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2. Para uma abordagem global da nega•‚o

3.2. Predicados de “subida da nega€•o”

3.2.2. Valores modais

No esquema (14), o sinal de interroga€•o entre par…nteses marca uma indefini€•o em rela€•o ao modal dever com valor de“ntico: apesar de poder ser entendido com um verbo de obriga€•o forte (representado, por isso, no extremo escalar dos predicados fortes), ‰, por‰m, compat‚vel com a subida da nega€•o (zona interm‰dia da escala).

Adiante se defenderŠ que a zona escalar interm‰dia seria a que melhor se adequaria ao valor de“ntico de dever.

I/p E/~p

IE

Os s‚mbolos I e E designam, respectivamente, Interior e Exterior nocionais. O s‚mbolo IE, que deve ler-se “E refor€ado”, corresponde „ designa€•o da posi€•o em que se situa o sujeito que assume a rela€•o predicativa, sendo caracterizada por ser anterior „ valida€•o ou n•o valida€•o da rela€•o predicativa.

Assim, partindo da posi€•o IE, podem verificar-se as seguintes hip‡teses:

(i) equipondera€•o: ambas as zonas do dom‚nio s•o visadas;

(ii) pondera€•o sem exclus•o: uma zona do dom‚nio ‰ visada sem exclus•o da zona alternativa;

(iii) pondera€•o com exclus•o, ou seja, constru€•o de um caminho Œnico: uma zona do dom‚nio ‰ visada, sendo exclu‚da a zona alternativa242.

Seguindo a proposta de Campos (1998:127), os valores modais marcados por dever, poder e ter de, incluindo a relaۥo com a negaۥo, podem ser representados graficamente no seguinte esquema243:

242 A rela€•o entre os conceitos metalingu‚sticos de bifurca€•o e de dom‚nio nocional jŠ foi introduzida no subcap‚tulo 1.2.

243 O esquema (15) foi adaptado de modo a ilustrar melhor o problema em discuss•o.

(15) I/p E/~p I/p E/~p I/p E/~p

IE IE IE

pode p deve p tem de p

pode n€o p n€o deve n€o p n€o pode n€o p n€o tem de (n€o) p

I/p E/~p I/p E/~p

IE IE

n•o pode p n•o deve p

tem de n•o p deve n•o p

O verbo poder (Campos 1998:259ss) associa uma distƒncia modal a uma opera€•o de percurso: s•o consideradas as ocorr…ncias de uma rela€•o predicativa sem que uma dessas ocorr…ncias seja seleccionada.

Assim a partir de IE, o sujeito constr‡i a rela€•o predicativa como validŠvel, mas tamb‰m como n•o validŠvel, resultando um valor de equipondera€•o: pode p estŠ em correspond…ncia com pode n€o p. Note-se a aceitabilidade de um enunciado como Ele pode vir ou pode n€o vir.

O verbo dever (Campos 1998:137ss) associa uma distƒncia modal a uma opera€•o de mira: a partir de IE o sujeito visa uma zona do dom‚nio que permita localizar uma ocorr…ncia da rela€•o predicativa.

Com o verbo dever hŠ, deste modo, pondera€•o de uma zona do dom‚nio, sem haver, no entanto, a elimina€•o da zona alternativa. Note-se a aceitabilidade de um enunciado como Ele deve vir, mas pode n€o vir244.

244 Um confronto entre a aceitabilidade de Ele pode vir ou n€o vir e a n•o aceitabilidade de *Ele deve vir ou n€o vir ilustra que, diferentemente de poder, o modal dever pondera uma zona, ainda que n•o elimine a zona alternativa do dom‚nio nocional.

A locu€•o verbal ter de (Campos 1998:129ss), quando conserva a distƒncia modal, marca tamb‰m uma opera€•o de mira245. Neste caso, por‰m, a pondera€•o de uma zona do dom‚nio estŠ associada „ elimina€•o necessŠria da zona alternativa. Note-se a n•o aceitabilidade de *Ele tem de vir, mas pode n€o vir.

Quanto „ rela€•o com a nega€•o, os verbos modais em causa apresentam o seguinte comportamento:

(i) a nega€•o do modal poder (marcador de percurso e associado a uma opera€•o de equipondera€•o) resulta na pondera€•o de uma zona do dom‚nio (Exterior) com elimina€•o da zona alternativa (Interior):

ele n€o pode p estŠ em correspond…ncia com ele tem de ~p;

(ii) a nega€•o do modal ter de (marcador de pondera€•o com elimina€•o da zona alternativa do dom‚nio) resulta numa equipondera€•o: ele n€o tem de p estŠ em correspond…ncia com ele pode n€o p (ou pode p); do mesmo modo que ele n€o tem de n€o p estŠ em correspond…ncia com ele pode p (ou pode n€o p).

(iii) a nega€•o anteposta a dever (marcador de pondera€•o sem elimina€•o da zona alternativa) resulta numa pondera€•o invertida, mantendo-se a n•o elimina€•o da zona alternativa do dom‚nio. Em ele deve p (mas pode n€o p) ‰ visada a valida€•o de uma ocorr…ncia de p (pondera€•o em I), sem eliminar a possibilidade de n•o valida€•o de p (pondera€•o em E). Por sua vez, em ele n€o deve p (mas pode p), ‰ visada a n•o valida€•o de uma ocorr…ncia de p (pondera€•o em E), sem eliminar a possibilidade de valida€•o de n€o p (pondera€•o em I).

De acordo com Campos (1998:119), diferentemente do que se verifica com poder e ter de, na sequ…ncia n€o dever p a nega€•o n•o incide sobre dever, mas sim sobre a rela€•o predicativa p: “’nˆo dever p’ „, do ponto de vista estritamente sem•ntico, equivalente a dever nˆo-p’”. A autora defende que dever ‰ um verbo de subida da nega€•o: “– necessŠrio distinguir, no entanto, que, nos enunciados modalizados por DEVER com valor epist‰mico, a subida da nega€•o ‰ obrigat‡ria, ao contrŠrio do que se passa com DEVER n•o epist‰mico e com verbos de atitude proposicional como PENSAR, CRER, etc., em que ambas as formas s•o correntes, podendo portanto falar-se de escolha”

(idem:121).

Algumas correspond…ncias podem ser estabelecidas entre os princ‚pios apresentados por Horn, e a proposta de Campos (1998): da nega€•o de um valor fraco (n€o pode p) resulta um valor forte (tem de n€o p); da nega€•o de um valor forte (n€o tem de p), resulta um valor

245 N•o hŠ opera€•o de mira quando a distƒncia modal ‰ anulada e ter de adquire um valor de asser€•o (Campos 1998:131).

fraco (pode n€o p). Por‰m, no caso da nega€•o de um valor interm‰dio, a representa€•o em valores ponderados permite destacar que a nega€•o desse valor interm‰dio n•o resulta simplesmente num outro valor interm‰dio, mas, mais precisamente, num valor interm‰dio com pondera€•o invertida.

Continuando a comparaۥo com a escala de Horn, verifica-se que

(i) uma opera€•o de equipondera€•o permite caracterizar os predicados incompat‚veis com a subida da nega€•o, ou seja, predicados com valor escalar fraco, Este tipo de predicados, como por exemplo, ser possƒvel, permitir, ser permitido..., constituem assim uma classe cujo representante ‰ o modal poder;

(ii) a pondera€•o de uma zona do dom‚nio com exclus•o da zona alternativa permite caracterizar os predicados tamb‰m incompat‚veis com a subida da nega€•o, ou seja, predicados com valor escalar forte:

saber, ser/estar certo, ser necess‚rio, obrigar, ser obrigat‹rio, exigir... Estes predicados ser•o ent•o elementos de uma classe cujo representante ‰ o modal ter de;

(iii) a opera€•o de pondera€•o de uma zona do dom‚nio sem elimina€•o da zona alternativa permite caracterizar os predicados compat‚veis com a subida da nega€•o, ou seja, predicados com valor escalar interm‰dio: achar, crer, julgar, pensar, parecer, dar a impress€o, ser prov‚vel, ser desej‚vel, ser aconselh‚vel, querer, desejar. Esta classe de predicados ‰ assim representada pelo modal dever.

As opera€‹es de equipondera€•o, de pondera€•o com exclus•o da zona alternativa e de pondera€•o sem exclus•o da zona alternativa participam, respectivamente, na caracteriza€•o dos modais poder, ter de e dever, e integram tamb‰m a significa€•o dos predicados lexicais, permitindo distinguir, nas classes apresentadas, entre predicados incompat‚veis e compat‚veis com a subida da nega€•o. A modalidade pode assim ser associada „ significa€•o lexical.

A anŠlise da rela€•o entre predicados e subida da nega€•o atrav‰s de opera€‹es de pondera€•o tem as seguintes vantagens:

(i) unifica a explica€•o, permitindo destacar as propriedades que — comuns a verbos modais (epist‰micos e de“nticos) e a verbos lexicais — justificam a compatibilidade ou incompatibilidade com a subida da nega€•o;

(ii) formaliza o Princ‚pio da Incerteza (que contribui para isolar os predicados compat‚veis com a subida da nega€•o) como uma

opera€•o de pondera€•o sem elimina€•o das ocorr…ncias situadas na zona alternativa do dom‚nio. Esta pondera€•o pode ser associada a diferentes opera€‹es de localiza€•o pelo sujeito locutor ou pelo sujeito enunciador, permitindo ent•o distinguir entre nega€•o forte e nega€•o fraca.

(iii) explicita a orienta€•o modal que integra a significa€•o de verbos lexicais na medida em que, atrav‰s de opera€‹es de pondera€•o, se pode estabelecer um paralelo entre verbos modais (poder, ter de, dever) e verbos lexicais.

A anŠlise de alguns enunciados atestados com o verbo dever, tendo em conta que este modal ‰ marcador n•o s‡ de modalidade epist‰mica associada a um valor escalar interm‰dio, mas tamb‰m de modalidade de“ntica associŠvel a um valor escalar forte, permitirŠ verificar a adequa€•o explicativa das hip‡teses apresentadas.

Campos (1998:119ss) indica que, nas constru€‹es com o modal dever, a nega€•o ‰ tipicamente anteposta ao verbo modal, sendo marginais os enunciados em que a nega€•o antecede o verbo infinitivo complemento. Do Corpus A, por‰m, foi poss‚vel extrair alguns enunciados com a estrutura dever n€o V:

(16) a. Fernando Gomes, cabe€a de lista pelo Porto, ‰ que deve n•o ter gostado da gra€ola.

b. No romance polif‡nico, o autor deve n•o renunciar a si e „ sua consci…ncia, mas alargŠ-la, aprofundŠ-la, reconvert…-la.

Em (16a), o verbo modal dever tem preferencialmente um valor epist‰mico (cren€a/conhecimento) e, em (16b), um valor de“ntico (obriga€•o/permiss•o). Ao contrŠrio do que defende Campos (1998), com o modal dever, mesmo com valor epist‰mico, como em (16a), a subida da nega€•o n•o ‰ obrigat‡ria246.

De acordo com a proposta de Horn, o verbo dever teria, em princ‚pio, de ser colocado em duas posi€‹es: na parte superior, enquanto epist‰mico com valor escalar interm‰dio, e na parte inferior, enquanto de“ntico com um valor escalar forte, jŠ que, neste Œltimo caso, exprime uma “obriga€•o forte”: dever tem, neste caso, um sentido aproximado a ter a obrigaŒ€o/o dever de. Se assim fosse, dever epist‰mico seria compat‚vel com a subida da nega€•o, por ser um

246 Como foi referido anteriormente a autora considera que com dever epist‰mico a subida da nega€•o ‰ obrigat‡ria, ao contrŠrio do que se verifica com dever n•o epist‰mico.

valor escalar interm‰dio, mas dever de“ntico, por ser um valor escalar forte, jŠ n•o seria compat‚vel com a subida da nega€•o.

Os exemplos (17), enunciados manipulados a partir dos respectivos enunciados de (16), permitem mostrar que a negaۥo pode ser anteposta ao verbo dever:

(17) a. Fernando Gomes, cabe€a de lista pelo Porto, ‰ que n•o deve ter gostado da gra€ola.

b. No romance polif‡nico, o autor n•o deve renunciar a si e „ sua consci…ncia, mas alargŠ-la, aprofundŠ-la, reconvert…-la.

O confronto entre os enunciados (16) e (17) demonstram que o modal dever, quer como epist‰mico (16a/17a), quer como de“ntico (16b/17b), ‰ compat‚vel com a subida da nega€•o.

O comportamento de dever epist‰mico, correspondendo a um valor interm‰dio na escala de Horn e „ opera€•o de pondera€•o de uma zona do dom‚nio sem elimina€•o da zona alternativa na anŠlise de Campos (1998), n•o constitui dificuldade. Por‰m, a compatibilidade do valor escalar forte de dever de“ntico com a subida da nega€•o, n•o prevista na escala de Horn, obriga a que, de acordo com os princ‚pios da anŠlise enunciativa proposta, este predicado modal seja tamb‰m marcador de pondera€•o sem elimina€•o da zona alternativa.

Com efeito, Campos demonstra que o verbo dever, mesmo quando marcador de um valor modal de“ntico, introduz uma rela€•o predicativa associada a uma opera€•o de pondera€•o que n•o elimina o acesso „ zona alternativa. Considere-se o seguinte exemplo, extra‚do do corpus do Portugu…s Fundamental e citado em Campos (1998:165):

(18) Sabe, a m•e — ora cŠ estŠ — ‰ que deve educar os filhos da mesma maneira e preparar os rapazes tamb‰m para que eles n•o sejam os senhores.

Campos (ibidem) prop‹e a seguinte anŠlise para o exemplo (18) (valor modal de“ntico de dever):

A mira subjacente a “deve” distingue o ramo que, de Sit1

[IE], se dirige para o interior I onde se situam as ocorr…ncias capazes de validar, numa situa€•o fict‚cia, a rela€•o n•o saturada (...) < ( ) educar os filhos da mesma maneira>. O interior ‰ constru‚do como um todo que ‰ visado como tal pela componente modal da mira. (...)

Limitando-me ao contexto frŠsico do enunciado, que marca a constru€•o, em Sit1, de IE, a passagem visada ‰ a que tem origem em IE (IEI). Mas o alargamento do contexto lingu‚stico fornece a valida€•o, numa situa€•o de enuncia€•o anterior, de ocorr…ncias situada em E, isto ‰, de ocorr…ncias que validam a rela€•o predicativa <( ) n•o educar os filhos da mesma maneira>

(...). Pode ent•o dizer-se, nesse caso, que, na e pela enuncia€•o de [18], ‰ visada a passagem da fronteira de I, a partir de E (EI).

De acordo com esta anŠlise, tamb‰m com o valor de“ntico de dever se verifica uma opera€•o de pondera€•o sobre uma zona do dom‚nio sem elimina€•o da zona alternativa. Sendo (18) um enunciado positivo, ‰ ponderado o Interior nocional, sem elimina€•o do Exterior, sendo este reconstru‚do contextualmente.

Se o modal dever com valor de“ntico ‰ („ semelhan€a de dever epist‰mico) marcador de pondera€•o sem elimina€•o da zona alternativa do dom‚nio, ent•o, no caso de um enunciado negativo, deve verificar-se a pondera€•o do Exterior nocional, mantendo a rela€•o com o Interior.

A caracteriza€•o de dever de“ntico em enunciado negativo pode ser ilustrada pela anŠlise dos exemplos (16b) e (17b). Nestes enunciados, independentemente da posi€•o da nega€•o, verifica-se que o Exterior das ocorr…ncias da rela€•o predicativa <autor renunciar a si e „ sua consci…ncia> ‰ ponderado, sendo esse Exterior identificado contextualmente (atrav‰s da oposi€•o introduzida pela adversativa mas) com o Interior de <(autor) alargar/aprofundar/reconverter (a sua consci…ncia)>247. Por este processo, a opera€•o de pondera€•o de uma zona do dom‚nio (Exterior) estŠ em correspond…ncia com uma zona alternativa (Interior). O exemplo em causa, gra€as a uma estrutura do tipo dever n€o p, mas q evidencia de forma particular a rela€•o entre as zonas do dom‚nio nocional.

Note-se, por‰m, que a compatibilidade de dever de“ntico com a subida da nega€•o, n•o estŠ restringida a este tipo espec‚fico de

247 Tanto (16b) como (17b) correspondem „ pondera€•o do Exterior nocional.

Por‰m, essa opera€•o de pondera€•o ‰ localizada a partir de diferentes sujeitos. O sujeito de locu€•o, que se identifica com o sujeito sintŠctico o autor, no caso de dever n€o em (16b) e o sujeito de enuncia€•o, n•o marcado no enunciado, no caso de n€o dever em (17b). Ver anŠlise dos exemplos seguintes.

estruturas (dever n€o p, mas q), podendo tamb‰m surgir com outras constru€‹es248:

(19) a. (...) o director do col„gio deveria n•o ter levado „ desobriga um aluno que, segundo vemos, se n•o achava convenientemente habilitado em civilidade para comparecer com dec…ncia em tal acto.

b.(...) o director do col„gio n•o deveria ter levado desobriga um aluno que, segundo vemos, se n•o achava convenientemente habilitado em civilidade para comparecer com dec…ncia em tal acto.

(20) a. O fasc‚nio exercido por Cavaco Silva nos portugueses, sobretudo nos mais pobres, mais idosos, mais desprotegidos, mais amea€ados (que deviam, por isso, n•o votar PSD), tornou-se, pela sua inexplicabilidade, a grande surpresa dos centristas.

b. O fasc‚nio exercido por Cavaco Silva nos portugueses, sobretudo nos mais pobres, mais idosos, mais desprotegidos, mais amea€ados (que n•o deviam, por isso, votar PSD), tornou-se, pela sua inexplicabilidade, a grande surpresa dos centristas.

Nos enunciados (19) a localiza€•o do predicado <( ) levar „ desobriga um aluno> estŠ associada a rela€‹es de oposi€•o constitu‚das pelo seguinte agenciamento de opera€‹es:

(i) o lugar vazio ligado ao predicado ‰ instanciado pelo sujeito director do col„gio, resultando, deste modo, uma ocorr…ncia da rela€•o predicativa <director do col‰gio levar „ desobriga um aluno>;

(ii) o marcador n€o indica que, tanto em (19a) com em (19b), a ocorr…ncia da rela€•o predicativa ‰ n•o validada;

(iii) o predicado dever introduz uma distƒncia modal entre o sujeito localizador (fonte modal) e a ocorr…ncia da rela€•o predicativa (alvo modal).

248 Os exemplos (19a) e (20a) foram extra‚dos do Corpus A. Sublinhados nossos.

(iv) o condicional deveria define uma relaۥo de ruptura quanto

„ valida€•o da rela€•o predicativa que o valor de pret‰rito do infinitivo composto (ter levado) situa num momento temporal anterior ao momento temporal da enuncia€•o (pr‰-constru€•o);

No enunciado (19a), com deveria n€o ter levado, o sujeito que n•o valida a rela€•o predicativa (a fonte modal) ‰ o sujeito locutor o director do col„gio. Como se trata de uma constru€•o com infinitivo, o sujeito sintŠctico de dever, que se identifica com o sujeito locutor, ‰ co-referente com o sujeito sintŠctico do infinito, n•o sendo por isso lexicalizado: S0  <director do col‰gio dever 

<(director do col‰gio) levar „ desobriga um aluno>>.

No enunciado (19b), com n€o deveria ter levado, o sujeito que n•o valida a rela€•o predicativa (fonte modal) ‰ o sujeito enunciador (S0), n•o marcado no enunciado, e que se distingue do sujeito locutor o director do col„gio: S0  <director do col‰gio dever  <(director do col‰gio) levar „ desobriga um aluno>>.

A nega€•o estabelece que a ruptura ‰ orientada entre uma ocorr…ncia validada da rela€•o predicativa (situada no Interior nocional) e uma ocorr…ncia avaliada subjectivamente — a partir do sujeito locutor (deveria n€o) ou do sujeito enunciador (n€o deveria)

— como a n•o validar (rela€•o predicativa a situar no Exterior nocional). A rela€•o entre condicional, infinitivo composto e nega€•o pode ser parafraseada por “o director deveria n•o/n•o deveria ter levado, mas levou”.

Deste modo, mesmo com valor de“ntico, o modal dever permite que, a partir do sujeito de enuncia€•o/locu€•o, seja ponderado o Exterior nocional (n€o levar) sem elimina€•o do Interior nocional (levar).

Em (20), a opera€•o de pondera€•o da zona Exterior do dom‚nio nocional, na rela€•o com a zona Interior, corresponde a uma configura€•o semelhante. Uma ocorr…ncia do predicado <( ) votar PSD>

‰ validada a partir da localiza€•o em rela€•o ao sujeito sintŠctico que instancia o lugar vazio (os portugueses mais pobres, (…) ). Com o infinitivo, o sujeito sintŠctico ‰ co-referente em rela€•o ao sujeito locutor. O modal dever e o adv‰rbio de nega€•o marcam que a rela€•o predicativa assim constru‚da ‰ visada no Exterior pelo sujeito de locu€•o em (20a) (deviam n€o votar PSD) ou pelo sujeito de enuncia€•o em (20b) (n€o deviam votar PSD). A ruptura entre, por um lado, o plano em que se situam os sujeitos que localizam a rela€•o predicativa (enunciador/locutor) e, por outro lado, o plano da rela€•o predicativa ‰, neste exemplo, marcada pelo imperfeito

(deviam)249. A rela€•o entre o imperfeito modal (deviam), o infinitivo simples (votar) e a nega€•o (n€o) pode ser parafraseada por “os portugueses deviam nˆo/nˆo deviam votar, mas votam”.

Poderia estabelecer-se uma compara‡ˆo entre a proposta enunciativa de Campos (1998:119-125) j‰ apresentada e a proposta de Oliveira (2000).

Esta autora, propŠe uma caracteriza‡ˆo dos modais, poder, ter de e dever partindo de uma no€•o restrita de modalidade baseada nos conceitos l‡gicos de necessidade e de possibilidade. O verbo poder corresponde a um operador de um operador possibilidade que pode receber uma interpreta€•o de“ntica ou epist‰mica. Por sua vez, a locu€•o verbal ter de constitui um operador de necessidade, estando associada em geral a um valor de“ntico e marginalmente a um valor epist‰mico. Finalmente, o verbo dever (epist‰mico ou de“ntico) n•o ‰ um operador de necessidade em nenhuma das suas interpreta€‹es, indicando antes um valor modal interm‰dio entre necessidade e possibilidade.

Na rela€•o com a nega€•o, esta pode ter escopo250 sobre poder (Ele n€o pode chegar a horas) ou sobre o verbo complemento (Ele pode n€o chegar a horas). O mesmo se verifica com ter de, estando a posi€•o da nega€•o associada „ configura€•o de diferentes sentidos para ter de (Ele n€o tem de chegar a hora/Ele tem de n€o chegar a horas). O verbo dever ocorre apenas no escopo da nega€•o, n•o sendo natural a posi€•o da nega€•o sob o escopo do operador modal (Ele n€o deve chegar a horas/?Ele deve n•o chegar a horas). As diferentes rela€‹es semƒnticas de escopo entre os operadores modais de possibilidade ou de necessidade e o operador de nega€•o, em associa€•o com os valores epist‰mico e de“ntico, representam a n‚vel metalingu‚stico os diferentes sentidos que os verbos modais podem exprimir quando associados „ nega€•o.

Em particular em rela€•o ao modal dever, Oliveira (2000), apesar de defender que este modal n•o pode ter escopo sobre a nega€•o, reconhece, no entanto, que com dever no imperfeito ou com o infinitivo composto na ora€•o complemento os enunciados seriam aceitŠveis:

249 Sobre as opera€‹es enunciativas que caracterizam o condicional e o imperfeito ver Sousa & AraŒjo (2000). Neste texto se defende que, em determinados contextos, tanto o condicional como o imperfeito marcam uma opera€•o de ruptura.

250 Utilizamos o termo “escopo” porque „ o termo empregue pela autora.

(21) a. Ele devia n•o dar ouvidos aos outros e fazer o que ele pensa.

b. Com aquela cara, ele deve n•o ter dormido a noite toda.

Para Oliveira (2000), assim como para Campos (1998), ainda que sintacticamente a nega€•o anteceda dever, semanticamente o verbo modal ‰ interpretado como n•o estando no escopo da nega€•o. Deste modo, o verbo dever seria um predicado de subida da nega€•o: uma sequ…ncia como n€o dever p deve ser interpretada como deve n€o p, ou seja, n€o dever p ‰ semanticamente equivalente a dever n€o p.

Segundo Oliveira, como epist‰mico, o verbo dever tem um sentido semelhante ao de prov‚vel e como de“ntico n•o denota obriga€•o, mas antes um sentido entre permiss•o e obriga€•o: deves comer a sopa, mas podes n€o comer a sopa.

De modo a dar conta destes sentidos de dever, a autora prop‹e relacionar as modalidades de possibilidade e de necessidade com a nega€•o. Assim sendo, com dever, “it seems we are on a position on the scale that says ‘p is at least possible if not necessary’, and with n€o dever/dever n€o ‘p is at most possible if not necessary’ or

‘~p is at least possible if not necessary’”.

A nossa objec‡ˆo essencial Œ abordagem, no •mbito da sem•ntica l•gica, de Oliveira (2000) e Œ abordagem de Campos (1998), no •mbito da TFE, reside no modo como deve ser entendida a equival•ncia sem•ntica entre n€o dever e dever n€o.

Oliveira defende que um enunciado como (22) N•o deves n•o ir ao dentista.

demonstra que n€o dever e dever n€o s•o equivalentes, jŠ que n€o dever n€o significa dever e n•o poder: N€o deves n€o ir ao dentista ‰ equivalente a Deves ir ao dentista e n•o a Podes ir ao dentista.

Campos na representa€•o dos verbos modais no esquema (15) tamb‰m indica n€o dever n€o como equivalente de dever.

A equival…ncia entre n€o dever n€o e poder, no seguimento do que anteriormente foi defendido, n•o se verifica porque os verbos modais dever e poder marcam diferentes opera€‹es: poder marca uma opera€•o de equipondera€•o e dever uma opera€•o de pondera€•o sem exclus•o do caminho alternativo. A nega€•o de dever, como vimos, mant‰m a opera€•o de pondera€•o sem exclus•o do caminho alternativo, invertendo as zonas ou os valores ponderados. Com dupla nega€•o, dever n•o corresponde a uma opera€•o de equipondera€•o, mas antes a

duas opera€‹es de pondera€•o/invers•o, ou seja, da pondera€•o/invers•o de p resulta n€o p (primeira nega€•o) e, por sua vez da pondera€•o/invers•o de n€o p resulta p (segunda nega€•o).

A rela€•o entre sujeito locutor e sujeito enunciador permite esclarecer o funcionamento desta dupla nega€•o e relacionŠ-la com a dupla posi€•o do marcador n€o. No enunciado (22) inscreve-se necessariamente um pr‰-constru‚do negativo, ou seja uma rela€•o predicativa previamente n•o validada. Com efeito, o enunciado (22) s‡

poderia ser a r‰plica a um enunciado do tipo Eu n€o vou ao dentista produzido por um outro sujeito. Confronte-se os seguintes enunciados, sendo (23b) igual a (22):

(23) a. Suj. A: — Eu n•o vou dentista.

b. Suj. B: — Tu n•o deves n•o ir ao dentista.

No enunciado (23a), um sujeito enunciador n•o valida a rela€•o predicativa <( ) ir ao dentista>. O pronome de primeira pessoa (eu) marca uma identifica€•o entre o sujeito que instancia o lugar vazio da rela€•o predicativa (sujeito do enunciado ou sujeito sintŠctico) e o sujeito que n•o localiza a rela€•o predicativa (sujeito enunciador (S0)):

(24) <S0  <( ) ir ao destista>>

O enunciado (23b) corresponde „ nega€•o de uma nega€•o. O sujeito enunciador de (23a) ‰ em (23b) apenas o sujeito locutor (S1), ou seja, o que n•o valida <( ) ir ao dentista>. Por sua vez, esta rela€•o predicativa n•o validada ‰ n•o localizada, ou seja, tamb‰m n•o validada, em rela€•o a um sujeito enunciador distinto. O pronome de segunda pessoa marca essa diferencia€•o entre o sujeito locutor (que n•o valida <( ) ir ao dentista>) e o sujeito enunciador (que n•o valida <<( ) ir ao dentista> n•o validado>):

(25) S0  <S1  <( ) ir ao dentista>>

Esta representa€•o metalingu‚stica estŠ de acordo com o que anteriormente se defendeu. Se dever n€o corresponde a S0  <S1

<( )rb>> e n€o dever a S0  <S1  <( )rb>> ent•o n€o dever n€o corresponde a S0  <S1  <( )rb>>, ou seja, „ nega€•o de um sujeito enunciador constru‚da sobre a nega€•o de um sujeito locutor.

Conclus„es

Os predicados compat‚veis com o fen‡meno geralmente designado por “subida da nega€•o” s•o caracterizados por marcarem uma opera€•o modal de pondera€•o de uma zona do dom‚nio nocional sem exclus•o da zona alternativa. Estes predicados poderiam ser inclu‚dos numa classe representada tipicamente pelo verbo modal dever. Em contrapartida, os predicados que marcam uma opera€•o modal de equipondera€•o (selec€•o das duas zonas do dom‚nio (p e n•o p), representados tipicamente pelo verbo modal poder, assim como os que marcam uma opera€•o modal de pondera€•o de uma zona do dom‚nio com exclus•o da zona alternativa, representados tipicamente pela locu€•o modal ter de, s•o incompat‚veis com a “subida da nega€•o”.

A “subida da nega€•o” ‰ entendida, n•o como uma transforma€•o sintŠctica baseada numa equival…ncia semƒntica, mas como uma dupla possibilidade de os predicados do tipo de dever (pensar, achar, parecer, ser prov‚vel, ser desej‚vel, querer, etc.) poderem ocorrer antecedidos ou seguidos pela marcador n€o, sem que tal diferen€a de posi€•o do marcador de nega€•o afecte a significa€•o modal destes predicados, ou seja, afecte a opera€•o de pondera€•o de uma zona do dom‚nio sem elimina€•o da zona alternativa.

Esta dupla possibilidade estŠ associada a diferentes opera€‹es de localiza€•o pelo parƒmetro enunciativo sujeito, ou seja, a diferentes opera€‹es de n•o valida€•o subjectiva.

Quando a nega€•o segue o verbo da ora€•o principal, incidindo apenas sobre o verbo da ora€•o subordinada completiva ou infinitiva, a rela€•o predicativa subjacente „ ora€•o subordinada ‰ localizada como n•o validada pelo sujeito locutor — que se identifica com o sujeito sintŠctico da ora€•o principal —, sendo a rela€•o predicativa complexa — que resulta da inter-liga€•o entre as rela€‹es predicativas subjacentes „ ora€•o principal e „ ora€•o subordinada — localizada como validada pelo sujeito enunciador n•o marcado no enunciado.

Quando a nega€•o antecede o verbo da ora€•o principal, incidindo sobre a rela€•o predicativa complexa que resulta da inter-liga€•o entre as rela€‹es predicativas subjacentes „ ora€•o principal e „ ora€•o subordinada completiva ou infinitiva, a rela€•o

predicativa complexa na sua globalidade ‰ localizada como n•o validada pelo sujeito enunciador, sendo a rela€•o predicativa subjacente „ ora€•o subordinada localizada como validada pelo sujeito locutor.

No primeiro caso, como a n•o valida€•o ‰ localizada pelo sujeito locutor, a nega€•o ‰ interpretada como mais forte. No segundo caso, como a n•o valida€•o ‰ localizada pelo sujeito enunciador, havendo uma opera€•o interm‰dia de valida€•o pelo sujeito locutor, a nega€•o ‰ interpretada como mais fraca.

4. A nega•‚o em enunciados exclamativos:

mediatiza•‚o e inferƒncia