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Não encontramos nas Escrituras o ter- mo confidência. Entretanto, encontramos as ideias centrais que definem este termo. A Bíblia fala sobre segredos, discrição, fi- delidade e lealdade. Ela nos dá três con- ceitos relacionados a esta questão: (1) con- fidência faz parte de amar ao próximo como a si mesmo, (2) há exceções a esta regra geral de confidência e (3) no caso destas exceções, a confidência comprome- te o confidente com o pecado.

Primeiro, a confidência faz parte de amar ao próximo como a si mesmo. Leal- dade e fidelidade são recomendadas e or- denadas por Deus (Sl 101.6). A fidelida- de requer que cubramos questões pessoais

A c o n s e l h a m e n t o

G e o r g e C . S c i p i o n e1

1 Tradução e adaptação de The Limits of Confidentiality in Counseling. Publicado em The Journal of Pastoral Practice, v. 7, n. 2, 1984. p. 29-34. George C. Scipione é diretor do Institute of Biblical Counseling and Discipleship em San Diego, California.

(Pv 11.13). Uma qualidade de um obrei- ro cristão piedoso, sério, equilibrado, é ser fiel a Deus e aos outros não difamando nem fofocando (1Tm 3.11). Inversamen- te, mexerico2 e difamação3 são pecados sérios. O nono mandamento trata deste pecado: não se deve levantar um testemu- nho falso contra o próximo4. O Antigo Testamento está repleto de esclarecimen- tos sobre os aspectos positivos e negativos deste mandamento. Somos proibidos de espalhar rumores (Êx 23.1). Devemos nos afastar de uma acusação falsa que pode prejudicar nosso próximo (Êx 23.7). A di- famação é uma forma de assassinato, ou seja, um assassinato do caráter (Lv 19.16). Ela desqualifica uma pessoa para estar na presença de Deus (Sl 15.3), é um crime sério (Sl 101.5,8), é um disfarce para o ódio (Pv 10.18). Fofocar revela os segre- dos e é uma forma de infidelidade (Pv 11.13). A difamação espalha contendas e separa os melhores amigos (Pv 16.28), é um prazer perverso (Pv 18.8; 26.22). Fo- focar destrói as amizades e arruína a repu- tação do fofoqueiro (Pv 25.8-10). A difa- mação é rebeldia contra Deus e frequen- temente é acompanhada por outros peca- dos hediondos (Jr 6.28). A difamação merece punição severa (Dt 19.15-21).

O Novo Testamento ecoa a Lei de Deus nessa área. A fofoca5 é reprovada (Rm 1.29, 2Co 12.20). A difamação6 também é reprovada (Rm 1.30; 2Co 12.20; 1Tm 5.13; Tg 4.11; 1Pe 2.1). A Bíblia não so- mente nos proíbe de fofocar e difamar outros, mas também nos adverte a não darmos ouvidos a este tipo de conversa (Pv 17.4). Não devemos nos associar com pes- soas que a praticam (Pv 20.19). Com frequência demasiada a igreja negligencia as violações deste mandamento. Como conselheiros cristãos devemos confrontar e eliminar este mal em nós mesmos e ou- tros (Tg 3). Não é uma questão de pouca importância para Deus. Ele nos dá clara- mente uma regra de confidência. Em nos- so ministério, temos nos esforçado para cum- prir este mandamento. Temos tido ocasiões de confrontar outras pessoas, até mesmo pastores, a respeito desta questão. A regra geral é clara: guarde confidências.

Entretanto, Deus nos dá um segundo conceito: há exceções para esta regra geral de confidência. Há tempo de ficar em si- lêncio e tempo de falar (Ec 3.7). O co- nhecimento de certos pecados sérios não permite a proteção da confidência ou si- gilo. Embora possa haver mais exemplos, estes cinco provam que as exceções exis- tem: conhecimento de apostasia intencio- nal ou praticada (Dt 13.6-18), conheci- mento de um assassinato (Êx 21.12-14; Nm 35.29-34; Dt 19.11-13, 21.1-9), 2 A raiz hebraica é nahgar, que originalmente significa

rolar ou revolver rapidamente. Adquiriu posterior- mente o significado de falar rapidamente ou balbu- ciar. Finalmente, veio a significar tagarelice. 3 A raiz hebraica é rahcal, que originalmente significa viajar de um lado para outro como comerciante. Adquiriu posteriormente significado de viajar de um lado para outro como comerciante de segredos e histórias.

4 A passagem de Êxodo 20.16 usa shahkehr, que sig- nifica falsidade ou engano. A passagem de Deutero- nômio 5.20 usa shaveh, que significa sem valor, vão ou falso.

5 A palavra grega é psithurismos, que originalmente significa assobiar ou cochichar. Note a natureza onomatopeica da palavra. No Novo Testamento, ela é usada somente com sentido negativo de cochicho ou fofoca. Aquele que pratica tais coisas é um psithuristes.

6 A palavra grega é katalaleo, que significa falar contra, falar mal de, difamar, caluniar. As palavras relacio- nadas são katalalos e katalalia.

conhecimento de fatos sob investigação legal (Lv 5.1), conhecimento de um pe- cado sem que haja arrependimento por parte do ofensor confrontado (Mt 18.15- 17) e conhecimento de um pecado sem que haja arrependimento por parte de um líder da igreja (1Tm 5.19-21). A quebra de sigilo diante de um pecado não deve nos surpreender. Deus, o justo Juiz, expo- rá a maldade publicamente (cf. Sl 50). Em todas as exceções acima, a necessidade de expor pecados ocultos é clara; em várias, expor é um mandamento e, portanto, algo não opcional.

O terceiro conceito é que a confidên- cia, nos casos de exceção, envolve falta de lealdade à Palavra de Deus e é, portanto, pecaminosa. Este conceito tem base em vários princípios bíblicos. Primeiro, em contextos legais, Deus ordena o testemu- nho honesto (Êx 20.16; Dt 5.20). A jus- tiça é necessária para a vida em sociedade (Dt 16.18-20). O testemunho honesto é pedra angular da justiça (Êx 23.1-3,6-8). Segundo, Deus requer o testemunho em circunstâncias quando se está buscando a justiça; portanto, permanecer em silêncio quando chamados a testemunhar é incor- rer em culpa (Lv 5.1). As autoridades ins- tituídas por Deus7 têm o direito de solici- tar e receber testemunho verdadeiro para desempenhar suas atribuições legítimas. Terceiro, Deus requer ação justa contra os

malfeitores (Sl 50.16-21; Rm 1.32; Ef 5.11). Associar-se com pessoas que per- sistem no pecado, aprovar seu pecado, ignorá-lo e não o expor, é pecado aos olhos de Deus. A neutralidade não é uma opção para o povo de Deus, pois Deus esteve sempre em guerra contra o pecado (Êx 34.10-17; Dt 7.1-11; 12.1-4; 2Co 7.14- 18). Quarto, Deus requer ação justa para prevenir o pecado potencial (Êx 21.33; Dt 22.8, Pv 24.11; 1Tm 5.22; Jd 22,23). Não procurar impedir o mal é incorrer em cul- pa (Êx 21.34; Dt 22.8; Pv 24.12; 1Tm 5.22). No Antigo Testamento, em certos casos, era uma ofensa com pena de morte! (Êx 21.29)

O estudo destes princípios e dos tex- tos de onde são extraídos leva-nos à con- clusão de que permanecer em silêncio ou apático face a uma ofensa séria (biblica- mente definida) é moralmente errado. O conselheiro ou confidente estaria encobrin- do um pecado. Em outras situações, a fal- ta de ação pode resultar em amargura (Lv 19.17-18). Se o silêncio é ouro, então aqui é um bezerro de ouro! Deus requer ação. Nestes casos, a confidência implicaria des- lealdade a outras pessoas e à justiça orde- nada por Deus. Outras pessoas e o pró- prio Deus têm um direito à lealdade do conselheiro que ultrapassa o direito do aconselhado. A confidência inadequada pode resultar em prejuízo sério à própria

7 Em Levítico 5.1, a autoridade é governamental. Por inferência, a família e a igreja também teriam o di- reito a tal testemunho visto que são autoridades instituídas por Deus de importância maior do que o estado. A família é a unidade básica de autoridade. Deus a criou primeiro e construiu tudo mais ao redor dela (cf. Gn 1-2). O estado é responsável pelos re- lacionamentos familiares somente quando a autori- dade do lar falha ou é ineficaz, conforme exemplificado

em Deuteronômio 21.18-21. A igreja é a segunda instituição em questão de autoridade. Ela não gover- na as questões familiares a menos que ocorra a situ- ação mencionada acima, mas está acima do estado na hierarquia de Deus. Os cristãos julgarão o mundo e os próprios anjos (cf. 1Co 6.1-5). O governo de Deus sobrepuja o dos homens (At 4.18-19; 5.27- 29). Portanto, a autoridade de Deus sobrepuja a do estado.

pessoa que a deseja, à sua família, à sua igreja, à estrutura social na qual ela vive, e acima de tudo, à honra de Deus.