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Negaۥo e complementos quantificados

2. Para uma abordagem global da nega•‚o

2.2. Uma abordagem enunciativa da negaۥo

2.2.8. Negaۥo e complementos quantificados

Em contrapartida, em (66), a possibilidade de se estabelecer uma rela€•o de localiza€•o entre o termo localizado a mulher e um termo localizador marcado pela primeira pessoa singular indicada no morfema flexional da forma verbal tenho torna o enunciado aceitŠvel mesmo que o possessivo minha n•o esteja lexicalizado.

escalares e complementos determinados por numerais ‰ abordada em Jespersen (1917), sendo ilustrada, pelo autor, com os seguintes exemplos208:

(68) a. Ele n•o l… 3 livros por ano.

b. A colina n•o tem 200 p‰s de altitude.

c. Ele n•o ganha 200 libras por ano.

d. Ele n•o a v… uma vez por semana.

Em todos estes exemplos, a nega€•o estŠ associada a um valor minorante, respectivamente, “menos de 3”, “menos de 200 p‰s”, “menos de 200 libras” e “menos de uma vez”.

Em contrapartida, Jespersen refere que num enunciado como (69) Ele n•o vive com 200 libras por ano.

a nega€•o indica um valor majorante, ou seja, “mais do que 200 libras”.

No excerto anteriormente citado de Jespersen, pode verificar-se que o autor associa o valor quantificado a uma qualifica€•o. Tal associa€•o explica que “diferente de 4” n•o corresponde a um valor superior ou inferior a 4, mas apenas a um valor inferior a 4.

Deste modo, uma determina€•o quantitativa em rela€•o com a nega€•o estŠ associada a um avalia€•o subjectiva de um valor esperado:

What the exact import is of a negative quantitative indication may in some instances depend on what is expected, or what is the direction of thought in each case. (Jespersen 1917:82)

Uma determina€•o num‰rica pode, assim, em rela€•o com a nega€•o, ser localizada como um maximum ou como um minimum.

A constru€•o deste valor mŠximo ou m‚nimo depende da localiza€•o em rela€•o ao sujeito e, no caso de viver com, tamb‰m das propriedades do predicado envolvido.

No seguinte enunciado, correspondente positivo ao enunciado negativo (68a),

208 Traduzidos do excerto de Jespersen anteriormente citado. O exemplo (68a)

‰ anŠlogo ao exemplo (67b) de Horn/Moeschler.

(70) Ele l… 3 livros por ano.

a determina€•o do nominal livros marcada pelo numeral ‰ estritamente quantitativa, n•o estando associada a uma avalia€•o subjectiva que relativize o valor como mŠximo ou m‚nimo. N•o havendo uma avalia€•o qualitativa, a ocorr…ncia designada por 3 livros n•o ‰ situada sobre o gradiente, sendo apenas localizada a partir do tipo. A ocorr…ncia 3 livros ‰, no enunciado positivo, neutra de um ponto de vista qualitativo.

A introduۥo da negaۥo acrescenta uma delimitaۥo qualitativa

„ delimita€•o quantitativa. Assim, no enunciado (68a), e restantes enunciados de (68), o complemento determinado pelo numeral corresponde a um valor mŠximo que resulta de uma avalia€•o subjectiva: qualquer que seja a quantifica€•o num‰rica em causa (3 livros, 200 p„s, 200 libras, uma vez por semana), esta ‰ considerada como superior em rela€•o „ quantifica€•o que se verifica. Deste modo, a nega€•o activa o gradiente no interior do dom‚nio nocional, permitindo relacionar qualitativamente a ocorr…ncia com o atractor e com o exterior.

A nega€•o nos enunciados (68) tem uma dupla fun€•o: por um lado, ao qualificar uma quantifica€•o como um valor mŠximo/superior, a ocorr…ncia ‰ avaliada a partir da localiza€•o em rela€•o a um gradiente orientado para o atractor; por outro lado, invertendo a orienta€•o do gradiente para o exterior, resulta a interpreta€•o de um valor inferior. Como a invers•o ‰ situada a partir de uma avalia€•o qualitativa, o valor inferior ‰ quantitativamente indefinido (apenas “menos que”), excepto se especificado contextualmente atrav‰s de uma rectifica€•o:

(71) Ele n•o l… 3 livros por ano; l… 2 livros.

Neste exemplo a rectifica€•o, introduz o valor quantitativo que confirma, especificando, a avalia€•o qualitativa minorante “menos que”.

No caso de uma construۥo majorante do tipo

(72) Ele n•o l… 3 livros por ano; l… 4 livros.

a especifica€•o contextual de um valor quantitativo superior ao valor qualitativamente constru‚do como um mŠximo n•o atingido

re-localiza a ocorr…ncia de /livro/, marcada por 4 livros, sobre um gradiente re-orientado para o atractor.

Em (71), o enunciado negativo (Ele n€o l† 3 livros por ano), assim como a especifica€•o contextual (l† 2 livros) identificam-se entre si: ambos correspondem „ indica€•o de um valor “menor que”.

Por‰m, em (72), o valor minorante indicado pelo enunciado negativo (Ele n€o l† 3 livros por ano) ‰ contrariado pelo valor majorante indicado na especifica€•o contextual (l† 4 livros), sendo assim criada uma rela€•o de oposi€•o. Em (71), a nega€•o estŠ associada a uma rectifica€•o e, em (72), a uma refuta€•o.

Em ambos os casos, por‰m, n•o hŠ constru€•o da zona exterior do dom‚nio nocional: a nega€•o n•o marca a n•o instancia€•o do lugar vazio da rela€•o predicativa <ele ler ( )> pelo nominal livro e a consequente n•o valida€•o da rela€•o predicativa. Em ambos os casos, as ocorr…ncias nocionais de /livro/ s•o localizadas no interior nocional. A qualifica€•o introduzida pela nega€•o na rela€•o com valores quantificados marca apenas a orienta€•o do gradiente: para o atractor (valor superior) ou para o exterior (valor inferior).

No enunciado (69), a rela€•o entre a nega€•o e um sintagma quantificado numericamente conduz, tal como nota Jespersen, a uma interpreta€•o majorante, contrariando assim o que se verifica nos exemplos (68). Neste enunciado por‰m, a avalia€•o subjectiva participa na defini€•o nocional de /viver com/. Predicados como ler, ter, ganhar e ver n•o est•o semanticamente associados a um complemento que indique uma refer…ncia mŠxima ou m‚nima. Pelo contrŠrio, o significado relacional do predicado viver com seguido de um complemento como 200 libras reenvia para um valor de refer…ncia avaliado tendencialmente como m‚nimo209:

(73) Ele vive com 200 libras por ano.

No enunciado (73), o valor indicado pelo predicado viver com poderia ser parafraseado por Ele consegue/tem de viver com 200 libras por ano ou Ele tem/disp•e de 200 libras por ano para viver.

209 O valor num‰rico introduzido pelo numeral ‰, na aus…ncia de determina€‹es contextuais, irrelevante quanto „ avalia€•o desse valor como m‚nimo:

(i) Ele vive com 200 libras.

(ii) Ele vive com 200.000 libras.

(iii) Ele vive com 200.000 libras. Que rica vida ele deve ter!

Nos enunciados (i) e (ii) o complemento determinado pelo numeral ‰ entendido como m‚nimo, independentemente de em (i) corresponder a 200 libras e em (ii), a 200.000 libras. Em (iii), por‰m, a especifica€•o introduzida pelo contexto situa o valor num‰rico como superior ou elevado.

A constru€•o deste valor m‚nimo corresponde „ localiza€•o de uma ocorr…ncia de /libra/ na fronteira do dom‚nio nocional: a determina€•o marcada pelo numeral indica que a manifesta€•o da no€•o /libra/ ‰ a menor capaz de instanciar o lugar vazio e validar a rela€•o predicativa <ele viver com ( )>.

No enunciado (69), a nega€•o, ao incidir sobre este valor m‚nimo, conduz a uma interpreta€•o majorante: Ele n€o vive com 200 libras por ano pode ser parafraseado por Ele precisa de mais do que 200 libras por ano para viver.

Como a ocorr…ncia ‰ avaliada como a menor, a sua n•o valida€•o constr‡i o exterior de /viver/, ou seja, n€o viver: com 200 libras por ano ele n€o vive. Ao contrŠrio do que se verifica em (68), a nega€•o em (69) ‰ constru‚da a partir da oposi€•o entre fronteira e exterior, ou seja, marca a n•o valida€•o da rela€•o predicativa (<Ele viver com ( )>) a partir da determina€•o do complemento verbal (200 libras por ano).

Tamb‰m inversamente ao que se verifica com os enunciados de (68), com o enunciado (69) a especifica€•o contextual de um valor superior constitui uma rectifica€•o e a especifica€•o de um valor inferior constitui uma refuta€•o.

(74) a. Ele n•o vive com 200 libras por ano. Vive com/precisa de 300 libras.

b. Ele n•o vive com 200 libras por ano. Vive com/*precisa de 100 libras.

Em (74a) o complemento 300 libras, confirmando a interpreta€•o majorante associada ao enunciado negativo, ‰ assim compat‚vel com a retoma do predicado viver ou a introdu€•o do predicado precisar de.

Em (74b) o complemento 100 libras, opondo-se „ interpreta€•o majorante associada ao enunciado negativo, ‰ compat‚vel com a retoma do predicado viver, mas n•o com a introdu€•o do predicado precisar de. O complemento 100 libras indica um novo valor como sendo o m‚nimo para instanciar o lugar vazio e validar <ele viver com ( )>, estabelecendo assim uma oposi€•o com o valor anteriormente avaliado como m‚nimo (indicado por 200 libras).

Em resumo, quer no caso dos predicados de (68), quer no caso do predicado de (69), tanto a nega€•o de rectifica€•o como a nega€•o de refuta€•o — e n•o apenas a nega€•o de refuta€•o — constituem nega€‹es necessariamente inter-subjectivas (ou metalingu‚sticas, para usar o termo de Ducrot/Horn/Moeschler). Em ambos os casos o sujeito

enunciador, localizador do enunciado negativo, recupera um valor previamente constru‚do, ou seja, recupera uma rela€•o predicativa validada por um sujeito locutor (Ele l† 3 livros).

Sem especifica€‹es contextuais em contrŠrio, enunciados como Ele n€o tem 3 filhos ou Ele n€o l† 3 livros por ano s•o interpretados como significando Ele tem menos de 3 filhos e Ele l† menos de 3 livros por ano porque a nega€•o introduz uma avalia€•o subjectiva que qualifica o numeral como sendo um valor mŠximo (rela€•o com o atractor) e inverte o gradiente para o exterior.

Conclus„es

Partindo da anŠlise do marcador n€o pr‰-verbal efectuada neste subcap‚tulo, prop‹e-se o seguinte:

a nega€•o ‰ uma opera€•o modal de constru€•o ou re-constru€•o de valores cujo localizador Œltimo corresponde ao parƒmetro sujeito de enuncia€•o. Assim, as ocorr…ncias nocionais s•o, em Œltima instƒncia, objecto de uma avalia€•o subjectiva, mesmo nos casos em que a nega€•o se relaciona com determina€•o quantitativa (como no caso da constru€•o de exist…ncia e dos complementos determinados por numerais) ou com valores temporais-aspectuais (como no caso da pressuposi€•o marcada por predicados como deixar de).

Tendo o sujeito de enuncia€•o como parƒmetro, a nega€•o corresponde a uma opera€•o enunciativa de n•o localiza€•o, representada metalinguisticamente por  (ou pelo dual ), que incide sobre uma rela€•o predicativa ou sobre um enunciado (rela€•o predicativa previamente validada). No primeiro caso a nega€•o ‰ designada como subjectiva e no segundo, como nega€•o inter-subjectiva.

Assim sendo, a nega€•o ‰ sempre contextualmente dependente.

Enquanto nega€•o subjectiva, a rela€•o predicativa sobre a qual incide a nega€•o ‰ legitimada a partir de dados contextuais. Enquanto nega€•o inter-subjectiva, o contexto relaciona-se com o tipo de inter-subjectividade em causa.

Na nega€•o inter-subjectiva, a rela€•o entre o contexto e o enunciado negativo pode ser exterior ou interior ao enunciado negativo. No primeiro caso, a caracteriza€•o da rela€•o inter-subjectiva depende do recurso necessŠrio e expl‚cito ao contexto. No segundo caso ‰ independente da explicita€•o contextual porque o contexto se inscreve no pr‡prio enunciado negativo. Assim, para determinar se um enunciado como Este n€o „ um romance hist‹rico corresponde a uma nega€•o subjectiva ou inter-subjectiva ‰ necessŠrio explicitar o contexto de modo a estabelecer se a rela€•o predicativa em causa foi ou n•o previamente localizada. Em contrapartida, num enunciado como Ele n€o se vai encontrar com uma mulher, vai encontrar-se com a mulher, o contexto (ele vai encontrar-se com a mulher) inscreve-se no pr‡prio enunciado negativo.

A nega€•o subjectiva constr‡i um valor atrav‰s da localiza€•o de uma rela€•o predicativa; a nega€•o inter-subjectiva recupera um

valor pr‰-constru‚do a partir do qual constr‡i um outro valor.

Seguindo a proposta de Culioli apresentada no subcap‚tulo 1.2., a constru€•o ou re-constru€•o de um valor negativo corresponde a uma opera€•o de invers•o sobre ocorr…ncias projectadas (efectivamente localizadas ou visadas) no dom‚nio nocional (interior, exterior e fronteira): (i) da orienta€•o para o interior ‰ constru‚da uma outra orienta€•o (invers•o) estabilizada pela constru€•o do complementar como um exterior nocional; (ii) sem constru€•o do exterior, a invers•o da orienta€•o pode realizar-se no interior nocional na rela€•o entre o centro do dom‚nio (atractor e tipo) e a fronteira, estabelecendo assim duas zonas diferenciadas no interior nocional.

Este segundo processo ‰ designado por zonagem.

A nega€•o pode ser lexical ou gramatical, ou seja, pode incidir sobre no€‹es lexicais (Ela n€o „ bonita, „ feia; Ele n€o fala, berra) ou sobre no€‹es gramaticais como a determina€•o, o tempo, o aspecto, a pessoa, etc. (O Jo€o n€o deixou de fumar; Ele n€o se vai encontrar com uma mulher, vai encontrar-se com a mulher). Deste modo, a opera€•o de n•o localiza€•o, correspondendo a uma invers•o, relaciona-se com a n•o instancia€•o e/ou n•o valida€•o no plano da rela€•o predicativa (incluindo o processo de lexicaliza€•o que associa a rela€•o primitiva com a rela€•o predicativa) ou com a n•o valida€•o de valores gramaticais constru‚dos a partir da localiza€•o da rela€•o predicativa pela situa€•o de enuncia€•o.

3. “Subida da Nega•‚o”: inter-subjectividade e

valores modais

Recuperando alguns dos conceitos metalingu‚sticos empregues anteriormente para caracterizar a nega€•o, este cap‚tulo tem como objectivo propor uma abordagem enunciativa, no ƒmbito da TFE, ao problema lingu‚stico designado em geral na literatura por “subida da nega€•o”.

Assim, numa primeira parte, a nega€•o serŠ relacionada com as opera€‹es inter-subjectivas que permitem localizar a rela€•o predicativa. Numa segunda parte, a nega€•o serŠ relacionada com os valores modais que caracterizam classes de predicados210.

210 A abordagem que se defende na segunda parte (“Predicados de ‘subida da nega‡ˆo’”) recupera e desenvolve uma hip•tese j‰ apresentada em Moreno (2003).