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CLASSIFICAÇÃO DAS LÍNGUAS INDÍGENAS DO BRASIL

No documento A presença indígena na toponímia mineira (páginas 67-72)

A classificação é uma das primeiras preocupações que tem um pesquisador ao se aventurar em qualquer área de estudo com um grande número de dados heterogêneos entre si.

Essa necessidade visa clarificar, sistematizar e simplificar o seu objeto de análise, e o material linguístico não escapa a essa premissa. Desde que os homens se enveredaram pelo estudo das línguas, essa foi uma condição básica.

Sabemos que o interesse dos homens pelas línguas se deu, fortemente, no século XVIII, com o chamado período Iluminista, época em que os indivíduos se dedicaram a defender novas formas de conceber o mundo, a sociedade, as instituições, a partir da abordagem estrita da razão. Isso também se verificou em relação às línguas mundo afora, pois antes a preocupação com estas era apenas do tipo normativa, voltada para o falar e o escrever bem.

Como sabemos, os adeptos do Iluminismo eram altamente preocupados com o conhecimento enciclopédico, para abordar todos os temas que pudessem ampliar o campo de atividades da inteligência humana e o seu domínio e compreensão da natureza; e assim passaram a considerar também, intensamente, as línguas que se espalham pelo mundo afora (CÂMARA JR., 1965, p. 139).

A determinação e o empenho em classificar todas as línguas que eram trazidas ao conhecimento do homem europeu resultou no surgimento de três critérios. O primeiro critério classificou as línguas conforme a região em que elas eram encontradas, ficando conhecido como critério geográfico. O segundo, de natureza mais etnológica, procurou classificar as línguas a partir da raça dos falantes ou a partir de características culturais dos grupos. Já o terceiro critério tinha características mais tipológicas, apesar de sua precariedade inicial. Nele o agrupamento das línguas era baseado em um traço excêntrico que duas ou mais delas tinham em comum.

Com a chegada do advento da linguística propriamente dita no século XIX, a questão sobre a classificação das línguas adquiriu novos contornos, novas orientações. Foram definidas duas novas formas de classificação distintas. Uma delas, já mencionada neste capítulo, ficou conhecida como tipológica e foi fixada pelo linguista alemão August Schleicher, o qual propôs a divisão das línguas em três classes – isolantes, aglutinantes e

flexionais –, mas não logrou sucesso em sua teoria, em razão do critério diacrônico introduzido nessa avaliação que não se mostrou válido. E uma segunda proposta, na qual foi aplicado o critério genético que a linguística desenvolveu ao colocar a origem como ponto central a ser observado entre as línguas, utilizando para tal fim o método histórico-comparativo.

Daí decorreu um processo geral para classificas as línguas do mundo em função da origem comum: a divisão das línguas em “famílias”; desde então, quando se diz que uma língua A pertence a uma família linguística X, isso significa que a língua A provém de uma protolíngua X justamente com as línguas B, C, D, E, reunidas todas na mesma família. (CÂMARA JR., 1965, p. 142).

Portanto foi assim que o método de classificação genética foi instituído e passou a ser amplamente utilizado. A partir do emprego desse critério é que foram identificadas quatro grandes famílias de línguas indígenas brasileiras que podem ser assim caraterizadas:

– Câmara Jr. (1965) define esta família linguística como um grupo brasileiro. Rodrigues (1986) e Melatti (2014) tratam dessa família dentro do tronco16 Macro-Jê. Para Melatti (2014), esse tronco linguístico tem uma dispersão geográfica quase coincidente com o planalto brasileiro, sendo que a família jê seria a mais extensa. São línguas deste grupo, segundo Rodrigues (1986, p. 50.): Apinayé; Xavante; Kaingáng; Maxakali;

Kamakã; Purí; Botocudo; Yatê; Kipeá; Karajá; Boróro; Ofayé; Guató e Rikbaktsá.

Aruák (Aruaque) – Segundo Câmara Jr. (1965), esta família linguística é oriunda da América Central e de lá alcançaram o Brasil. São línguas brasileiras deste grupo, segundo Rodrigues (1986, p. 69.): Karútana; Warekéna; Tariána; Baré; Mandawáka;

Palikur; Wapixána; Apurinã; Piro; Paresí; Waurá; Yawalapití e Teréna.

Karíb (Caribe) – Esta família linguística é definida por Câmara Jr. (1965) da mesma forma que a Aruaque, ou seja, como proveniente da América Central, tendo posteriormente chegado ao Brasil. São línguas deste grupo faladas no Brasil, segundo Rodrigues (1986, p. 63.): Apalaí; Atroarí; Galibí; Hixkaryána; Ingarixó; Kaxuyána; Makuxí;

Mayongóng; Taulipáng; Tiriyó; Waimirí; Waiwái; Warikyána; Wayána; Arára do Pará;

Bakairí; Kalapálo; Kuikúru; Matipú; Nahukwá e Txikão.

Tupi – Segundo Câmara Jr. (1965), esta família linguística também chamada de Tupi-Guarani se estendia pelo sul do continente. Rodrigues (1986) nos explica que essa família, que é parte integrante do tronco Tupi, abrange línguas faladas não só no Brasil, mas

16Nomenclatura utilizada pelo linguista Aryon Dall’Igna Rodrigues (1986) e pelo professor Julio Cezar Mellati (2014) para se referir às famílias linguísticas que têm uma origem remota em comum.

também na Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela e Guiana Francesa, e que as demais famílias se encontram, exclusivamente, nos limites do Brasil. Conforme Melatti (2014), a família Tupi-Guarani é a que abrange maior número de línguas e a que mais se dispersou em termos geográficos. De acordo com Rodrigues (1986, p. 43-44; 46), são línguas desta família: Tupinambá; Guarani; Mundurukú; Karitiânia; Tuparí; Gavião; Juruna;

Aruá; Mekém; Zoró; Itogapúk; Wayoró etc. .

MAPA 5 – Famílias de línguas indígenas identificadas no Brasil.

Fonte: CÂMARA Jr., 1965, p. 149.

Mesmo com todo o empenho classificatório, algumas línguas ainda ficaram sem classificação, como é o caso de famílias linguísticas menores e de línguas isoladas. No caso

das primeiras, o que se sabe é que elas não apresentam relação com os troncos anteriormente mencionados, como é caso das línguas, Tukáno, Makú e Yanomámi, com distribuição ao norte do rio Amazonas. Já as línguas isoladas, por não apresentarem parentesco genético com nenhuma outra, constituem famílias de um só membro, como Aikaná, Trumái, Awakê, Máku.

Todos os exemplos aqui utilizados foram recolhidos em Rodrigues (1986).

2.4.1SOBRE O TUPINAMBÁ E AS LÍNGUAS GERAIS DO BRASIL

Considerando os dados de Rodrigues (1986) e Melatti (2014), estimamos que haja em torno de 150 a 170 línguas indígenas faladas atualmente no Brasil. Esse número, porém, já foi muito maior, quando da chegada dos colonizadores ao Brasil.

Como vimos, os portugueses promoveram não só um apagamento étnico, mas também linguístico e cultural, uma vez que juntamente com as populações indígenas que foram dizimadas um grande número de línguas desapareceu sem que nada ficasse registrado.

Uma exceção à essa regra foi a língua Tupinambá, ou Tupi antigo, porque foi documentada ainda no século XVI por meio da gramática do Padre Anchieta, Arte de grammatica da língua mais usada na costa do Brasil (1595), obra que ficou bastante conhecida na época.

Reconhecida como a língua mais utilizada na costa atlântica brasileira, do litoral de São Paulo ao litoral Nordeste, o Tupinambá era, essencialmente, a língua dos autóctones de mesmo nome (conhecidos também como Tamoio, Tupiniquim, Caeté, Potiguara, Tobajara etc.). Sua importância se deve, principalmente, ao fato de ter sido, nos séculos XVI e XVII, o meio pelo qual portugueses e povos originários estabeleceram contato, tornando-se depois a língua da expansão bandeirante tanto no sul quanto no norte (Amazônia) como veremos a seguir.

Nos dois primeiros séculos de colonização, o Tupinambá ficou conhecido como “a

“língua do Brasil”, a “língua da terra” (isto é, desta terra, da terra do Brasil), a “língua do mar” (isto é, falada na costa, junto ao mar).” (RODRIGUES, 1986, p. 100). No entanto o nome que se fixou, sobretudo no século XVI foi “Língua Brasílica”, como na gramática de Luís Figueira (1621) – Arte da lingua brasilica.

Também no século XVI foi que a Língua Brasílica passou a ser aprendida pelos portugueses, sendo que nas áreas mais afastadas da colônia (que na época era a Bahia) é que esse uso se intensificou e se generalizou como língua comum entre bandeirantes, seus descendentes, escravos, autóctones missionados. A essa língua literalmente geral e popular é

que foi aplicado o conhecido nome – Língua Geral – e que hoje a identificamos como Língua Geral Paulista cujo uso se iniciou na segunda metade do século XVII.

Os bandeirantes, em sua maioria, eram mamelucos, descendentes de mães tupis e pais portugueses e, além do português, falavam uma variedade diferenciada da língua dos índios tupis, para a qual foi se firmando o então nome língua geral e que hoje distinguimos como língua geral paulista (RODRIGUES, 2019, p. 29).

Assim, tanto no sul da colônia como no norte, formaram-se línguas gerais, a saber: a Língua Geral do Sul, ou Língua Geral Paulista, e a Língua Geral do Norte, ou Língua Geral Amazônica. A principal diferença entre elas é que a primeira teve origem a partir da língua dos povos originários Tupi de São Vicente e do alto rio Tietê, enquanto a segunda é oriunda da língua dos Tupinambá. Assim, a Língua Geral Paulista

É a língua que no século XVII falavam os bandeirantes que de São Paulo saíram a explorar Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e o sul do Brasil. Por ser a língua desses pioneiros e aventureiros, penetrou essa Língua Geral em áreas onde nunca tinham chegado índios Tupí-Guaraní e aí deixou sua marca no vocabulário popular e na toponímia (RODRIGUES, 1986, p. 102).

Já a Língua Geral Amazônica se desenvolveu, no início, no Maranhão e no Pará. O litoral do Maranhão, onde primeiro se estabeleceram os portugueses, a partir da primeira metade século XVII, era densamente ocupado por povos Tupinambá. Como consequência disso, esta língua foi utilizada pela população colonial e, posteriormente, deu origem e lugar à Língua Geral Amazônica que foi falada por tropas e missões que foram adentrando o interior e formando núcleos populacionais no vale amazônico.

Portanto, o Tupinambá e essa Língua Geral em que ele se transformou, é que foi a língua de ocupação portuguesa da Amazônia nos séculos XVII e XVIII. Aí ela foi veículo não só da catequese, mas também da ação social e política portuguesa e luso-brasileira até o século XIX. (RODRIGUES, op.cit., p. 102.)

Antes de concluirmos, precisamos dizer que a Língua Geral Amazônica é falada até hoje, sobretudo na bacia do Rio Negro (o grande afluente setentrional do rio Amazonas) não só por povos das mais variadas etnias, como baré, baniwa e tukano, mas também por mestiços ou caboclos amazonenses e “brancos” (não indígenas), principalmente, em transações comerciais. A partir do terceiro quartel do século XIX, essa língua passou a ser chamada de nheengatu, “língua boa”. Sua estrutura e os grupos sociais que a utilizam já não são mais os mesmos. Portanto ela se difere não só do Tupinambá, mas também da própria Língua Geral Amazônica do século XVIII.

No documento A presença indígena na toponímia mineira (páginas 67-72)