5. ANÁLISE DOS DADOS
5.4. Redução de custos e riscos
5.4.2. Compartilhamento de atividades e complementariedade de técnicas
Ao analisar a combinação de atividades entre os artesãos (especialização) e entre os demais atores da Rede Asta, chegou-se à categoria analítica de compartilhamento de atividades e complementariedade de técnicas.
Como já foi mencionado na análise da relação com os fornecedores, os grupos produtivos são bastante diversos entre si e não contam com uma especialização por etapa do processo produtivo, mas sim por tipo de resíduo e produtos trabalhados. Ou seja, um exemplo citado é o de um grupo especializado em trabalhar com o resíduo de garrafas pet que deve ter a condição de fazer os produtos derivados desse resíduo do começo ao fim. As falas a seguir de Miriam apresentam essa visão:
Na verdade, não de processo, mas de produto. Então, como eles trabalham com uma gama grande de resíduos, então, seu tempo, de só trabalhar com garrafa pet. Lá eles já têm toda a condição de produzir vários produtos com esse resíduo. Lá ele faz tudo. Ele não, por exemplo, não terceiriza. Ele tem a capacidade produtiva para receber o resíduo e pegar o produto pronto. Então, você tem um grupo que só trabalha com tear. Então faz o tear. Tem os teares lá no local e elas fazem o produto até o final. Entregam a almofada, o tapete, a toalha... Então, você não tem essa divisão, por exemplo, por método produtivo ou por diferentes técnicas de produção; não. Porque, justamente, a gente quer que o grupo tenha condição de fazer aquele produto e, para isso, se ele precisar ter um maquinário, se ele precisar ter material, vamos ver como é que a gente pode viabilizar isso para que ele faça tudo dentro de casa.
Então, você não tem essa divisão, por exemplo, por método produtivo ou por diferentes técnicas de produção; não. Porque, justamente, a gente quer que o grupo tenha condição de fazer aquele produto e, para isso, se ele precisar ter um maquinário, se ele precisar ter material, vamos ver como é que a gente pode viabilizar isso para que ele faça tudo dentro de casa (MIRIAM, [informação oral]).
Enquanto dentro de cada grupo produtivo os artesãos podem se dividir em atividades específicas, o compartilhamento de atividades entre os grupos ocorre quando são estabelecidas as redes de produção para empresas, dividindo as responsabilidades de entrega, assegurando que cada grupo conseguirá atender a demanda e compartilhando os resultados finais de cada cliente. Nesses casos, a Rede Asta divide uma grande produção entre diversos grupos, que devem entregar produtos ou partes de produtos de forma padronizada, como já exposto no desenvolvimento de um novo produto. As falas a seguir de Alice e G1E1 demonstram como é o funcionamento de uma rede de produção entre os grupos de artesãos e a Rede Asta:
Então a gente vai focar em Asta para empresas, trabalhando com redes de produção, então, já está pilotando isso, já fizemos as primeiras experiências de rede de produção. E nada mais é do que reunir os grupos produtivos que tenham a mesma técnica.
É mais ou menos isso. Dentro do grupo, eles geralmente se dividem. E entre os grupos, quando é rede de produção, existe isso. A gente, quando vai iniciar uma rede de produção, a gente reúne todos os grupos primeiro, aí eles juntos decidem: “Ah, eu pego essa parte aqui, você pega aquela parte lá. Você consegue fazer essa alça primeiro aqui...” A gente facilita esse encontro para eles dividirem a produção entre si e sair tudo acordado. Mas é só nesse momento em rede de produção que a gente consegue fazer isso (ALICE, [informação oral]).
Se eles têm o cliente, e eles conseguiram, nada mais do que a gente dividir meio a meio (G1E1, [informação oral]).
Além disso, foi possível perceber que o compartilhamento de produção não é algo usual entre os grupos produtivos, a não ser nas redes de produção. As falas de G1E1 a seguir demonstram como ainda não foi feito entre os artesãos um processo similar ao que a Rede Asta implementa nas redes de produção:
A gente nunca dividiu, vamos dizer, eu peguei 500 almofadas com a Rede Asta e eu tive que dividir com outro artesão de um outro grupo, porque a gente não teve condições de fazer.
Claro que a gente pode chamar mais uma artesã que costura, que a gente pode oferecer o bordado para um outro grupo que borde, isso existe. Mas não pagar só a mão-de-obra do bordado, não dividir a encomenda para um grupo fazer um pedaço e a gente fazer outro. Isso não existe, não existiu, mas claro que pode existir mais na frente (G1E1, [informação oral]).
Por fim, foi possível perceber que a complementariedade de atividades se dá entre os diversos atores da Rede Asta, sendo os artesãos responsáveis principalmente pela produção e a Rede Asta responsável pelas atividades como acompanhamento da produção, venda, comunicação, pagamento, entre outras, contando também com a participação de empresas clientes e fornecedoras, bem como das conselheiras e outras organizações parceiras. Essas atividades aparentemente colocam a Rede Asta com uma posição central na rede, o que se reflete também em atividades que a organização assume para aumentar a facilidade transacional entre os demais atores, como as relações com fornecedores apresentadas anteriormente. Um outro exemplo é dado na fala a seguir de G1E1, que imagina que pode contar com a Rede Asta na distribuição de insumos excedentes que recebeu via doações:
Então, se eu tenho muito, vale a pena ligar para a Rede Asta e dizer: “olha, eu estou com 100 banners aqui que eu quero dar.” Aí eu ganhei tecido, eu estou cheio “eu estou com 10 sacos aqui imensos e eu só vou usar 5; eu quero dar 5 sacos”. E, assim, outro tipo de produtos que venham de doação. Não de material comprado (G1E1, [informação oral]).
A síntese do compartilhamento de atividades e complementariedade de técnicas é: a) os grupos produtivos são bastante diversos entre si e não contam com uma especialização por etapa do processo produtivo, mas sim por tipo de resíduo e produtos trabalhados; b) dentro de cada grupo produtivo pode haver divisão de atividades entre os artesãos; c) o compartilhamento de produção não é algo usual entre os grupos produtivos; d) o compartilhamento de atividades entre os grupos ocorre apenas quando são estabelecidas as redes de produção para empresas; e) há a complementariedade de atividades entre os diversos atores da Rede Asta, sendo os artesãos responsáveis principalmente pela produção, enquanto a Rede Asta aparentemente possui uma posição central entre os demais atores, podendo ampliar a facilidade transacional.
Ao se fazer um paralelo com o comércio justo, o que se pode notar é que o compartilhamento de atividades entre os grupos de artesãos se dá principalmente em decorrência do acesso ao mercado organizacional proporcionado pela Rede Asta. Quando uma rede de
produção é estabelecida para atender às demandas empresariais, a Rede Asta divide uma grande produção entre diversos grupos, que devem entregar produtos ou partes de produtos de forma padronizada e, portanto, o compartilhamento dessas atividades se dá para cumprir com o acesso a mercados consumidores abordado por Bacon (2005), Low e Davenport (2005a), Wills (2006), WFTO e FLO International (2009).
Além disso, ao buscar que cada grupo de artesãos seja capaz de entregar um produto a partir de um resíduo, não se especializando em apenas uma etapa do processo produtivo, a Rede Asta está estimulando a autonomia e, consequentemente, o desenvolvimento de capacidades e empoderamento. Essas questões são abordadas pelo comércio justo em WFTO e FLO International (2009), Wills (2006) e Brasil (2014).
Por fim, outra relação que se pode estabelecer é a que a Rede Asta, se de fato ocupar uma posição central e que aumente a facilidade transacional entre os diversos atores, pode oferecer condições comerciais diferenciadas aos grupos produtivos, conforme exemplo citado nessa análise e também como já foi mencionado em outras categorias analíticas deste trabalho (LOW e DAVENPORT, 2005b; WILLS, 2006; WFTO e FLO INTERNATIONAL, 2009).
Portanto, foi possível identificar a relação entre o compartilhamento de atividades e complementariedade de técnicas e os princípios do comércio justo de acesso ao mercado, desenvolvimento de capacidades e empoderamento e de condições comerciais diferenciadas. É válido destacar que essas relações não foram estabelecidas anteriormente na comparação feita no referencial teórico, o que pode ser resultante das particularidades do caso com relação aos clientes empresariais e com relação ao estímulo da autonomia de cada grupo com a entrega de produtos finalizados.