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2. Para uma abordagem global da nega•‚o

3.2. Predicados de “subida da nega€•o”

3.2.1. Classes de predicados

c. [INTENTION/VOLITION] want, intend, choose, plan

c’. [JUDGMENT/(WEAK) OBLIGATION] be supposed to, ought, should, be desirable, advise, suggest

Estas classes de predicados, entendidas como semƒnticas ainda que ilustradas por termos lexicais230, s•o tidas como universais, verificando-se num considerŠvel e diversificado nŒmero de l‚nguas.

Em contrapartida, os predicados enquanto termos lexicais, n•o t…m carŠcter universal: variam de l‚ngua para l‚ngua e, numa dada l‚ngua, de idiolecto para idiolecto.

A verifica€•o de que se estabelece, sobretudo com os predicados das classes (a), (a’) e (b) de (1), uma diferen€a entre for€a negativa (menor quando a nega€•o estŠ na ora€•o principal e maior quando estŠ na ora€•o complemento) permite concluir que estes predicados exprimem um grau de incerteza por parte do sujeito em rela€•o ao estado de coisas expresso na ora€•o complemento.

Partindo desta verifica€•o, Horn prop‹e um Princ‚pio de Incerteza231 para caracterizar os predicados compat‚veis com a subida da nega€•o em oposi€•o aos predicados que, pertencendo „s mesmas classes, n•o s•o compat‚veis com a subida da nega€•o.

Assim os predicados factivos, porque garantem necessariamente a verdade da proposi€•o expressa na ora€•o subordinada e, por isso, n•o s•o abrangidos pelo Princ‚pio de Incerteza, n•o s•o compat‚veis com a subida da nega€•o. Note-se, como exemplo, o predicado ser significativo:

(2) – significativo que ele tenha ido para casa.

Neste enunciado, o predicado da ora€•o principal (ser significativo) assegura que a proposi€•o expressa pela ora€•o subordinada (“ele ir para casa”) ‰ interpretada necessariamente como verdadeira.

Por sua vez, tamb‰m os predicados que implicam estritamente a proposi€•o expressa pela ora€•o subordinada de tal modo que, quando negados, implicam tamb‰m a nega€•o da proposi€•o subjacente „ ora€•o subordinada — n•o sendo, por isso, abrangidos pelo Princ‚pio de

230 Enquanto classes semƒnticas seria adequada uma defini€•o atrav‰s de propriedades gerais. Horn (1978:191) reconhece que “(...)we will not have a solution to the problem of characterizing the class, or classes, of NR predicates”.

231 Horn (1978:131-3) atribui este Princ‚pio de Incerteza a Poutsman e Bolinger e designa-o por Poutsman-Bolinger Uncertainty Principle ou simplesmente por Uncertainty Principle.

Incerteza — s•o incompat‚veis com a subida da nega€•o. Veja-se, como exemplo, o predicado conseguir:

(3) a. Consegui que ele fosse para casa.

b. N•o consegui que ele fosse para casa.

No enunciado (3a), o predicado conseguir implica que a proposi€•o subjacente „ ora€•o subordinada (“ele ir para casa”) ‰ verdadeira. Na interpreta€•o do enunciado (3b) a nega€•o na ora€•o principal (n€o consegui) implica a nega€•o da proposi€•o expressa na ora€•o subordinada (“ele ir para casa” n•o se verificou).

Com predicados destes dois tipos, ainda que possam ser considerados eventualmente como verbos de opini•o ou percep€•o (os factivos ser significativo, ser/estar certo, ser/estar seguro,...), ou ainda como verbos de inten€•o/voli€•o (os implicativos conseguir, aventurar-se, aborrecer-se,...), a subida da nega€•o n•o se verifica porque, como foi dito, o Princ‚pio de Incerteza n•o se aplica: entre o sujeito da ora€•o principal e o conteŒdo expresso na ora€•o subordinada estabelece-se uma rela€•o necessŠria independente de qualquer gradua€•o, n•o podendo, por isso, haver um maior ou menor grau de certeza ou incerteza.

Por‰m, factividade e implica€•o estrita n•o s•o suficientes para caracterizar os predicados incompat‚veis com a subida da nega€•o. Com efeito, predicados n•o interpretŠveis como factivos ou implicativos como ser capaz de, ser possƒvel, e ser permitido, entre outros, s•o igualmente incompat‚veis com a subida da nega€•o.

O Princ‚pio de Incerteza, proposto por Horn, embora, de um modo geral, possa caracterizar predicados de opini•o, de percep€•o e de probabilidade, dificilmente pode dar conta da oposi€•o entre os predicados de inten€•o/voli€•o e de ju‚zo/obriga€•o fraca que admitem a subida da nega€•o e os que n•o a admitem: predicados como querer, desejar, dever, ser aconselh‚vel s•o compat‚veis com a subida da nega€•o, mas predicados como ter de e ordenar, n•o o s•o. Por‰m, tanto desejar como ordenar podem ser entendidos como predicados de inten€•o/voli€•o, do mesmo modo que dever e ter de poderiam ser ambos inclu‚dos na classe dos predicados de ju‚zo/obriga€•o fraca232.

Horn (1978:194-195) prop‹e relacionar verbos compat‚veis e incompat‚veis com a subida da nega€•o, projectando-os numa

232 Em particular, quanto aos predicados de obriga€•o fraca, a quest•o seria a de determinar semanticamente os limites que permitem qualificar uma obriga€•o como fraca ou forte.

“metaescala” dupla de for€a modal que relaciona predicados epist‰micos e predicados de“nticos, definidos simplesmente como, respectivamente, “express•o de cren€a/conhecimento” (“belief-and knowledge-based”) e “expressˆo de permissˆo/obriga‡ˆo” (“obligation and permission-based”):

(4)

be able believe, suppose, think know, realize be possible be likely, probable be clear, evident

figure to be sure, certain

seem, appear, look like be odd, significant

WEAKER—

_________________________________________________________________________________

STRONGER

may, might should, ought to, better must, have to

can, could be supposed to, need, be necessary

allow, permit, let be desirable, advisable be obligatory

be allowed be a good idea make, cause, force

be legal want, choose, intend, plan to order, demand, force suggest, advise

Esta escala apresenta, na parte superior, os predicados considerados epist‰micos e, na parte inferior, os considerados de“nticos. Tanto uns como outros est•o organizados segundo graus de for€a modal: nos extremos os valores fraco e forte e, entre os dois, os valores interm‰dios.

Associada a esta escala, estŠ uma outra que permitirŠ organizar os termos negativos correspondentes, obedecendo aos seguintes princ‚pios:

(5)

(i) a nega€•o (contradit‡ria) de um valor escalar fraco (possible, allow) produzirŠ um valor forte na correspondente escala negativa (impossible, forbid)233;

(ii) a nega€•o de um valor escalar forte (certain, have to) produzirŠ um valor fraco na correspondente escala negativa (not certain, do(es)n’t have to);

(iii) a nega€•o (contradit‡ria) de um valor escalar interm‰dio (likely, advisable) produzirŠ um valor escalar interm‰dio na correspondente escala negativa (not likely, not advisable).

A escala de (4) situa na zona interm‰dia os predicados compat‚veis com a subida da nega€•o (grau escalar interm‰dio de for€a modal) e nos extremos os predicados incompat‚veis com a subida da nega€•o (os graus escalares de menor e de maior for€a modal).

Em (5), o princ‚pio (iii) indica, em confronto com (i) e (ii), que os predicados de subida da nega€•o apresentam o mesmo valor interm‰dio independentemente de ocorrerem na forma positiva ou negativa. Por sua vez, a nega€•o dos predicados extremos, n•o compat‚veis com a subida da nega€•o, origina o valor escalar oposto:

da negaۥo de um valor escalar forte resulta um valor fraco e da negaۥo de um valor escalar fraco resulta um valor escalar forte.

O princ‚pio (iii) de (5) prev… a semelhan€a funcional, t‚pica dos predicados compat‚veis com a subida da nega€•o, entre a nega€•o na ora€•o principal e a nega€•o na ora€•o subordinada.

A escala de (4) e os princ‚pios de (5) permitem tamb‰m explicar a incompatibilidade dos predicados factivos e implicativos com a subida da nega€•o: exprimem graus escalares fortes.

Quanto aos graus escalares fracos, n•o se verifica uma rela€•o de implica€•o com a proposi€•o expressa pela ora€•o subordinada, no entanto, quando negados, os predicados que indicam este grau escalar implicam jŠ a nega€•o da ora€•o subordinada:

(6) a. – poss‚vel trabalhar.

b. N•o ‰ poss‚vel trabalhar.

233 A incorpora€•o negativa, como por exemplo, no Portugu…s improv‚vel e desaconselh‚vel ser•o, segundo Horn (1978:195) n•o nega€‹es contradit‡rias, mas antes nega€‹es contrŠrias obtidas por subida da nega€•o a partir de prov‚vel e aconselh‚vel.

Para testar a compatibilidade com a subida da nega€•o ‰ assim necessŠrio verificar o comportamento dos predicados na forma positiva e na forma negativa. No enunciado (6a), com o predicado ser posssƒvel na forma positiva, trabalhar ou n€o trabalhar pode ser o caso. Por‰m, em (6b), estando o predicado ser possƒvel antecedido de n€o, apenas n€o trabalhar ‰ o caso. Predicados que apresentam este comportamento s•o tamb‰m incompat‚veis com a subida da nega€•o.

Em rela€•o „ proposta de Horn vŠrias objec€‹es se podem colocar, em particular234, as seguintes:

(i) se tanto os predicados epist‰micos como os de“nticos, correspondentes a valores escalares interm‰dios, s•o compat‚veis com a subida da nega€•o, ent•o alguma caracter‚stica deve ser partilhada pelas modalidades epist‰mica e de“ntica de modo a assegurar a referida compatibilidade235;

(ii) tendo apenas em conta a caracteriza€•o apresentada por Horn para o Princ‚pio de Incerteza, ‰ problemŠtico compatibilizar este princ‚pio com os predicados de inten€•o/voli€•o e de ju‚zo/obriga€•o fraca, em particular, e com os predicados de“nticos, em geral236.

De modo a explicitar estas objec€‹es tentaremos, numa primeira abordagem, necessariamente n•o desenvolvida, sugerir uma adapta€•o da teoria escalar de Horn a predicados do Portugu…s.

Respeitando as classes de predicados de subida da nega€•o propostas por Horn, os predicados, em Portugu…s, poderiam ser, entre outros, os seguintes237:

234 Para um inventŠrio cr‚tico mais abrangente ver HernŠndez (1985:196ss).

Oliveira (2000:181) refere tamb‰m o carŠcter incompleto da escala de Horn e adopta um outro processo de formaliza€•o metalingu‚stica que permite relacionar os valores modais de necessidade e possibilidade com a nega€•o.

235 Horn (1978:207), considerando que alguns predicados compat‚veis com a subida da nega€•o podem ser interpretados como epist‰micos ou de“nticos dependendo, entre outros aspectos, do tipo de ora€•o subordinada seleccionada, defende vagamente a ideia um tanto especulativa de que, todos os predicados compat‚veis com a subida da nega€•o s•o genericamente verbos de “opini•o” em sentido lato: os epist‰micos corresponderiam a uma opini•o de tipo mental (relacionada com a probabilidade ou verdade de um estado de coisas) e os de“nticos uma opini•o de tipo afectivo (relacionada com o desejo e o sucesso de um estado de coisas).

236 Sobre os predicados de inten€•o/voli€•o e de ju‚zo/obriga€•o fraca ver observa€‹es nas pŠginas anteriores. Quanto aos de“nticos, estes tendem a indicar uma obriga€•o forte.

237 No ƒmbito da TFE, alguns dos predicados de opini•o e de ju‚zo/obriga€•o fraca do Portugu…s foram estudados, nomeadamente na rela€•o com a subida da nega€•o, por Valentim (2005).

(7)

Opini•o: achar, crer, julgar, pensar,...

Percep€•o: parecer, dar a impress•o de,...

Probabilidade: ser provŠvel,...

Intenۥo/voliۥo: desejar, querer,...

Ju‚zo/obriga€•o fraca: dever, ser desejŠvel, ser aconselhŠvel,...

A inclus•o ou exclus•o de predicados das respectivas classes, consideradas como abertas, teria de ser objecto de uma anŠlise detalhada. Com efeito, a compatibilidade dos predicados com a subida da nega€•o, para al‰m de depender, como jŠ foi referido, de uma varia€•o entre l‚nguas e entre idiolectos, depende tamb‰m, numa dada l‚ngua, da rela€•o com categorias lingu‚sticas (pessoa, tempo e aspecto) e da polissemia dos pr‡prios predicados238.

Apesar destas reservas, note-se, as seguintes

“equival…ncias”239:

(8) a. N•o acho/creio/julgo/penso que ele venha hoje.

b. Acho/creio/julgo/penso que ele n•o vem hoje.

(9) a. N•o (me) parece/dŠ a impress•o que ele venha hoje.

b. Parece(-me)/dŠ(-me) a impress•o que ele n•o vem hoje.

238 O predicado julgar, por exemplo, pode ser compat‚vel com a subida da nega€•o quando se aproxima do significado do predicado pensar. Numa acep€•o pr‡xima a de sentenciar ou pronunciar uma sentenŒa, o predicado julgar seria incompat‚vel com a subida da nega€•o.

239 O termo “equival•ncia” est‰ entre aspas porque, como j‰ defendemos anteriormente nˆo se verifica uma equival•ncia estrita entre um enunciado com a nega‡ˆo na ora‡ˆo subordinada e o correspondente enunciado com nega‡ˆo na ora‡ˆo subordinante. Para Horn, por„m, a exist•ncia de uma equival•ncia sem•ntica „ necess‰ria, pelo menos, para justificar o fen•meno de subida da nega‡ˆo.

A compara‡ˆo do comportamento dos enunciados de (8) a (12) na rela‡ˆo com os modos indicativo e conjuntivo na ora‡ˆo subordinada, poderia constituir um outro argumento contra a equival•ncia sem•ntica. Assim, com os enunciados de (8) e de (9), a presen‡a da nega‡ˆo na ora‡ˆo principal obriga a que o predicado da ora‡ˆo subordinada ocorra no conjuntivo, nˆo sendo natural o modo indicativo (excepto no caso de uma nega‡ˆo necessariamente inter-subjectiva como a referida em (11) no subcap€tulo anterior): ?N€o acho que ele vem hoje. Por sua vez, a nega€•o na ora€•o subordinada obriga a que o predicado desta ora€•o esteja no indicativo, n•o sendo poss‚vel o conjuntivo: *Acho que ele n€o venha hoje. Em contexto positivo, os predicados exemplificados em (8) e (9) obrigam a que o predicado da ora€•o subordinada esteja no indicativo, n•o sendo aceitŠvel o conjuntivo: Acho que ele vem hoje/*Acho que ele venha hoje. Quanto aos enunciados de (10) a (12), verifica-se que o predicado da ora€•o subordinada estŠ no modo conjuntivo quer a nega€•o esteja na ora€•o principal, quer esteja na ora€•o subordinada. Quando estes predicados ocorrem em contexto positivo, o conjuntivo na ora€•o subordinada tamb‰m ‰ obrigat‡rio, n•o sendo aceitŠvel o indicativo: – provŠvel que ele venha hoje/*– provŠvel que ele vem hoje.

(10) a. N•o ‰ provŠvel que ele venha hoje.

b. – provŠvel que ele n•o venha hoje.

(11) a. N•o quero/desejo que ele venha hoje.

b. Quero/desejo que ele n•o venha hoje.

(12) a. N•o ‰ desejŠvel/aconselhŠvel que ele venha hoje.

b. – desejŠvel/aconselhŠvel que ele n•o venha hoje.

(13) a. Ele n•o deve vir hoje.

b. (?) Ele deve n•o vir hoje.

Nestes exemplos (de (8) a (13))240, os enunciados (a), com subida da nega€•o, podem ser interpretados, na perspectiva de Horn, como semanticamente equivalentes aos enunciados (b), com a nega€•o na ora€•o subordinada, n•o havendo entre estes dois tipos de enunciados altera€‹es significativas quanto ao estado de coisas designado.

Utilizando a escala modal de Horn, os predicados compat‚veis com TN e os predicados com valores escalares extremos podem ser organizados no seguinte quadro:

(14)

achar, crer, julgar, pensar saber

parecer, dar a impress•o ser/estar certo

ser poss‚vel ser provŠvel ser necessŠrio

poder (epist‰mico) dever (epist‰mico)

FRACO—

_______________________________________________________________________________

—FORTE

poder (?)dever(de“ntico) (?)dever(de“ntico)

(n•o epist‰mico) ser desejŠvel, ser aconselhŠvel ter de/que

permitir querer, desejar obrigar

ser permitido ser obrigat‡rio

exigir

240 Nos exemplos com o verbo dever (13) a ora€•o complemento ‰ infinitiva jŠ que este verbo n•o admite uma ora€•o subordinada integrante. Em (13b) o sinal de interroga€•o entre par…nteses indica que esse exemplo pode ser n•o aceitŠvel para alguns falantes.

No esquema (14), o sinal de interroga€•o entre par…nteses marca uma indefini€•o em rela€•o ao modal dever com valor de“ntico: apesar de poder ser entendido com um verbo de obriga€•o forte (representado, por isso, no extremo escalar dos predicados fortes), ‰, por‰m, compat‚vel com a subida da nega€•o (zona interm‰dia da escala).

Adiante se defenderŠ que a zona escalar interm‰dia seria a que melhor se adequaria ao valor de“ntico de dever.