Antes de mais nada, quero apresentar cinco pressuposições. Sem elas, o que te- nho a dizer a respeito de aconselhamento e sofrimento não teria base.
1. O aconselhamento é uma manifesta- ção de alegria na multiforme miseri- córdia de Deus que se expressa em forma de conversa.
2. O aconselhamento mútuo é norma- tivo nas conversas e relacionamentos do corpo de Cristo.
3. O alvo do aconselhamento genuíno é a glória de Deus mediante Jesus Cristo.
4. Deus é glorificado em nossas vidas principalmente quando encontramos nEle toda nossa satisfação.
5. O sofrimento é uma experiência hu- mana universal, planejado por Deus para Sua glória, embora coloque à prova a fé de cada cristão.
Se o alvo do aconselhamento sábio é a glória de Deus mediante Jesus Cristo, se Deus é glorificado em nós principalmente quando encontramos nEle toda nossa sa- tisfação e se a experiência humana univer- sal de sofrimento ameaça minar a nossa fé no tocante à bondade de Deus, e conse- quentemente a nossa satisfação na Sua gló- ria, então as nossas conversas uns com os outros precisam ter como alvo, dia após dia, a ajuda mútua para que encontremos satisfação em Deus enquanto sofremos. De fato, precisamos ajudar uns aos outros a considerarmos o sofrimento como parte da razão por que deveríamos encontrar nossa satisfação em Deus.
Temos que formar em nossas mentes e corações uma visão de Deus e de Seus caminhos que nos ajude a enxergar o so- frimento não apenas como uma ameaça à nossa satisfação em Deus (o que de fato
A c o n s e l h a m e n t o
J o h n P i p e r1
People. Publicado em The Journal of Biblical Counseling,
v.21, n.2, Winter 2003, p. 18-27.
John Piper é pastor da Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis, Minnesota.
ele é), mas também como um meio para nossa satisfação em Deus (o que também ele é). Nossa fala deve fazer o sofrimento parecer normal e com propósito, algo que não deve nos surpreender neste mundo caído. As forças da cultura ocidental estão quase todas dirigidas para formar em nos- sas mentes uma cosmovisão oposta – maximize o conforto, o bem-estar e a se- gurança; evite toda e qualquer escolha que possa trazer desconforto, problemas, difi- culdades, dor ou sofrimento. Acrescente este incentivo da cultura ao nosso desejo natural de gratificação imediata e praze- res passageiros, e então o poder conjunto para minar a satisfação mais elevada da alma na glória de Deus mediante o sofri- mento torna-se muito grande.
Se tivéssemos como o valor supremo, o tesouro maior e a mais profunda satisfa- ção das nossas vidas, ver a Pessoa de Deus honrada na vida uns dos outros, então cada um de nós deveria se esforçar ao máximo para viver e mostrar o sentido do sofrimen- to, ajudando os demais a enxergarem a sa- bedoria, o poder e a bondade de Deus por trás do sofrimento – ordenando-o, acima do sofrimento – governando-o, por baixo do sofrimento – sustentando-nos, à fren- te do sofrimento – preparando-nos para ele. Esta é a tarefa mais árdua no mundo: mudar as mentes e os corações de seres humanos caídos e tornar Deus tão precio- so para nós que tenhamos por motivo de toda alegria passarmos por provações, exultemos em nossas aflições, regozijemos- -nos na pilhagem de nossos bens e possa- mos dizer no fim que “o morrer é lucro”.
Eis a razão por que o bom aconselha- mento não é uma mera técnica terapêuti- ca e as “teorias da personalidade”, bem como a aquisição de graus acadêmicos em
“psicologia”, estão tão distantes da essên- cia do aconselhamento. O aconselhamen- to tem a ver com fazer o impossível: levar o jovem rico a perder seu encanto por um estilo de vida confortável e se apaixonar pelo Rei dos reis a ponto de vender “ale- gremente” tudo quanto tem a fim de ga- nhar esse tesouro (Mt 13.44). Jesus disse com a maior simplicidade: “Isto é impos- sível aos homens” (Mt 19.26). O alvo do nosso ministério uns para com os outros é impossível. Nenhuma técnica resultará em sucesso. “Mas para Deus tudo é possível”. Em nenhuma outra ocasião isto fica mais claro do que quando o aconselha- mento se defronta com o sofrimento. Como podemos alcançar o grande pro- pósito dos nossos relacionamentos interpessoais face ao sofrimento? Ir a Cris- to significa mais sofrimento, não menos, neste mundo. Estou persuadido de que o sofrimento é normal, não excepcional. Todos nós sofreremos; todos nós temos que sofrer; e a maioria de nós não tem a mente nem o coração preparados para crer ou experimentar isso. Portanto, a glória de Deus, a honra de Cristo, a estabilidade da Igreja e a força de comprometimento com missões mundiais estão em jogo. Se as nossas conversas não ajudarem as pes- soas a encontrarem satisfação em Deus em meio ao sofrimento, então Deus não será glorificado, Cristo não será honrado, a Igreja será um fracasso em um mundo escapista que busca conforto a qualquer preço. O cumprimento da Grande Co- missão, que requer às vezes o martírio, falhará.
Há uma certeza de sofrimento para as pessoas que abraçam o Salvador. “Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores” (Mt 8.19). Verdade?!
“As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20). “Muitas são as aflições do justo”
(Sl 34.19).
“Não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (Jo 15.20).
“Basta ao discípulo ser como o seu mestre, e ao servo, como o seu senhor. Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésti- cos?” (Mt 10.25)
“...também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos” (1Pe 2.21). “Amados, não estranheis o fogo ar- dente que surge no meio de vós, des- tinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acon- tecendo” (1Pe 4.12).
“...através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22).
“... ninguém se inquiete com estas tribulações. Porque vós mesmos sabeis que estamos designados para isto” (1Ts 3.3).
“Ora, se somos filhos, somos tam- bém herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17).
“Ora, todos quantos querem viver pie- dosamente em Cristo Jesus serão per- seguidos” (2Tm 3.12).
“Dia após dia, morro! Eu o protesto, irmãos, pela glória que tenho em vós outros, em Cristo Jesus, nosso Se- nhor” (1Co 15.31).
“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19).
Vamos sofrer – isto é certo. E quando esta vida de sofrimento necessário chegar ao fim, ainda resta o último inimigo, a morte. “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo...” (Hb 9.27). Para os amados de Deus, o morrer será o sofri- mento final. Para a maioria de nós será algo terrível. Ao longo de vinte anos de pastorado, tenho andado com muitos san- tos pelos últimos meses e dias de suas vi- das e no momento da morte. Poucos des- ses têm sido fáceis. Cada pessoa com que você e eu conversamos morrerá se Cristo retardar a Sua vinda. Você e eu morrere- mos também. Todos nós temos que sofrer e morrer.
“Tu os arrastas na torrente, são como um sono, como a relva que floresce de madrugada; de madru- gada, viceja e floresce; à tarde, mur- cha e seca. Pois somos consumi- dos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniquidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pen- samento. Os dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em ha- vendo vigor, a oitenta; neste caso, o melhor deles é canseira e enfa- do, porque tudo passa rapidamen- te, e nós voamos. Quem conhece o poder da tua ira? E a tua cólera, segundo o temor que te é devido?
Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.5-12).
O que um coração pastoral sábio faz quando ele descobre que a morte é certa, a vida é curta e o sofrimento é inevitável e necessário? A resposta, também, está no Salmo 90. É uma oração ao Senhor: “Tem compaixão dos Teus servos. Sacia-nos de manhã com a tua benignidade, para que cantemos de júbilo e nos alegremos todos os nossos dias” (Sl 90.13b-14). Em face do labor, da aflição, do sofrimento e da morte, os amigos e conselheiros sábios cla- mam junto com o salmista: “Sacia-nos de manhã com a tua benignidade”. Esta é a oração que fazem por eles mesmos e por outros: “Oh, Deus, permite que estejamos sempre satisfeitos com o teu amor leal, e nada mais necessitaremos”. E, então, eles vivem e falam visando este fim.
Por que insistem? Porque se os conse- lheiros permitirem que as pessoas fiquem onde estão – buscando satisfação na famí- lia, no emprego, no lazer, nas brincadei- ras, no sexo, no dinheiro, na comida, no poder e na autoestima – então, quando o sofrimento e a morte os roubarem disso tudo, elas ficarão amargas, iradas e depri- midas. E o valor, a beleza, a bondade, o poder, a sabedoria e a glória de Deus, de- saparecerão em uma nuvem de murmura- ção, queixa e maldição.
Se, porém, o conselheiro orar adequa- damente, pedindo que Deus nos satisfaça com Ele mesmo; se o conselheiro tiver amado e falado corretamente, mostrando aos outros que precisam sofrer, mas que Deus é mais desejável que o próprio con- forto e o Seu amor leal é melhor do que a vida (Sl 63.3); se o conselheiro estiver viven- do de modo apropriado, regozijando-se em
sofrer por amor aos outros, e se o conse- lheiro permanecer o tempo suficiente em um lugar de ministério, estabelecendo re- lacionamentos significativos com muitas pessoas, então essas pessoas sofrerão de modo adequado e morrerão bem, consi- derando isso como ganho pelo fato de en- contrarem satisfação somente em Deus. Com isso, Deus será grandemente glorifi- cado e o grande alvo do ministério de acon- selhamento será alcançado.