2. Para uma abordagem global da nega•‚o
2.1. Representa€‹es e fun€‹es da nega€•o
2.1.7. Ducrot
Por estas duas raz‹es, a nega€•o proposicional ‰ identificada com a nega€•o predicativa, n•o sendo, portanto, necessŠrio distinguir entre nega€•o nexal e nega€•o modal. A nega€•o fica finalmente reduzida a tr…s casos: performativa, modal e proposicional (Lyons 1977:773)104:
Four kinds of negations may well be too many, but does seem clear that at least three kinds are required in order to handle utterances with an it-is-so tropic (i.e. statements and factual questions).
pressupostos (O rei de FranŒa n€o „ careca, j‚ que n€o existe nenhum rei de FranŒa).
No primeiro caso, a nega€•o ‰ interior ao conteŒdo proposicional, respeitando o princ‚pio fregeano de que todo o ju‚zo ‰ uma asser€•o. No segundo caso, a nega€•o (exterior ao conteŒdo proposicional) ‰ entendida como um acto de fala espec‚fico, distinto do de asser€•o, e correspondendo a uma refuta€•o.
A distin€•o entre estas duas fun€‹es da nega€•o pode ser ilustrada pelos seguintes exemplos (Ducrot 1972:38):
(34) a. N•o hŠ uma nuvem no c‰u.
b. Este muro n•o ‰ branco.
O exemplo (34a) poderia iniciar uma troca conversacional, sendo empregue para descrever o estado do c‰u, enquanto que o exemplo (34b) s‡ pode ser entendido como refuta€•o de uma afirma€•o pr‰via. No primeiro caso a nega€•o associa uma qualidade (o predicado negativo n€o existir) a um referente (designado por nuvens): “quanto a nuvens, nˆo existem”; no segundo caso, associa dois enunciados: Este muro n€o
„ branco constitui a refuta€•o de Este muro „ branco.
Contrariando a observa€•o de Strawson, relativa ao carŠcter secundŠrio e n•o natural das frases em que a nega€•o anula os pressupostos, Ducrot (1972) contrap‹e que os exemplos geralmente apresentados para ilustrar esta quest•o s•o linguisticamente pouco adequados, jŠ que dizem respeito a personagens cuja exist…ncia ‰, em geral, (in)questionŠvel (o rei de Fran€a, Kepler,...). Exemplos menos artificiosos poderiam demonstrar mais adequadamente que a nega€•o externa com anula€•o dos pressupostos n•o ‰ marginal nas l‚nguas naturais: “Supposons qu’on me menace de contravention sous pr‰texte que ma voiture est mal gar‰e, je peux r‰pondre que ma voiture n’est pas mal gar‰e — puisque je n’ai pas de voiture.” Ducrot (1972:39)
Em Ducrot (1973:117-131) a distin€•o entre nega€•o descritiva e nega€•o pol‰mica ‰ teoricamente reenquadrada e linguisticamente mais desenvolvida. O ponto de partida do autor jŠ n•o ‰ tanto o de adoptar uma perspectiva russelliana, mas antes o de operar uma s‚ntese que ultrapasse a ant‚tese entre o princ‚pio fregeano de que “tout jugement est une affirmation” e o princ€pio pragm‰tico (genericamente atribu€do Œ escola de Oxford) de que um enunciado negativo implica uma atitude psicol•gica espec€fica distinta da que se verifica com os enunciados afirmativos. Tal atitude psicol•gica constituiria assim uma “modalit„ du jugement”. Para al„m disso, Ducrot tenta adequar
esta ant‚tese „ distin€•o transformacionalista entre nega€•o de frase e nega€•o de constituinte/predicado (Klima 1964; Jackendoff 1969).
Deste modo, a nega€•o de predicado, seguindo Frege, ‰ entendida como interior ao conteŒdo proposicional, jŠ que nestes casos n•o se verifica a refuta€•o do enunciado pr‰vio correspondente: uma frase como Alguns amigos n€o vieram n•o pode ser entendida como refuta€•o de Alguns amigos vieram. Ent•o, apenas a nega€•o de frase (exterior ao conteŒdo proposicional) poderŠ eventualmente ser compat‚vel com um acto de fala negativo, ou seja, com uma “modalit„ du jugement”.
Ducrot propŠe que a fun‡ˆo pol„mica da nega‡ˆo, sendo a refuta‡ˆo de um enunciado positivo, constitui um acto de fala negativo e, neste caso, corresponder‰ sempre a uma nega‡ˆo de frase, ou seja, exterior ao conte”do proposicional. Quanto Œ fun‡ˆo descritiva da nega‡ˆo, esta consistir‰ na “afirma‡ˆo de um conte”do negativo, sem refer•ncia a uma afirma‡ˆo antit„tica” e, neste caso, tanto poder‰ corresponder a uma nega‡ˆo de frase como a uma nega‡ˆo de constituinte.
Para sustentar a sua proposta, Ducrot refere tr•s casos: a rela‡ˆo da nega‡ˆo com (i) o verbo devoir, com (ii) pares de termos contrŠrios e com (iii) os pressupostos.
A rela€•o entre a nega€•o e o verbo devoir, tal como se verifica tamb‰m com o verbo dever em Portugu…s, gera ambiguidade na medida em que n€o dever X pode significar “nˆo ter o direito de X/ser proibido X” ou “nˆo ser obrigado a X”:
(35) O Pedro nˆo deve fumar.
(36) A — Ser‰ que devo regressar?
B — Nˆo, tu nˆo deves regressar, mas seria simp‰tico se regressasses.
Esta ambiguidade, associada ao modal dever, pode ser anulada recorrendo „ distin€•o entre nega€•o descritiva e nega€•o pol‰mica.
Em (35), a nega€•o ‰ descritiva: atrav‰s de um acto de afirma€•o ‰ produzida uma informa€•o negativa; em (36), n€o deves op‹e-se a devo (com um sentido pr•ximo de “obriga‡ˆo”): atrav„s de um acto de nega‡ˆo „ refutado um conte”do positivo107. Aplicando os crit‰rios de Klima (1964), Ducrot conclui que a nega€•o pol‰mica de (36) corresponde a uma nega€•o de frase, enquanto que a nega€•o descritiva de (35) corresponde a uma nega€•o de constituinte (sobre dever).
107 A rela€•o entre dever e a nega€•o serŠ desenvolvida no cap‚tulo 3.
Quanto „ nega€•o de termos contrŠrios como, por exemplo, bonito/feio, os resultados obtidos s•o distintos, dependendo do termo negado:
(37) a. O Pedro n•o ‰ bonito.
b. O Pedro n•o ‰ feio.
A nega€•o do termo “favorŠvel”108, como exemplificado em (37a), corresponde aproximadamente „ afirma€•o do termo contrŠrio: O Pedro n€o „ bonito seria, na aus…ncia de um contexto particular, um equivalente aproximado a O Pedro „ feio. Por‰m, a nega€•o do termo
“desfavorŠvel”, como em (37b) cria um valor interm‰dio entre os dois termos contrŠrios: O Pedro n€o „ feio n•o equivale a O Pedro „ bonito, designando antes um valor interm‰dio entre feio e bonito.
Aplicados os crit‰rios de Klima, Ducrot conclui que a nega€•o do termo “desfavorŠvel” constitui uma nega€•o de frase e que a nega€•o do termo favorŠvel constitui uma nega€•o de constituinte.
Tal como exemplificado em (37), a assimetria explicitada apenas se verifica quando a nega€•o tem uma fun€•o descritiva. No caso da nega€•o pol‰mica pode verificar-se uma simetria: a nega€•o do termo
“favorŠvel” pode resultar, tal como se verifica com o termo
“desfavorŠvel” na constru€•o de um valor interm‰dio:
(38) Locutor A — O Pedro ‰ bonito.
Locutor B — O Pedro n•o ‰ bonito, mas tamb‰m n•o ‰ feio.
Em (38), em contexto pol‰mico, a nega€•o de bonito n•o ‰ jŠ a afirma€•o do seu contrŠrio. Aplicando o teste de Klima, Ducrot defende que em (38) estamos perante uma nega€•o de frase.
A rela€•o entre nega€•o e pressuposi€•o, tal como referido anteriomente jŠ tinha sido abordada em Ducrot (1972) a prop‡sito dos pressupostos de exist…ncia.
Em Ducrot (1973:128) essa quest•o ‰ alargada a outros tipos de pressupostos. Recuperando a distin€•o entre pos„ (a informa€•o que o locutor transmite no enunciado ao destinatŠrio) e pr„suppos„
(informa€•o jŠ conhecida e transmitida no arri…re-plan da enuncia€•o), o autor defende que a nega€•o que mant‰m os pressupostos
108 Ducrot (1973:127) refere que as designa‡Šes “favor‰vel/desfavor‰vel” nˆo sˆo as mais apropriadas e que, neste sentido, poderiam ser substitu€das pelas designa‡Šes de “marcado/nˆo marcado”, expressŠes linguisticamente adequadas e de alcance mais gen„rico. Ambas as op‡Šes, por„m, indicam uma visˆo puramente lexical deste fen•meno, j‰ que se trata de propriedades ou de tra‡os, em princ€pio, inerentes aos lexemas.
‰ predominante109: “Car la plupart des n„gations — en tout cas des n„gations descriptives — ont cette caract„ristique de maintenir le pr„suppos„ de la phrase positive, et de porter seulement sur son pos„”. Ducrot especifica que seria “dif€cil” enunciar frases como, por exemplo, as de (39) sem manter os pressupostos das frases positivas correspondentes, explicitados, respectivamente, em (40):
(39) a. O Pedro nˆo sabe que o Joˆo vem.
b. O Pedro nˆo continuou a trabalhar esta manhˆ.
(40) a. O Joˆo vem.
b. O Pedro trabalhou anteriormente.
Retomando o que j‰ tinha defendido no texto de 1972, Ducrot (1973) reafirma que a nega‡ˆo pol„mica, associada a uma refuta‡ˆo e, por isso, constituindo um acto de nega‡ˆo, tanto pode incidir sobre o posto (exemplos (41)) como sobre o pressuposto (exemplos (42)):
(41) a. O Pedro nˆo sabe que o Joˆo vem porque ningu„m lhe disse.
b. O Pedro nˆo continuou a trabalhar esta manhˆ porque foi ao m„dico.
(42) a. O Pedro nˆo sabe que o Joˆo vem porque o Joˆo nˆo vem.
b. O Pedro nˆo continuou a trabalhar esta manhˆ porque nunca trabalhou antes.
Por sua vez, a nega‡ˆo descritiva mant„m necessariamente os pressupostos, j‰ que nˆo tem um valor refutativo.
A proposta de uma abordagem polif•nica da linguagem conduz Ducrot (1980:49-56) a reformular a sua explica‡ˆo do funcionamento da nega‡ˆo. Distinguindo entre, por um lado, locutor/alocut‰rio (respectivamente “o autor e o receptor das palavras”) e, por outro lado, enunciador/destinat‰rio (respectivamente “o agente e o paciente dos actos ilocut•rios”)110, Ducrot prop‹e que “toute enonc‰ negatif [est] une sorte de dialogue cristalis‰” (Ducrot 1980:50).
109 Aproximando-se assim do ponto de vista de Strawson.
110 Mais adiante serŠ debatida, a partir de textos de Culioli, uma outra distin€•o entre locutor e enunciador.
Um enunciado negativo com a forma n€o-p serŠ ent•o definido como o resultado de dois actos ilocut‡rios: a asser€•o de p por um enunciador e a refuta€•o (refus) de p por um outro enunciador. Ambos os enunciadores s•o constru‚dos111 a partir do locutor que produz o enunciado negativo, n•o podendo haver uma identifica€•o entre o enunciador que assere e o que refuta. A asser€•o positiva ‰ atribu‚da a um alocutŠrio ou a um terceiro elemento n•o presente na enuncia€•o.
Esta proposta serŠ ligeiramente revista em Ducrot (1984:214-22), tendo por motiva€•o uma redefini€•o da distin€•o entre locutor e enunciador. O locutor, associado „ “parole”, ‰ responsŠvel pela enuncia€•o; por sua vez, o enunciador ‰ o responsŠvel pelos pontos de vista veiculados pelo enunciado:
(...) le locuteur pr‰sente une ‰nonciation — dont il se d‰clare responsable — comme exprimant des attitudes dont il peut refuser la responsabilit‰. Le locuteur parle au sens (...) c’est-„-dire qu’il est donn‰ comme la source d’un discours.
Mais les attitudes exprim‰es dans ce discours peuvent …tre attribu‰es „ des ‰nonciateurs dont il se distancie (...) (Ducrot 1984:208)112
Esta nova reformula€•o do estatuto do locutor e do enunciador obriga „ revis•o da explica€•o do funcionamento da nega€•o:
[La] th‘se des Mots du discours [Ducrot 1980], je suis oblig‰
de la reformuler maintenant en des termes diff‰rents puisque je ne peux plus attribuer aux ‰nonciateurs un acte illocutoire comme l’affirmation — les ‰nonciateurs n’‰tant li‰s „ aucune parole. Il me faut comprendre A1 [affirmation] et A2 [refus], non pas comme des actes, mais comme des points de vue oppos‰s.
Cependant, l’essentiel de la description demeure. (Ducrot 1984:215)
A explica€•o da nega€•o tal como apresentada em Ducrot (1980), apesar da sua reformula€•o em Ducrot (1984), contraria, pelo menos em parte, a distin€•o anterior entre nega€•o descritiva e nega€•o pol‰mica, jŠ que os enunciados negativos, por defini€•o, s•o tipicamente pol‰micos: op‹em uma asser€•o a uma refuta€•o,
111 Ou “encenados” para usar o termo de Ducrot.
112 Ducrot (1984: 208) distingue ainda o locutor do sujeito falante emp‚rico, ou seja, do “produtor efectivo”: o primeiro ‰ um “ser do discurso que pertence ao enunciado”, o segundo ‰ uma entidade extra-lingu‚stica.
independentemente de asser€•o e refuta€•o serem considerados como actos ilocut‡rios ou como pontos de vista.
A distin€•o entre locutor e enunciador apresentada em Ducrot (1984) conduzirŠ „ introdu€•o de um outro tipo de nega€•o (a nega€•o metalingu‚stica) e „ reformula€•o do conceito de nega€•o pol‰mica.
Paralelamente, a oposi€•o entre nega€•o pol‰mica e nega€•o metalingu‚stica constituirŠ precisamente um dos argumentos a favor da relevƒncia da distin€•o entre locutor e enunciador. Assim, Ducrot (1984:217-218) prop‹e tr…s tipos de nega€•o.
A nega€•o metalingu‚stica “contredit les termes m…mes d’une parole effective „ laquelle elle s’oppose”. O enunciado negativo reenvia para uma enuncia€•o anterior, estabelecendo uma oposi€•o entre dois locutores: o do enunciado negativo e o do enunciado positivo correspondente. A nega€•o metalingu‚stica permite, por isso, anular os pressupostos do enunciado positivo que contraria:
(43) O Pedro n•o deixou de fumar; na verdade, ele nunca fumou.
O enunciado (43) constitui a r‰plica a um locutor que efectivamente afirmou O Pedro deixou de fumar.
O valor majorante que a nega€•o pode adquirir tamb‰m se explica no ƒmbito da nega€•o metalingu‚stica, pois constitui igualmente um caso de refuta€•o de um locutor oponente:
(44) O Pedro n•o ‰ inteligente; ‰ genial.
Este enunciado apenas pode ser produzido como resposta a um locutor que efectivamente afirmou O Pedro „ inteligente.
Por sua vez, a nega€•o pol‰mica constitui uma oposi€•o entre enunciadores:
(45) O Pedro n•o ‰ inteligente.
No enunciado (45), o locutor identifica-se com um enunciador que refuta um outro enunciador que se inscreve no pr‡prio enunciado negativo e que, por isso, n•o ‰ identificŠvel com um locutor oponente, ou seja, com o autor de um discurso efectivamente produzido: “L’attitude positive „ laquelle le locuteur s’oppose est interne au discours dans lequel elle est contest‰e” (Ducrot 1984:218). Ao contrŠrio da nega€•o metalingu‚stica, a nega€•o pol‰mica conserva os pressupostos e tem um efeito minorante.
Por fim, a nega€•o descritiva, tendo em conta a estrutura do enunciado negativo como o resultado de uma oposi€•o entre asser€•o e refuta€•o, ‰ entendida como um “derivado delocutivo” da nega€•o pol‰mica. Assim a capacidade descritiva de um enunciado como o de (45) s‡ ‰ poss‚vel na medida em que se atribui uma caracter‚stica (n€o inteligente) que “justifica a posi‡ˆo do locutor no di‰logo cristalizado subjacente Œ nega‡ˆo pol„mica”: “dire de quelqu’un qu’il n’est pas intelligent, c’est lui attribuer la (pseudo-)propri„t„ qui l„gitimerait de s’opposer Œ un „nonciateur ayant affirm„ qu’il est intelligent” (Ducrot 1984:218).
No seguimento da caracteriza‡ˆo da nega‡ˆo descritiva como uma deriva‡ˆo delocutiva da nega‡ˆo pol„mica, proposta por Ducrot (1984), N•lke (1992) tenta demonstrar que, com o termo negativo do Franc•s ne... pas, a leitura descritiva da nega€•o ‰ efectivamente uma deriva€•o que resulta do apagamento de um ponto de vista posto, ou seja, de um enunciador oponente. Para tal, NŸlke farŠ um estudo de factores contextuais, distinguindo entre contextos que bloqueiam a leitura descritiva e contextos que favorecem a leitura descritiva da nega€•o, a qual, por princ‚pio, ‰ sempre entendida como pol‰mica.