CAPÍTULO 10: DIREÇÃO DE ATORES E ATUAÇÃO
PARA CINEMA
Agora é momento de abordar um dos assuntos mais fascinantes, polêmicos e complexos dentre as responsabilidades do Diretor: a direção de atores, um verdadeiro “bicho de sete cabeças” em nosso Brasil!
No que tange esse assunto, nosso panorama nacional encontra-se em estado bastante desencorajador: muitos de nossos diretores não sabem exatamente como comunicar-se com os atores e sentem-se bastante inseguros quando chega o momento de orientar, ou, melhor, “dirigir” suas personagens e performances. Isso acontece em grande parte porque o diretor não conhece a fundo o ofício do ator, e consequentemente, não sabe como extrair do ator o melhor resultado. Mas será então que é necessário conhecer o ofício do ator para ser capaz de dirigir atores? Não tenha dúvidas! Pense novamente no Diretor como um Maestro frente à uma Orquestra: embora cada músico concentre-se em seu instrumento individual e em sua partitura, é necessário alguém que escute o conjunto todo e saiba perceber se há uma unidade coesa dentro da proposta artística determinada pela obra. Evidentemente, para que um Maestro possa dar orientações coerentes e eficazes para os intérpretes, é essencial que ele entenda não apenas de música, mas também dos instrumentos individuais – não é coincidência que o bacharelado em composição e regência (para aqueles que desejam conduzir orquestras) seja mais longo que o bacharelado em instrumento. E também não é coincidência que o Maestro seja obrigado a tocar vários instrumentos! Aliás, é extremamente comum que grandes Maestros sejam também exímios instrumentistas! Pois bem, o Diretor de Cinema, frente a seus atores, está exatamente na mesma posição do Maestro frente à sua Orquestra! O Diretor também precisa avaliar o conjunto todo e perceber se há uma unidade artística coesa e coerente dentro da proposta adotada. Agora visualize uma pessoa que NÃO sabe tocar nenhum instrumento tentando dar orientações à uma Orquestra. Seria difícil, não? Como dialogar de igual para igual com os músicos? Como tirar deles o melhor resultado? Como extrair o melhor timbre do violino ou dosar a quantidade de ar das flautas? Bom, suponho que esse paralelo ilustre de forma clara que SIM, o Diretor precisa, e MUITO, conhecer bem o ofício do ator para ser capaz de oferecer orientações técnicas específicas e produtivas.
Mas se por um lado é comum encontrarmos diretores inseguros, por outro lado é igualmente comum encontrarmos atores despreparados. O sistema formal acadêmico prepara o ator com grande ênfase em Teatro e trabalho de palco, ignorando quase por completo a técnica e linguagem para a telona – o que é uma lástima. E é um grande equívoco pensar que um ator treinado para o palco está automaticamente preparado para o cinema! Cada modalidade artística é um universo que requer técnicas e adaptações particulares. Um grande músico erudito pode não conseguir tocar Blues, por exemplo. Assim como um bailarino clássico pode não saber dançar frevo! Da mesma forma, um ator formado para o palco pode não saber interpretar para Cinema. Embora a Arte seja a mesma, a forma de expressá-la e conduzi-la é diferente e requer cuidados especiais.
Dessa maneira, com um diretor inseguro e atores despreparados, está pronta a fórmula para um desastre: performances artificiais e mecânicas, falas decoradas porém vazias de sentido, gestuais estranhos e falsos, atores que interpretam sempre a si mesmos (repetindo-se em todos os
63 filmes!) e por aí a fora (tenho certeza de que muitos leitores já cansaram de ver produções com
essas características, correto?). E o que é pior, muitas vezes o diretor pode até perceber esses problemas, mas não sabe como resolvê-los. Consequentemente ele praticamente abre mão da direção ou acaba pedindo auxílio à algum outro profissional que saiba como tirar um resultado mais adequado dos atores (o que é também uma grande lástima, já que dirigir os atores é uma das atividades mais legítimas, complexas e prazerosas que um diretor pode assumir – um diretor abrir mão de seus atores é quase como o Maestro abrir mão de seus músicos!). Não deixe que isso aconteça com sua produção! Com bom senso e estudo você pode realmente conduzir e dirigir seus atores com segurança extraindo excelentes performances de cada um! Vamos portanto listar algumas dicas importantes que podem ajudar bastante na realização do seu projeto. Antes mesmo de começar os ensaios e o processo da “direção”, examine os tópicos a seguir:
1) CONHEÇA O OFÍCIO DO ATOR: Começando do começo! Já que o
assunto aqui é Direção de Atores, que tal conhecê-los? Procure saber como os atores trabalham – como eles abordam um texto, como eles criam um
papel/personagem, que tipo de informação eles precisam etc. A arte do ator consiste em dar vida à um ser imaginário em situações também imaginárias e o que é mais complexo, conferindo “verdade”, veracidade à tudo isso, o que não é nada fácil! E cabe à um bom diretor auxiliar e estimular o ator nesse processo. Há muitos caminhos e técnicas para criar um papel e cada um deve escolher aquele que mais lhe agradar, mas a título de ilustração, o caminho mais adotado e trilhado pelos maiores atores e diretores da história é o que chamamos de “Sistema” ou, em certos casos, de “Método” – um conjunto de ferramentas e práticas cênicas que encontram sua origem no grande
ator/diretor russo Konstantin Stanislavsky. Se pensarmos em nossos atores prediletos ou, por exemplo, em todos os ganhadores do Oscar® dos últimos 40 anos, perceberemos que a vasta maioria é adepta desse tal “Método” ou “Sistema”: atores geniais como Jack Nicholson, Marlon Brando, James Dean, Paul Newman, Al Pacino, Robert de
Niro, Meryl Streep, Hillary Swank, Sean Penn, Heath Ledger, Daniel Day-Lewis, Johnny Depp e por aí a fora bem como os grandes diretores do porte de Elia Kazan, Francis Ford Coppola, Martin Scorcese e muitos outros (precisa falar mais?) são adeptos fervorosos desse mesmo sistema e de suas variações. Ou seja, o negócio parece funcionar, não é? Basicamente, o “Sistema” de Stanislavsky propõe um processo complexo de fusão total entre ator e personagem. Os atores devem “desaparecer” por completo dentro de seus papéis e através de um domínio técnico apurado passar a “viver”
momentaneamente como as pessoas que estão interpretando, atribuindo uma verdade absoluta à cada personagem. Mas atenção! Verdade absoluta não significa necessariamente “realismo”, correto?
64 “real”, ainda assim, acreditamos naquele personagem pois ele é “verdadeiro” ,
certo? Essa é uma distinção importantíssima pois muitos diretores ou atores desavisados acabam por confundir os ensinamentos de Stanislavsky com “realismo”. Performances memoráveis da história do Cinema como a de Robert de Niro em “Touro Indomável” ou ainda a de Heath Ledger em “Batman: o Cavaleiro das Trevas” são todas marcadas por um elemento em comum – um trabalho primoroso de construção das personagens. Esse trabalho não é nada fácil e exige muito do ator e do diretor. Há casos famosos como os do ator Daniel Day-Lewis (três vezes ganhador do Oscar® até a data da redação deste livro) que leva de seis meses até três anos criando cada um de seus papéis! Mas isso não deveria ser surpreendente nem assustador, visto que em outras áreas artísticas, como música ou dança, essa devoção técnica é algo comum (quanto tempo você acredita que um pianista levaria para preparar adequadamente uma Suíte Francesa de J. Sebastian Bach? Provavelmente de seis meses à três anos, exatamente como Daniel Day Lewis!), e com cinema não poderia ser diferente. Infelizmente, embora o nome de K. Stanislavsky (o grande “pai” desse tal Método/Sistema) seja relativamente conhecido no Brasil, a prática real e completa desse sistema é quase que inexistente (e em muitos casos distorcida) em nosso país. Para aqueles que tiverem curiosidade de conhecer a fundo todas essas técnicas de maneira segura – tanto diretores como atores - , sugiro uma visita ao Instituto Stanislavky, projeto desenvolvido dentro do Latin American Film Institute dedicado exclusivamente à interpretação e direção (www.lafilm.com.br ), instituição exclusivamente dedicada ao estudo e prática do “Sistema/Método” de Stanislavsky da mesma forma como ele é
desenvolvido nos maiores centros acadêmicos do mundo. De qualquer maneira, embora o “Sistema/Método” seja a técnica cênica mais consagrada e comprovada da atualidade, há muitos outros caminhos possíveis e igualmente interessantes e cabe ao diretor estudar, se aprofundar e conhecer com
segurança os mecanismos de trabalho do ator para só então conseguir ajudá-lo e orientá-lo. Ficam aqui, porém, dicas importantes para os diretores iniciantes: das várias tradições, escolas e técnicas para atores e diretores, há algumas que não acreditam na “criação de uma personagem”. Fique atento, pois atores que não possuem técnica suficiente para criar personagens são atores que
interpretam somente a eles mesmos, e você não convidaria seu colega “João” para atuar em seu filme e interpretar a ele mesmo, correto? Se esse fosse o caso, seria mais adequado então fazer um documentário sobre o “João”. Outra dica valiosa para conhecer a fundo o ofício do ator, além de pesquisar e estudar, é assistir grandes performances! Além dos filmes já mencionados (como “Touro Indomável” de Scorcese e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” de Christopher Nolan), sugiro como ponto de partida os arrebatadores “Meu Pé Esquerdo” e “Em Nome do Pai” (ambos com direção precisa de Jim Sheridan) e “Sangue Negro” dirigido por Paul Thomas Anderson (os três útimos com atuações assombrosas de Daniel DayLewis), “Monster, Desejo Assassino” (que
65 entregou o Oscar® à uma virtuosa Charlize Theron sob a batuta da diretora
Patty Jenkins), “Taxi Driver” e “Cabo Do Medo” (Direção de Scorcese e atuações soberbas de Robert De Niro), “Rain Man” (Oscar® merecido para Dustin Hoffman dirigido por Barry Levinson), “I am Sam: uma lição de amor” e “Milk” (para saborear os espetáculos de Sean Penn dirigido respectivamente por Jessie Nelson e Gus Van Sant), “Meninos Não Choram” e “Menina de Ouro” (ambos protagonizados pela impecável Hillary Swank com direção de Kimberly Peirce e Clint Eastwood) e, para os fãs de suspense, vale conferir “Misery: Louca
Obsessão”, com atuação inesquecível de Kathy Bates e direção de Rob Reiner. A lista poderia continuar por páginas e páginas, mas esses filmes são uma boa porta de entrada para apreciar “atores metódicos” (ou ainda, atores que criam suas performances com base nos ensinamentos de Stanislavsky) em sua melhor forma – e criar um bom banco de dados e referência para saber onde um ator pode chegar (se bem dirigido, é claro!).
2) O QUE SABER ANTES DE ORIENTAR OS ATORES: Seja
antes
de uma conversa informal sobre o projeto ou mesmo antes de um ensaio com os atores, o diretor deve fazer sua lição de casa. Lembre-se de que você deve transmitir segurança e domínio de obra aos atores, para tanto, conheça em detalhes CADA personagem da sua história! Saiba dizer a cada ator a importância e relevância de cada uma das personagens dentro do roteiro (mesmo os menores papéis tem sua importância individual, caso contrário não seriam necessários! Parafraseando Stanislavsky, lembre-se – e lembre seus atores – de que “não existem pequenos papéis, somente pequenos atores” ),saiba com clareza o que cada personagem precisa ou quer alcançar/realizar em cada cena e na obra em sua totalidade, saiba qual a relação entre as personagens e tente imaginar possíveis backgrounds para cada papel preenchendo as lacunas de informação que o roteiro não oferece (Onde será que a personagem nasceu? No que ela trabalhou ou trabalha? Quais suas experiências de vida mais marcantes? etc.). Tudo isso ajudará o ator a criar um papel robusto e verdadeiro, além de deixar claro que o diretor realmente sabe do que está falando! Saiba indicar referências e estimule o ator a pesquisar sobre a realidade retratada no roteiro, pois isso também o ajudará a fazer escolhas coerentes. Exemplificando: caso o roteiro conte uma história policial protagonizada por investigadores ou agentes de polícia, encoraje o ator a ler bons livros e assistir bons filmes sobre o gênero (ou quem sabe, até mesmo conversar com policiais!). Se o roteiro narra a vida de um padeiro, por exemplo, estimule o ator a visitar uma padaria e observar como um padeiro real trabalha. Todo esse processo de pesquisa, observação ou até mesmo vivência é o que
66 comumente chamamos de “laboratório”, e pode contribuir enormemente para
a veracidade de um papel.
Bom, se levarmos em conta que agora você já conhece bem o ofício do ator, criou uma boa bagagem de referências e já sabe todos os detalhes sobre a personagem que será interpretada, é chegado o momento de realmente “dirigir”, conduzir os ensaios e
arredondar as cenas. Nosso próximo passo agora é saber O QUE e COMO falar com os atores e orientá-los a fim de conseguir deles o melhor desempenho. Vou, portanto, listar uma sequência de etapas simples que devem ser atravessadas e exploradas e que poderão servir como um guia sólido para os diretores iniciantes (bem como fonte de reflexão para os mais experientes).
ANÁLISE DA OBRA PARA PERFORMANCE DOS ATORES:
Essa é a única etapa exclusivamente “intelectual” do trabalho com os atores. Todas as etapas a seguir priorizam a prática e a vivência das personagens e das cenas, porém, antes de chegar nesse ponto, é necessário um pouquinho do conhecido “trabalho de mesa”.
Nessa fase, diretor e atores devem discutir e compreender os elementos “motores” da obra, ou seja, as circunstâncias dadas pelo autor (os famosos
“QUEM, O QUÊ, ONDE, QUANDO e POR QUÊ”):
• Quem são as personagens (Quem)– Lembre-se de que o autor (ou dramaturgo/roteirista) nos fornece somente uma fração da vida de cada personagem. No entanto, nenhum ser vivo “vive em frações”, portanto, é necessário discutir opções coerentes para preencher as lacunas e descobrir de onde as personagens vieram, o que fazem, sua formação cultural e intelectual, sua situação econômica, sua educação e por aí a fora. Todas essas informações servirão como “recheio” para a personagem, transformando-a em um ser completo e multidimensional no qual poderemos verdadeiramente acreditar. É também fundamental discutir em detalhes as relações ENTRE as personagens presentes na obra, já que muitas vezes isso pode determinar a intensidade e a dinâmica de desenvolvimento das cenas. É importante também lembrar que cinema é uma arte colaborativa e que atores e diretores podem ter a liberdade para discutir todos os tópicos acima, no entanto, o diretor deve estar pronto e seguro para dar sugestões coerentes e orientar os atores acerca de todos os elementos aqui mencionados.
• Quais os objetivos e razões de cada personagem (O quê e por quê) – em nossas vidas, praticamente todas as nossas atitudes, decisões e ações são determinadas (ainda que inconscientemente) por objetivos e razões (ou justificativas).
Explicando: suponhamos que eu queira fazer aulas de violão para ser capaz de entreter meus amigos em festinhas ou acampamentos. Nessa simples sentença, já é possível identificar um OBJETIVO, ou o “O QUÊ” (aprender a tocar violão), e também uma razão/justificativa ou o “POR QUÊ” (para entreter meus amigos). Numa cena de romance, por exemplo, uma personagem pode querer SEDUZIR a outra (Objetivo) pois está apaixonada (razão/justificativa) ou pois quer obter favores especiais (outra possibilidade de justificativas, dependendo da obra). Em uma cena de ação policial um invetigador pode precisar prender um criminoso
67 (objetivo) pois o mesmo está pondo a vida de muitas pessoas em risco
(razão/justificativa). Dessa mesma forma, em qualquer cena, seja de cinema ou teatro, seja um filme leve de comédia, uma ação frenética ou um romance psicológico, cada personagem/ator deverá saber com clareza quais são seus objetivos e justificativas: o que a personagem deseja ou precisa alcançar/realizar. Embora isso possa parecer óbvio, frequentemente atores mal-treinados e diretores despreparados estão mais preocupados em decorar uma fala e uma posição de câmera do que em saber quais são seus objetivos e justificativas naquele momento! Consequentemente, as cenas podem resultar em
artificialidades e performances mecânicas. Já dizia Sanford Meisner, um dos gênios americanos do teatro e cinema: “minha maior dificuldade é lembrar aos atores e diretores como um ser humano anda, fala, ouve, pensa e reage na vida real!”. Ainda dentro desse mesmo subtópico, tão importante quanto descobrir os objetivos individuais de cada personagem é descobrir também quando esses objetivos são frustrados, ou seja, não podem ser alcançados ou realizados – o que tradicionalmente chamamos de “quebra de objetivo”, afinal de contas,
essas frustrações, fracassos ou “quebras de objetivos” são estímulos poderosos e devem certamente arrancar reações pertinentes das personagens. Para citar um exemplo, penso imediatamente na cena clássica do filme “Sindicato de Ladrões” de Elia Kazan (se ainda não assistiram, corram e assistam!), quando, dentro de um taxi, os irmãos interpretados magistralmente por Marlon Brando e Rod Steiger confrontam-se. O objetivo de Charley, o irmão mais velho (Steiger), é eliminar Terry (Brando), no entanto, por razões que não quero mencionar aqui para não “estragar” o filme para os leitores, Charley não consegue realizar/alcançar seu objetivo – ou seja, ocorre ali uma “quebra de objetivo”, e o resultado é uma das cenas mais contundentes da história do cinema (e aqui vale frisar que, tanto os atores quanto o próprio diretor eram adeptos fervorosos e praticantes do “Método” ou “Sistema” de Stanislvavsky). Logo, tão importante quanto saber O QUE a personagem deseja alcançar é perceber também em que momentos do roteiro existem essas tais “quebras de objetivos” ou frustrações. O diretor deve ficar atento a esses momentos (muitas vezes sutis) para ser capaz de orientar seus atores.
• Onde e quando as cenas acontecem – embora esse sub-tópico seja bastante auto- explicativo, lembre-se de saber com clareza o lugar e o momento em que as cenas se desenrolam para que haja coerência nas ações e reações das personagens. Um casal que briga e discute em seu próprio quarto à noite, por exemplo, certamente iria fazê-lo de maneira bem diferente do que se a discussão acontecesse num domingo à tarde no quarto de hóspedes da família da esposa, correto? Parece óbvio, não? Porém, lembre-se de que, provavelmente, durante as gravações, as cenas serão gravadas em uma locação artificial “dressada” e num horário diferente daquele apontado no roteiro. É relativamente comum que atores e diretores esqueçam completamente as circunstâncias (onde e quando) que envolvem as personagens. Consequentemente, as ações e reações podem, posteriormente (quando contextualizadas na obra através da montagem e edição), parecer incoerentes.
• Divisão da Obra em “Unidades” para facilitar os ensaios e a compreensão da estrutura narrative e dramática do roteiro – Agora que todos já possuem uma compreensão detalhada da obra, ou seja, sabemos quem são todos os envolvidos na história, onde e quando a história acontece e o que cada um deseja
68 em unidades menores para facilitar o processo de ensaio. Evidentemente, os
ensaios podem ser realizados cena-a-cena, ainda assim, uma divisão em unidades maiores agrupadas por coerência dramática pode auxiliar atores e diretores em suas escolhas artísticas. Posso citar, como exemplo, uma obra escrita para o palco que foi também adaptada para as telas - “As Bruxas de Salem” (The Crucible) de Arthur Miller. Poderíamos, a princípio, dividir a obra em quatro etapas dramáticas distintas: 1. A descoberta de atividades obscuras; 2. O início da farsa e das
acusações; 3. A revolta impotente dos acusados; 4. A ruptura da farsa e aplicação impiedosa das penas. Evidentemente, essas unidades podem ainda ser
subdivididas em unidades menores. Independente do número de divisões, saber que a
cena a ser ensaiada agora faz parte da “Revolta Impotente dos Acusados” pode ajudar bastante um diretor e seus atores.
• DICA: Nesse primeiro momento de “Análise da Obra”, evite cair na tentação de muitos diretores iniciantes – a realização da “leitura” da obra em grupo. Quando a obra é lida pelos atores antes mesmo da elaboração completa das personagens e da absorção profunda de todos os detalhes inerentes à história, sempre há o risco de que eles “memorizem” ou “decorem” determinadas falas ou maneirismos superficiais e incoerentes com a proposta maior da obra. Como diria Stanislasky, “Guardem as palavras do texto como se fossem pérolas. Cuidado para não desgastá-las.”. A leitura pode ser feita individualmente, a fim de estudar a obra. A “Leitura em Conjunto”, no entanto, deve ser poupada para o momento em que atores e diretores já conheçam a fundo as personagens e circunstâncias da história em questão, assim não haverá o “risco” de desenvolverem vícios incoerentes. CARACTERIZAÇÕES E CONSTRUÇÕES DE PERSONAGEM:
Agora que já realizamos a etapa “intelectual” de nosso trabalho com os atores, é chegado o momento de mergulhar na parte prática. Com base na análise já realizada, atores e diretores devem possuir um bom leque de informações específicas sobre cada