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Negaۥo e valores gramaticais dos artigos

2. Para uma abordagem global da nega•‚o

2.2. Uma abordagem enunciativa da negaۥo

2.2.7. Negaۥo e valores gramaticais dos artigos

(59) A M•e n•o foi para o C‰u porque era uma pecadora.

Na nega€•o que mant‰m o pressuposto (exemplo 59), o pr‰-constru‚do corresponde „ constru€•o de exist…ncia (id…ntico ao pressuposto) (o c„u existe).

Na nega€•o que anula o pressuposto (exemplo (57), o pr‰-constru‚do inscrito no enunciado negativo corresponde „ valida€•o pr‰via de <m•e ir para c‰u>, tal como ilustra o contexto em (58)195.

desenvolver alguns conceitos, nomeadamente os de quantifica€•o e qualifica€•o, de modo a sustentar a anŠlise do exemplo (60)198.

A no€•o enquanto representa€•o cognitiva ‰ estritamente intensional e indivis‚vel, podendo, por‰m, ser fragmentada a partir de opera€‹es de quantifica€•o e qualifica€•o. Estas opera€‹es s•o, por isso, opera€‹es de determina€•o que permitem delimitar ocorr…ncias de uma no€•o.

A passagem “d’une repr‰sentation mentale, incorporelle, „ une activit‰ permettant de r‰f‰rer correspond „ une —mise en forme˜ da la notion que je note (niveau m‰talinguistique) QNT [quantification](...) [Cette] op‰ration se fonde sur une op‰ration fondamentale li‰e „ la pr‰dication d’existence (...) Existence peut se poser de deux fa€ons diff‰rentes et correspondre d’un c“t‰ au passage de /rien/ „ /quelque chose/ (...); d’autre c“t‰, „ une forme d’extraction, au sens d‰sormais ‰tabli du terme” (Culioli & Franckel 1992:10). Segundo Correia (1998), “em Portugu…s o marcador preferencial desta opera€•o ‰ o indefinido um”.

Em contrapartida, ainda segundo Correia (1998), seguindo Culioli (1975) entre outros, “quando Qlt [qualifica‡ˆo] „ activado a opera‡ˆo que est‰ presente „ a de identifica‡ˆo qualitativa (fl„chage) em que hŠ um ocorr…ncia identificada qualitativamente em rela€•o „ ocorr…ncia donde se partiu. Para o Portugu…s o artigo definido ‰ o marcador preferencial desta opera€•o”.

As opera€‹es de quantifica€•o e qualifica€•o est•o associadas „ configura€•o topol‡gica do dom‚nio nocional. A localiza€•o de uma ocorr…ncia no dom‚nio (interior, exterior e fronteira) ‰ feita a partir da rela€•o com o tipo e o atractor. O tipo funciona como centro organizador da fragmenta€•o da no€•o: a fragmenta€•o ‰ constru‚da a partir de uma ocorr…ncia representativa. O tipo permite assim construir uma opera€•o de quantifica€•o, ou seja, discretizar as ocorr…ncias que partilham as propriedades da ocorr…ncia representativa. Por sua vez o atractor corresponde a uma ocorr…ncia

“maximalemente singularis‰e par le simple fait qu’elle n’est rep‰r‰e que par rapport „ elle m…me. En constituant son propre terme de r‰f‰rence, elle constitue celui-ci comme origine absolue, et se caract‰rise par l’impossibilit‰ m…me de construire une valeur ultime.

(...) Une valeur absolue se construit par l’impossibilit‰ m…me de fonder une valeur ultime” (Culioli & Franckel 1992:12-13). Assim

198 Apesar de alguns dos conceitos aqui referido jŠ terem sido introduzidos no subcap‚tulo 1.1. Para uma justifica€•o desenvolvida, no ƒmbito da TFE, dos valores dos artigos no Portugu…s, ver Correia (1998) ou (Correia 2002:132-163).

definido, o atractor constitui um centro de determina€‹es qualitativas, no sentido em que, a partir do atractor, se podem localizar as varia€‹es qualitativas das ocorr…ncias de um dom‚nio.

No entanto, apesar das diferen€as essenciais entre tipo (ocorr…ncia representativa) e atractor (representa€•o abstracta e absoluta), “il y a des renversements possibles de l’un „ l’autre”

(Culioli & Franckel 1992:13).

No exemplo (60), no enunciado sublinhado, a nega€•o marca uma invers•o na localiza€•o das ocorr…ncias de /mulher/ em rela€•o ao duplo centro organizador do dom‚nio: a localiza€•o em rela€•o ao tipo, ocorr…ncia representativa associada „ quantifica€•o, transforma-se numa localiza€•o em rela€•o ao atractor, representa€•o absoluta associada „ qualifica€•o.

A passagem de um ao outro localizador ‰ dada pelo incid…ncia do termo negativo sobre a rela€•o entre os artigos uma e a. O sintagma uma mulher indica um exemplar quantitativamente individuado, mas n•o qualitativamente. Note-se que, no exemplo (60), s•o especificadas as propriedades que, localizadas em rela€•o a um determinado sujeito enunciador, definem um exemplar t‚pico da no€•o /mulher/: ser inconstante, como onda do mar. Tais propriedades nocionais s•o predicadas sobre uma ocorr…ncia de /mulher/ determinada a partir do artigo definido com valor gen‰rico. Assim no sintagma a mulher (sujeito A), o artigo marca uma opera€•o de percurso estabilizada, jŠ que nenhuma ocorr…ncia pode ser qualitativamente individuada, na rela€•o com uma ocorr…ncia tipo199.

Esta ocorr…ncia tipo serŠ retomada na forma plural pelo sujeito B: das mulheres. A introdu€•o do plural marca uma individua€•o quantitativa que refor€a o contraste com a n•o-individua€•o qualitativa: ‰, assim, acentuada uma oposi€•o entre diferencia€•o extensional e indiferencia€•o intensional200. Do dom‚nio reformulado na sua pluralidade, ‰ extra‚da uma ocorr…ncia, sobre a qual vai incidir a nega€•o: n€o „ uma mulher. Por‰m, a nega€•o n•o inverte o valor quantitativo201, mas antes a indiferencia€•o qualitativa t‚pica do indefinido. A anula€•o de uma indiferencia€•o qualitativa tem de

199 Para uma caracteriza€•o enunciativa, no ƒmbito da TFE, dos artigos (definido, indefinido e zero) como marcadores de um valor gen‰rico, nomeadamente na rela€•o com a opera€•o de percurso, ver Correia (2002:165-181).

200 A preposi€•o de contra‚da com o artigo definido ‰ empregue, em determinadas condi€‹es contextuais, para introduzir um tema que vai ser considerado na sua generalidade: da moral, das leis, ...

201 Se empregarmos os termos de Culioli, a invers•o da passagem de /rien/ a /quelque chose/ (cria€•o de um valor quantitativo ligado „ opera€•o de extrac€•o) corresponderia „ passagem de /quelque chose/ a /rien/.

ser localizada em rela€•o a uma propriedade diferenciadora dada explicita ou implicitamente202. No entanto, tal n•o se verifica no enunciado em anŠlise. O indefinido um ‰ apenas contrastado com o definido a. Este determinante marca tipicamente, como acima se referiu, uma opera€•o de retoma anaf‡rica.

A nega€•o, por‰m, impede que o nominal mulher determinado pelo indefinido funcione como localizador (n€o „ uma mulher) dessa retoma anaf‡rica. Deste modo, o nominal mulher determinado pelo definido, na aus…ncia de um localizador, reenvia para si pr‡prio enquanto predicŠvel203, criando, assim, um valor de alto-grau que se identifica com o atractor do dom‚nio nocional de /mulher/.

A rela€•o entre nega€•o e implicatura referida por Horn (ver subcap‚tulo anterior) nos exemplos

(61) a. N•o era uma senhora, era a minha mulher.

b. N•o, ele n•o se vai encontrar com uma mulher (woman) esta tarde — ele vai encontrar-se com a (sua) esposa (wife).

pode ser explicada relacionando estritamente a nega€•o com os valores dos artigos. As diferen€as lexicais entre os termos mulher e esposa (no Ingl…s (woman e wife)) s•o, no caso, irrelevantes e constituem uma varia€•o suplementar que pode confundir a anŠlise. Os mesmos valores negativos poderiam ser obtidos empregando apenas o termo mulher204:

(62) a. —(Quem era aquela mulher com quem te vi esta tarde?)

— N•o era uma mulher, era a minha mulher.

b. N•o, ele n•o se vai encontrar com uma mulher esta tarde — ele vai encontrar-se com a (sua) mulher.

202 Os complementos nominais, adjuntos, ora€‹es relativas correspondem, entre outros, a processos de constru€•o de uma diferencia€•o qualitativa: uma mulher do povo, uma mulher elegante, uma mulher que se sabe comportar, ...

203 Opera€•o que poderia ser parafraseada por uma mulher que „ uma mulher.

204 Note-se por‰m que a diferen€a dita estil‚stica (ou socialmente marcada) entre mulher e esposa, no caso em que estes termos s•o sin‡nimos referenciais, poderia ser tamb‰m objecto de uma opera€•o de nega€•o. Os enunciados (b) e (b’) poderiam ser respostas poss‚veis, em alternativa, „ interrogativa (a):

(i) a. Suj. A: — Como vai a sua mulher?

b. Suj. B: — Como vai a sua mulher, n•o! Como vai a sua esposa.

b’. Suj. B: — N•o sei como vai a minha mulher, mas sei como vai a minha esposa.

A rela€•o entre nega€•o e varia€•o “estil‚stica” marcada por diferentes lexemas jŠ foi analisada anteriormente neste subcap‚tulo.

Nestes exemplos, o indefinido um conserva o seu valor t‚pico de extrac€•o localizada em rela€•o a um tipo do qual n•o se diferencia qualitativamente (uma mulher entre outras). O artigo definido a marca uma opera€•o de remota anaf‡rica que nestes exemplos, ao contrŠrio do que se verifica no exemplo (60), tem um localizador. O termo negativo, por‰m, marca que esse localizador n•o corresponde „ ocorr…ncia anterior de /mulher/ determinada pelo indefinido (n€o „ uma mulher). Deste modo, a localiza€•o terŠ de ser feita a partir da rela€•o de posse (entre possuidor e possu‚do) introduzida pelo determinante possessivo: a minha mulher; a sua mulher. A retoma anaf‡rica marcada pelo definido ‰ ent•o localizada em rela€•o ao nominal (ou ao pronome) que designa o possuidor205.

Se o localizador (possuidor) estiver explicitado, o determinante possessivo poderŠ ser ou n•o lexicalizado206:

(63) a. Ele vai encontrar-se com a mulher.

b. Ele vai encontrar-se com a sua mulher.

Por‰m, a n•o explicita€•o de um termo localizador (possuidor), se o determinante possessivo n•o estiver lexicalizado, altera o valor do definido:

(64) a. N•o era uma mulher, era a minha mulher.

b. (?) N•o era uma mulher, era a mulher.

(65) a. Vi a tua mulher.

b. (?) Vi a mulher.

(66) a. Suj. A: — Queres vir ao cinema?

b. Suj. B: — N•o posso. Tenho de me encontrar com a mulher esta tarde.

Os enunciados (b) de (64) e (65) n•o s•o correspondentes aos respectivos enunciados (a)207, mas adquirem antes um valor de alto-grau pr‡ximo do anteriormente descrito a prop‡sito do enunciado (60).

205 Para uma caracteriza€•o da rela€•o de posse como uma rela€•o de localiza€•o entre um possuidor (termo localizador) e um possu‚do (termo localizado) ver Correia (2002:282-294).

206 A ambiguidade associada ao possessivo sua (reflexivo ou n•o reflexivo, ele e sua reenviam para o mesmo referente ou para referentes distintos) n•o

‰, para o caso, relevante.

Em contrapartida, em (66), a possibilidade de se estabelecer uma rela€•o de localiza€•o entre o termo localizado a mulher e um termo localizador marcado pela primeira pessoa singular indicada no morfema flexional da forma verbal tenho torna o enunciado aceitŠvel mesmo que o possessivo minha n•o esteja lexicalizado.