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Identificaۥo e diferenciaۥo

1. A nega•‚o na Teoria Formal Enunciativa

1.2. A negaۥo em Culioli

1.2.2. Identificaۥo e diferenciaۥo

rigueur; ‡ peine;); por outro lado, s•o a express•o de uma opera€•o complexa (formada a partir de opera€‹es como constru€•o da classe das ocorr…ncias abstractas validŠveis, percurso, invers•o do gradiente do centro para o exterior, ruptura, diferencia€•o, sa‚da da zona de valida€•o).

A nega€•o constru‚da ‰ indissociŠvel da nega€•o primitiva.

Deste modo, tamb‰m a nega€•o constru‚da, ou seja, tamb‰m um termo lingu‚stico negativo, pode ser entendido como correspondendo a uma opera€•o qualitativa — rejei€•o por um sujeito do que ‰ avaliado como desfavorŠvel — ou a uma opera€•o quantitativa — nega€•o da localisation42 e da exist…ncia.

A importƒncia primordial da identifica€•o fundamenta a estrutura em came43, mostrando “o car‰cter privilegiado do termo positivo como representante de uma lexis que n•o ‰ positiva ou negativa mas compat‚vel com o positivo e o negativo” (Culioli 1988:96). Em texto anterior, (1968:29), Culioli tinha jŠ referido a rela€•o entre a lexis, a afirma€•o e a nega€•o nos seguintes termos:

Il est remarquable que la lexis et l’affirmation aient la m…me forme („ l’ordre pr‘s, et quelques autres diff‰rences non pertinentes dans cette discussion), alors que la n‰gation se signale par l’adjonction d’un marqueur. D’un autre c“t‰, des consid‰rations strictement linguistiques confirment nettement la th‘se selon laquelle il n’existe pas de lexis n‰gative (en d’autres termes, la n‰gation porte sur la lexis, qui, elle, n’est ni affirmative ni n‰gative. On trouve une structure en came:

A importƒncia primordial da identifica€•o explica tamb‰m que a nega€•o de uma rela€•o de identifica€•o n•o consista, em algumas l‚nguas, apenas na adjun€•o do marcador de nega€•o ao predicado.

Assim em Japon…s, (Culioli 1996:75), a nega€•o do enunciado (1), que marca uma rela€•o de identifica€•o, corresponde a (2)44:

43 “De tr‹s nombreux syst‹mes sont munis d’une structure en “came” (...):

Il ne s’agit pas ici d’une involution: le sch„ma n’est pas Œ deux dimensions, et ā-1 amorce une spirale, puis se projette en a, et le cycle recommence” (Culioli 1968:27).

Em outras aplica€‹es da estrutura em came a posi€•o ā-1 corresponde a IE ou (p,p’), a posi€•o a corresponde a I ou p e a posi€•o ā a E ou p’.

44 Em (1) e (2) “part.” significa part€cula.

(1) kono hon wa jibiki desu este livro part. dicionŠrio c‡pula Este livro ‰ um dicionŠrio

(2) kono hon wa jibiki de wa arimasen este livro part. dicionŠrio part. part. predicado Este livro n•o ‰ um dicionŠrio

A nega€•o da identifica€•o, neste caso, n•o incide directamente sobre o enunciado (1), sendo necessŠrio passar por uma constru€•o modal interm‰dia, a partir da qual se constr‡i ent•o a nega€•o.

Em Japon…s, a part‚cula wa (em (1) e (2)) marca uma tematiza€•o e a part‚cula de (em (2) apenas) indica uma n•o autonomia enunciativa (ou seja, indica n•o a constru€•o de uma ocorr…ncia, mas o reenvio para a no€•o e para a rela€•o da no€•o com um termo no contexto). Por sua vez, a forma verbal copulativa do enunciado (1) (desu) ‰ substitu‚da por uma forma verbal espec‚fica (arimasen) que indica “a nega‡ˆo do predicado de exist•ncia”. Assim, o enunciado (1) poderia ser parafraseado por (3) e o enunciado (2), por (4):

(3) Quanto a este livro, „ um dicion‰rio.

(4) Quanto a este livro, quanto ao dom€nio <dicion‰rio> (em rela‡ˆo com livro), isso nˆo existe.

Verifica-se que a nega‡ˆo de uma rela‡ˆo de identifica‡ˆo se estrutura a partir da separa‡ˆo dos dois membros que se identificam entre si e a partir da elimina‡ˆo da acessibilidade entre esses dois membros45.

Como anteriormente foi referido, a rela€•o entre identifica€•o e diferencia€•o permite estruturar o dom‚nio nocional (classe das ocorr…ncias abstractas de um no€•o) em zonas. Qualquer ocorr…ncia de uma no€•o ‰ obrigatoriamente localizada numa das zonas pelo sujeito enunciador. Localizar pode corresponder a seleccionar uma zona e eliminar as restantes, mas pode corresponder tamb‰m „ constru€•o de

45 Na anŠlise da nega€•o em enunciados de identifica€•o, para al‰m do Japon…s, Culioli (1996) refere ainda o Vietnamita e o Tupuri. Nestas l‚nguas a nega€•o da identifica€•o ‰ constru‚da indirectamente, passando por uma fase interm‰dia. Noutras l‚nguas (Culioli 1988:97), a nega€•o de um enunciado de identifica€•o ‰ feita a partir de um marcador particular (Khmer e Thai).

uma posi€•o exterior ao dom‚nio (IE)46, a partir da qual se constr‡i um caminho que conduz „s zonas do dom‚nio (Culioli 1988:98-99):

Le graphe prototypique est celui de la bifurcation: „ la pointe, on n’est pas ni en I ni en E, mais de la pointe, I ou E est accessible. Si l’on note IE (E renfor€‰) (la notation IE marque que l’on est en-de€a du choix entre E et I, c’est-„-dire dans une situation compatible avec, ‰ventuellement soit I, soit E), la position d‰croch‰e, on voit que l’on peut tracer deux chemins, l’un vers I, l’autre vers E, oš tracer un chemin signifie repr‰senter (1) qu’il y a un hiatus entre la position de d‰part et la zone d’arriv‰e (2) que ce hiatus peut …tre combl‰ (3) que l’on peut effectuer sur la bifurcation diverses op‰rations: conserver les deux chemins, en ‰liminer un, pond‰rer un chemin para rapport „ l’autre, etc.

A bifurcaۥo pode graficamente ser representada do seguinte modo:

I E

IE

A rela€•o entre a posi€•o IE e as zonas do dom‚nio, se esta rela€•o for ordenada, pode tamb‰m ser representada por uma estrutura em came. Assim, estabelecendo uma ordem entre IE, I e E — passagem de IE a I e depois a E, havendo assim a possibilidade de uma transi€•o de I a E e, finalmente, regresso a IE — obt‰m-se ent•o uma estrutura em came47.

46 Deve ler-se “E refor€ado”, designado “E” um exterior que n•o se confunde com a zona exterior do dom‚nio nocional. Como foi referido, a posi€•o IE situa-se fora do dom‚nio nocional.

47 A representa€•o grŠfica da came jŠ foi apresentada anteriormente neste subcap‚tulo.

Resumindo, a partir de uma posi€•o IE, pode assim ser seleccionada uma zona eliminando a zona alternativa, ou pode ser privilegiada uma zona sem eliminar a zona alternativa. Neste segundo caso, ‰ constru‚da uma rela€•o ponderada. Tal rela€•o origina uma representa€•o em pares ponderados, correspondendo „s seguintes configura€‹es poss‚veis: I E; I E; I E; I E. O sublinhado indica qual a zona ponderada, respectivamente, pondera€•o do Interior, pondera€•o do Exterior, pondera€•o do Interior e do Exterior (equipondera€•o) e, finalmente, n•o pondera€•o nem do Interior nem do Exterior. Para al‰m destas hip‡teses, a zona I e E do dom‚nio tamb‰m pode constituir um par com a posi€•o IE: IE I ou IE E.

Culioli (1987a:123-124; 1988:100-106) apresenta diversos exemplos de aplica€•o da representa€•o em pares ponderados. Desses exemplos iremos apenas desenvolver aquele que, segundo Culioli, privilegia, a localiza€•o da rela€•o predicativa pelo parƒmetro enunciativo T (espa€o-tempo). O objectivo, ao seleccionar este caso,

‰ o de demonstrar que, mesmo operando sobre o parƒmetro T, a rela€•o predicativa ‰, em Œltima anŠlise, localizada subjectivamente, ou seja, pelo parƒmetro sujeito de enuncia€•o48.

Culioli (1988:103-104) considera que, a partir da projec€•o da rela€•o predicativa em dois instantes temporais ordenados (tm e tn) os pares ponderados IE I, IE I, I E e I E constituem valores representados pelos marcadores pas-encore, d„j‡, encore e ne-plus do Franc…s49. A mesma formaliza€•o explicativa pode ser empregue no Portugu…s com uma diferen€a em rela€•o ao marcador ne-plus, que, neste caso50, corresponderŠ no Portugu…s a j‚ n€o51:

48 Tal como reconhece Culioli (1988:105) ao admitir, a prop‡sito do exemplo que vamos considerar, que “nous avons travaill‰ sur le param‘tre T, m…me si, par l’op‰ration de valuation, nous avons r‰-introduit S”. Por‰m, a introdu€•o do parƒmetro sujeito n•o permite apenas construir uma avalia€•o subjectiva. A introdu€•o de tal parƒmetro ‰ necessŠria para localizar os valores temporais, ou, dito de outro modo, sem localiza€•o subjectiva n•o ‰ poss‚vel definir valores temporais: em Sit, o parƒmetro T n•o ‰ aut‡nomo.

49 Os pares ponderados est•o organizados segundo uma estrutura em came. As opera€‹es em causa est•o ordenadas do seguinte modo: partindo de uma posi€•o IE, passagem de IE a I e passagem de I a E.

50 A tradu€•o literal de ne-plus para o Portugu…s seria n€o mais. Esta tradu€•o n•o ‰ adequada. Com efeito, em (5e), para obter um marcador correspondente ao do Franc…s terŠ de se optar por j‚ n€o. Assim sendo, em Portugu…s, os quatro valores ponderados s•o obtidos a partir de dois marcadores (ainda e j‚) e n•o a partir de tr…s como no Franc…s (encore, d„j‡

e plus). Culioli n•o apresenta enunciados para exemplificar estes marcadores. Assim, os enunciados (5) s•o propostos por n‡s.

51 Uma anŠlise, no ƒmbito da TFE, dos vŠrios valores do marcador j‚ foi proposta por Campos (1984).

(5) a. O Jo•o ainda n•o comeu.

b. O Jo•o jŠ comeu.

c. O Jo•o ainda estŠ a comer.

e. O Jo•o jŠ n•o estŠ a comer.

Considerando uma rela€•o predicativa <r>52, no caso <Jo•o comer>, situada em rela€•o a dois instantes temporais ordenados tm e tn (sendo o primeiro anterior ao segundo), verifica-se o seguinte.

No exemplo (5a) o sujeito enunciador (S0) identifica-se com uma posi€•o IE situada temporalmente em tm, instante temporal anterior „ localiza€•o de <r> em tn. O instante tm pode ser definido como aquele em que se situa S0, e tn como aquele em que se situa <r>. S0, numa posi€•o anterior „ valida€•o ou n•o valida€•o (IE), considera <r>

como a validar, ou seja como a localizar em I: ainda n€o corresponde ao par ponderado IE I.

Em (5b), as posi€‹es s•o invertidas. Partindo de uma posi€•o IE, S0 em tn constr‡i <r> como validada em tm. Assim tn corresponde ao tempo em se situa S0, sendo este instante temporal anterior „quele em que se situa <r>. Partindo de uma posi€•o IE, S0 validou <r>: j‚

corresponde ao par ponderado IE I.

Em (5c), S0 e a validaۥo de <r> situam-se ambos em tm (posiۥo em I): o mesmo instante temporal localiza ambos os elementos (S0 e

<r>). Em tn (posterior a tm) situa-se a conclus•o do acontecimento ou seja a passagem de <r> a E (n•o valida€•o). Assim, o marcador ainda corresponde ao par ponderado I, E.

Em (5d), S0 situa-se em tn e <r> validada em tm. A posi€•o em que se situa S0 ‰ temporalmente posterior „ valida€•o de <r>

(localiza€•o de <r> em I). Assim em tn, posi€•o subjectiva, <r> ‰ n•o validada (localiza€•o de S0 em E). O marcador j‚ n€o corresponde ao par ponderado I E.

Em s‚ntese, o parƒmetro tempo n•o ‰ aut‡nomo em rela€•o ao parƒmetro sujeito: a zona ponderada ‰ aquela em que se situa o sujeito de enuncia€•o (S0), ou seja aquilo que ‰ o caso no instante em que o sujeito produz o enunciado, independentemente de S0 se situar em tm ou tn

53.

52 A express•o <r> ‰ uma designa€•o abreviada que pretende representar uma rela€•o predicativa independentemente dos termos lexicais particulares que a saturam. Assim, a rela€•o predicativa pode ser representada por <arb> ou simplesmente por <r>, jŠ que ‰ a partir do operador de predica€•o (r) que se orientam os argumentos na rela€•o primitiva.

53 Uma constata€•o suplementar pode ser feita: a rela€•o entre IE e I estŠ associada ao passado (comeu) e a rela€•o entre I e E, ao presente (est‚ a comer).