Rodada Tóquio
2 COMÉRCIO INTERNACIONAL
2.1 Comércio Internacional e o Desenvolvimento
2.1.1 Comércio internacional e o desenvolvimento econômico
Excluindo-se algumas exceções históricas, mais recentemente, a tese de que o aumento do comércio internacional é, ao mesmo tempo, causa e conseqüência do crescimento econômico de um determinado país, é relativamente bem aceita e pouco questionada. Os dados indicam que a consolidação da industrialização depende, em maior grau, da formação de mercados internos, mas que o comércio externo é importante para ajudar a financiar este processo, embora essa atividade dependa de proteção nos momentos cruciais. Conforme pode ser verificado na Tabela 1, as regiões que mais cresceram nos últimos vinte anos foram as que também apresentaram maior incremento das exportações (MALHORTA, 2004). Por outro lado, segundo o ponto de vista de Jakobsen (2005), a partir do final da década de 70, a mídia e as instituições capitalistas, em geral, vêm tratando a relação entre liberalização do comércio e desenvolvimento econômico com uma abordagem neoliberal e como uma panacéia para solucionar a queda no crescimento médio do PIB mundial. Embora os países menos desenvolvidos que tiveram crescimento econômico nos anos 1990 tenham se voltado mais para as exportações; isso não significa que esse empenho maior em exportar tenha se associado ao crescimento. Entre 1987 e 1999, o PIB per capita diminuiu ou estagnou em 8 dos 22 países menos desenvolvidos com exportações crescentes. E em 10 desses países a pobreza aumentou. O que se observa com certa freqüência, na prática, é que os países eliminam as barreiras comerciais à medida que enriquecem. A integração da economia global é um resultado do crescimento e do desenvolvimento bem-sucedidos, e não um pré-requisito deles. As análises comparativas entre os países não revelam nenhuma relação sistemática entre seus níveis médios de barreiras tarifárias e não-tarifárias e seu subseqüente crescimento econômico (MALHORTA, 2004).
Tabela 1. Crescimento anual do PIB e do comércio internacional de mercadorias em algumas regiões.
Região 2000 2004
Comércio de Mercadorias (% PIB) 59,7 71,1
Leste Asiático e Pacífico
Crescimento do PIB (% anual) 7,6 9,0
Comércio de Mercadorias (% PIB) 24,2 27,9
Sul da Ásia
Crescimento do PIB (% anual) 4,2 6,7
Comércio de Mercadorias (% PIB) 37,3 44,6
América Latina e Caribe
Crescimento do PIB (% anual) 4,0 5,9
Crescimento do PIB (% anual) 3,3 4,8
Fonte: Banco Mundial, 2006.
À medida que um país desenvolve a sua indústria, a pauta de suas exportações e importações vai se modificando. Eventualmente, à medida em que reduz, ou paralisa, a importação de determinados produtos que ele passa a produzir, deixa de exportar matérias- primas que são transformadas no próprio país. Indubitavelmente, estas mudanças enfrentam resistências por parte dos países que perderam mercados e fontes de matérias-primas. Outras mudanças nas pautas de comércio internacional são decorrentes da criação de novos produtos que substituem, com vantagem, produtos antigos que eram importantes fontes de divisas para seus supridores originais.
A dependência dos países em desenvolvimento de exportar seus produtos primários para gerar os recursos necessários para investir na sua industrialização, levou a Cepal44 a criticar a teoria das vantagens comparativas, argumentando que o preço dos produtos primários exportadores, principalmente quando sua oferta crescia, deteriorava-se diante do preço dos produtos industrializados a serem importados. Ou seja, por maiores que fossem a especialização e a alta produtividade dos países em desenvolvimento na produção de commodities, estas não garantiam uma posição confortável no comércio mundial, e nem que estes países pudessem acumular capitais suficientes para financiar a própria industrialização. Esse fenômeno é conhecido como a “deterioração dos termos de troca”.
Em 1958 o Relatório Haberler, examinou tendências de curto e longo prazos nos preços e a influência de fatores variados; e considerou que os problemas de países exportadores de produtos primários eram maximizados pelos altos níveis de proteção agrícola nos países industrializados. O texto do relatório defendeu a adoção de políticas de estabilização para limitar flutuações do preço de commodities em curto prazo e recomendou a moderação da proteção agrícola nos países industrializados, como forma de ajudar países em desenvolvimento produtores de commodities, como tabaco, café, chá, algodão e açúcar (MICHALOPOULUS, 2000). Entre 1980 e 2000, os preços das 18 principais commodities caíram em média 25% em termos reais. Sendo que a queda que foi mais marcante para produtos como algodão (47%), café (64%), arroz (61%), cacau (71%) e açúcar (77%).
Como pode ser observado na Tabela 2, embora algumas commodities ligadas à energia e às carnes, por exemplo, tivessem seus preços aumentados nos últimos anos, a maioria dos bens primários, que são a base da pauta de exportação dos países em desenvolvimento, sofreram uma redução nos seus preços de venda no mercado internacional. Dados da FAO também apontam para o dramático declínio da importância relativa das exportações de produtos agrícolas para os países em desenvolvimento. Em 1960, as exportações agrícolas destes países representavam cerca de 50% dos valores exportados; em 2000 não representam mais do que 5% (BRUINSMA, 2003).
44 A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) foi criada em 1948 pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas com o objetivo de incentivar a cooperação econômica entre os seus membros.
Tabela 2. Preços de exportação de algumas commodities primárias 1994-04. Produto 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 Alimentos 94 100 108 99 88 78 79 81 82 86 98 Cereais 84 100 119 93 79 69 67 70 80 81 87 Arroz 84 100 105 94 95 78 64 54 60 62 77 Óleos/carne vegetais 93 100 110 110 97 77 74 71 83 98 114 Carnes 106 100 116 109 93 93 101 109 103 106 129 Frutos do mar 102 100 90 88 86 85 88 77 66 66 69 Açúcar 91 100 92 87 73 58 66 67 57 62 68 Banana 99 100 106 117 111 84 95 131 119 84 118 Café 98 100 76 106 82 64 50 35 35 39 46 Madeira 106 100 102 95 80 89 88 80 80 84 94 Algodão 81 100 82 81 67 54 60 49 47 65 63 Borracha 71 100 89 64 46 40 44 38 69 83 83 Minerais 83 100 89 90 74 73 82 74 72 81 110 Gás natural 92 100 114 109 87 87 155 153 123 162 180 Petróleo cru 93 100 118 112 76 105 164 141 145 168 220 Nota: Os índices são as médias do período em dólares.
Fonte: WTO, 2005.
A reciprocidade implícita na idéia do multilateralismo apresenta inconvenientes para os países menos avançados. Exigir que estes países ofereçam concessões tarifárias aos produtos que importam, similares às oferecidas aos produtos exportados significa, na prática, favorecer ainda mais o crescimento econômico dos países ricos à custa do desenvolvimento dos pobres. As exportações dos países em desenvolvimento são compostas por um grupo restrito de produtos primários sujeitos a fortes oscilações de preços. Em relação à questão da redução das tarifas de importação de produtos manufaturados, concedidas como contrapartida à redução das tarifas dos produtos primários exportados pelos países em desenvolvimento, Alejandro Magro Más coloca:
“....el pais estará hipotecando su futuro desarollo industrial, por la necessidad de obtener ventajas en productos primarios.”
É preciso ressaltar, entretanto, que a queda nos preços das commodities não afeta necessariamente de forma homogênea toda a cadeia produtiva. O caso do café45 é emblemático, mas nas cadeias de cacau, algodão e chá são comuns os exemplos de queda na renda dos produtores com aumento na renda dos processadores e/ou distribuidores (WILKINSON & ROCHA, 2006).