o prêmio "Gold Award"), no prestigioso Sedona International Film Festival ("Humanitarian Award") e no Logan International Film Festival, onde fomos agraciados com
146 o prêmio top de "Melhor Filme" - isso sem contar com a participação como seleção oficial em
outros festivais como o Fargo International Film Festival e o Beloit International Film Festival. O projeto parece ter agradado em cheio o público norte-americano, e, o que é melhor, essa trajetória de êxito nos rendeu abertura de conversas e negociações com três distribuidoras diferentes em potencial além de ampla divulgação em território nacional e internacional (com direito a matérias em jornais do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Brasília, Alagoas, Vale do Paraíba, Nova York etc.). Finalmente, em Janeiro de 2016 (data da escrita deste artigo) o longa “Alguém Qualquer” alcançou um êxito comercial bastante razoável: além de ter sido finalista para representar o Brasil no Oscar® em 2016, o filme estreou em salas de cinema em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre para em seguida começar a ser exibido intensamente em diversos canais de televisão como Sony, Fox, FX, Paramount, Turner, Prime Box Brasil e outros!
Finalmente, além de todas as "pseudo" fórmulas e caminhos já testados e apresentados para o lançamento de filmes, há ainda uma opção que tem se popularizado cada vez mais: o famoso "faça você mesmo" ou ainda, em inglês, a popular expressão "Do It Yourself". Com a recente explosão das mídias digitais, streamings virtuais e redes sociais, todo o universo tradicional de divulgação, exibição e relação com o público parece estar de pernas pro ar. Some-se a isso uma nova geração de cineastas independentes cansados de um caminho cheio de inseguranças e dificuldades e a receita explosiva está pronta! Como sempre, os caminhos não são fáceis, exigem tempo, dedicação e muitas vezes dinheiro, mas novas portas estão certamente se abrindo. Para ilustrar esse último -
e extremo - cenário, utilizo mais um exemplo:
CASE STUDY # 3: A LONELY PLACE FOR DYING (o caso da "self distribution" ou ainda o famoso DIY –
Do It Yourself)
Em 2008, o cineasta Justin Eugene Evans gravou seu longa metragem "A Lonely Place for Dying" (Um Lugar Solitário para Morrer) - ainda sem previsão de estréia no Brasil. Durante dois anos, o thriller de espionagem ambientado durante a guerra fria conseguiu um feito impressionante: foi selecionado para 46 festivais conquistando 29 prêmios! Para Justin Evans, isso só podia significar uma coisa - distribuição garantida! Ledo engano (exatamente como no meu caso com o longa- metragem Sem Fio!). Não surgiram propostas de distribuição e o cineasta ficou a ver navios. No entanto, após investir 200 mil dólares na realização do filme, Justin Evans decidiu partir para o ataque e criar uma estratégia sólida para auto-distribuir seu projeto. Inicialmente, Evans e seu time trabalharam por seis meses reunindo informações relevantes acerca de cidades estratégicas, número de salas de cinema, densidade demográfica, preços de anúncios pagos etc. Em seguida, munidos desses dados e de um Business Plan sólido, conseguiram conquistar a ajuda de três investidores que acreditaram no potencial do filme e dos números levantados ao longo dos seis meses anteriores. Dessa forma, Evans construiu um pequeno time de lançamento e agendou diretamente exibições em 20 salas de cinema em cinco estados diferentes. Ao trabalhar com salas de cinema em cidades menores, conseguiu um acordo de divisão de 50/50 na bilheteria e se comprometeu a caprichar na divulgação com material promocional impresso e anúncios pagos na mídia local. Quase como conseqüência direta, mecanismos virtuais de exibição (iTunes, Amazon
147 etc.) manifestaram interesse e fizeram ofertas interessantes à Evans, que aceitou. Finalmente, a
partir do dia 12 de Fevereiro de 2013 (quase cinco anos após a produção!!) o filme foi
disponibilizado nos EUA, Australia, Canada, Irlanda, Nova Zelândia e Reino Unido. Em breve, deverá ser lançado no México, Rússia e Ucrânia. Justin Eugene Evans admite ter plena consciência de que seu filme não é nenhum blockbuster e ainda não representa um sucesso comercial, porém, vinte salas de cinema e nove países são muito mais do que a grande maioria dos filmes brasileiros pode sonhar como plataforma de exibição e lançamento! A Lonely Place For Dying é prova irrefutável de
que os tradicionais modelos de distribuição podem estar com seus dias contados. Concluindo,
espero ter oferecido ao cineasta independente um panorama atual e realista das possibilidades de planejamento, produção, lançamento e distribuição: cobrindo de maneira simples e prática todos os principais aspectos técnicos e artísticos pertinentes a realização, finalmente chegando à
questões de lançamento e distribuição - das "cabines" e exibições particulares diretamente para os distribuidores (private screenings) até a opção extrema do "faça você mesmo". É, sem dúvida, um caminho longo e desafiador, mas é possível e vale muito a pena. O importante é manter a calma e saber que não há fórmulas concretas e certeiras: num momento acentuado de transformação tecnológica e midiática, freqüentemente os cineastas precisam inventar seus próprios caminhos e às vezes contar com uma pequena dose de sorte! A cada novo projeto, tenha certeza de que os obstáculos e desafios serão assustadores, e uma vontade enorme de desistir pode aparecer. Quando isso acontecer, lembre-se dos motivos que o levaram a começar a fazer filmes e resgate sua inspiração e seu amor pela sétima arte! Cinema não é uma ciência exata, é uma arte complexa e exigente porém apaixonante. Trabalhar com cinema é ingressar numa fábrica de sonhos: muitas vezes perdemos o controle e a compreensão, mas ao mesmo tempo, somos inundados de mágica e realização. Aos que ingressam nessa jornada longa, assustadora e maravilhosa, boa viagem!